Notas iniciais
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O sol do dia vinte e sete de novembro nasceu brilhando para todos, apesar de uma grande parcela dos cidadãos de Paradis não estar em condições de aproveitá-lo. A família de Hange não fazia parte das estatísticas dos infectados pela caxumba (por enquanto). Para ela, o dia amanheceu trazendo boas notícias. Hange despertou num pulo, abriu a janela e se espreguiçou sob os raios solares. Hoje, seu expediente seria curto. Iria ao quartel aplicar a segunda dose da vacina, e depois teria o resto do dia livre para aprontar os preparativos da "expedição moderna", mais conhecida como "viagem de negócios".

Hange, querendo facilitar o trabalho dos líderes de esquadrão que tomariam o posto de comandante em sua ausência, preencheu os documentos pendentes e elaborou orientações em casos urgentes, como rebeliões — algo raro de acontecer, embora não cem por cento improvável. Uma pasta não foi o suficiente para comportar tantos papéis.

O leiteiro chegou pouco antes de Hange sair. O homem se surpreendeu por ser recebido pela patroa, e não pela empregada. A comandante comprou duas garrafas de leite e deixou um copo na cozinha, acompanhado por um bilhete avisando que voltaria às nove.

XXX

— Olha vocês aí!

Onyankopon saudou os oito viajantes ao entrar no laboratório. O inglês carregava uma caixa pequena sem identificação. Os sete subordinados ostentavam curativos recentes nos braços vacinados, e a comandante recebia a sua dose pelas mãos de Armin. Yelena entrou atrás de Onyankopon e fechou a porta. Hange os cumprimentou:

— Eu já ia mandar alguém procurar vocês- Ai!

O sorriso de Hange vacilou quando Armin injetou a agulha no braço dela. O soldado riu e pôs o algodão no local da inserção. Os outros perceberam a caixa trazida por Onyankopon e se agitaram.

— Oba, nossos passaportes! — Connie esfregava as mãos de ansiedade.

— Aqui está o seu, Connie. Sasha, pegue. Vejam se gostam dos nomes.

— Lays Ruffles? — Sasha leu o nome falso com olhos apertados e julgadores. — Não tem nada a ver comigo.

— Capitão Levi, por favor.

Onyankopon entregou o passaporte para Levi. O capitão leu a inscrição na capa do livreto: estado unitário hizurunês. Dentro, encontrou uma foto de si mesmo sob um número de identidade inventado. A nacionalidade constava como ELDIANO-HIZURUNÊS. Naquele teatrinho, iriam atuar como estrangeiros. Afinal, como você e o resto do planeta sabem, eldianos de Paradis são indesejados; andar fora da ilha portando a identidade verdadeira não passa de um jeito requintado de cometer suicídio. Portanto, se disfarçariam de eldianos-asiáticos. Levi conferiu o seu nome de eldiano mestiço e quase riu.

— Rivaille, é?

Sem levar em consideração o perigo de levar uma mordida, Yelena pôs a mão no ombro do soldado.

— Gostou, capitão?

Levi, lento feito uma coruja, girou a cabeça até encarar a mão abusada, e, tão devagar quanto, ele levantou e levantou e levantou e levantou o rosto até seus olhos encontrarem os da espiã. Uma tangível ponte de gelo surgiu entre o olhar de ambos. Yelena se afastou e mudou de assunto.

— C-Como vocês reagiram à primeira dose?

— Fiquei de cama por dois dias.

Respondeu Levi em sua voz entediada. Hange zombou dizendo que ele possuía um corpinho muito delicado para um homem tão bruto. Por falar nisso, os efeitos colaterais em Hange limitaram-se a dor no local vacinado e mal-estar. Jean "quase morreu", de acordo com suas próprias palavras. Connie sentiu uma fome de leão, e Sasha, em contrapartida, perdeu o apetite. Armin teve tosse e Mikasa sofreu dores de cabeça. Apenas Eren escapou ileso. Hange teorizou que o poder de regeneração dos titãs fortalecia a resistência dos transformados contra micro-organismos estranhos.

— Eu nunca tinha pensado nisso. — Onyankopon comentou.

— Você ia dar uma surra na caxumba, Eren. — Acrescentou Yelena.

— É. — Eren deu de ombros. — Pena que eu não tive a oportunidade de pegar.

Onyankopon e Yelena deram risada da piadinha imoral. Os demais não acharam graça, e Mikasa o repreendeu — "Eren, não diga uma coisa dessas". Na noite anterior, pessoas com sintomas de mata-nobres deram entrada no hospital de Trost. O avião hizurunês retornou para Paradis às cinco da manhã — isto é, algumas horas atrás — carregado de médicos e remédios. A essa altura, a muralha Sina fora fechada. Mas, de que adianta se o vírus já alcançou os outros distritos?

Por falar em avião, o vilão por trás da mata-nobres era o piloto. Como punição, o homem foi expulso da aeronáutica e teve sua licença cassada. Outro piloto trouxe o aeroplano de volta à Paradis. Era só dar tempo de condutor e nave descansarem para os oito soldados visitarem Hizuru.

— Vocês já fizeram as malas?

— Vou fazer as minhas hoje. — Respondeu Hange. — Vamos voar de madrugada, não?

De Paradis até Hizuru são seis horas de voo. Pegariam o avião à uma da manhã do dia vinte e oito de novembro. Em outras palavras, daqui pouco mais de quinze horas. Chegariam em Hizuru às sete da manhã. Ah, faltava tão pouco para conhecer o mundo... Dentre os oito, Hange parecia a mais entusiasmada. Ela mal aguentava ficar sentada.

— Ah, é. Senhorita Hange, aqui está o seu passaporte.

Onyankopon estendeu o documento. Hange gargalhou ao descobrir seu novo nome. Penélope. Hange tinha cara de tudo, menos de Penélope. Os presentes, incluindo Onyankopon e Yelena, foram obrigados a concordar.

— Bem, acho que é isso. — Yelena concluiu. — Boa viagem, pessoal.

— Boa viagem. — Onyankopon acenou. — Aproveitem.

— Eu também vou indo. — Anunciou Jean. — Prometi que eu ia passar o dia com a minha mãe.

— Também preciso ir. — Eren entrou na onda.

De repente, todos tinham outros lugares para estar. Hange e Levi ficaram a sós. Enfim livre, a comandante saltou no pescoço do capitão e pendurou-se nele mesmo sendo mais alta. Os dois quase despencaram. Levi a agarrou pela cintura, rosnando:

— Ei, qual é o seu problema?

— Eu estou feliz, não está vendo?!

Hange não conseguia segurar a empolgação. Finalmente estavam de volta às expedições! Hange espalhou selinhos pela face do capitão. O subordinado sorriu de canto e tentou retribuir. Entretanto, a afobação de Hange não lhe dava espaço.

— Você vai me buscar?

Perguntou Hange num sussurro ansioso. Ela colou a testa na do capitão. Agora, Levi conseguiu beijá-la. A comandante correspondeu com a mesma paixão.

— Vou. Apareço lá às onze e meia, tudo bem?

— Perfeito.

Hange deu as costas ao capitão e uniu os punhos na altura do queixo. Ela se esforçou para controlar os impulsos. Contudo, o júbilo venceu. Hange, ignorando Levi e qualquer um que pudesse ouvir seus berros, pulou pelo laboratório e gritou aos quatro ventos que viver é maravilhoso.

XXX

— BOLINHA, ESTOU EM CASA!

Hange chegou arreganhando a porta da frente. A maçaneta bateu na parede, arrancando mais uma lasquinha de tinta da área onde a alavanca bateu continuamente ao longo dos anos. Hange esperou Leona recebê-la com seus pés descalços e seu sorriso de boas-vindas. No entanto, a menina não apareceu.

A ausência de Leona não era estranha. Às vezes, a garotinha se ocupava com alguma atividade e acabava esquecendo de receber Hange. Muitas vezes sequer escutava a chegada da mãe. Porém, nessa ocasião em especifico, era impossível Leona não tê-la escutado.

O leite e o bilhete permaneciam intocados. Hange não era uma mãe angustiada; daquelas que passam vinte e quatro horas por dia em estado de alerta pela segurança dos filhos, duvidando de suas amizades e questionando-os exaustivamente "o que tanto fazem na rua" – tenho certeza de que você conhece uma mãe assim, talvez a sua se encaixe. No entanto, a cada degrau, Hange, apertando o copo de leite e chamando o nome da filha, sentia o coração se afligir. E se Leona não estiver no quarto? Teria ela saído de casa mesmo com ordens claras de não brincar na rua com a mata-nobres comendo solta por aí? Hange não acreditava nessa possibilidade. Todavia, é comum das mães achar que seus filhos não seriam capazes de desobedecê-las.

O peso no coração de Hange desapareceu quando ela encontrou Leona na cama.

— Bolinha, você está aí. — Hange suspirou de alívio. — Por que não me respondeu? Vou abrir a janela, tudo bem?

— Eu respondi, mãe. Você não ouviu?

A vozinha de Leona estava no volume três, quando o normal oscilava entre o quarenta e o sessenta. Não é à toa que Hange não a escutou. A comandante abriu a janela. Leona piscou, incomodada pela luz do sol. Não era do feitio de Leona acordar tarde. Ela gostava de aproveitar o dia, como a mãe. Hange, por instinto, botou a mão na testa da criança. Ao toque, a temperatura de Leona estava normal.

— Você está se sentindo bem?

— Ainda estou com sono.

— É um dia lindo, filhotinho. Vai desperdiçar na cama?

Hange encorajou-a insinuando empolgação desafiadora. Leona fitou a janela aberta. De fato, era um lindo dia de sol, e também o último que passariam juntas até o fim de dezembro. Hange entregou-lhe o copo de leite.

— Quer me ajudar a fazer as malas?

— Quero.

— Vou esperar você no quarto.

A proposta levantou o ânimo de Leona. Depois que Hange saiu, Leona começou a beber o leite, e se arrependeu logo no primeiro gole. Fazendo careta, Leona bebeu em golinhos curtos e intervalados. Ao terminar, foi ajudar a mãe.

Hange esvaziara o armário. A comandante atirou as roupas na cama e, quando o espaço faltou, jogou o resto no chão. Mãe e filha contemplaram os morros de tecido.

— Puxa, eu preciso fazer uma limpeza nesse armário. — Hange coçou a nuca. — Você concorda?

Leona concordava. Combinaram que Hange separaria a roupa e Leona organizaria as malas. Hange a instruiu a enrolar as vestes até transformá-las em rolinhos pequenos. Desse modo poupariam espaço na mala.

Era outono em Hizuru, então Hange selecionou roupas apropriadas para as quedas de temperatura. A comandante cheirou os fundilhos das calcinhas e separou as cheirosas. As camisas e as calças Hange escolheu levando o conforto como critério principal. Porém, não é inteligente levar apenas roupas de passeio quando se vai visitar sedes governamentais, fábricas e aeroportos. Precisava de pelo menos três trajes formais.

— Qual você prefere, Bolinha? Branco ou cinza?

Hange levantou as duas camisas, uma em cada mão. Leona escolheu a branca. Hange atirou a camisa na cara da filha, para Leona guardá-la na mala. Depois, Hange pediu opinião sobre os sapatos — "você acha que combinam com a camisa?". Já os ternos, Hange resolveu levar todos, por precaução.

— E qual dessas calças você gosta mais? Espera, vou vestir.

Hange não era lá muito vaidosa. Dava para ver pelo desleixo com o cabelo. Vê-la se preocupando com roupa e pedindo opinião sobre combinação de trajes era bem... diferente, para dizer o mínimo. Hange mostrou a calça, uma roupa escura que Leona nunca havia visto na vida. O cheiro rançoso de roupa guardada evidenciava o tempo que a veste passou no armário. Hange vestiu a calça. Tentou vestir, na verdade. Hange saltou, se contorceu até ficar vermelha e xingou, mas nada da calça passar nas coxas.

— Mãe... — Leona abafou o riso com as duas mãozinhas.

— Está achando engraçado, é?

Leona conseguia mentir para outros adultos e crianças, todavia, quando se tratava de mentir para sua mãe, Leona perdia as habilidades vulpinas, ainda mais nas ocasiões as quais Hange estava tão engraçada. Poxa, olhe só a cara dela. Leona riu até a barriga doer. E quando achava que o riso ia parar, Leona olhava para sua mãe de calças arreadas e com aquela cara de muito-engraçado-estou-morrendo-de-rir, e voltava a gargalhar.

— Acho que tem bichinhos-encolhedores-de-roupa no meu armário.

Hange acabou se juntando à crise de riso de Leona. No entanto, o momento de descontração foi interrompido pela menina, quando as risadas infantis se transformaram numa tosse engasgada. Hange parou de rir e assistiu a filha voltar a si.

— Você se engasgou com as risadas, filhotinho.

— Acho que sim. — Respondeu Leona, de súbito abatida.

— Ei, essa outra calça é perfeita.

Hange estava animada demais para reparar no arrefecimento de Leona. Um cinto preto acompanhava a outra calça. Dessa vez, a vestimenta coube como uma luva. Como uma calça, nesse caso. O cinto deu um charme a mais no traje cortês. Hange exibiu-se no espelho, girando o corpo a fim de conferir como a calça lhe servia no traseiro. Gostou do resultado. Você tem uma senhora raba, dona viajante, pensou Hange, batendo nas duas nádegas, não é qualquer calça que serve nesse cu.

— Adorei o cinto, mãe.

— Eu também. — Hange se admirava no espelho.

— Mãe.

— Sim?

— Vou sentir sua falta.

— Eu também vou sentir saudade, filhotinho. — Mas Hange era expressiva demais, e a última coisa que o semblante radiante apresentava era pesar. — Que horas são?

— Acho que são onze e meia.

— ONZE E MEIA?! — Hange pôs a mão na cabeça, estupefata. — É melhor eu fazer o almoço. Quer me ajudar?

Sempre que sua mãe pedia ajuda, Leona se prontificava em participar, e dessa vez não foi diferente. No entanto, hoje Leona cortou a cebola com menos disposição, tanto que Hange terminou a tarefa por ela. Hange pediu para Leona pôr a mesa e a garotinha obedeceu sem dizer nada. Se para Leona era esquisito ver a mãe preocupada com aparência, para Hange era estranho ver sua filha tão... quieta?

— Leona, você está bem?

— Estou, mãe. — Leona se empertigou numa pose ereta.

Hange apertou as sobrancelhas, desconfiada. As duas sentaram para almoçar. Leona comia com dificuldade. Hange percebia pela maneira como a garotinha punha a comida na boca em porções pequenas, comprimia os olhinhos a cada engolida e se encolhia como se a deglutição causasse dor. Depois de quatro ou cinco garfadas, Leona empurrou o prato, resmungando:

— Não quero comer agora.

Falta de apetite e Leona não combinavam. Leona não tinha problemas para comer, exceto... Hange ligou os pontos. Frente ao comportamento adoentado, Hange tocou na testa da criança e dessa vez sentiu a pele fervendo.

— Pode deixar aí, Bolinha. — Disse Hange com gentileza, controlando o nervosismo. — Você está tão cansada. Quer deitar no meu quarto?

Leona assentiu sem dizer nada. Por dentro, Hange enfrentava uma batalha árdua contra o pânico. No aposento, a comandante empurrou as roupas para o chão. Ela estendeu a cama, fez Leona se deitar e a cobriu com o lençol.

A menina se afundou no travesseiro e puxou o lençol até o pescoço. O clima ameno era típico daquela época do ano em que faltavam poucos dias para o verão. Entretanto, Leona surpreendeu Hange pedindo um cobertor. Hange escolheu um não tão pesado, envolveu a filha nele e aproveitou para checar a temperatura de novo.

— Mãe, eu acho que estou doente.

Dizer aquelas palavras em voz alta perturbou Leona. A menina engoliu em seco – como doeu esse gesto – e seus olhinhos amedrontados encararam a mãe num questionamento silencioso e apreensivo. Hange tentou tranquilizá-la:

— Não se preocupe, já vai passar.

Mas, no fundo, Hange sabia que estava enganando Leona e a si mesma.

Hange mandou o primeiro moleque que viu pela frente ir ao quartel e pedir para os soldados buscarem um médico hizurunês em nome da comandante Hange Zöe. "Não se esqueça de mencionar o meu nome", ela reforçou. A doença já se espalhara em Trost, era perda de tempo levar Leona ao hospital lotado. Sendo Hange a comandante do exército, o médico deixaria de atender o próximo da fila para vir à sua casa. Só por hoje, Hange usufruiria do privilégio de sua posição militar.

A voz branda da consciência tentou minimizar a situação avisando de que aquilo não era mata-nobres. É só uma gripe, só uma gripe, Hange repetia enquanto roía as unhas e atravessava a sala de estar em movimentos repetitivos. Vez ou outra, a comandante fitava o relógio na parede. Os ponteiros avançavam tarde adentro.

O médico chegou pedindo desculpas pela demora. O doutor falava a língua eldiana com um sotaque hizurunês tão forte que mal se entendia. Ele contou que o hospital de Trost estava um caos, como Hange previu. Ela fez bem em não levar Leona lá.

— Ela está lá em cima.

Os dois entraram no quarto. O cheiro de doença reinava mesmo com as janelas abertas. Leona se remexia, dormindo um sono inquieto. Hange chutou as roupas para longe, arrumou a cadeira para o médico e sentou no outro lado.

— Filhotinho, desculpe acordar você. O médico chegou.

Leona abriu os olhos como se despertasse de um pesadelo, e ao ver o doutor de olhos puxados, não levou dois segundos para entender o que estava acontecendo.

— Não, mata-nobres não! Mãe, você disse que ia passar!

Hange a acalmou através de carinho e insistência. O médico mediu a temperatura de Leona e avaliou a garganta da criança. Já a última parte do exame foi uma tortura para ambas. O doutor pôs os dedos no pescoço de Leona, mais especificamente nos lugares onde se localizavam as glândulas afetadas pela doença, e pressionou. A menina deu um guincho agudo e se debateu tal qual um animalzinho encurralado.

Hange sabia como um exame médico funcionava. Entretanto, às vezes, a consciência dos procedimentos, mesmo clara, não basta para barrar os instintos primitivos característicos a toda criatura que se encaixa no reino animalia. O grito da filha alarmou a mãe e ela empurrou o médico, pronta para protegê-la. O doutor recuou, assustado.

— Não machuca a minha filha. — E então Hange deu-se de conta do que acabara de fazer. — Desculpe, doutor, desculpe. Eu estou nervosa.

— Não tem problema, eu entendo.

O médico abriu a maleta e dali retirou medicamentos inexistentes em Paradis. O doutor entregou os comprimidos à Hange. A comandante franziu as sobrancelhas ao verificar os nomes bizarros: tylenol, ibuprofeno, paracetamol...

— Doutor, é mata-no- digo, caxumba?

O único olho de Hange tremia de preocupação. A resposta do doutor foi um aceno de cabeça. Leona recebeu a confirmação pela cara de horror da mãe. A menina agarrou-se a ela, em prantos.

— Esses remédios são anti-inflamatórios e analgésicos. Dê os comprimidos até os sintomas desaparecerem. A caxumba é de baixa mortalidade em crianças, não precisa se preocupar. Em uma semana, a Leonor vai estar bem.

O médico ignorava o choro da criança cujo nome acabara de errar e falava de forma distante e alheia. Hange se perguntou se aquele homem entendia o contexto da situação. Ele não estava atendendo uma criança hizurunesa, mas uma menininha eldiana que enfrentava uma doença mortal para sua raça.

— O nome dela é Leona. — Hange corrigiu. — Posso dar chás?

— Chá não. — Leona protestou entre as lágrimas.

— Pode. — O médico fechou a maleta.

— Doutor. — Leona fungou a palavra. — Meu rosto vai crescer? Vou ficar com a cabeça grande e feia para sempre?

Apesar de infantil, era uma dúvida recorrente entre os eldianos infectados pela caxumba. Todos fizeram a mesma questão aos seus respectivos médicos.

— Claro que não. — O médico riu. — Você vai ficar bem.

O hizurunês pediu desculpas por precisar sair tão depressa, mas outros paradisianos aguardavam atendimento. E, quando Hange se levantou para leva-lo até a porta, tropeçou nas malas. Merda, a viagem, pensou Hange, a viagem, a viagem, a viagem... A comandante fechou os punhos e sacudiu-os. Ficara tão preocupada com Leona que acabou esquecendo da viagem. Leona, como que adivinhando os pensamentos da mãe, perguntou, baixinho:

— Mãe, você ainda vai viajar?

A vozinha agiu em Hange como gasolina jogada no fogo. Hange reprimiu a raiva o máximo que pôde.

— Não sei.

O médico arqueou as sobrancelhas, confuso pela tão súbita acidez da mulher para com a filha que acabara de defender do médico malvado. Leona, no ponto cego, soube pela voz que a mãe estava fazendo O OLHAR. Leona se retraiu e não mais puxou conversa. Até o doutor percebeu que era melhor manter distância.

XXX

A tarde foi um inferno. Leona não fez rodeios para tomar os remédios. No entanto, ela quase não comeu no almoço, e ingerir medicamentos de estômago vazio é perigoso. Fazê-la comer se mostrou a parte mais difícil. Nem o mingau Leona quis, e Hange, de muita má vontade, obrigou-se a dar as colheradas na boca da criança. A essa altura, o pescoço de Leona já começara a inchar.

Conforme as horas passavam, o pescoço e o rosto de Leona cresceram e cresceram. Os boatos sobre a mata-nobres eram contos de fadas perto da realidade. Leona, gigante e jacente na cama de casal, bem parecia uma aberração. Um titã pequenininho e anormal vindo direto das profundezas da maldade marleyana. Hange se sentiu um monstro por pensar tamanha atrocidade sobre a filha doente.

O humor de Hange tornava-se sombrio a medida que o céu escurecia. Por vezes, Hange se ocupava com qualquer coisa na cozinha ou no banheiro para não aguentar o cheiro nauseante de doença. E, sobretudo, a visão das malas fechadas. Em certo momento, quando por ventura encontrou o passaporte, teve vontade de rasga-lo em pedacinhos.

A mata-nobres não facilitou. Os remédios deixaram Leona sonolenta e amenizaram o desconforto, entretanto as dores voltavam com força total quando ela relaxava, resultando em cochilos curtos e espinhosos, dos quais Leona acordava em meio a lamúrias. Leona reclamava de dor no ouvido e pedia remédios apropriados mesmo após Hange explicar que a dor vinha das áreas ao redor do ouvido interno, e não do canal auditivo em si. Hange nem queria pensar no que aconteceria com sua filha caso os medicamentos hizuruneses não tivessem chegado na ilha a tempo.

Lá pelas sete da noite, Hange fechou as janelas e espalhou lampiões com pedras de luz pela casa. Leona reclamou da claridade excessiva, e assim Hange substituiu o lampião por velas. Ao averiguar a temperatura de Leona pela nona ou décima vez, descobriu-a queimando. A fim de diminuir a febre e ajuda-la a dormir, Hange preparou um chá de macela e, já sabendo que Leona se negaria a beber a bebida amarga, acrescentou uma colher de mel.

Mas, nem assim Leona quis cooperar:

— Eu não quero chá. — Leona tampou a boca. — Já sarei, já sarei.

— Leona. — Hange chamou o nome da criança e fez silêncio. Leona fitou o olhar da mãe e se encolheu. A menina já estava obedecendo, e Hange terminou a reprimenda do mesmo modo: — Chega de escândalo e bebe essa porcaria, POR FAVOR.

Hange pronunciou o "por favor" como se escreveu: em letras maiúsculas. Leona disse me desculpa mãe me desculpa. A menina cheirou o chá e fez careta ante o odor agressivo. Nem o fraco perfume do mel a cativou. Leona bebeu com lágrimas nos cantos dos olhos, sofrendo pelo sabor e pela dor. Cada vez que pensava em desistir, se deparava com O OLHAR, e retomava a bebedeira.

Então, alguém bateu na porta. As batidas eram fortes e insistentes, como se a pessoa lá em baixo soubesse que a dona da casa se encontrava no segundo andar e talvez não escutasse o visitante.

— Quem é? O médico de novo? — Perguntou Leona.

— Pela batida, é o Levi. — Hange franziu o cenho. — Estranho, ele combinou de aparecer às onze.

O desagrado na feição deformada de Leona enfureceu Hange num nível inimaginável. Ela e Levi estavam juntos há quatro anos e Leona continuava com essa besteira de ciúmes. Pela quarta ou quinta vez em sete anos, Hange sentiu vontade de bater nela. Para não ceder ao ímpeto, a comandante se levantou e saiu de perto da criança. Vendo a mãe se dirigindo para fora do quarto, Leona tentou, em vão, fazê-la voltar:

— Mãe, fica aqui comigo.

Em sua fúria cega, Hange interpretou errado o pedido da filha. Bom, mesmo se tivesse compreendido, ela não estava em condições de benevolência materna. Hange ignorou-a e desceu as escadas. Lá em baixo, encontrou um Levi tenso aguardando na porta. Ele sabia.

— A Leona está bem? — Foi a primeira coisa que o capitão perguntou.

— Como você sabe?

— Você mandou o mensageiro ao quartel. Eu já disse mais de uma vez que só tem fofoqueiro lá.

O capitão trajava terno, sapatos engraxados e chapéu – ele já estava pronto para viajar. Hange, por outro lado, vestia a mesma roupa desde de manhã. O cabelo desgrenhado, a ausência do tapa-olho e a cara de louca contribuíam para a aparência de uma mulher velha e acabada. Levi percebeu o mau estado de Hange, mas não disse nada.

— A Leona está péssima. Essa doença é um horror. — Hange esfregou as têmporas. — Dei remédio, dei chá, e a febre não passa. E eu ainda nem terminei de me organizar para a viagem e também

A expressão crítica de Levi a fez perder as palavras. Tonta pelo estresse e pela chuva de tragédias consecutivas, Hange acreditava estar com a razão. Ela enfrentou o olhar duro. Levi, em sua sanidade, não acreditou no que acabara de ouvir.

— Você está mesmo pensando em ir?

Hange abriu a boca para dar uma resposta decidida e mal-educada, contudo a revolta presente em sua cabeça não escapou pela boca, barrada por alguma força poderosa de bom senso. Apenas resquícios de perrice escaparam:

— Eu... eu não sei, Levi. Que saco.

Ela cruzou os braços, frustrada e chateada. Por quais razões Levi a encarava daquela maneira tão julgadora? O sonho de Hange era conhecer as culturas para lá do oceano. Porra, Levi SABIA de seu desejo. Ambos compartilhavam aquela vontade que não era nada mais do que a recompensa pelo trabalho duro na Tropa de Exploração. Hange tinha o direito de estar aborrecida.

— Olha, eu não sou o pai da Leona e muito menos o SEU pai. — Levi se controlava para não falar além da conta. — Não vou me intrometer na sua vida. Faça o que achar melhor. Apenas tenha certeza de que você não vai se arrepender.

Levi não esperou a resposta de Hange. Que bom; ela não tinha nenhuma. O capitão subiu as escadas e Hange seguiu atrás dele. Leona jazia enrolada no cobertor, e a julgar pelo rosto molhado, ela havia chorado no espaço de tempo em que a mãe esteve fora. Ver Hange a aliviou — em sua inocência, Leona acreditou que sua mãe fora pegar o avião. Levi se ocupou em inspecionar o quarto. Agora, com Levi aqui, Hange dava-se de conta da podridão do aposento. Tão imundo quanto a dona.

O olhar pesado de Levi caiu direto na louça suja sobre a mesa de cabeceira. Xícara de chá, copos e um prato de mingau inacabado. Ele começou a recolher as roupas. Hange girou a cabeça para dar o olho bom ao capitão, e ao vê-lo faxinando, perdeu as estribeiras.

— O que você está fazendo? — Ela perguntou num tom desnecessariamente rude.

— Estou arrumando essa imundice. — Retrucou Levi. — O quarto tá uma bagunça.

— Ah, tá. Era só o que me faltava.

Merda, pensouLevi, e Droga, pensou Leona. O próximo pensamento dos dois foi idêntico: é aquela voz.

— Eu não tive tempo de arrumar, como você pode ver. — Hange mostrou Leona com um gesto de mão e aumentou a voz: — A minha filha está doente, inferno. Estive me preocupando com coisas mais importantes.

Hange acrescentou uma ênfase perigosa nos últimos vocábulos. A fala inteira foi dita num timbre temerário, na verdade. Era a clássica voz do "dessa vez é sério". Leona puxou o cobertor por sobre os olhos, não querendo ver a sua mãe brigar com o senhor Levi e tremendo de medo de ser a próxima, por ser a culpada da confusão.

A comandante esperava que Levi revidasse, que a acusasse de ser uma péssima mãe, e que gargalhasse da cara dela por causa da viagem perdida. Hange queria uma desculpa para entrar numa briga. Queria descontar a raiva em alguém, ou pelo menos compartilha-la — e aí caberia bem Levi se irritar junto consigo. Por essas e outras, a resposta condescendente do capitão a desconcertou:

— Eu sei, Hange. Desculpe. — Disse Levi com humildade. — Eu só quero ajudar.

Leona abaixou o cobertor até o nariz e viu a desorientação de sua mãe ante a rendição do senhor Levi. Embora ele tenha se submetido, a derrota era de Hange. O capitão colocou as duas mãos nos ombros da mulher abalada. Leona estava no ponto cego, então não enxergou o olhar decepcionado de sua mãe, e nem a lágrima.

— Hange, vá tomar um banho, você está precisando. — Levi bateu nos ombros dela. — Eu cuido da Leona.

— Não há necessidade...

A comandante esfregou o olho por baixo dos óculos e sentiu mais lágrimas se aproximando. O capitão não deu ouvidos à recusa. Eles conversaram em silêncio e chegaram a um acordo. Hange, cabisbaixa, apanhou roupas velhas e surradas, "de andar em casa". Assim que chegou ao banheiro, desabou.

Leona a ajudou a arrumar as malas, a fazer o almoço, e ouviu seu falatório sobre trajes. Mesmo cansada e dolorida, Leona se esforçou para ver sua mãe feliz. Não obstante, quando Hange voltou desolada da Capital, Leona tentou compreender suas dores de adulto. Isso sem contar a confiança e a cumplicidade. Leona tinha sete anos e não dava nem dez por cento do trabalho que Hange deu para a própria a mãe na idade dela. "Leona tem sete anos". Esse é um ponto importante. O doente naquele quarto não passa de uma criancinha assustada querendo a mãe, no sentido mais literal da palavra. E, agora em sentido alegórico, quem é a verdadeira "criancinha" aqui?

Hange chorou no banho. Chorou como não chorava há anos. Chorou de vergonha, de remorso, de medo, e de desgosto também. Seu sonho de ver o mundo precisaria esperar mais um pouco. No planeta dos adultos, a responsabilidade vem primeiro – e qualquer adulto sabe como essa é uma verdade difícil de engolir. Com uma dor teimosa, porém resignada, Hange se conformou. Leona só tinha a mãe para protege-la, e Hange jamais se colocaria em primeiro lugar enquanto Leona estivesse em apuros.

Depois de chorar, Hange se sentia um pouco melhor. No quarto, Levi havia guardado as roupas, varrido o chão e retirado a louça suja. As malas ele pôs ao lado da porta, com o objetivo de facilitar o acesso caso Hange resolvesse viajar. Leona moveu-se pesarosamente ao perceber a presença da mãe. Até mexer a cabeça deve causar dor, Hange imaginava.

— Acho que está na hora dos remédios.

A fala não foi um pensamento alto, existia um convite nas entrelinhas, chamado este captado por Levi. Os dois desceram as escadas em silêncio. Na cozinha, Hange, selecionando os comprimidos de cabeça baixa, desculpava-se:

— Me desculpe por ter sido grosseira com você, Levi.

— Tá tudo bem.

— Obrigada por limpar o quarto.

— Eu não fiz muita coisa. Só joguei tudo no armário e varri.

— Já foi de grande ajuda. — Hange deu um sorriso lânguido, o qual se desmanchou. — Eu não vou viajar. Não posso deixar a Leona sozinha.

Levi mirou Hange por um tempo. Ela sentiu o peso do olhar e ergueu a cabeça. O capitão desviou os olhos. Ele viera do quarto trazendo o chapéu na mão, e agora o largava sobre a mesa.

— Eu também não. Vou ficar aqui e ajudar você.

— Levi, não.

Hange ergueu os braços como quem pede calma. O capitão franziu o cenho. Hange tentou sorrir, mas tudo que conseguiu foi dar uma risada nervosa. Ela abraçou Levi, um abraço sincero e cheio de pesar. O capitão processava a negativa e demorou para retribuir o gesto de carinho. Hange roçou o rosto no dele, sussurrando:

— Nós esperamos muito por essa viagem. Você tem que ir.

— Hange...

— Não, Levi. A Leona e eu vamos ficar bem. — Hange pôs as mãos nos ombros do capitão como ele havia feito com ela. Os dois se encararam. Agora, Hange sorria de verdade. — Vá e... huh, veja o mundo por nós dois. — Silêncio. Hange riu entredentes. — Muito dramático?

— Não seria você se não fosse dramático, quatro-olhos. — Retrucou Levi em seu timbre monótono.

— Idiota.

Hange achou que a conversa estava terminada. Entretanto, Levi não ia dar-se por vencido.

— Eu não tenho vontade de ir. Não vai ser a mesma coisa sem você. E você sabe que eu me preocupo com a menina e

— Levi, vá. — Apesar do sorriso, Hange perdeu o ar descontraído. — Alguém precisa vigiar o Eren, certo? E se os hizuruneses estiverem planejando uma armadilha para capturá-lo? Vá e cuide dos nossos soldados. — E então, Hange complementou: — É uma ordem.

— Isso se chama abuso de poder. — A voz monocórdia de Levi deixava as piadas mais engraçadas ainda.

— Então processe a Tropa de Exploração. — Brincou Hange, apertando o nariz de Levi.

— Vou providenciar. — Ele bateu na mão dela.

— Ótimo.

Os dois se encararam, e então beijaram-se. O beijo foi um pouco mais longo do que um selinho. Levi pegou o chapéu e se despediu. Hange o acompanhou até a porta. E, antes que o capitão passasse pelo portão, ela correu até ele e o beijou de novo, só para sentir o sabor da boca de Levi mais uma vez antes de se separarem. O capitão saiu e Hange o assistiu virar a esquina. Depois, ela entrou em casa e subiu as escadas, rumo aonde devia estar.

Hange entregou os remédios à Leona e esperou-a toma-los. Em seguida, deitou-se ao lado dela. Leona, tendo enfim Hange na cama consigo, agarrou a camisa da mãe e a fitou com seus olhos grandes e assustados. Hange conseguia ler, claro como uma mensagem num papel, o pedido para que a mãe não a abandonasse.

— Tudo bem, filhotinho. Sua mãe está aqui. — Hange ronronou. — Eu estou aqui.

A voz baixa e carinhosa surtiu seu efeito. Leona se aninhou no peito de Hange. A comandante abraçou a criança assustada, e Leona, que outrora segurava a roupa da mãe como agarraria uma corda de resgate, transformou o gesto amedrontado num carinho.

— M-mãe.

A voz de Leona, um ronco pungente, muito custou para proferir a palavra tão curtinha. Hange não ia deixar sua filha falar mais do que o necessário.

— Eu sei que dói. Não se preocupe. Eu vou ficar aqui com você.

Falar "eu vou ficar aqui" cutucou a ferida. Porém, o sorriso aliviado na face deformada de Leona funcionou como analgésico. Leona abriu a boca e Hange pôs o dedo indicador nos lábios da criança, a convencendo a poupar as energias.

Leona escondeu o rosto no corpo da mãe, respirando o calorzinho da presença dela. Hange a sentia inspirar e expirar. O fogo das velas se apagou. No escuro, Hange contou histórias para o filhotinho doente, e esse se mostrou um sonífero mais eficaz do que o chá e os medicamentos. Leona demorou para pegar no sono, em compensação quando dormiu adormeceu um sono pesado. No primeiro andar, o relógio cansou de apitar no horário em que Hange o programou para avisá-la do horário de pegar o trem. O avião já estava voando rumo a Hizuru. Hange não participou da expedição, e não se arrependia de ter ficado.