Notas iniciais
Se você é um leitor fantasma e tem vergonha de comentar, mas mesmo assim quer apoiar o meu trabalho, uma ótima maneira é respondendo o meu formulário de leitores. São só cinco perguntas. Respondendo o questionário, você me ajuda a conhecer o meu público-alvo. Pessoas sem conta no site também podem e devem responder. Caso você se sinta mais confortável, dá para preencher na guia anônima. LINK: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6

A vida seguiu seu fluxo. Acontecimentos ordinários, importantes, especiais e desimportantes, que fazem da vida o que ela é, ocorreram em Paradis. Armin, por exemplo, perdeu uma nota de cinco pratas, as plantas de Sasha morreram, Eren dividiu seus planos genocidas com Historia (sem a parte genocida), e em algum lugar de Trost, um homem perdeu o dedo mindinho num acidente de trabalho. Já na Capital, a vida foi regada a desespero.

O pai, a mãe e o avô Snicket morreram dois dias após o enterro daquele que lhes passou a doença. Com horas de diferença entre uma morte e outra, a enfermidade abateu os três numa sentada. A herança da família, antes no nome do rapaz Snicket, sobrou para a filha mais nova. Entretanto, a garota não foi bonificada com a fortuna, pois a caçula não sobreviveu à misteriosa doença que apunhalou seus parentes.

O avô Snicket, coitado, foi encontrado num estado de dar dó. Até os seus testículos estavam deformados. O assunto foi mantido em sigilo nos primeiros dias. A desculpa era o iminente pânico dentro da Capital, embora acredita-se que os responsáveis escolheram guardar segredo por causa do mistério em torno da doença horrível que desfigura o rosto dos doentes. Ninguém sabia o que era aquela coisa, seu agente, como se dava a transmissão e qual o método de tratamento.

O médico da família convidou colegas de confiança para ajudá-lo a investigar o caráter da enfermidade que mais lembrava uma maldição. Nenhum dos doutores conseguiu ir longe nas pesquisas, pois foram contaminados pelo médico. E estes infectaram outros, que infectaram mais alguns, até que uma fila gigante se estendeu na porta do hospital da Capital. A esse ponto, não havia maneiras de esconder o elefante.

A notícia chegou aos ouvidos do governo por meio de uma carta do hospital. Zackly sugeriu abafar a gravidade da situação e proteger os hizuruneses. Ia ser um desastre caso os forasteiros pegassem a doença a qual os generais apelidaram, com muito carinho, de mata-nobres. A rainha Historia foi contra essa ideia. "O meu povo não vai ser deixado no escuro", foi a sua palavra final. Historia ordenou que o jornal noticiasse as mortes. Em questão de uma manhã, a mata-nobres alcançou os hizuruneses.

No fim, a decisão de Historia salvou a vida de milhares de paradisianos, pois os forasteiros asiáticos reconheciam a enfermidade intrigante. Kiyomi e seu representante se encontraram com Zackly e outros generais numa reunião de emergência. Nessa reunião, Kiyomi pediu desculpas cinco vezes e assumiu a responsabilidade pela epidemia na Capital.

O representante explicou que a doença se trata de uma enfermidade viral chamada caxumba. Quase todos os atingidos desenvolvem ou desenvolveram a doença na infância. É uma doença controlada e não letal. Quer dizer, no caso das pessoas que são expostas ao vírus desde o nascimento. Os paradisianos não tinham anticorpos para enfrentar o inimigo invisível.

Aquela "deformidade" no rosto dos doentes é um inchaço nas glândulas parótidas, isto é, nas glândulas que produzem saliva. Também pode ocorrer nas glândulas submandibulares e sublinguais – por isso o inchaço acontece no pescoço e/ou no rosto do contaminado. Em casos mais graves, ataca os testículos. Geralmente, o vírus para por aí. Entretanto, o corpo despreparado dos paradisianos é um, e aqui o asiático pediu perdão pelo termo, "paraíso" para a caxumba. Em Paradis, o vírus só descansa quando o eldiano cai morto. Como se não bastasse, a caxumba se propaga tão rápido quanto notícias ruins.

A única forma de a doença ter chegado na ilha era por intermédio do navio hizurunês. Kiyomi disse que todos os viajantes apresentaram atestados médicos garantindo saúde perfeita, e, em seguida, enfurecida, avisou que ia dar um jeito de descobrir quem foi o engraçadinho que entregou um atestado falso. Kiyomi recomendou — ou melhor, decretou – que a muralha Sina fosse fechada imediatamente. Ninguém entra ou sai. Kiyomi se prontificou para mandar o hidroavião voar à Hizuru e retornar à Paradis trazendo medicamentos apropriados e médicos capacitados.

No dia vinte e sete de novembro, o mesmo em que Hange, Jean, Armin, Levi, Mikasa, Sasha, Connie e Eren receberam a segunda dose da vacina, as portas da Capital foram trancadas. Contudo, no dia vinte e seis, inúmeras pessoas já haviam saído da cidade. Cidadãos saudáveis fugindo da doença e doentes fugindo da cura, temendo serem feitos de cobaia pelos médicos e cientistas.

Como não poderia ser diferente, também existiam os céticos. Fora da Capital, há os que duvidavam da veracidade da história. "É uma artimanha desse governozinho de merda pra envenenar a gente", afirmavam eles. Em sua maioria, estes indivíduos torciam o nariz para qualquer estrangeiro, e em sua totalidade odiavam os marleyanos.

Na opinião dos negacionistas, a história da caxumba era uma tremenda farsa. Contudo, vale ressaltar, por não serem residentes da Capital, nem todos viram a doença em ação. Os contemplados mudaram de opinião sobre a "falsa" medicina hizurunesa rapidinho.

Esse foi o caso de um infeliz comerciante chamado Olaf. Empregado da família Reeves, o que Olaf tinha de pau no cu, tinha de esnobe. Olaf se orgulhava de trabalhar para os Reeves desde o falecido Dimo, pai do atual dono da companhia — Flegel. O cargo de empregado mais antigo dava benefícios que o velho presunçoso não merecia. Olaf era responsável por recolher alimentos fora da data de validade e leva-los de volta à distribuidora da família Reeves. Um segredinho: mandavam a comida estragada para a prisão praiana.

Olaf, teimoso de carteira assinada, não aceitou participar da greve dos comerciantes que se recusavam a viajar para a Capital antes de a mata-nobres ser erradicada. Olaf, rindo à sua maneira desdenhosa, respondeu que, em primeiríssimo lugar, não era nenhum nobre cu sujo para ser morto por uma doença chamada mata-nobres. Se os colegas queriam tanto vê-lo vagabundeando de cu para cima (você pode ver que a palavra favorita de Olaf tem duas letras), era para eles pagarem suas contas.

Dessa forma, no dia vinte e seis de novembro, um dia antes de a muralha Sina ser fechada, Olaf visitou a Capital pela manhã e saiu antes do meio-dia, trazendo uma carroça entupida de comida estragada e um vírus perigoso. Olaf espalhava resquícios de caxumba a cada espirro e cuspida. E que mania de falar cuspindo, por sinal. Olaf morreu cinco dias depois pedindo piedade ao médico hizurunês que cuidou dele. Mas, antes de ser abatido, deixou sua marca na muralha Rose.

XXX

Aquele era um dia extraordinário. Era o ÚLTIMO DIA DE AULA! Leona e seus amigos explodiam de felicidade. Após meses e meses e meses e meses de leituras, puxões de orelhas, regras e trabalhos cansativos, estavam livres dos cadernos e das grades da escola.

Em comemoração ao fim do ano letivo, a escola daria uma festa no dia vinte e nove de novembro – daqui três dias. A festa contaria com brincadeiras, comilança e uma troca de cartinhas. Cada criança devia escrever um bilhete para alguém especial. O destinatário não importava, desde que fosse alguém do colégio.

Naquela manhã eufórica, o professor entregou o boletim. Bem, na verdade, boletim não é a palavra certa, porque os alunos da primeira série estão lá para receber a primeira socialização fora do grupo familiar e para aprender a ler e a escrever. As matérias com pontos — matemática, história, linguagem eldiana — só viriam na segunda série. O que as crianças recebiam era uma avaliação individual por extenso feita pelo professor. O parecer servia para os pais saberem como o filho ou filha se comportou no regime escolar e para apontar possíveis problemas de aprendizagem.

Leona recebeu a sua crítica em sala de aula. O professor sorriu ao entregar-lhe o papel. O texto dizia que Leona era uma menina inteligente, participativa e cooperativa, apesar de ser falante (Leona de fato falava demais) e um pouquinho travessa. Alguns alunos não obtiveram suas análises em mãos. Pelo visto, a avaliação deles era tão cabulosa que devia ser dada direto aos pais.

Após a entrega dos pareceres, o professor se postou diante da turma de crianças e se curvou numa mesura. Ele deu um sorriso terno aos seus pequenos estudiosos, e disse, contendo as lágrimas:

— Crianças, foi um prazer passar esse ano com vocês. Guardarei cada um no meu coração.

Para a surpresa dos alunos, o professor abriu a porta da sala. As crianças admiraram o corredor, incrédulas. Ainda faltavam dez minutos para o soar do sino. O professor fez um gesto de mão para a porta aberta.

— Estão livres agora. Boas féri

Se o mestre esperava que as crianças fossem se despedir dele com abraços e beijinhos, se enganou. Os alunos saíram porta afora como se tivessem passado a vida inteira presos. Leona inclusa. A filha da comandante Hange saltava entre os coleguinhas e apostava corrida até o portão da escola. Peter, Otto, Rebeca, Diana e Kenny aceitaram o desafio. Leona correu tal qual o soldado foge do titã, entretanto, Otto, que corria como o diabo foge da Santa, venceu o desafio.

— É muito fácil ficar bom de corrida quando você passa o dia inteiro fugindo dos valentões. — Debochou Rebeca, com inveja.

— Perde calada. — Rebateu Otto.

Os portões da escola estavam abertos, no entanto, não havia nenhum adulto esperando. Pelo visto, foram a primeira turma a ser dispensada. As mães deviam estar a caminho, e os irmãos e colegas também. Os amigos de Leona se encostaram no muro a fim de esperá-los. Leona, contudo, precisava ir embora.

— Vou indo, pessoal. — Leona acenou. — Nos vemos na festinha.

— Não vai esperar conosco, Bolinha? — Questionou Peter.

— Não posso. Minha mãe quer que eu vá direto para casa. Vocês sabem, por causa da mata-nobres.

E era verdade. A doença só existe na Capital – por isso o nome é MATA-NOBRES – mas sua mãe a mandava voltar para casa logo depois da escola e a proibia de brincar com os amigos durante a tarde. Nem a coitada da Minnie escapou. Hange despediu a babá e parou de frequentar o quartel durante a tarde. Leona, é claro, pediu boas explicações para aquela ditadura cruel. Sua mãe explicou que a caxumba (nome verdadeiro da doença) é contagiosa e letal.

— Vocês sabem por que existe essa doença na nossa ilha? Porque nós deixamos os forasteiros entrarem na muralha. O pastor Pruitt disse...

— Que é coisa do diabo.

As crianças interromperam-no em uníssono. Peter revirou os olhos, Rebeca tampou os ouvidos e Kenny bateu no garoto religioso com a mochila. Otto ignorou e continuou a pregação:

— ...que a mata-nobres é uma punição divina aos hereges. Duvido que aqueles nobres fossem à igreja. Eu e minha família estamos seguros porque vamos na missa e fazemos a eucaristia...

— Eucari o quê? — Leona franziu as sobrancelhas.

— ...e se vocês tivessem me escutado, estariam seguros da doença. A Santa protegeria vocês. Bom, só lamento.

Otto deu de ombros e virou a cara, cheio de orgulho pretensioso. As outras crianças puseram o dedo dentro da boca, insinuando vômito. Otto, vermelho de raiva, catou pedrinhas e atirou-as nos amigos, xingando-os de ovelhas negras, clamando que não haveria lugar para eles no paraíso, que deviam ter vergonha de zombar da santinha, e que ia rir da cara deles quando todos morressem de mata-nobres.

A fúria de Otto foi interrompida pela garota da tiarinha. Através de muita paciência e trabalho duro, Leona conseguiu incluir Diana em seu grupo social. Diana se sentia querida entre Peter, Rebeca e Otto. Ela chegou esbaforida, suando, sua tiara cor-de-rosa desmantelada sobre a cabeça.

— Vocês nunca me esperam. Por que vocês

Foi só ver Kenny, um garoto com quem Diana não estava habituada, que a menina voltou à timidez padrão de sua personalidade. Diana gaguejou, e sua voz foi ficando mais e mais baixa até desaparecer. Otto retomou o sermão:

— Se eu fosse vocês, eu iria na igreja hoje mesmo pedir piedade pelos meus pecados. Ou vocês acham que a mata-nobres não pega as crianças desobedientes?

— Otto, chega, por favor. — Kenny começava a sentir dor de cabeça. — Rebeca, faz o seu namorado calar a boca.

— MEU O QUÊ?!

Leona, Diana e Peter deixaram as três crianças discutindo. Peter chamou as meninas para sentarem no muro. Somente Diana se juntou a ele. Leona precisava ir para casa, já estava se enrolando demais. Peter, tentando fazer Leona permanecer, puxou assunto:

— O que vocês receberam na avaliação? O meu diz que eu sou um prodígio da matemática.

Peter era mesmo bom de números. O garoto conseguia fazer contas de adição e subtração de cabeça, coisa que nenhum dos seus colegas sabia. Leona contou que o destaque da sua avaliação era a sociabilidade. Diana não pôde responder; ela fazia parte dos alunos cujos pareceres seriam entregues aos pais.

— Tomara que não tenha nada de errado, se não a vovó Carminha vai...

Diana engoliu em seco. Sua avó ficaria tão furiosa que Diana sequer era capaz de pensar nas coisas horríveis que a velha senhora faria consigo caso a avaliação contasse as travessuras que ela aprontava com Leona e Peter. Leona sentiu pena dela.

— Não se preocupe, Diana, vai dar tudo certo.

Disse Leona, dando um sorriso comiserado. Diana sorriu de volta. Minha Santa, você devia sorrir mais vezes, Diana. A barriga de Leona se agitou. Escreveria sua cartinha de fim de ano para Diana mesmo sabendo que a amiga não poderia levá-la para casa. Afinal, se a dona Carminha descobrisse, ia dar uma confusão e tanto. A língua de Leona tremia, louca de vontade de contar sobre o presente. Não, Leona, seja forte! Leona se empertigou e controlou a boca delatora.

— Vou indo, pessoal.

— Ah, você já vai, Bolinha? — Lamentou Diana.

— Sim, minha mãe está me esperando. — Leona pensou um pouquinho, e acrescentou: — E se a sua avó me ver conversando com você, pode dar briga.

Diana assentiu. A dona Carminha pensava que as duas crianças se odiavam. Diana levantou e deu um abraço de despedida na outra menina. Leona retribuiu. E, como em todas as vezes que Diana a abraçava, Leona sentiu seu coração derreter. Sensação engraçada essa.

— Nos vemos na festa, Bolinha.

— Com toda a certeza, Diana. — Leona se despediu de Peter. — Até logo, Peter. — E então dos outros três: — Até mais. Ei, Rebeca, larga o pescoço do Otto.

Nem sendo enforcado Otto parava de pregar. Rebeca e Kenny deram tchau e continuaram tentando tirar o diabo da boca de Otto.

Leona seguiu o caminho para casa. Voltar sozinha era um saco. Leona chutava as pedras e pensava em sua mãe. Era meio estranho ver Hange em casa durante a tarde. Entretanto, precisava aproveitar esses momentos antes que Hange fosse viajar, porque aí ficariam quase um mês separadas. Sua mãe ia partir no dia vinte e oito de novembro. Isto é, depois de amanhã.

Leona sentiria saudade de sua mãe. Minnie iria morar com ela durante o mês de dezembro, mas não vai ser a mesma coisa. Peter brincou dizendo que ia lhe dar um ingresso temporário para o clube das crianças sem mãe (participantes: Peter) com validade de um mês. Leona não achou graça.

Mesmo assim, Leona estava feliz por sua mãe. Hange sempre quis sair da ilha. Na opinião de Leona, Hange merece realizar esse sonho e muitos outros. Apenas... se sentia um pouquinho triste por não poder participar; por não estar lá com sua mãe enquanto Hange vivia o que com certeza vai ser um dos melhores momentos da vida dela. O melhor, talvez.

Leona abandonou os arredores da escola. As casas e estabelecimentos do distrito tomaram conta da paisagem. Alguns conhecidos a cumprimentavam e diziam "dá um abraço na sua mãe por mim". Leona os saudava com empolgação, e quando os conhecidos eram pais de seus amigos, Leona respondia "diz que eu mandei um oi", e se fossem donos de algum animal de estimação que ela já havia tratado e/ou vigiado, Leona combinava "logo mais vou na sua casa dar 'oi' ao meu amigo peludo".

Em certo ponto, Leona foi parada por um homem desconhecido. Era um velho alto com cara de rabugento. Mas não rabugento como o senhor Levi, que é só um cara antissocial e ranzinza. Aquele velho exalava uma aura de "não é bom estar por perto". No entanto, Leona não era de fazer julgamentos premeditados.

— Ei, menino. — O homem chamou.

Leona passou reto. O homem gritou, indignado:

— Menino, não está me ouvindo falar com você? Seu cu sujo mal-educado.

— Huh? Está falando comigo, senhor? — Leona parou. — Eu não sou menino.

— Minha nossa. — O desconhecido olhou Leona da cabeça aos pés. — Se a minha filha aparece em casa com um cabelo desses, eu bato nela até o cabelo crescer.

— Puxa vida! — Leona colocou as mãos no rosto, espantada. — Por quê?

Ela estava na calçada e o desconhecido na rua de areia. O velho segurava as rédeas de dois cavalos. Os animais puxavam uma carroça um tanto sobrecarregada para somente dois cavalos. O desconhecido abriu a boca, mas a fala foi interrompida por um espirro agressivo. Leona apertou os olhos e recuou. A menina sentiu gotas frias e aguadas na pele — sensação psicológica.

— Esqueça. — O homem limpou o nariz. — Pode cuidar da minha carroça enquanto eu vou no bar?

O desconhecido usou o polegar para apontar o bar no outro lado da rua. Leona, óbvio, concordou na hora – ela não perdia nenhuma oportunidade de conseguir uma moedinha. O velho lhe entregou as rédeas e atravessou a rua. Os homens sentados nas mesas o reconheceram e gritaram "Olaf, grande homem."

O tal Olaf voltou em cinco minutos trazendo um copo de cerveja e um saco de batatinhas. Usando a mesma mão que utilizou para limpar o nariz, tirou uma moeda do bolso e a jogou na direção de Leona. A garotinha pegou a moeda no ar.

— Obrigada, senhor. — Ela agradeceu, contente.

E assim Leona e Olaf se cruzaram pela primeira e última vez. Um encontro cujo impacto viria à curto prazo. Olaf chicoteou os cavalos. A essa altura, Leona corria pela calçada, feliz da vida. Toda vez que recebia uma moeda, Leona executava o truquezinho ensinado por Peter para discernir as moedas falsas das verdadeiras: mordeu o dinheiro. O metal não entortou. A moeda era verdadeira.

XXX

Leona encontrou o casaco da mãe pendurado na porta. A casa estava perfumada pelo cheiro delicioso de comida quente. Viu o prato de arroz servido na mesa, e a louça suja de uma refeição feita na pia, aguardando lavagem. Leona, no caso. Era o dia dela de lavar a louça. Leona virou a cabeça para a esquerda e para direita, à procura de sua mãe.

— Mãe! — Leona chamou.

— Aqui em cima. — A voz vinha do quarto.

Leona jogou a mochila no sofá e subiu as escadas correndo. Encontrou Hange trabalhando na escrivaninha. A mãe preenchia uma pilha inacabável de relatórios. Antes de viajar, Hange pretendia deixar qualquer mínima pendência resolvida. Leona abraçou o pescoço da mãe, mantendo o gesto por um tempo além do comum. Sabe-se lá quando iria abraça-la de novo.

— Deixei o seu almoço lá em baixo.

— Eu sei. — Leona fitou os relatórios. — Me dá uma folha? É para eu escrever a minha carta da festa de fim de ano.

— Claro.

Hange abriu a gaveta da escrivaninha e apanhou uma pasta cheia de folhas em branco. A comandante retirou duas e entregou-as à Leona. A menina apertou os papéis contra o peito como se fossem um brinquedo desejado enfim recebido.

— Obrigada, mãe. Depois venho mostrar como ficou.

Leona desceu as escadas. Ela enfiou a comida na boca em garfadas generosas e afobadas. Por vezes quase engasgou-se com os vegetais. Leona queria terminar logo para escrever a cartinha de Diana. Iria desenhar também. Diana adorava os seus desenhos – ao menos, era isso que Diana dizia. Leona não gostava de mostrar seus bonequinhos feios e desconjuntados. Somente Peter e Diana sabiam de seus dotes artísticos medíocres. Peter por ser o garoto em quem mais confiava, e Diana por... bem, Leona apenas queria que ela soubesse.

Leona lavou a louça tão rápido quanto comeu. No quarto, escolheu uma das folhas de trabalho da mãe. O papel pólen utilizado em documentos oficiais era macio e tinha mais durabilidade e resistência à umidade do que as folhas de caderno. Leona, contudo, não entendia nada sobre propriedades de papel. Ela quis as folhas porque achava a cor amarelada elegante. Simples assim.

Na metade da página, Leona rascunhou duas garotinhas brincando de pega-pega. A garotinha alta fugia, e a descalça perseguia. A saia comprida cobria os pés da caricatura da criança maior — parece saia de adulto, aquela coisa feia. Com o lápis rosa, Leona coloriu a tiarinha no meio das linhas negras e rígidas que eram os cabelos de Diana. A tiara ficou mais ou menos bonita. O sorriso no rosto da menina não chegava nem perto do verdadeiro. Nem um artista renomado capturaria a beleza do sorriso de Diana.

Terminado o desenho, Leona deixou o papel pólen de lado. Ia escrever o rascunho da mensagem no caderno. Leona dobrou o caderninho, escolhendo trabalhar na fronte da página – a parte "durinha", assim por dizer. A garotinha martelou o espaço entre o nariz e a boca. Ah, tinha tanto a dizer! Pressionando o grafite na primeira linha, Leona começou, em sua caligrafia de criança:

Minha amiga Diana,

Leona fez careta. "Minha amiga Diana". Puff, ridículo. Leona, por favor, você consegue fazer melhor. Mesmo tendo escrito apenas três palavras, Leona arrancou a página e a amassou com desdém, jogando-a longe e mostrando a língua. Resolveu iniciar a mensagem da maneira mais formal, educada e refinada do mundo. Em outras palavras, cumprimentou Diana usando a mesma saudação que sua mãe usava nos documentos oficiais:

Prezada srtª Diana Sally Rossi,

Você é uma amiga muito legal. Adoro faser os trabalhos do professor com você e brincar com você de pega-pega. Espero que no ano que vem a gente esteja estexa na mesma sala de novo. Você é uma menina legal e esuberante. Você é a minha melhor amiga. Boas férias.

Cordeaumente,

Leona Zöe Smith.

A mensagem fluiu como água corrente. A mão de Leona dançava sobre a página. Seu amor coloria as linhas azuladas. A menininha sorria e remexia o corpo em sintonia com o carinho que colocava em cada letra. Leona contemplou a carta e viu seus sentimentos puros de amizade refletidos. Ah, Diana vai amar. Vai sim.

Será que Diana estava escrevendo uma cartinha para ela nesse exato momento?

Leona saltou até o quarto da mãe. Hange estava no mesmo lugar, nem perto de terminar os relatórios. Leona colocou o caderno em cima da pilha de documentos finalizados.

— Corrige a minha carta, mãe?

Hange parou de escrever e mirou o caderno escolar, sorrindo. Deixando o documento pela metade, Hange arrumou os óculos e se pôs a ler a carta. Leona se balançava de um lado para o outro, sorrindo feito idiota. A menina ficou um pouquinho triste quando sua mãe começou a riscar. Leona jurava ter escrito tudo certinho.

Hange terminou em menos de um minuto. Leona acertou o emprego da letra Z na palavra "prezada" e errou em "fazer". Hange riu, achando uma gracinha. Quando Hange virou-se para Leona, sorria de orelha a orelha – um sorriso de mãe orgulhosa. A comandante devolveu o caderno.

— Que mensagem fofa, filhotinho. A Diana vai adorar. — Hange parabenizou-a.

— Fiz de todo coração. — Leona pegou o caderno e observou as partes à caneta. — Puxa, eu tinha escrito "esteja" certo.

— É normal errar. — Respondeu Hange, complacente. — Você vai desenhar?

— Já desenhei. Agora eu vou passar a carta a limpo. Quando eu acabar, venho mostrar.

Leona, conferindo as correções, deu as costas para retornar ao seu quarto. Hange se voltou aos relatórios, deixando Leona no ponto cego. Antes de Leona abandonar o quarto, a comandante comentou, como quem não quer nada:

— Eu achei que você ia escrever para o Peter. — Hange olhou por cima do ombro. — O Peter é o seu namorado, não?

Leona parou e encarou Hange como se a mãe tivesse acabado de dizer que fantasmas existem. A menina sacudiu a cabeça. Depois, gargalhou do absurdo dito por sua mãe. Não, nem pensar. Peter e ela jamais seriam namorados – imagina só, que esquisito!

— Não, mãe, o Peter é só o meu melhor amigo.

Hange deu um sorrisinho ambíguo. Leona só viu o vislumbre da provocação, pois Hange virou a cara, fingindo prestar atenção nos documentos. A comandante assinou o nome completo na parte inferior do relatório num rápido movimento. Em voz casual, Hange insinuou:

— É que na carta você diz que a Diana é sua melhor amiga. Você tem dois melhores amigos?

— Sim. O Peter é o meu melhor amigo da parte dos meninos, e a Diana da parte das meninas.

Leona respondeu com confiança; pelo menos, do seu ponto de vista. Hange a encarava como costumava fazer quando sabia que a filha aprontou alguma travessura. Leona não entendeu o motivo daquele sorriso eu-sei-o-que-você-fez naquele contexto. Em sua inocência, Leona perguntou:

— É proibido ter dois melhores amigos, mãe?

— Claro que não. — Hange deu de ombros. — Fico feliz que você tenha vários amigos, filhotinho. — E mudou de assunto. — O professor entregou o boletim?

— Sim. Está na minha mochila.

— Ótimo. Depois eu vejo.

E a conversa acabou por aí. Leona saiu estranhamente contente pelo debate desconcertante ter findado. Ela fitou o rascunho do bilhete. "Você é a minha MELHOR AMIGA". A frase estava em letra minúscula, porém, os dois vocábulos gritavam feito rasuras numa prova escolar. Quando passou a carta a limpo, Leona substituiu a frase para "gosto muito de você". Parecia a coisa certa a se fazer.