Notas iniciais
*Inspirado na história da língua latina, escolhi os termos “eldiano clássico” para a linguagem falada em Paradis, e “eldiano vulgar” para o idioma universal. Boa leitura! Leia as notinhas finais, se for possível.

O outono e o inverno vieram e se foram. Tal qual Armin e Annie predisseram, a guerra entre Paradis e o Médio Oriente estourou com um tiro vindo do lado árabe. O que iniciou com uma briga por territórios evoluiu para o tudo-ou-nada. Newcrest, uma grande produtora de armas, enxergava as nações em forma de dólares. Newcrest vendia armamento para ambos os países briguentos – essa era a teoria do senhor Onyankopon, pelo menos. Newcrest comercializava com Paradis por intermédio de Hizuru — que em agosto decretara apoio a sua parceira eldiana — e negociava com o Médio Oriente por fontes desconhecidas.

Por causa do mercado, Hizuru e Paradis faziam contato com Newcrest. Nunca houve tantos asiáticos e eldianos em Belavista. Mas todos eram passageiros, e nunca possuíam os mesmos rostos. Como as vendas para o Médio Oriente eram secretas (novamente, teoria do senhor Onyankopon), não se viam árabes em parte alguma. De acordo como senhor Onyankopon, enquanto Newcrest continuasse neutra, estariam bem. O problema situava-se em até quando o país americano conseguiria negociar sem assumir um partido.

Sendo natural de Paradis, Leona torcia para a vitória de sua amada terra natal. Contudo, ela não pensava na ilha o tempo todo. A escola e o trabalho ocupavam seu tempo e sua cabeça nos dias úteis, e aos fins de semana ela se divertia passeando com Verônica, Simon e Zeke.

Aquele foi o primeiro ano em que Leona comemorou o seu aniversário fora de casa. Ela passou a tarde do vinte de setembro na sorveteria em companhia dos três amigos. Mas, não se esqueceu do senhor Levi e dos seus velhos companheiros. À noite, Leona comeu o bolo de aniversário feito pela senhora Marper e tomou um porre de refrigerante. Ganhou muitos presentes, porém o mais especial era o que ela comprou para si mesma: a tão sonhada bicicleta – e com CESTINHA!

— Olha só quem chegou, a ciclista.

Simon passou a cumprimenta-la desse jeito. E não era para menos. Montada na bicicleta, Leona se achava a última bolacha do pacote. Era uma bicicleta vermelha, lustrosa; belíssima. Já falei da cestinha?

Leona deu um sorriso exibido e apertou a buzina – BI-BI!

— Vocês trouxeram o que eu pedi?

— É claro. Ah, eu garanto que você vai adorar esse! — Atestou Verônica. Ela e o irmão estavam sentados no banco alocado nos arredores do colégio, que se tornou o seu ponto de encontro especial. A inglesa tirou a mochila das costas e lhe entregou o objeto pedido.

O presente era um livro usado do Sherlock Holmes. A pontinha da capa estava rasgada, e a tinta, parcialmente desbotada. Por dentro, o livro achava-se em bom estado. Não tinha cheiro de livro velho. Na primeira folha, logo abaixo do título UM ESTUDO EM VERMELHO, estava escrito o seguinte: para Nica, de mamãe.

Por livre e espontânea pressão de Verônica, Leona começou a ler os livros do Sherlock. Todos eram emprestados da amiga. Verônica tinha a coleção completa em inglês e em eldiano vulgar. Leona terminou "o cão dos Baskerville" em uma noite, mas o seu favorito até então era "O signo dos quatro". O "Um estudo em vermelho" ia ser o seu terceiro.

— Obrigada, Verônica. — Leona guardou o livro na mochila. — Daqui a pouco vou estar tão viciada em suspense quanto você.

— Eu tenho muitos outros livros de detetives, se você quiser! Tem uma escritora nova, chamada Agatha Christie, estou gostando muito dos livros dela e

— Caham. — Simon pigarreou, pondo o pulso na boca. — Não ouviram o sinal da escola? — E apontou para o portão com o polegar.

— Eu ouvi. — Leona irritou-se pela intromissão do irmão de Verônica. — Mas o Zeke ainda não chegou. Não vamos espera-lo?

— O Zeke já está lá dentro. Ele vai se apresentar no teatro de encerramento das aulas. — Explicou Verônica. Estavam na última semana de aula, e as professoras dos anos iniciais da Schoul, em comemoração ao final do ano letivo, organizaram uma peça teatral com os alunos da quinta e da quarta série. Os estudantes que comparecessem no evento ganhariam cinco pontos a mais na média.

— Que cara é essa, Leona? Você não sabia sobre o Zeke? — Instigou Simon, desenhando um ardiloso sorriso carregado de duplo sentido.

Leona, desnorteada, piscava. Ela não fazia nem ideia de que o Zeke era um ator. Na verdade, até hoje Leona acreditava que Zeke nem ao menos trabalhava, afinal, por causa da falta de dinheiro do liberiano, nem sempre os quatro podiam ir ao cinema. Verônica trabalhava na enfermaria da Landgraab, Simon ajudava um construtor civil, e Leona trabalhava com o senhor Levi. Isso fazia de Zeke o único desempregado — até hoje.

— Ninguém me contou. — Leona indignou-se.

— Agora você sabe. — Simon deu de ombros. Ele se dirigiu para o portão da escola. As meninas foram atrás. — Ele se apresenta todos os anos.

— Pensei que só as crianças iriam atuar.

Verônica deu uma risada nasal.

— O Zeke não atua, ele toca.

— Toca? — Leona franziu o cenho.

Simon e Verônica se entreolharam. Um piscou para o outro – resolveram deixar Leona ver com os próprios olhos. A eldiana implorou para os amigos lhe contarem, mas Simon e Verônica apenas seguiram para o ginásio da Schoul, rindo entredentes.

O ginásio estava cheio de estudantes necessitados dos cinco pontos, de pais dos atores, de professores, e de alunos feito Leona e seus dois amigos – isto é, estudantes aprovados que não possuem nada melhor para fazer em uma tarde de sábado. A Schoul servia cachorros-quentes e suco aos presentes. Pegaram dois cada um e sentaram no centro da arquibancada à esquerda, de onde dispunham de uma boa visão da quadra.

A decoração era brega e barata. As professoras haviam pintado um cartaz com a cor do céu, com o branco das nuvens e o verde do campo. Com o apoio de uma placa de madeira, suspenderam-no em pé. Cinco criancinhas da quarta série fantasiadas de árvores posicionavam-se perto do cartaz. Uma delas, uma garotinha ranhenta de gripe, postava-se tão imóvel que nem chupava a meleca pendurada em seu nariz. Os demais atores aguardavam adiante, juntamente com as professoras de suas respectivas turmas.

A diretora e o vice-diretor chegaram quando Leona já estava na metade do seu primeiro cachorro-quente. A diretora trazia Zeke pela mão. O liberiano trajava um terno desleixado, e seu cabelo molhado evidenciava o banho recente. Ele sorria feito um pateta, e ao reconhecer os seus amigos no meio da pequena multidão, ele gritou "OI, PESSOAL!', e só não acenou porque sua mão livre carregava um saxofone brilhante.

— Bom dia. — Respondeu o público, achando que Zeke dava um alô geral.

— Sejam muito bem-vindos, queridos alunos e queridos pais. — Cumprimentou-os a diretora, falando o mais alto que podia para ser ouvida pelas fileiras altas. — Esse ano foi repleto de aprendizados e de bonanças. Primeiramente, agradecemos a Deus. Segundamente, aos professores. E então, a todos vocês, que estiveram conosco. — A diretora se curvou em uma mesura. — Nesse encerramento letivo, as professoras Paty e Glória organizaram uma peça teatral. A escola está oferecendo cachorros-quentes e suco, ah, e vai ter bolo depois! — À menção do bolo, todas as crianças, à exceção da menina-árvore, começaram a gritar de felicidade, e foi preciso mais de um berro para fazê-las calarem a boca. — Também está aqui o nosso queridíssimo aluno da oitava série, Zeke Yeager Duster. — A diretora deu dois tapinhas nas costas de Zeke. O liberiano acenou com a mão que não segurava o saxofone. Leona encolheu-se na cadeira — era amiga do garoto e sequer sabia que o seu nome era composto. — Zeke é o nosso saxofonista oficial. Ele vai ajudar na peça teatral e, depois, vai tocar uma música para todos nós.

Após o discurso da diretora, Zeke andou para a cadeira posta afastada do "palco" e perto da arquibancada, a fim de que o liberiano ficasse próximo do público sem atrapalhar a visão. As pessoas aplaudiram educadamente. A diretora esperou os aplausos terminarem para anunciar o nome da peça.

— Fiquem agora com a digníssima peça "O menino que fala com as flores", roteirizada pelas professoras Paty e Glória, e atuada pelos alunos da quinta e da quarta série.

No meio dos aplausos, Zeke começou a tocar uma divertida melodia para matar tempo enquanto a diretora se retirava e as crianças se organizavam. Uma menininha vestindo verde, com o rosto pintado de amarelo e com enormes cartolinas vermelhas presas na cabeça, se ajoelhou em frente ao cartaz. Em seguida, um menino vestido de príncipe apareceu. Assim que o menino surgiu, Zeke parou de tocar.

— Lalalalala. Que dia lindo. — O garotinho cantarolou. Ele estava travado e sem articulações. Suas falas eram claramente decoras, e não entendidas. O garoto se aproximou da menina-flor e falou, girando os braços: — Oh, dona Flor Vermelha, não está um dia maravilhoso?

— Eu não acho, principezinho bobo. — A flor respondeu grosseiramente. Ela atuava melhor do que o garoto. — Esse sol queima minhas pétalas. Eu queria que o sol explodisse.

Nesse instante, Zeke entoou uma melodia cômica que muito combinava com a expressão consternada do príncipe. As pessoas na plateia riram. Então, uma menina-flor de pétalas azuis surgiu gritando:

— POIS EU AMO O SOL, SUA FLOR VERMELHA BOBA!

Ao final da fala da garotinha, Zeke assoprou o saxofone agressivamente. Leona havia parado de mastigar o cachorro-quente quando a diretora apareceu e assim permaneceu, tamanha era a sua estupefação. Zeke sabia exatamente o momento correto de entrar em cena. O liberiano, sem piscar, observava os atores e as professoras com os olhos de uma águia. Zeke não conseguia copiar um texto inteiro, não conseguia ouvir as explicações dos professores até o fim e nem fazer uma equação corretamente, mas ali, no teatro, ele era uma estrela.

— Chocada, Leona? — Sussurrou Simon em tom de brincadeira. E, maldosamente, prosseguiu: — Pela sua cara, dá pra ver que você achava que o Zeke não era bom em nada.

Leona ficou vermelha de tanta vergonha. Verônica, com a boca suja de molho, deu uma risadinha. A inglesa sussurrou ao ouvido da amiga:

— Ele é bom, não é? Eu não sei o que a música faz com o Zeke, Leona, mas seja o que for, é maravilhoso. — Ela olhou Simon de rabo de olho, e completou: — Não liga pro Simon, ele também ficou surpreso quando descobriu o talento do Zeke.

— E que talento... — Falou Leona, completamente constrangida. Ela foi uma tola de pensar que Zeke desprovia de habilidades apenas por ele não ser um bom aluno. — Cara, ele é ótimo...

— Sim. — Verônica baixou o olhar para o cachorro-quente inacabado de Leona. — Você vai comer?

— Não vou. Pode pegar.

A peça teatral tinha um enredo pequenininho. Durou apenas meia hora. A história terminava com o garoto e as flores dançando na chuva (vulgo: papel picotado). Os pais aplaudiram entusiasmados, e os que sabiam assobiar saudaram as crianças. As professoras e os alunos deram as mãos e se curvaram à plateia. Zeke, contudo, permaneceu em seu lugar até as duas turmas saírem. Quando os funcionários começaram a recolher o "cenário" e as merendeiras começaram a servir o bolo, Zeke se levantou, se posicionou na frente do público, e informou tão rápido que as pessoas mal entenderam:

— Eu vou tocar para vocês a música "o horário de dormir aqui", do Sidney Bechet.

Zeke abriu o espetáculo musical. A música era de ritmo relaxante e possuía inúmeras variações de notas. Zeke prolongava as corretas e soprava com força nas mais fortes. Seus dedos pressionavam os botões do saxofone com delicadeza, porém firme. Ele tocava de olhos fechados, e todo o seu corpo esguio se movimentava consoante à melodia. A plateia começava a se dissipar. Alguns estudantes e adultos se aproximaram de Zeke com moedas e notas de um dólar em mãos. Zeke, porém, nada enxergava — não voltaria a si até terminar a música.

Quando a performance terminou, Simon, Verônica e Leona saíram do ginásio acompanhados por Zeke. O liberiano tinha os bolsos cheios de dinheiro, mas interessava-se bem mais no bolo de chocolate. Leona levava o saxofone para Zeke não o sujar. Ela aproveitava para analisar o instrumento musical. Era um saxofone dourado e antigo, mas muito bem conservado.

— Você estava incrível, cara. — Simon apertou a mão de Zeke.

— É verdade, Zeke. Eu nunca vi alguém tocar igual você. — Leona apressou-se para elogiá-lo.

Verônica saltou no pescoço do liberiano, dando-lhe um abraço de orgulho.

— Você é o melhor saxofonista do mundo.

— Obrigado, pessoal. — Respondeu Zeke vagamente. Ele estava fechado em seu mundinho, permitindo somente a presença do bolo.

— Estamos de férias, porra! Isso é motivo para comemoração! — Determinou Simon, fechando o punho. — Vamos para um bar!

— Bravo, Simon! — Apoiou Verônica, dando pulinhos. — Vamos, Leona, Zeke! Por favor!

— Você não precisa pedir duas vezes. — Falou Leona. Ela entregou o saxofone para Simon e correu para montar na bicicleta que deixou amarrada no bicicletário do colégio.

Zeke, focado em apreciar o seu pedaço de bolo, não respondeu. Na opinião dos outros três, quem cala consente.

— Ei, Verônica, quer que eu leve você? — Ofereceu Leona, movendo a cabeça na direção dos pedais traseiros da bicicleta.

— Eu quero.

Verônica subiu nos pedais, segurando-se nos ombros de Leona. Verônica era leve como uma pluma. Leona poderia carrega-la pela cidade inteira.

— E eu!? — Falou Simon, injustiçado. Ele usou um tom tão sóbrio que podia achar-se que o inglês falava sério: — Eu vou sentado no quadro.

— De jeito nenhum. Você é grande demais, vai entortar toda a minha bicicleta! — Ralhou Leona, apavorada. Simon se aproximou mesmo assim, e Leona, ousada, se botou a pedalar para cima de Simon, o forçando a pular para o lado.

— EI, SUA LOUCA, QUER MATAR O MEU IRMÃO!? — Verônica começou a socar a cabeça de Leona.

— Ai! Ai! Ai! — Cada "ai!" correspondia a um soco de Verônica. Você já tentou pedalar uma bicicleta com uma pessoa batendo na sua cabeça? É difícil.

— DÁ NELA, NICA! — Exclamou Simon, gargalhando.

Nesse ponto, Zeke terminou o bolo. Ele chegou perto de Simon e pediu o saxofone de volta. Limpou muito bem as mãos antes de segurá-lo.

XXX

Por estarem de bicicleta, Leona e Verônica chegaram no bar antes dos garotos. Se tratava de um dos bares do centro de Belavista. Era fechado e sem área externa. Haviam algumas janelas, e também um palco, o qual no momento era usado por uma bandinha de jazz amadora – é óbvio, as profissionais tocavam a noite. Por causa do horário cedo, o bar estava quase vazio. As adolescentes escolheram uma mesa. Quando a garçonete perguntou o que elas queriam, as duas pediram um refrigerante.

Simon e Zeke chegaram dez minutos mais tarde. No entanto, apenas Simon juntou-se a elas.

— Cadê o Zeke? — Verônica arqueou a sobrancelha.

— Lá. — Simon inclinou a cabeça para o balcão. O liberiano estava sentado com o saxofone atravessado no colo. Zeke bebia um copo d'água. — Não sei o que deu nele.

Leona fitou Zeke. Por dentro, continuava ressentida por ter subjugado o seu amigo, e o fato de Zeke ser um eldiano aumentava consideravelmente o seu pesar. Eles eram filhos da mesma Santa. Já estava mais do que na hora de conversar com Zeke cara a cara.

— Eu vou falar com ele. — Leona se levantou.

— Boa corte... er... assorte? — Verônica franziu o cenho e pôs a mão na cabeça. Estava tendo um dos típicos brancos dos cérebros bilíngues. Não conseguia lembrar como dizer "luck" em eldiano vulgar.

— You mean boa sorte, sister? — Simon corrigiu-a.

Leona nunca tinha ficado sozinha com Zeke. No grupo, Zeke era menos do que um coadjuvante; ele era um mero espectador — calado na maior parte do tempo, expressando seus pensamentos gentis somente em momentos especiais, e sempre acerca dos sentimentos dos outros, nunca sobre si próprio.

— Zeke, você toca outros instrumentos? — Perguntou Leona ao sentar-se ao lado do liberiano.

Zeke olhou-a de canto. Ele nunca fitava o rosto das pessoas diretamente.

— A vovó estava me ensinando clarinete, antes da Revolta.

— O seu negócio são os instrumentos de sopro?

— São.

Essa era a primeira vez que Zeke falava sobre a sua vida antes da guerra. Leona cruzou os braços sobre o balcão e esperou Zeke dar seguimento a conversa. O garoto, contudo, nada disse, caindo no silêncio a que normalmente se guardava quando ninguém pedia a sua opinião. Por isso, Leona precisou insistir:

— Você morava com a sua avó?

— Sim. Éramos só eu e ela. — Zeke falou com simplicidade, alisando o saxofone em seu colo. — A minha mãe trabalhava muito, muito, muito, muito... já o meu pai, não lembro dele.

— O meu morreu antes de eu nascer. — Confessou Leona. — O seu também?

A resposta de Zeke foi um balançar negativo de cabeça. Leona aguardou Zeke perguntar algo sobre a sua família, mas nada aconteceu. Zeke nunca perguntava, ele apenas respondia. Antes que o silêncio entre eles se estendesse, e já reparando que Zeke só iria falar caso ela conduzisse a conversa, Leona questionou:

— A sua avó conseguiu se salvar da Revolta? — Leona se atrapalhou ao formular essa questão. — Digo... ela veio com você?

— Não. — Respondeu Zeke, sem mágoas. — Eu só lembro de ela me mandar correr até os dirigíveis. Ela gritava "os dirigíveis, Zeke, encontre os dirígeis..." Obedeci direitinho. Não a vi depois, mas sei que a vovó ficou orgulhosa. Eu gosto de deixar a vovó orgulhosa. — Para a surpresa de Leona, Zeke continuou falando sobre a avó. Ele parecia estar num monólogo. — É por causa dela que eu continuo indo a aula todos os dias e copiando o quadro. Eu sei que eu não sou inteligente, mas a vovó dizia que eu ia ficar caso eu fosse para a escola todos os dias, até com chuva, e obedecesse aos professores. Eu quero ser inteligente e fazer a vovó feliz.

Aos quatorze anos, Leona não tinha conhecimento de mundo o bastante para perceber que a "faísca atrasada" de Zeke ia muito além de falta de atenção e de meros problemas de aprendizagem. Zeke passava de ano por pura bondade dos diretores que usavam suas apresentações nos eventos de fim de ano como pretexto para lhe darem os noventa pontos necessários para avançar de série.

A única pessoa que acreditava no potencial de Zeke, e também a que descobriu a sua aptidão para a música, havia morrido. Leona tinha o senhor Levi, Verônica tinha o Simon, mas Zeke estava sozinho no mundo. Não havia ninguém para ele aqui.

Zeke não parecia estar esperando por uma resposta, mas Leona queria dar uma.

— Ah, Zeke, você já faz a sua avó contente com a sua música. — Leona sorriu de uma maneira que ela torcia para ser encorajadora. — Ei, por que você não toca no palco? Olha, não tem nenhum saxofonista.

Zeke mirou os musicistas. Havia um cara no contrabaixo, um no violoncelo, um baterista, e um pianista, mas nenhum com saxofone. A vocalista, uma mulher negra com cabelos ruivos cacheados, cantava a letra da canção.

— Acha que eu deveria ir? — Havia um quê de desconfiança na voz de Zeke, como se achasse que Leona tentava pregar-lhe uma pegadinha.

— É claro! — Insistiu Leona. — Eles vão amar você. — E como incentivo, deu uma cotoveladinha no rapaz.

— Certo... — Zeke apertou o saxofone contra o peito, respirou fundo e disse: — Eu vou! Eu vou!

E ele foi mesmo... ao pé da letra. Sem pedir permissão dos musicistas, Zeke simplesmente subiu no pequeno palco e se postou no lugar destinado ao saxofonista. Os integrantes se desconcertaram com a súbita presença do garoto eldiano. O baterista errou o prato e a vocalista encarou Zeke com as sobrancelhas unidas em uma expressão consternada, e a sua voz vacilou um tom devido a distração. O único que não percebeu Zeke foi o pianista, por estar de costas. E este, incomodado pelos erros dos colegas, apertou as teclas do piano com força, como se dissesse "ei, prestem atenção na música".

Zeke ficou estático. O garoto aguardava o momento em que o saxofone entrava na canção. E então, quando os seus cinco minutos de fama chegaram, Zeke começou a tocar. E que música! Zeke parecia fazer parte da banda. Os integrantes, chocados, encararam o intruso de rabo de olho, e até o pianista girou a cabeça procurando a fonte do som harmonioso. Zeke, alheio aos demais musicistas, tocava de olhos fechados, tal qual fizera no ginásio.

Leona, aflita, levantou os dois punhos na altura das costelas e balançou-os. Por favor, não expulsem o Zeke, pensou ela, mordendo o lábio de preocupação.

A Santa atendeu as preces de Leona. Os musicistas, decidindo que valia a pena tê-lo no comando do saxofone, pararam de encarar Zeke e seguiram o exemplo dele, de tocar e cantar como se não houvesse ninguém em volta.

Leona deu um suspiro audível de alívio. Limpando o suor da testa, voltou para a mesa. Verônica estava sentada com os joelhos bem juntinhos um do outro, e com os cotovelos sobre a mesa; na frente dela achava-se uma taça contendo uma bebida laranja. Verônica bebia através de um canudo comprido em formato de loop. O copo de Simon achava-se vazio, mas sua boca estava bem ocupada com um cigarro.

— Foi você que fez o Zeke subir lá? — Verônica olhou Leona com aprovação entusiasmada.

— Fui eu sim. — Confirmou Leona. Ela fitou a bebida. — Que isso?

— É um drink de laranja. Quer provar?

Leona nunca provou álcool. Por um instante, ela temeu que sua experiência fosse tão traumática quanto a do cigarro, porém o fato de Verônica estar bebendo era o bastante para convencê-la.

A princípio, a bebida entrou geladinha e refrescante em sua boca. O sabor da laranja era intenso, e por baixo havia a gostosinha queimação proveniente do toque de licor e de conhaque. Leona fechou os olhinhos. O seu metabolismo agradeceu aquele mimo inédito, e pediu por mais. Ignorando os protestos e as cutucadas de Verônica, Leona deu cabo do drink.

— Ah! — Suspirou Leona, pondo a mão na barriga. — Que delícia!

— Pô, Leona, você tomou toda a minha bebida! — Verônica deu um tapa no ombro dela.

— Relaxa. — Riu Leona. — Eu compro outra pra você.

Com um gesto de mão, Leona chamou a garçonete e pediu o drink. A mulher logo trouxe a bebida. Ela pôs a taça na frente de Leona, e a eldiana imediatamente empurrou-a para Verônica.

Os três ficaram em silêncio. Simon fumando, Verônica apreciando o drink em golinhos curtos (dessa vez sem oferecer a Leona), e Leona com o queixo apoiado na mão, prestando atenção na música. Ela percebeu que Zeke não solicitara a partitura daquela canção, indicando que ele sabia a música de cor.

Entardecia, e com o horário o bar começava a encher. Haviam poucos adolescentes além deles quatro, mas não eram os únicos. O resto era composto por adultos bem-vestidos, provavelmente recém saídos do trabalho.

Nem todos estavam contentes. Uma mesa no canto, composta por quatro mecânicos, observava os musicistas com desprezo. Um deles sussurrava furiosamente para os demais, e lançava olhares furtivos a Zeke. O subconsciente de Leona se atentou a esse detalhe, mas o consciente interpretou o alarme como uma indignação ao preconceito dos belavitenses para com eldianos. Na certa, aqueles homens não concebiam que um eldiano poderia tocar saxofone direito.

Por incrível que pareça, Leona dispensou o mal-estar com a mesma facilidade com que afastaria uma mosca. Certamente havia influência da bebida nesse seu estado de humor, pois possibilidades impensáveis começavam a parecer uma boa ideia... como dançar com Verônica, por exemplo.

— Vêronica, venha. — Sem mais nem menos, Leona pegou Verônica pelos braços.

— Hein?! Aonde!? — Desconcertou-se a inglesa.

— Dançar.

— Dançar!? — Espantou-se Simon. — Essa música nem é boa para dançar.

— Quem disse que eu ligo?

Leona, abraçada ao pescoço de Verônica, obrigou a amiga a rodopiar pelo salão. Verônica protestava, mas suas negações vinham acompanhadas de risadas espontâneas. As pessoas olhavam-nas como se elas fossem loucas. Os mecânicos fitaram as duas garotas com tanto asco que poderiam vomitar. Em oposição, o moço de um casal jovem tomou a dança das adolescentes como modelo e compeliu a namorada a dançar com ele.

A banda, notando os dançarinos, resolveu mudar a consonância da melodia. A vocalista teve um rápido diálogo com os músicos. À Zeke ela fez apenas uma pergunta, a qual o garoto respondeu balançando a cabeça em concordância. Assim sendo, a banda começou a tocar uma canção que, ao contrário da outra, incitava os presentes a levantarem de suas mesas.

— Agora a música está boa, Verônica. — Leona girou.

— Ai, você vai nos derrubar!

— Me segura, príncipe encantado. — Leona se jogou para trás.

— Eu vou deixar você cair, besta!

Leona soltou Verônica, mas continuou dançando. Outras pessoas haviam se levantado para dançar, mas muito poucas, de forma que os poucos dançarinos bancavam os palhaços, mas Leona não estava nem aí. Desajeitada, porém alegre, ela continuou dançando, e Verônica, se deixando levar, dançou também, só que com tanta desenvoltura e habilidade que Leona se viu obrigada a dar um jeito em seus passos desengonçados.

— Se acovardou? — Provocou Verônica.

— Só por que você dança melhor? — Rebateu Leona. — Nem pensar.

Elas continuaram na batalha de dança até Verônica apanha-la pelas mãos e as duas voltarem a dançar juntas. Sendo Verônica a dançarina profissional, Leona, rindo, deixou-se guiar por ela.

Simon aproveitou a distração da irmã para beber o drink dela.

Zeke certamente era o músico mais dedicado. Porém, chegou o desconcertante minuto em que somente o saxofone de Zeke continuou soando, pois todos os outros instrumentos pararam abruptamente. Foram retomados em dois segundos, no entanto com menos alegria. Pois, naquele instante, um grupo de nove estranhos adentrou no bar. A roupa chamou a atenção dos presentes. Os dançarinos, incluindo Verônica e Leona, pararam a dança.

Os estranhos vestiam roupas militares, mas não eram as do exército de Newcrest. Alocava-se um pequeno emblema no bolso esquerdo do peito do uniforme. Esse emblema era composto por duas armas, uma preta e uma branca, que se cruzavam, e atrás delas desenhavam-se duas asas. O mesmo emblema, em tamanho maior, estampava-se nas costas das e dos soldados. O público reconheceu os jovens por causa do jornal. Já Leona reconheceu-os por causa dos narizes aquilinos e do sotaque fortíssimo característico do eldiano clássico. São os soldados de Paradis, pensou ela, engolindo em seco, sentindo uma mistura de assombro e de admiração.

Os soldados aproveitavam a perturbação geral. Davam risada despretensiosamente da reação de mal-estar que causavam nas pessoas. Verônica, desconfortável, foi sentar perto do irmão atônito.

Rindo e agindo como se o bar fosse deles, os paradisianos uniram as mesas vazias umas nas outras e sentaram juntos. Uma jovem, achando que Leona fosse de Liberio, lhe deu uma ombrada e encarou-a em tom de desafio. Claramente, a antipatia PARADIS X LIBERIO continuava forte na ilha. Leona ignorou a provocação – nem retribuiu o olhar da paradisiana.

Ela encolheu-se bem pertinho dos amigos.

— Pensei que o navio deles só ia abastecer. — Sussurrou Simon, pálido.

— Parece que resolveram dar uma volta na cidade. — Concluiu Leona, se sentindo o próprio Sherlock Holmes.

Leona, com cuidado para não ser notada, analisou os soldados. Eram jovens demais para serem veteranos. A maioria tinha aquela cara de mongolóide digna dos adolescentes entre os treze e os quinze anos. Se tratavam de jovens recrutas recém saídos do treinamento. Leona sabia disso porque, em Paradis, as idades dos recrutas variavam entre os quatorze e os dezessete, dependendo da data em que se alistaram.

Um soldado homem sentiu o olhar dela e olhou em sua direção. Leona virou a cabeça rapidinho. Os soldados esbanjavam a arrogância; se achavam melhores do que todo mundo. Leona sentia perversidade neles. Não uma perversidade desenvolvida, contudo, mas burra e mesquinha.

A partir daí, a exceção de Zeke, os músicos passaram a tocar com um nervosismo que poderia se passar por má vontade. Os belavitenses não sabiam o que fazer, se continuavam agindo com naturalidade ou se iam embora. Alguns realmente foram, cobrindo o rosto com a aba do chapéu ao passarem pelos paradisianos.

— Ei, o que aconteceu com o meu drink?! — Espantou-se Verônica ao constatar que restava menos da metade da taça.

— Não sei o que aconteceu. — Simon se fez de desentendido.

Então, nesse instante, a garçonete apareceu com uma lata de refrigerante na bandeja. Ela pôs a lata em frente a Leona. A latinha vermelha suava de tão gelada. Leona, sacudindo a mão, negou a bebida.

— Não é minha, senhorita.

— Mandaram essa bebida pra você. — Respondeu a garçonete com amargura indefinida.

— Huh? — Leona estarreceu. Não sabia como reagir àquela informação, e nem o que significava. Ao lado dela, Simon e Verônica eram dois olhos esbugalhados. — Mandaram pra mim? Como assim?

A garçonete usou a caneta da prancheta para apontar. Leona seguiu a caneta. Seu olhar caiu na mesa dos soldados. Lá encontrava-se um adolescente corado, de cabelo raspado e um grande nariz aquilino caracterizando a genética da sua raça. O soldado acenava para ela movendo apenas os dedos, sem balançar o braço musculoso. Leona mal o viu e já abaixou a cabeça.

— Aquele soldado me mandou isso... — Divagou Leona, abobalhada. — Por quê?

— Sei lá, vai ver ele gostou de você. — Teorizou a garçonete apaticamente, e saiu.

Assim que a garçonete se afastou, Simon, Leona e Verônica botaram as mãos na mesa e se inclinaram em um círculo. Conversaram aos sussurros:

— Meu Deus, que tarado! — Zangou-se Verônica.

— Você não vai dar atenção a ele, não é, Leona? — Ordenou Simon à guisa de pergunta. — Você sabe que eles fazem parte da linhagem ruim de Eldia.

— Eu não vou falar com ele, seu idiota! — Retrucou Leona num sussurro alarmado. Ela levantou a cabeça somente um pouquinho, a fim de checar se o soldado os observava. Bastou um mero vislumbre do rosto amigável para Leona abaixar a cabeça novamente.

E como se as coisas não pudessem piorar, a garçonete voltou trazendo um refrigerante de outro sabor.

— E agora!? — Amedrontou-se Leona.

— Seu admirador secreto mandou outro presente. — A garçonete se divertia com o constrangimento de Leona.

Retornaram ao círculo:

— Quer que eu quebre a cara desse arrombado, Leona? — Ofereceu Simon, batendo o punho na mão aberta.

— Claro que não, seu burro. — Leona deu um suspiro frustrado. — Eu vou ter que ir embora.

— NÃO! — Verônica falou um pouco alto demais, e logo controlou a voz. — Se você sair daqui, esse cara vai ir atrás de você!

Verônica tinha um ponto bem importante. Leona pôs as mãos na cabeça. Deveria esnobar o soldado? Ora, ela se sentia mal em desprezar alguém, sobretudo uma pessoa que tentava agradá-la. Quem sabe ele não fosse perverso? Leona era de Paradis e não era uma pessoa má (no seu ponto de vista).

A garçonete retornou trazendo um drink idêntico ao de Verônica.

— Mais um!?

— Sim. — A garçonete entregou-lhe a bebida. — Uau, ele parece ter gostado mesmo de você. — Frisou.

Leona encarou o drink. Como os refrigerantes não funcionaram, o soldado prestou atenção na bebida que eles estavam bebendo e enviou uma só para Leona. Suspirando, a eldiana deslizou na cadeira. Uma batalha interna se travava em sua cabeça inexperiente. Ela não queria conversar, mas simultaneamente morria de curiosidade de descobrir o motivo de tantos agrados. Verônica, percebendo as dúvidas de Leona, interviu:

— Bem, se você acha que deve falar com ele...

— QUÊ?! — Revoltou-se Simon. — De jeito nenhum!

— Ah, Simon, olha tudo o que ele mandou pra Leona... se uma menina fizesse isso com você, você iria gostar?

A cara contrariada de Simon deixava claro que ele não gostaria nem um pouquinho de dar presentes a alguma menina e não ser correspondido.

Um dos soldados paradisianos, o mais velho (e bêbado) do grupo, levantou-se de supetão, apontou o dedo para o palco e gritou:

— Vocês tocam muito mal! Vamos mostrar a esses belavitenses o que é música, soldados.

Em meio a risadas escandalosas, os paradisianos foram para o palco, incluindo o velho bêbado. Leona percebeu que ele possuía um distintivo no peito. Provavelmente se tratava do treinador ou do líder de esquadrão. Pelos movimentos bambos do velho, ele já estava bêbado antes de entrar no bar. O jeito do homem fez Leona pensar no senhor Dot Pixis. Será que o velhote morreu de cirrose ou pereceu na Revolta?

Os paradisianos expulsaram os músicos. Leona viu Zeke descer do palco abraçado ao saxofone, mas perdeu-o de vista em meio a tanta gente nariguda. O velho se pôs no microfone. Os soldados se dividiram entre os instrumentos. Eles iniciaram uma música paradisiana chamada "Tânia, a titã", cuja letra fala sobre as características da sogra do Eu lírico, Tânia, uma mulher tão feia e monstruosa que mais parece um titã. A voz do velho líder era bonita feito o grito de um gato no cio.

Leona, aproveitando o momento de distração, saiu da mesa e caminhou até o banheiro. Verônica tentou ir atrás dela, entretanto, o casal ao lado, incomodado com a baderna, levantou na mesma hora e, sem querer, impediu a passagem de Verônica.

Leona entrou no banheiro feminino, agarrou a pia e se olhou no espelho. Estava com gotas de suor nas têmporas. Se isso estivesse acontecendo há dois anos, Leona estaria tendo um treco de excitação. Agora, ela queria se teletransportar para o seu apartamento, aonde nenhum garoto iria coagi-la com presentes.

Decidiu telefonar para o senhor Levi vir busca-la. Dessa maneira, poderia ir embora em segurança. Se por acaso o soldado a seguisse, o senhor Levi e Leona dariam uma surra nele.

Entretanto, ao sair do banheiro, Leona teve uma surpresa. Em seu despreparo, ela não imaginou que o soldado poderia segui-la até o banheiro. Encontrou o militar encostado no banheiro masculino, de braços cruzados. Leona paralisou. O rapaz sorria sem mostrar os dentes. Ele olhou para os pés de Leona.

— Quase não te reconheci por causa dos sapatos, Bolinha.

Leona olhou para os próprios sapatos estupidamente, e em seguida levantou a face para o rosto do militar. Mais adiante, Leona refletiria sobre esse acontecimento e ficaria chocada com a naturalidade como a história se desenvolveu.

— PETER!

Em uníssono, os dois gritaram de surpresa e de felicidade. Leona pulou nos braços de Peter e eles rodaram juntos. Durante o abraço, exclamavam frases soltas de realização.

— Você aqui!

— Eu não acredito que te encontrei!

— Faz tanto tempo!

— De onde você surgiu?!

Leona usou o pulso para limpar a lágrima nostálgica. Acabara de reencontrar Peter, o seu melhor amigo de infância há anos colocado no limbo do não-vamos-pensar-sobre-isso. E ele nem estava tão mudado. Como Leona não o reconheceu? Lá estavam as sardas, os olhos verdes, as bochechas rechonchudas de alguém com predisposição para engordar... tudo isso dentro dentro de um belíssimo uniforme militar novinho em folha.

— Como você veio parar aqui, Bolinha? — Perguntava Peter, tremendo de euforia.

— É uma longa história. — Suspirou Leona. — Eu moro com o senhor Levi.

— O capitão Levi. — Os olhos de Peter brilharam. Leona percebeu que cometera um erro.

— É segredo, Peter. — Falou num sussurro ansioso. — Não conte a ninguém, por favor! Os meus amigos não sabem que sou de Paradis. Eles pensam que eu sou liberiana.

— Tá tudo bem, Bolinha. — Peter segurou os ombros dela. — Nós sempre cuidamos muito bem dos segredos um do outro, lembra?

O sorriso consolador quase levou Leona às lágrimas. Ah, como sentira falta daquele garoto simpático, bom em matemática e amante de guloseimas... Igual a quando eram crianças, Leona confiou em Peter. Ela sabia, claro como a água, que Peter não contaria o seu segredo a ninguém.

Em silêncio, olharam um ao outro, avaliando as mudanças do tempo.

— Você virou soldado... — Contemplou Leona, observando o uniforme verde e as botas de couro. — Pensei que você ia trabalhar com o seu pai para sempre.

— De jeito nenhum. — Negou Peter, rindo como se Leona tivesse dito um absurdo. — Comércio é com o meu irmão mais velho, ele é quem tem dom para negócios. Eu gosto é de aventura.

— Você escolheu a Tropa de Exploração, estou vendo.

— Agora o nome é Forças Armadas de Paradis. Mudaram na Nivelação.

— É? Puxa, eu gostava de Tropa de Exploração... — Leona analisou o emblema de Peter com tristeza. — Eu amava aquelas asas grandes e tudo o mais...

— Esse aqui também é legal. Eu gosto das armas. — Peter esticou o peitoral da roupa para olhar o emblema.

— Como estão os nossos amigos? — Nomes esquecidos renasceram em sua cabeça. — A Rebeca, a Diana, o Otto? E o Adam e o Sandler?

Peter deu uma risadinha.

— Eu imagino que você saiba aonde o Otto está trabalhando...

— Não me diz que ele é...

— Acólito. — Peter revirou os olhos. — Exatamente. Ah! Ele e a Rebeca são namorados.

— O QUÊ!? — Gritou Leona com as mãos no rosto. — Não acredito! Quer dizer... a gente zoava os dois... Desde quando eles namoram?! ...Huh... Peter... — Leona interrompeu-o antes do militar replicar. — Acho que nós estamos... huh... interditando o banheiro.

Nesse ínterim, pelo menos quatro pessoas passaram empurrando-os com o corpo para ganhar espaço e alcançar as portas dos banheiros.

— É verdade. Vamos sentar.

Leona e Peter sentaram numa mesa para dois. Leona até pensou em apresenta-lo a Verônica, Simon e Zeke, porém achou melhor poupar as energias (e perturbações). A música estava alta; os soldados paradisianos não economizavam na algazarra. Leona e Peter sentaram coladinhos, para conseguirem conversar. A garçonete apareceu perguntando se eles iam beber.

— Eu não vou mais te pagar bebida nenhuma, Bolinha. — Alertou Peter.

— Peter, eu trabalho. — Com orgulho, Leona mostrou o porta-moedas. Em seguida, pediu à garçonete: — Me traz aquele drink laranjinha, por favor.

— Eu quero um também.

A garçonete retornou com as bebidas. Leona apanhou a sua e deu um longo e refrescante gole, o qual ela terminou emitindo um "ahhh!" satisfatório.

Peter deu cabo da taça numa única golada.

— Caramba, Peter! — Leona gargalhou. — Você bebe álcool como bebe água.

— Eu não bebo tanta água, na verdade. — E pediu outra dose.

— E aí, quais fins tiveram os nossos outros amigos? — Retomou Leona, curiosa.

— Bem, o Adam e o Sandler brigaram. Eles se odeiam. Não podem se encontrar na rua, se não se engalfinham feito dois galos.

Leona chocou-se com o desfecho infeliz da amizade de Adam e Sandler. Os dois garotos eram como carne e unha. Quem diria que Otto e Rebeca terminariam juntos, e Adam e Sandler acabariam separados?

— A Diana, eu não sei. Ela repetiu de ano na quinta série e desde então não nos falamos mais. Eu quase não a vejo por aí. — Peter deu de ombros. Ele não se importava com Diana. — Para ser honesto, Bolinha, eu não converso tampouco com o Otto e com a Rebeca. Depois que você morr- digo, foi embora, eu não sei explicar... nossa amizade não foi a mesma. No início nós continuamos nos encontrando para brincar, mas não era bom... acho que você deixou um vazio nosso grupo. Cada um foi para um lado, fizemos outros amigos...

Conforme Peter falava, o coração de Leona apertava. A feria ser a causa da quebra da corrente que unia seus amigos de infância. Se nunca tivesse vindo para Newcrest, será que as amizades permaneceriam fortes? Teriam ela, Peter, Otto, Rebeca e Diana envelhecido juntos? Uma coisa é certa: se essa realidade tivesse sido possível, teria sido maravilhosa. Uma enxurrada de saudade inundou seu peito.

— Ah, Peter, eu sinto saudade de vocês... Como eu queria visitar vocês.

— Ia ser tão legal, não é? — Devaneou Peter. — Juntar a turma inteira de novo...

A garçonete voltou com a bebida de Peter e perguntou se Leona iria querer. A eldiana aceitou.

— Você gosta do seu esquadrão? — Leona deu uma olhadela aos soldados.

— O nosso líder não é um dos mais competentes. Se eu pudesse escolher, eu teria ido pro esquadrão da Rico Brzenska. — Ele parecia amuado em ter o velhote bêbado como chefe. — Pelo menos ele é um Yeagerista de carteirinha.

— Um Yeagerista? — Leona controlou a repulsa rapidamente. — Assim que tem que ser. — Não valia a pena iniciar uma discussão de valores.

Leona e Peter brindaram Paradis.

— Quando o seu navio vai embora?

— Amanhã ao entardecer.

— Puxa, já? — Leona fez beicinho. — Eu queria te mostrar a cidade...

— Você pode fazer isso amanhã a tarde. — Sugeriu Peter, empolgado. — Nos encontramos aqui ao meio-dia?

— Perfeito!

Os dois bateram as mãos como costumavam fazer na infância. Leona bateu forte na de Peter. O garoto sacudiu a mão com uma careta de dor.

Peter, sentado de frente para o meio do salão, torceu a boca ao detectar o conflito se desenrolando logo a frente.

— Xiii, Leona. O seu amigo vai se meter em confusão.

— Rá. — Desdenhou Leona. Nem precisava se virar para saber o que acontecia. — A chuva molha, Peter?

Ela não se surpreendeu ao ver Simon sendo detido por Verônica e por dois garçons – convenhamos, era questão de tempo até Simon arranjar briga. O inglês estava com o joelho em cima da mesa que o separava do soldado paradisiano. O militar bêbado apontava para Simon e caçoava.

— SIMON, DEIXA ELE, POR FAVOR. — Gritava Verônica a esmo.

— ME SOLTA! ME SOLTA! — Esbravejava Simon.

Quanto mais Simon gritava, mais os paradisianos davam risada. Leona, sentindo pena de Verônica (sinceramente, ela devia deixar Simon apanhar), avisou a Peter que iria ajudar a segurar Simon. O amigo de infância, contudo, não quis ficar para trás.

Antes de Leona chegar perto, Simon deu uma cabeçada no garçom, e, assim, se libertou da fonte de força maior. Ele só precisou de um puxão para escapar de Verônica.

— SIMON, NÃO!

Ignorando a irmã, Simon partiu para cima do paradisiano. Ele tropeçou na mesa, mas, antes de cair, deu-lhe um atrapalhado soco no nariz aquilino. O paradisiano cambaleou com a mão na fuça. Enquanto isso, Simon se levantava com pressa. Entretanto, o paradisiano já estava sobre ele:

— AGORA VOCÊ VAI VER!

Peter assobiou baixinho e Leona murmurou "oh não". Os paradisianos torciam para o militar, os nativos torciam por Simon, e Verônica tentava salvar o irmão. Peter e Leona vieram ajudar. Peter agarrou o colega brigão pela barriga e o arrastou para trás, enquanto Leona ajudava Verônica a catar Simon.

Simon se debatia nos braços das garotas e o soldado se chacoalhava nos de Peter. Os dois jovens se xingavam, um ofendendo a raça do outro, sendo os insultos de Simon voltados às palavras "demônio" e "titã", e as do paradisiano à ofensas relativas a cor da pele de Simon.

Verônica choramingava para Simon parar. Peter resmungava "calma, garotão, calma" para o colega, sem surtir efeito. Leona, por outro lado, se sentia brincando de cabo de guerra. O pensamento quase a fez rir. Então, ela cometeu o erro de olhar para Peter. A feição de riso do garoto indicava que compartilhavam o pensamento. Não deu outra: os dois começaram a gargalhar.

Por fim, mais pessoas cansadas do showzinho ajudaram a separar os adolescentes. Peter levou o amigo de volta para a mesa dos militares, enquanto Simon pateava para fora do bar com a irmã e Leona em seu encalço.

— VOCÊ VAI EMBORA DEPOIS DESSA VERGONHA QUE ME FEZ PASSAR!? — Chorava Verônica, segurando o braço de Simon. — VOCÊ SEMPRE ARRANJA BRIGA! EU NÃO AGUENTO MAIS!

— UM DEMÔNIOZINHO ME CHAMA DE CARVÃO E VOCÊ QUER QUE EU DEIXE PASSAR!? — Vociferou Simon na cara da irmã, separando-se dela com um tranco. — AH, NICA, VÊ SE ME ERRA!

— VAI ME DEIXAR AQUI SOZINHA? EI, VOLTE!

Os ingleses saíram pela rua. A discussão acalorada de irmãos chamava a atenção dos transeuntes. Leona, de mãos nos bolsos, ficou para trás de propósito. Ela deu de ombros com displicência. Não ia se intrometer na briguinha dos dois, ainda mais a essa hora da noite. Leona voltou para o bar com um comichão na orelha, já sabendo que o senhor Levi estava furioso por ela não ter voltado para casa durante o dia.

Ela caminhou até o balcão e solicitou ao bartender:

— Posso usar o telefone?

O homem aquiesceu. Ela discou o número da loja de chás e aguardou o senhor Levi atender. O capitão o fez no primeiro toque, dando a entender que estivera esse tempo todo no balcão da loja, ao lado do telefone – ele jamais conseguiria trocar o telefone de lugar sozinho.

— Alô? Smith?

— A própria, se- — Leona soluçou. — nhô Levi.

— QUE VOZ É ESSA? — O senhor Levi rugiu. Leona afastou o telefone da orelha. — VOCÊ BEBEU?

Em circunstâncias normais, Leona teria fingido o contrário. No entanto, a bebida lhe dava coragem e desinibição.

— Ah, senhor Levi, foi um tiquinho de nada. — Leona riu. — O senhor pode vir me buscar?

Do outro lado da linha, o senhor Levi rosnou.

— Você não está de bicicleta, sua doente?

— Eu levo o senhor na cestinha. — Brincou ela.

— Até parece. — O senhor Levi exasperou-se. — Você vai é vir pedalando atrás do táxi.

— Sem problemas, capitão. — Como já foi dito, tudo parecia uma boa ideia.

— Certo. Aonde você está? Fale devagar, vou escrever.

Leona falou o endereço pausadamente.

— Logo estou aí. Não saia daí, ou arrebento você.

— Gostei da delicadeza, senhor Levi. — E antes que o senhor Levi recomeçasse a chiar: — Até mais tarde.

Leona desligou o telefone e se sentou no balcão. Ela aproveitou e pediu um copo d'água — começava a sentir sede de água pura. O bartender lhe serviu um copo com gelo. Leona fitou Peter de soslaio. O viu bebendo e rindo com os parceiros. Ela acenou para ele, e o garoto retribuiu.

A banda improvisada de paradisianos abandonara o palco. Agora, o barulho do bar era preenchido pelas conversas dos soldados. Boa parte dos belavitenses já havia saído. Leona observou o palco e as poucas pessoas. Não viu Zeke, tampouco o seu saxofone. Com certeza, Zeke ficara nervoso com a algazarra e fora embora sem avisar.

XXX

Naquela manhã, Leona acordou eufórica. Ela sorria ao descer para ajudar o senhor Levi na loja de chás. Trabalhou todo o expediente sorrindo. O senhor Levi, percebendo o jubilo da enteada, comentou:

— Você está bem animada para ver o Peter.

Leona havia contado ao senhor Levi sobre Peter. O capitão já sabia sobre o navio de Paradis – toda Belavista sabia, na verdade. O senhor Levi ficou surpreso ao descobrir a profissão que Peter escolheu, mas a reação do velho veterano limitou-se ao atordoo. Ele não parecia nem triste, nem feliz, mas certamente fora contaminado pela alegria de Leona.

— Estou, senhor Levi. — Ela achava-se apoiada quase no topo de uma escada de rodinhas, limpando a prateleira da estante mais alta. Se segurando no degrau com apenas uma mão e segurando o pano na outra, Leona inclinou o corpo para encarar o senhor Levi. — Vou leva-lo ao Ciclone. Tenho certeza que não existe parques de diversões em Paradis. O Peter vai amar! — Sua empolgação quase a fez cair da escada.

O senhor Levi, sentado com o caderno da contabilidade a sua frente, estudou Leona com seus olhos cinzentos.

— Você ainda quer ser soldada?

— Huh?

— Estou me referindo à carta.

— Eu nem pensei nela. — Leona pôs a mão no buço e fez huuum. — Sei lá... o Peter parece feliz no esquadrão dele, embora eu os tenha achado meio... — Leona buscou a palavra correta. — Excêntricos? Brutos?

O senhor Levi, analisando o livro, sorriu de canto.

— O treinamento militar endurece a gente.

— Ah, é? — Leona desceu da escada. — Está me dizendo que o senhor era gentil, antes de ser soldado?

— Bom... o exército te deixa mais duro, mas morar em uma cidade subterrânea certamente te torna marrento. — Respondeu ele, contemplativo.

— Analisando bem, essa regra do treinamento não se aplica a todo mundo. — Devaneou Leona, enquanto levava a escada para os fundos. Ela alteou a voz para se fazer ouvida: — Minha mãe chegou ao posto de comandante e era a pessoa mais doce de Paradis.

O senhor Levi aproveitou que Leona não estava vendo parar rir sozinho. Ele aumentou a voz para ela escutá-lo:

— Algumas pessoas são casos perdidos.

— Que coisa feia de se dizer sobre a minha mãe morta. — Leona desenhou um sorriso reprovador, já removendo o avental de garçonete. — Terminei. Vou me arrumar, tudo bem?

— Volte antes de escurecer, se for possível.

Leona acenou com a cabeça e se foi para o apartamento. Tomou um banho rápido, vestiu suas melhores roupas, calçou os sapatos novinhos e engraxados, apanhou a bicicleta e saiu. Se despediu do senhor Levi ao passar em frente à entrada da loja. Ela guardou o porta-moedas dentro da cestinha e pedalou para o bar.

O garoto a aguardava. Vestindo roupas comuns, Peter se passava facilmente por um liberiano. Ele vestia uma camisa branca e uma calça preta pequena demais em seu corpo de quase-homem. Os dois amigos se cumprimentaram com um abraço.

— Gostei da bicicleta, Bolinha.

— Viu? — Leona deu batidinhas no guidão. — Ela tem cestinha.

— Aonde vamos?

— É surpresa! — Leona pulou da bicicleta para acompanhar Peter a pé.

O Ciclone não era longe – quer dizer, não para a quantidade de quilômetros que Leona aguentava andar. Peter, acostumado aos exercícios físicos do quartel, não reclamou de estarem andando há mais de meia hora. Na verdade, o garoto nem reparou na distância, pois Leona o divertia mostrando os cinemas, as lanchonetes, as lojas, as praças e os monumentos históricos construídos em homenagem a pessoas importantes da história de Newcrast. Após passarem por uma reverente estátua de Jefferson Tom, Peter comentou que o governo de Paradis também erguera estátuas: uma para Floch Forster, o chefe dos Yeageristas e o primeiro comandante do que viria a ser a FAP (Forças Armadas de Paradis); e uma, é claro, para Eren Yeager, o salvador.

— A estátua é linda de morrer, Bolinha, e construíram o titã de ataque logo ao lado. São mais grandiosas do que as estátuas daqui. — Gabou-se Peter, cheio de orgulho pomposo. — E você os conheceu em pessoa! Não sabe como eu te invejo.

Logo, a roda gigante do Ciclone apareceu no horizonte. Leona apontou-a. Peter, que nunca tinha visto uma roda gigante, ficou de queixo caído.

— O que é aquele negócio enorme?

— É uma roda gigante. — Respondeu Leona, apressando o passo. — Nós vamos andar nela.

— Sério!? — Exclamou Peter.

— Claro. É muito legal, dá pra ver quase tooooda a cidade. — Leona fez um gesto amplo com o braço que não levava a bicicleta.

Eles compraram os ingressos e passaram pelos seguranças. Todos os brinquedos, com exceção das barraquinhas de comida e das tendas de prêmios, eram gratuitos. Após entrarem, Leona pôs a bicicleta no bicicletário do parque e prudentemente amarrou a corrente na roda.

Leona se alegrou ao ver Peter abismado com a grandeza do parque e com a tecnologia de suas atrações. O garoto nem sabia em qual brinquedo ir primeiro. Portanto, Leona escolheu por ele.

— Vamos no carrossel. — Convidou ela, puxando Peter pela mão. — Eu adoro o carrossel!

— Qual desses é o carrossel? — Perguntou Peter, vago, contemplando a montanha-russa (que levava o nome do parque) e os outros brinquedos altos.

— Nenhum desses.

O carrossel era o "brinquedo dos cavalinhos", como Leona costumava chama-lo aos nove anos. Consistia em um maquinário grande e redondo, com vários cavalos coloridos subindo e descendo numa velocidade amena. Era um brinquedo de criança, mas Leona o adorava. Por ser domingo, o carrossel estava lotado de crianças e seus pais. Leona montou num dos cavalos brancos. Peter sentou no cavalo ao lado, que era preto.

Peter alegou ter gostado do carrossel, mas depois de experimentar a montanha-russa, mudou de opinião sobre o brinquedo dos cavalinhos. Eles passearam pelo parque, tomaram sorvete (Leona deu risada quando Peter congelou o cérebro) e tentaram a sorte no tiro ao alvo. Leona perdeu as suas balas falsas (conseguiu a façanha de acertar na cabeça do funcionário), mas Peter derrubou todas as latas, assim ganhando direito a um dos prêmios da barraquinha. Ele escolheu um leãozinho de pelúcia fofinho e peludo, e Leona deu gritos de alegria quando Peter deu-lhe o bichinho de presente.

Ambos julgaram a roda gigante a atração mais especial, e por conseguinte decidiram deixa-la por último. Sentavam numa das cabines agora. A cabine era fechada, comportava no máximo quatro pessoas, e conservava duas janelas. Leona, com o leãozinho no colo, fitava Belavista pela janela do seu assento. Do ponto mais alto, dava para ver o parque inteiro e a cidade ao fundo.

Peter, no entanto, não olhava a janela. Com as mãos unidas e os cotovelos apoiados nos joelhos, ele fitava Leona de um jeito intenso. Ela, é claro, sentiu, e virou-se com uma interrogação divertida no rosto. O soldado desviou o olhar no mesmo segundo, e tentou disfarçar voltando-o à cidade.

— Você quer me dizer alguma coisa, Peter. — Não era uma pergunta.

— Não é nada... — Suspirou para a janela. — É que... nem nos meus melhores sonhos eu imaginei nós dois juntos de novo... — Ele mirou Leona. — Todo esse tempo, eu pensei que você estava morta. Quero dizer, era o que o meu pai falava. Eu estava guardando o seu baú para te devolver quando você voltasse, mas um dia o baú desapareceu, e o meu pai me disse para esquecer você, falou que você tinha morrido... E aí você voltou. Voltou da morte!

Leona desmanchou o sorriso e abaixou a cabeça. Não era culpa sua ter sido arrancada de casa sem o direito de se despedir dos amigos. Contudo, Leona magoava-se por ter causado tanta tristeza a Peter. Ela ponderou como deveria ser morar na mesma rua da casa abandonada que um dia pertenceu a alguém amado por você.

— Eu sinto muito, Peter. A minha mãe me tirou de casa de madrugada. Não deu tempo de dar tchau...

Uma perturbação transpassou o rosto de Peter quando Leona mencionou Hange. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu, resolvendo guardar para si mesmo. Em seguida, suplicou:

— Você não pensa em voltar? — Os olhos verdes de Peter brilharam de esperança. — Se você disser que é Leona Zöe Smith, — Peter destacou o último nome de Leona — e que está do nosso lado, tenho certeza que o meu líder deixa você entrar no nosso esquadrão, mesmo sem treinamento. Você pode voltar para Paradis comigo... ter a sua vida novamente, Bolinha. Poxa, você nem tem mais o nosso sotaque...

Os olhos de Leona cresceram um centímetro. Ela pôs a mão na testa e mordeu o lábio, apertando o leãozinho de pelúcia. Por mais que tenha escrito uma carta pedindo justamente para retornar a Paradis, Leona não queria perder Verônica, Simon e Zeke, e tampouco enfrentar suas batalhas diárias sem uma boa xícara de café pelas manhãs. Mas, sobretudo, Leona não queria abandonar o senhor Levi. O velho capitão só tinha a ela. Leona não conseguia ter a frieza de deixa-lo.

— Eu não posso, Peter. — Anunciou ela com tristeza.

— Bem, Paradis pode não ter parques de diversões e telefones, mas em breve...

— Não é por isso. — Leona cortou-o. — É que... eu tenho um trabalho aqui, e também tenho pessoas que precisam de mim. Eu não posso deixa-las.

— É a sua decisão definitiva? — Insistia Peter.

— Huh... — Pensou Leona. — É.

— Então, se o navio voltar, e nós nos encontrarmos, e eu te convidar de novo, você vai dizer "não" novamente?

Leona não respondeu, mas os seus olhos diziam que o veredito fora tomado.

— Entendo. — Peter aceitou, enfim. Então, respirando fundo, e delineando um sorriso pequeno, o garoto acrescentou: — Bolinha, eu quero que você saiba, eu não ligo se a sua mãe é uma criminosa de guerra. Independentemente do que ela fez, nós dois somos melhores amigos, e vamos continuar sendo até os fins dos tempos. Se um dia você quiser retornar a Paradis, eu garanto a você: não precisa ter medo. Ninguém vai achar que você é igual a sua mãe, e se alguém pensar o contrário, eu vou arrancar a cabeça dele ou dela.

Conforme Peter falava, o peito de Leona adoecia. Não pela declaração nobre e fiel que certamente encantaria qualquer garota por ele apaixonada, mas pelo posicionamento nas entrelinhas da alegação, e pela interpretação que ele tivera de sua negativa. Peter acabara dizer, em palavras bonitas "sua mãe fodeu toda a parada, mas você não é igual a ela, então por que não volta comigo?". Aquilo a feria porque Leona não era diferente de sua mãe, e principalmente porque não queria ser. Ela lembrou-se de ontem, quando fingiu ser pró-yeagerista para agradar Peter. O remorso escapou através do beiço tremido e de uma lágrima solitária. No entanto, Leona bem sabia, por mais que lhe doesse, ela precisava manter os seus personagens no dia a dia – do contrário, acabaria em problemas ou morta. E por esse desgostoso motivo, com muita dor, porém resignada, Leona voltou seu olhar choroso para Peter, e declarou, com a voz mais emocionada possível:

— Peter, muito obrigada.

O sorriso do soldado se alargou. Ele sentou-se ao lado de Leona. Com um braço, Peter a envolveu pelos ombros, a convidando a deitar a cabeça em seu peito. Leona, que inconscientemente buscava desesperadamente por algum tipo de consolo, aceitou o afeto dele. Peter lhe deu batidinhas nas costas.

— Você não é responsável pela traição da Hange. — Peter a beijou no topo da cabeça, tentando fazê-la feliz. — Nada disso é culpa sua, tudo bem? Quando você estiver pronta, eu venho te buscar.

— Tudo bem... — Murmurou ela, odiando o jeito como Peter se referiu a sua mãe pelo primeiro nome.

No tempo em que conversavam, a roda gigante deu mais de seis voltas. O funcionário do parque, irritado com a permanência dos adolescentes (a fila para entrar era imensa) expulsou-os de lá. Leona saltou da cabine esfregando o olho molhado. Bastou estar em meio a multidão de belavitenses para engolir o choro.

— Putz, o sol já está abaixando, Bolinha. — Peter calculou o horário pela posição do sol. — Já deve ser quase cinco horas. Eu preciso pegar o navio.

— Eu te acompanho até a linha do bonde.

Ofereceu-se Leona. Eles apanharam a bicicleta e rumaram para o porto.

— Você está com medo do Médio Oriente? — Questionou Leona antes que o silêncio entre eles se estendesse.

— Não. — Peter sacudiu a cabeça. — É eles quem devem ter medo da gente. Podemos não ter mais os titãs, mas continuamos sendo a nação mais poderosa. — E, com aprovação, Peter pensou alto: — Rá, eles vão ver só. A terra deles vai ser nossa.

— Mostra pra eles. — Incentivou-o Leona. — Quando o seu navio volta?

Peter deu de ombros.

— Depois que matarmos todos, eu acho.

A região portuária de Belavista se localizava longe. Dessa forma, Leona não poderia acompanhar Peter até o porto – sobretudo porque motorneiro nenhum iria deixa-la subir num bonde com uma bicicleta. Enquanto se dirigiam para a praça, Leona explicou a Peter que ele deveria pegar o bondão e descer na última parada.

Eles chegaram junto com o bondão. O transporte havia acabado de parar para receber as pessoas no ponto, multidão composta majoritariamente por trabalhadores. No meio das pessoas, Leona reconheceu três soldados paradisianos que estiveram no bar ontem e que, assim como eles, resolveram aproveitar Belavista antes da partida.

— Olha, seus amigos estão lá.

— Eu vi. — Falou Peter meio alterado. Ele parecia nervoso. Um nervosismo semelhante ao que sentimos quando uma ocasião a qual nos deixou ansioso a semana toda finalmente vai acontecer – como uma apresentação na escola, por exemplo. — Bolinha, er, Leona, eu posso te dar um presente?

É óbvio, todo mundo gosta de presentes, e Leona não era diferente. Mas, claro, ela já havia recebido um presente de Peter (o leãozinho de pelúcia que agora descansava na cestinha da bicicleta), e por educação recusaria o próximo.

— Não, Peter. — Ela sorriu pequeno. — Você já me deu o leãozinho.

Peter engoliu em seco.

— V-você não quer nem saber o que é?

— Pode ser. O que é?

— É isso aqui.

E então, Peter a beijou. Não um beijo na bochecha feito os que os bons amigos dão, e nem o característico e protetor beijo na testa, mas um nos lábios. O movimento, no entanto, foi veloz e breve. Peter mal pressionara os lábios nos seus e já se afastara. Quando se separaram, Peter estava vermelho dos pés a cabeça, enquanto Leona entrara num estado tão profundo de choque que nem sabia como proceder. Seus lábios entreabertos permaneceram assim.

Lá atrás, o bonde buzinou anunciando a partida. Peter, morto de vergonha, e começando a compreender o tamanho do vexame que acabara de fazer (se ele ao menos tivesse beijado direito...), usou a oportunidade para escapulir.

— Leona, eu vou indo.

— A-até logo, Peter. Nós vamos nos ver de novo. — Leona se despediu com uma mão. A outra pousou em sua própria boca que, por fim, não era mais virgem.

— Pode apostar! — Confirmou ele, correndo de costas para o bonde, ainda absurdamente vermelho, porém menos envergonhado por causa da despedida da amiga.

Assim que Peter embarcou no bondão, Leona montou em sua bicicleta. Com a cabeça cheia de pensamentos conturbados, ela pedalou de volta para casa.

XXX

A boca de Leona permaneceu estranha. No decorrer do trajeto, crispava os lábios e lambia-os, como que tentando remover aquela sensação esquisita deixada por Peter. Seus sentimentos eram uma mistura confusa e ininteligível. Seu Eu de treze anos da Landgraab estava radiante (ou achava que devia se sentir radiante) por finalmente ter deixado de ser BOCA VIRGEM. Mas a Leona de agora, mais madura e menos interessada em se encaixar em padrões, não estava tão contente.

Leona chegou em casa perto das seis. O senhor Levi já havia fechado a loja. Suspirando, Leona apanhou as chaves do bolso e abriu a porta do apartamento. Era difícil subir as escadas levando uma bicicleta, mas Leona possuía determinação e força nos braços.

Respirava com cansaço ao chegar no último degrau. Sentia-se cansada pelo dia cheio e pela pedalada. Mesmo com o som audível da própria respiração, Leona conseguiu ouvir, vindo de dentro do apartamento, a voz do senhor Levi, baixa e abatida, e uma voz feminina em igual entonação.

Ela pôs a chave na fechadura e abriu a porta devagar. Na sala encontravam-se o senhor Levi e a senhora Marper. A vizinha, sentada no sofá de frente para a porta, com uma xícara de chá bem acomodada nas duas mãos, recebeu Leona com um sorriso de boas-vindas. O senhor Levi, de costas para Leona, dizia:

— É uma dor horrível... — E após finalizar o que quer que estava dizendo, virou-se para cumprimentar Leona. — Olá, Smith. Se divertiu?

— Boa noite, Leona. — A senhora Marper a cumprimentou.

— Boa noite, senhora Marper. — E para o senhor Levi: — Sim. Foi bom. — Leona empurrou a bicicleta para dentro da sala. Ao passar pela mesinha de centro, roubou um biscoito.

Mastigando o biscoito, Leona levou a bicicleta para a escada dos fundos, a fim de guarda-la no pátio. Durante todo o tempo em que permaneceu na sala, o senhor Levi e a senhora Marper fizeram a vaca amarela. Quietos, eles olhavam um para o outro com expectativa impaciente. Assemelhavam-se aos olhares que o capitão e Hange davam um ao outro quando estavam "conversando segredo" e Leona interrompia-os. A garota, notando que os adultos queriam privacidade, não se demorou no aposento.

Lá em baixo, Leona guardou a bicicleta no canto e colocou a lona protetora por cima. Depois, ela pôs as mãos na cintura e cumprimentou os pássaros do viveiro. Não iria voltar ao apartamento com o senhor Levi e a senhora Marper conversando segredinho. Ela ficou tristonha pelos adultos não quererem a incluir na conversa. Contudo, se Leona tinha segredos para com o capitão, nada mais natural do que ele ter também.

Os pássaros repousavam passivamente nos galhos, alguns já recolhidos em seus ninhos. Uma pombinha desceu ao chão pra bicar o que restou das sementes. Leona não se moveu a fim de não assustá-la. No céu, a lua despontava.

Pensou em Peter. Ele já devia estar no navio a essa altura. Estaria ele olhando a mesma lua? Leona imaginou o navio navegando no mar belavitense, então alcançando o mar aberto, para por fim chegar no território dos árabes... O seu melhor amigo de infância estava prestes a passar de um jovem recruta para um verdadeiro yeagerista de guerra. Quem diria que Peter se tornaria um deles...

Leona levou a mão aos lábios. Pensar nas lembranças da infância e no constrangimento de Peter após beijá-la não bastava para Leona perdoar o beijo. A sensação que ele deixou em sua boca remetia ao pecado; algo errado de se fazer. Leona sentia como se tivesse sido beijada por um parente, e não por um namorado. Ao menos, assim Leona interpretava aquela estranhíssima sensação de inaturalidade.

— Smith. — O senhor Levi a chamou do topo da escada. — A senhora Marper já foi. Você pode subir, se quiser.

Leona até que estava gostando de ficar no relento, mas preferia comer biscoitos, tomar uma xícara bem grande de café e escovar os dentes (sobretudo escovar os dentes).

— O Peter já foi pegar o navio? — Perguntou o senhor Levi com interesse.

— Sim. — Leona respondeu com a boca cheia de biscoitos.

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— Vocês se divertiram? Ele gostou da cidade?

— Sim. — Leona balançou a cabeça. — Ele é um yeagerista agora.

— Hein?! O Peter?! — O senhor Levi se ofendeu profundamente.

— Pois é.

— Quem diria, um garoto tão bom...

— É.

Conjecturou ela, melancólica, apoiando as bochechas sujas de biscoito nas palmas das mãos. Antes, ela tentara encarar o beijo por um viés positivo e atenuante, mas agora só conseguia sentir repulsa. Ela agarrou o bule de chá e enfiou-o na boca. Chá preto é horrível, mas é melhor que gosto de beijo. E pensar que há pouco menos de um ano ela ansiou tanto por ser beijada por um garoto.

— Que isso? Está maluca? — Pasmou-se o capitão de olhos arregalados. — Você bebeu de novo, Smith?

— Não. Eu só quero tirar o gosto ruim da boca. — Ela esfregou o pulso na boca molhada. — Senhor Levi, hipoteticamente, é possível uma pessoa não gostar de beijos?

O velho capitão a estudou com seu olhar inexpressivo. Ela achou que ele iria perguntar quem a beijou. No entanto, o senhor Levi não o fez.

— Se é uma pessoa que a gente não ama, beijá-la sempre vai ser uma merda.

— Não... — Negou Leona. — Eu digo... o ato de beijar, isso de colocar uma boca na outra...

— A minha resposta continua válida. — O senhor Levi concluiu. — Procure alguém que você goste. Eu garanto, vai ser diferente.

De novo esse assunto de amor. "Procure alguém que você goste". Quem, poxa? Leona não gostava de homem nenhum. Ela fechou a cara numa carranca beiçuda e se levantou trazendo o pote de biscoitos abraçado. Ela enfiou a mão lá dentro, apanhou um punhado e enfiou tudo na boca. Leona provocou-o:

— E por falar em beijos, senhor Levi, como foi com a senhora Marper?

O capitão apertou os olhos e comprimiu os lábios.

— Ela estava me contando sobre o ex-marido morto, sua doente depravada.

— Pois eu acho que vocês poderiam falar sobre os vivos, em vez de sobre os mortos. — Ela fez uma expressão maliciosa.

O senhor Levi revirou os olhos.

— Leona, eu já vou fazer quarenta e nove anos. A minha torneira nem liga mais.

— Eca! — Leona segurou a ânsia de vômito.

Depois dessa, iria se retirar. Ela foi para o quarto com o pote de biscoitos em baixo do braço. Na mesa de cabeceira, encontrava-se o livro do Sherlock Holmes. Leona o apanhou. Na madrugada anterior, ela leu-o até a página quinze. Na dezesseis, Verônica havia circulado um longo trecho que representava o doutor Watson enumerando e dando nota a todos os conhecimentos de Sherlock Holmes "doutor Watson tentando conhecer o Sherlock — muito engraçado!", escreveu Verônica na margem esquerda. Observando a letra da inglesa, Leona foi tomada por um sentimento de carinho tão grande que desejou poder vê-la agora. De repente, lhe ocorreu a ideia, se tivesse sido beijada por Verônica, quem sabe tivesse gostado de beijar.

Notas finais
Olá, **Esse ano eu trabalhei como monitora de inclusão. Na escola há dois alunos com paralisia cerebral, e ambos são muito bons com instrumentos musicais. Me baseei nesses estudantes para construir o Zeke. ^^ Pessoal, além de terminar a VMP, meus planos para 2023 incluem escrever e postar uma fanfic chamada “VENHA COMIGO”, que já comentei aqui. Se trata de uma versão alternativa da PARTE 3. Pessoalmente, eu acho o enredo da VENHA COMIGO muito mais interessante do que o da VMP, e mal posso esperar para publicá-la. Sinceramente, acho que um dos motivos do meu desânimo em trabalhar na PARTE 3 é que o meu coração queria que ela tivesse o enredo da VENHA COMIGO. Quando penso sobre isso, percebo que foi um erro ter continuado com o “roteiro original”, em vez de ter seguido a minha intuição e mudado o rumo da história... Enfim, além de publicar a VENHA COMIGO, também pretendo editar a VMP, deixa-la bem bonita, e documentar esses dois processos. No fim de tudo, vou escrever um texto contando como foi trabalhar nessas duas histórias, e eu gostaria muito que vocês, leitores, participassem! Dessa maneira, decidi criar um Q&A em que vocês vão poder me fazer perguntas sobre as fanfics, ou sobre processo criativo, ou até mesmo pedir dicas de escrita. Eu sei de bastante coisa (apenas estou tendo dificuldade de aplica-las). Identificar-se é opcional, e vocês podem preenche-lo na aba anônima, se for deixá-los mais confortável. LINK: https://forms.gle/Z6tuA7XibYr6YKZB9 Lembrando que o formulário de leitores continua aberto, e os que ainda não o responderam estão convidados a preenche-lo. LINK: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6 Até a próxima!