Levi estava encostado numa das baias do estábulo. A boca cerrada e os olhos descorados típicos da sua face neutra não demonstravam o ligeiro descontentamento derivado do prospecto da reunião que aconteceria daqui alguns minutos. De vez em quando, desviava o olhar entediado para a rua, onde o sol aparecia timidamente entre as nuvens após dois dias de chuva, mas sempre voltava para conferir a criança de quem tomava conta.

Por causa dos prisioneiros e dos espiões, a rotina virou uma correria sem fim. Trabalho incessante, de segunda a sexta. Fazia mais ou menos três semanas que Yelena e o inglêzinho arrombado haviam se juntado a eles. Onyankopon queria apresentar uma proposta à Hange, e por causa da falta de tempo nos dias úteis, a reunião fora marcada para sábado. Minnie, babá de Leona, não trabalhava fim de semana, e Hange precisou trazer a menina para o quartel-general. A comandante veio cedo para ajudar Mayla num experimento, o experimento deu errado, Hange ficou para resolver o problema, Leona se entediou e começou a chatear, Levi apareceu inocentemente no laboratório para confirmar o horário da reunião, e então aqui estava ele, cuidando do filho dos outros.

— Lucy!

O cavalo na baia girou as orelhas ao ouvir o próprio nome. A égua preta pertencia à Levi desde potranca. Era um ótimo animal. A égua baixou a cabeça até o longo pescoço encostar na cerca da baia. Na ponta dos pés, Leona alisou o focinho da égua de cima a baixo na maneira calma e confiante ensinada por Hange.

— Boazinha, boazinha...

Leona sussurrou para Lucy enquanto a afagava. A égua piscou lentamente em resposta, mantendo a cabeça baixa para receber carinho. Cavalos raramente se mantém entusiasmados tanto tempo pela mesma coisa, portanto, a capacidade da garotinha para hipnotizar Lucy era digna de palmas, mesmo a égua sendo mansa por natureza.

Nesse momento, Levi sentiu dentes puxando as costas de sua roupa. Olhou para trás e encontrou Buck cheirando o pano preto de sua camisa. Levi abraçou o pescoço do cavalo com apenas um braço, sem desencostar-se da baia. Buck parou a travessura e repousou a cabeça docilmente no ombro do capitão.

Se pelo menos eu conseguisse conquistar a sua cavaleira assim.

Pensou Levi enquanto afagava o cavalo de Hange. A paixão pela comandante vinha se tornando um sentimento destrutivo. Tirava o apetite tal qual o ciúme de Onyankopon, embora já o tivesse reduzido a um nível não muito doentio — não que isso aliviasse a dor, essa continuava bem forte. Levi levou uma rajada de ar quente no peito quando Buck bufou à moda dos cavalos. Pouco depois, o animal perdeu o interesse e se pôs a comer o feno na baia.

Enquanto isso, Leona abandonava a baia de Lucy para visitar as outras, chamando os cavalos pelo nome e tocando nos longos focinhos quando os animais permitiam. Alazão, Frufru, Príncipe, Trovão, Spirit, Jay, Lua, Rainha... apesar de pronunciar a maioria dos nomes errado, Leona sabia todos.

Após cumprimentar os cavalos, veio correndo para perto do capitão descansando ao lado da baia de Buck. Leona agarrou as barras da cerquinha, encaixando o nariz no espaço entre duas. O animal, indiferente, pastava distraidamente, seu traseiro grande e redondo voltado para os humanos sacudia a cauda para afastar as moscas.

— Puxa, senhor Levi — ela falava “sinhô Livi” — o nome do cavalo da minha mãe é Buck, a do senhor é Lucy, a da Sasha se chama Carne...

A garotinha fez uma pausa pensativa. Ao afastar-se da cerca, tinha as mãos sujas da fuligem da madeira, e o mesmo se aplicava às maxilas. Leona viu o pó nas palmas, fez careta e bateu-as na bermuda. A fuligem no nariz e nas bochechas continuou lá. Levi percebeu que a garotinha não sabia do rosto sujo. Leona baixou o olhar concentrado para o chão, quatro dedos da mão destra seguraram o queixo enquanto o indicador batia compassadamente acima do lábio superior. Ela refletiu por segundos a fio, e então perguntou:

— Senhor Levi, qual é o nome do cavalo do meu pai?

Hange nunca escondeu a identidade do pai de Leona, e como a garotinha estava na idade de fazer perguntas, era normal mostrar interesse por esse homem de quem tanto lhe falavam. Mesmo assim, o capitão estremeceu, pois era a primeira vez que a menina lhe fazia uma pergunta direta sobre Erwin.

O capitão retirou um lenço limpo do bolso da calça, agachou-se à frente da menininha e esfregou o pano gentilmente no rosto empoeirado. Leona fechou os olhos mesmo o pano estando baixo. Levi respondeu enquanto a limpava.

— O cavalo do seu pai era todo branco, até na crina e no rabo. O nome dele era Neve.

— Aonde o Neve está?

A voz infantil saiu embolada por Levi esfregá-la na bochecha. A garotinha sempre esteve cônscia do paradeiro de Erwin, e por isso o capitão nem piscou para dizer a verdade sobre a montaria do falecido comandante.

— Ele morreu.

— Ah, que pena.

Leona ficou desapontada num primeiro momento, mas no outro já se distraia com um gordo besouro se arrastando preguiçosamente pelo chão de pedra do estábulo. Levi guardou o lenço sujo e tirou o relógio para conferir as horas. Estalou a língua ao constatar que faltavam vinte minutos para a reunião. A caminhada do estábulo até o quartel-general era de dez.

— Muito bem, acabou o recreio. Vamos lá ver a sua mãe, bebê.

Leona já ia fazer quatro anos, nem de longe podia ser chamada de bebê. Todavia, Levi usava essa palavra para referir-se a ela desde antes a garotinha vir ao mundo e não conseguia largar o hábito. A mesma coisa acontecia com o apelido que dera para Hange.

— Oba!

Leona saiu voando pela porta do estábulo. Levi foi atrás, andando. No lado de fora, o cavalariço juntava feno, atirando os fardos quadriculados numa pilha. A garotinha acenou para ele.

— Tchau, moço!

O cavalariço parou de trabalhar para acenar de volta, limpando o suor da testa com a outra mão. A menina se despediu com vários boas-tardes, te vejo depois e até logos. Levi, bem menos empolgado, só ergueu o braço para dar tchau ao empregado.

Logo depois, garotinha e capitão andavam juntos pelo campo. O sol das quatro não era forte e a gélida brisa do fim do outono beirava o desagradável. Levi vestia camisa de manga comprida e calça, Leona, porém, trajava bermuda e camisa. Levi achava que as pessoas podiam ser divididas em duas turmas: as que usam casaco no verão e as que vestem bermuda no inverno. Leona faz parte do segundo grupo.

A menina ia na dianteira. Quando passavam por algum animal, ela corria para cumprimenta-lo. Alguns ficavam indiferentes à sua presença, principalmente as vacas, mas muitos giravam as orelhas em resposta. De vez em quando, Leona corria muito à frente de Levi, e ele precisava chamá-la para impedi-la de ir longe demais. Em certo ponto, a menina encontrou um longo galho e ficou com ele pelo resto da caminhada.

Agora, eles andavam no mesmo ritmo. O galho ora era uma bengala de cego, ora de cavaleiro, ora a muleta de uma pobre mulher sem perna. Nesse momento, era uma espada.

— Que pena que o Neve já virou estrelinha.

Comentou Leona. Levi não achou estranho vê-la lamentar a morte de um cavalo em vez da do próprio pai. A menina conhecia cavalos aos montes, mas nunca tinha visto um pai, nem o seu, nem o de ninguém. É complicado sentir falta de algo ou alguém que você nunca conheceu. Levi entendia isso. Ele não sabia o nome do homem que engravidou sua mãe e nem queria saber.

— É. Era um bom cavalo.

Leona abandonou a espada improvisada ao chegarem no fim do campo. O tempo começou a esfriar, fazendo o capitão abrigar as mãos nos bolsos das calças. Em menos de um mês a terra estaria coberta de neve. A Tropa de Exploração ainda tinha mais uma missão para fazer antes do inverno começar. Levi não estava nem um pouco animado para render marleyanos ao lado de Yelena e seu companheiro conquistador de boceta. E quando lembrava que Zeke estava acima deles, planejando um plano secreto para "libertar Eldia" após ter matado tantos em Paradis... ah, seu sangue fervia. Zeke pode buscar redenção o quanto quiser, jamais receberia o perdão de Levi.

XXX

— Mãe!

Leona chamou Hange ao encontrá-la trancando a porta do laboratório. A comandante carregava um casaquinho de criança no braço dobrado. Hange estava sozinha, Mayla já tinha ido embora. Leona correu até a mãe e abraçou-a pela perna, esfregando o lado do corpo nela à altura da coxa, imitando um gato em busca de atenção. Hange tocou o cabelo da filha num carinho leve e agradeceu ao capitão por tê-la entretido.

— O senhor Levi me levou no estábulo.

— É mesmo, Bolinha?

— Ele disse que o meu pai teve um cavalo chamado Neve. Você sabia, mãe?

Levi viu o sutil espanto cruzar o rosto de Hange e não ficou desconcertado perante a reação. Hange estava simplesmente surpresa por Leona ter perguntado do pai à outra pessoa além dela – a comandante sequer considerou a ideia de Levi ter falado por si mesmo, sabia que ele jamais faria isso. O semblante desapareceu rapidamente e a comandante voltou a sorrir, bagunçando o cabelo já desgrenhado da filha.

— Não sabia. Pelo nome, devia ser um cavalo branco. Vem, coloca o casaco, está esfriando.

— Não quero.

— Quer sim. Me fala se eu acertei, o cavalo era branco?

Hange colocou o casaco aberto nas costas de Leona, entretanto, a garotinha independente recusou a ajuda – ela gostava de fazer tudo sozinha. Leona errou o buraco três vezes até conseguir enfiar o braço, e enquanto colocava o segundo, torcendo a cara por causa do esforço, respondeu sobre o cavalo.

— Sim, branco até nas crinas e no bumbum.

O trio começou a caminhar para a sala onde a reunião com o inglês desgraçado aconteceria. Na maior parte do tempo, Levi achava estar lidando bem com o ciúme da amizade entre Hange e Onyankopon, mas sempre que pensava no rapaz, seu estômago ardia e os dentes rangiam. A comandante e o espião vinham se encontrando quase todos os dias, e as vezes passavam tardes a fio conversando no escritório. Levi se perguntava o que eles tanto faziam lá dentro.

— Mas o Neve já virou estrelinha. Ele tá com o meu pai, mãe?

Leona caminhava à direita de Hange, de onde podia ser vista. Levi se posicionava à esquerda. Hange ia entre os dois. O capitão andava com as mãos nos bolsos, a comandante com os braços balançando no ritmo da caminhada, e Leona ia brincando de pular nos quadrados do piso, evitando os rejuntes.

— Sim, os dois estão no céu.

— Depois você me mostra qual delas é o Neve?

— Ah, são tantas estrelas, nós nunca vamos achar.

As duas continuaram conversando. Leona era igualzinha à Hange no quesito diálogo: se você der corda, ambas não calam a boca. Logo, a garotinha ficou empolgada e começou a falar no dialeto rápido e atropelado compreendido apenas por Hange, assim deixando Levi de fora da conversa.

Leona tagarelou até o fim da escadaria para o segundo andar do quartel-general. Para chegar a sala da reunião, precisariam passar pelo corredor do piso xadrez. A garotinha tinha um medo profundo do longo corredor de janelas gigantes, e a irracionalidade do pavor intrigava os adultos. Leona, abandonando a postura independente, ficou esgazeada antes mesmo de pisar nos quadrados vermelhos. As perninhas tremeram tanto quanto a voz amedrontada. Só uma criança com medo do bicho-papão.

— Mãe.

Hange a pegou no colo. Leona escondeu o rosto no pescoço da comandante, como se temesse olhar por sob o ombro da mãe e ver um monstro os espreitando pelas costas. A atmosfera tranquila absorveu o pavor infantil, envolvendo os três num desconforto penetrante como pequenas agulhas, e ambos os adultos, por alguma razão subjetiva tão irracional quanto o horror da menina, não falaram nada durante a travessia. Levi, cujas reações sempre pendiam para a violência, trincou os dentes devido à súbita inquietação e teve vontade de mandar Leona parar de ser uma chorona. Ao chegarem no meio da passagem, Hange, ansiosa pelo medo da filha, olhou por cima do ombro para a metade abandonada do corredor, e depois para as teias de aranha no canto superior da parede, onde a luz do sol não alcançava. Levi fez o mesmo.

Nenhum deles viu nada.

XXX

O trio avistou Yelena, Armin e Onyankopon perto da porta aberta da sala onde aconteceria a reunião. Barulho de cadeiras arrastadas e vozes vinham do aposento, indicando que outras pessoas já haviam chegado. O corredor xadrez há muito ficara para trás, Leona andava corajosamente pelo chão de madeira benevolente daquela parte do quartel-general.

— Mano!

Armin parou de conversar com Yelena para cumprimentar a garotinha que se afastara consideravelmente da dupla de superiores para ir até o garoto. O soldado se agachou para abraça-la. Leona o presenteou com beijos curtos na bochecha.

— Essa é a Bolinha? Nossa, como você está grande! Com quantos anos você está?

Leona olhou para a palma da própria mão. Empurrou o polegar para dentro, depois o dedo mindinho. Ponderou o resultado por um momento. Após ter certeza, mostrou três dedos ao soldado.

— Assim, ó.

— Três? Puxa vida, que mocinha.

Leona deu risinhos alegres. A essa altura, Hange e Levi se aproximavam. A comandante acenava animadamente para Yelena e Armin. Onyankopon estava agachado a poucos metros além dos loiros, conferindo alguma coisa na mochila de lona.

— Quem é esse garotinho?

Perguntou Yelena, arqueando a sobrancelha para a criancinha de cabelo curto. Leona franziu o cenho, apertou os punhos, juntou as pernas uma na outra e ergueu a face enfezada para a soldada. Leona pensava que sua cara de “não mexa comigo” botava medo em todo mundo, mas era totalmente o oposto, principalmente com aquele beicinho engraçado.

— Não sou menino.

Hange e Levi se juntaram ao grupo. Leona correu para os joelhos da comandante, segurando o pano das calças brancas ao refugiar-se atrás delas. Encarava Yelena através de um ameaçador olho apertado.

— É minha filha. O nome dela é Leona.

Yelena apoiou as mãos na cintura e repetiu o nome da criança, sorrindo para ela. Leona escondeu a outra metade do rosto atrás do corpo da mãe.

— Eu não sabia que você era casada, comandante.

Ao comentário de Yelena, Levi mirou Onyankopon para conferir a reação do inglês. Ele continuava fuxicando a mochila, alheio à conversa dos outros. Se escutara a suposição de Yelena e ficou desapontado, então ocultou a decepção muito bem. Ou não se importou com informação, também tinha essa possibilidade.

— E não sou. Somos só nós duas.

Levi continuou prestando atenção em Onyankopon, agora em busca de suspiros, sorrisos ou relaxamento na postura, em suma, qualquer indício de alívio. O inglês permaneceu impassível. A cabeça de Levi começou a matutar, metade considerando Onyankopon já saber dessas informações – esse pensamento incendiou seu estômago – e a outra dizendo para esperar como ele procederia à presença de Leona e tirar conclusões a partir daí.

Como se captasse os pensamentos do capitão, o inglês abandonou a mochila e suspirou pesadamente ao levantar.

— Desculpe, Armin, esqueci de trazer a bússola.

— Tudo bem, outro dia você me mostra.

Tranquilizou Armin. Enquanto isso, a garotinha escondida atrás da comandante estava virada em olho. Leona estudava Onyankopon com espanto admirado. Suas pupilas eram dois pontinhos minúsculos encarando a pele negra, o queixo despencava para longe do lábio superior. Levi olhou a menina de soslaio. Os olhos dela tinham o mesmo formato dos de Erwin, o semblante era de família.

— Huh? E essa menininha?

Onyankopon não sabia de Leona. Isso significa que Hange não comentou sobre família, logo, não tiveram nenhuma conversa sobre vida pessoal. Levi escondeu o contentamento na neutralidade.

— É minha filha. Bolinha, diz oi pro senhor Onyankopon.

Disse Hange usando sua voz mais delicada. Leona havia trocado de posição; agora, em vez de esconder-se atrás de Hange, a abraçava pelo lado. A comandante colocou a mão nas costas da filha e tentou empurrá-la, mas a garotinha agarrou-se à sua perna com força, recusando-se a abandonar o totem protetor.

Levi teve vontade de rir. Dentro do capitão, não tão no fundo assim, a voz da consciência desejou ver Leona apontando o dedo para Onyankopon e o xingando de alguma coisa bem cabeluda. Filho da puta, talvez. Todos gostavam do maldito inglês ladrão de mulheres, menos ele. O que Levi mais queria era compartilhar antipatia, e se pudesse dividi-la com a filha de Hange, melhor ainda.

No entanto, isso não aconteceu. Na cabeça de Leona, todos dentro do quartel-general eram seus amigos até que se provasse o contrário. De repente, ela ergueu o dedo indicador na direção de Onyankopon e apertou a calça da mãe com a outra. A voz infantil ecoou corredor a fora quando Leona gritou:

— MÃE, OLHA QUE HOMEM LINDO!

Com exceção de Levi, cujos olhos se apertaram em ódio, todos os outros adultos ficaram desorbitados diante a observação de Leona. Yelena, gargalhando, deu batidinhas no ombro do inglês atônito.

— Se uma criança diz que você é bonito, é porque você é.

Onyankopon pavoneou-se erguendo a gola do terno, levantando a cabeça e sorrindo de olhos fechados, todo convencido. O inglês colocou a mão na boca com delicadeza exagerada e soprou beijinhos para os outros, incluindo Levi.

— Vocês viram? Eu sou um galã. Tudo bem, senhoras, não briguem, tem Onyankopon pra todo mundo.

O desgraçado ainda faz pose, pensou Levi, se não tiver ninguém pra separar na hora que eu te pegar... O capitão se fantasiou quebrando os dentes branquinhos e alinhados do sorriso exibido. Onyankopon podia ser alto, treinado em Marley e o caralho a quatro, sem as armas, não passava de um espiãozinho de merda. Levi o partiria em três facilmente com apenas uma mão, e usaria a outra para tapar o bocejo durante a surra. A fantasia não trouxe deleite. Ciúme é ingerir veneno de rato esperando que outra pessoa morra.

Leona, enganchada na calça de Hange, saltou amarrotando e puxando a roupa da mãe enquanto pulava. A garotinha sacudia a cabeça e falava estridentemente feito um papagaio enlouquecido. A comandante desvencilhou-se das mãos dela, segurando-a pelos pulsos.

— Tá, tá, quer tirar a minha calça na frente de todo mundo?

Hange sorria na falsa impaciência. Levi, de braços cruzados, estreitou Onyankopon e imaginou que o inglês bem desejava ver Hange sem calças. Ele também, diga-se de passagem.

— MASMÃELEÉLINDUPALECEUMAPINTULA.

Yelena e Levi fizeram careta perante a voz esganiçada. Armin e Onyankopon se entreolharam, ambos com interrogações na face.

— Você entendeu? — Perguntou Onyankopon.

— Nem uma palavra. — Respondeu Armin.

Paralelo à conversa, Hange segurava a própria barriga, gargalhando feito louca. Já tinha largado Leona. A garotinha tomava coragem para se aproximar de Onyankopon, dando um passinho de cada vez. A comandante parou de rir e usou o pulso para limpar o olho lacrimejante.

— Ela disse que é o Onyankopon é lindo feito uma pintura.

Yelena, Armin e Onyankopon riram em uníssono, sendo que a marleyana batia no próprio joelho em compassos com as risadas. Levi arqueou a sobrancelha. Leona era uma criança de três anos, jamais pensaria numa comparação tão complexa por si mesma.

— Aonde ela aprendeu isso?

— Ontem eu li um livrinho pra ela onde o príncipe fala essa frase pra princesa.

Onyankopon se ajoelhou para ficar na mesma altura da menina. Leona nunca tinha visto um negro antes, era normal estar abismada. O inglês deu a mão para a garotinha, a palma estrategicamente virada para baixo. Leona alisou a pele escura, dando risadinhas ao tocá-lo. E então, quando Onyankopon lhe mostrou o interior da mão, o espanto tomou conta da face infantil. Os adultos tamparam os ouvidos quando ela berrou fino.

— A MÃO DO SENHOR TEM DUAS CORES! MÃEEEEE OLHA OLHA OLHAOLHAOLHAOLHA!

Esse era outro traço da personalidade de Leona. Ela gostava de mostrar tudo, absolutamente tudo, aos adultos, especialmente para Hange, nem que fosse um pedaço de papel achado no chão.

— Tá, Leona, eu já vi. Passei a semana toda contemplando a beleza do senhor Onyankopon, estou cansada de olhar pra ele.

Levi rosnou. Hange sequer pestanejou para falar essa frase depravada, libidinosa e oferecida (na opinião do capitão, é claro, na de Hange não passava de brincadeira). O inglês jogou a cabeça para trás, e sua risada grave preencheu o corredor.

— Senhor Onypon, é um prazer me conhecer!

Dessa vez, até Levi teve vontade de rir da frase errada dita por Leona. Onyankopon apertou as bochechas da garotinha e disse que era, de fato, um prazer conhece-la. Depois disso, todos entraram para a sala de reunião aonde Jean, Sasha, Mikasa, Connie e Floch esperavam por eles. Leona os cumprimentou com acenos, tal como Hange. A comandante virou para fechar a porta, e enquanto ela estava de costas, Yelena se colocou de cócoras à frente de Leona.

Os olhos grandes e gentis da soldada eram apimentados com provocação instigadora, o sorriso logo abaixo era uma ligeira curva benigna. Ela chegou perto do ouvido de Leona, pôs a mão em concha na orelha da menina e fingiu sussurrar:

— Seu apelido é Bolinha, certo? Ei, Bolinha, coloca a mão no meu bolso. — Yelena indicou o bolso estufado do casaco. — O que você pegar é seu.

A garotinha tentou não sorrir e falhou, o canto do lábio tremeu numa risadinha incitada. Leona esticou a mão aberta para o bolso gordo do paletó da soldada, mas parou centímetros antes de enfiar os dedos, o bracinho tremendo no ar como uma bicicleta freando bruscamente. Levi imaginou que a mesma comparação se aplicava ao que aconteceu no cérebro jovem. Mantendo o braço no ar, Leona girou a cabeça para Hange.

— Mãe, deixa?

Hange já estava consentindo antes de Leona terminar o pedido. O sorriso voltou, agora mais largo e contente. A garotinha enfiou a mão no bolso da soldada sem considerar ser surpreendida por um escorpião venenoso, afinal, se a pessoa estava no quartel-general, então era de confiança.

Leona fuxicou o bolso sem entender no que tocava. O sorriso diminuiu até desaparecer. A garotinha puxou o punho fechado. Ao abri-lo, haviam três retângulos embrulhados em papel colorido na palma da mão pequena. Leona arqueou a sobrancelha, usando o dedo indicador da outra mão para cutucar o presente estranho.

— Que isso?

— O nome é chiclete. Você coloca na boca e mastiga até o gosto acabar. Minha mãe me falava para nunca engolir chicletes porque grudam nas tripas. Mas, se quer saber...

Os olhos de Yelena ensombreceram na pausa dramática. Leona recuou. Devagar, Yelena olhou para a esquerda e para a direita, como conferindo se alguém as vigiava às escondidas. Então, a marleyana tornou a se aproximar do ouvido da garotinha. Dessa vez, sussurrou de verdade.

— ...é tudo mentira. Pode engolir à vontade.

A desconfiança de Leona deu lugar a risadas. Ela apertou os retângulos no peito, saltando no mesmo lugar. A primeira coisa que fez foi correr até Hange, praticamente prensando os doces na barriga da comandante.

— Eu peguei três. Mãe, toma um pra você.

— Pra mim? Puxa, muito obrigada.

Hange guardou o presente no bolso da calça. Ela encontraria o chiclete no mesmo lugar duas semanas mais tarde, a embalagem estaria apagada pela quantidade de vezes que a calça foi lavada. Leona foi até o capitão e ofereceu o segundo chiclete. Levi, contudo, recusou. Então, a garotinha correu até os soldados na outra extremidade da sala, indo direto para Armin e Mikasa. Foi com o bracinho para o alto, oferecendo o chiclete já de longe.

— Mano? Mana?

Ambos os soldados recusaram, e Mikasa aconselhou Leona a guarda-lo para mais tarde. Em contrapartida, a garotinha foi até Connie e ofereceu o chiclete para ele também. Connie sacudiu a cabeça em negativo. Após isso, Leona simplesmente deu as costas ao resto do grupo. Ela começou a andar de volta para perto dos superiores, pondo a ponta da língua para fora da boca enquanto abria a embalagem do chiclete.

Hange pigarreou. Leona parou antes da metade do caminho e ergueu os olhinhos para a mãe.

— Ofereceu pra uns, tem que dar para todos.

Leona deixou os braços caírem ao lado do corpo, o lábio inferior fez bico.

— Ah, mãe.

Levi, Yelena e Onyankopon pensaram que a menina ia abrir o berreiro, no entanto, bastou Hange endurecer o olhar para a garotinha obedecer bem rapidinho. Ela ofereceu o chiclete a três soldados até perdê-lo para Sasha.

— Bem, acho melhor darmos início a reunião. O que vocês têm aí pra gente?

Hange inclinou a cabeça para a pequena caixa e o longo cartaz enrolado em formato de tubo. Onyankopon pediu licença para pegá-los e Levi aproveitou a deixa para escolher um lugar em volta da mesa. Yelena, em vez de fazer o mesmo, foi para o outro lado da sala a fim de olhar a janela — a reunião era toda de Onyankopon, ela só estava lá para fazer companhia. Já Hange pegou uma das cadeiras largadas e colocou-a na parede à direita, o lado de seu olho. A comandante segurou Leona por baixo dos braços e a fez sentar nessa cadeira.

— Fica quietinha até os adultos terminarem de conversar.

— Tá bom.

Murmurou Leona sem exatamente ouvir o que a mãe dissera, focada em abrir a embalagem do chiclete sem danificá-la. Hange a deixou e foi para a mesa. Leona conseguiu chegar ao doce cor-de-rosa pouco depois, guardou a embalagem colorida no bolso e passou os próximos dez minutos balançando as pernas animadamente no ar. A explosão de açúcar era incrível.

Onyankopon havia estendido o largo cartaz na mesa de madeira. Hange e seus subordinados aglomeraram-se à volta da superfície. As outras cadeiras foram retiradas para abrir mais espaço. À princípio, o desenho apresentado por Onyankopon não fez sentido, mas conforme o inglês explicava o significado dos nomes ali escritos, que a área branca no centro do desenho era água e as bordas eram terra, o projeto começou a ganhar vida na cabeça dos eldianos.

— Precisamos fabricar as coisas que Paradis precisa para acompanhar a infraestrutura dos outros países. Eu gostaria de começar com isso aqui. O nome disso é porto.

— Porto? As crianças vão adorar. — Interrompeu Connie.

— Isso não é uma pracinha, jumento. — Disse Jean.

— Será que vai ter comida?

Sasha suspirou sonhadoramente. Ela mascava o chiclete com a boca aberta, o barulho era semelhante a uma vaca pastando. Floch empurrou Jean para ficar mais perto da mesa, o soldado resmungou uma reclamação em resposta. Hange analisava o cartaz com exímia concentração, o único olho castanho relendo as curtas anotações pelo menos cinco vezes. De repente, uma lâmpada se acendeu na cabeça da comandante.

— Entendi. Isso é um lugar para os navios atracarem em segurança. Nós vamos construir barcos e fazer comércio através do mar.

Onyankopon piscou, surpreso por Hange ter deduzido o plano antes da explicação ser terminada. Os lábios grossos do inglês sorriram de maneira orgulhosa.

— Isso mesmo, senhorita Hange, o porto vai conectar Paradis com o mundo.

Levi, de braços cruzados ao lado de Hange, resmungou consigo mesmo, apertou os olhos perigosamente e pensou:

Ai ai senhorita Hange ui ui olha como eu sou respeitador. Essa parte do pensamento veio numa voz fina que não pertencia a ele, a próxima já foi no seu timbre normal. Pau no seu cu e nessa sua educaçãozinha, inglês filho da puta, eu tô ligado no teu joguinho.

Onyankopon pegou a pequena caixa e tirou vários barcos de brinquedo do seu interior. As miniaturas representavam tipos diferentes de navios, desde bélicos até petroleiros, e foram pintados com as cores referentes aos barcos verdadeiros. O inglês preencheu as baias com os brinquedos e o restante foi colocado na área branca representando a água. Hange, visualizando a dimensão real do porto através do projeto, entreabriu a boca e sua pupila dilatou até pintar toda a íris castanha. Ela juntou as mãos fechadas perto do peito e mostrou todos os dentes num largo sorriso. Os ombros da comandante começaram a tremer, e então ela saltou socando o ar em alegria articulada.

— Isso é incrível! Adorei! Adorei!

Connie, Jean e Sasha ainda não tinham entendido a magnitude do plano apresentado por Onyankopon, e por isso não mostraram nem metade do entusiasmo de Hange. Na verdade, os soldados pareciam entediados.

— Tá, mas aonde as crianças vão brincar?

— É, se conectar com o mundo é importante, mas tem outras coisas que importam também. Saunas, por exemplo.

— Aliás, Onyankopon, por que a sua pele é marrom?

A última frase era de Sasha. Os demais ficaram em silêncio perante a pergunta desconcertante. Hange preparou-se para dar uma resposta científica, entretanto o inglês respondeu primeiro.

— Bem, o ser que nos criou pensou que ia ser mais interessante ter vários tipos diferentes de pessoas espalhadas por aí.

Armin, calado até então, porém igualmente interessado, ficou surpreso com o apontamento de Onyankopon. Uma criatura, um Santo ou um homem acima de todos eles, o qual foi designado poder para criar novas vidas. O garoto nunca tinha pensado nisso.

— Quem você acha que nos criou? — Questionou Armin.

— A mesma pessoa que entregou os titãs à Ymir. Em outras palavras, Deus.

Yelena, do outro lado do aposento, trocou olhares com Onyankopon. Aparentemente, o significado da face dura não era bom, pois o inglês perdeu o fio da meada por um momento. No próximo, ele dizia, usando ênfases:

— Algumas pessoas acreditam nisso. Bom, cada um crê no que quer. A liberdade tá aí pra isso.

A frase teve impacto na atmosfera já harmoniosa. Armin ficou pensativo em seu canto, não sorria, mas seus olhos brilhavam, era como se alguma coisa tivesse mudado dentro dele, um tipo de mudança que não pode ser revertida. Jean sorriu de canto, descrente. Connie e Sasha claramente não entenderam nada. Floch arqueou a sobrancelha, enquanto Jean parecia apenas relutante em crer, o ruivo estava totalmente desacreditado. Hange buscou os olhos de Levi, sorrindo pequeno. O capitão, deixando-se levar, retribuiu o olhar gentil.

E então, duas mãozinhas seguraram a borda da mesa. Leona ficou na ponta dos pés para enxergar os objetos na superfície. Tinha engolido o chiclete.

— Do que vocês estão brincando? Mãe, deixa eu ver?

Hange não ficou irritada pela intromissão mesmo tendo dado ordem clara para Leona não levantar até o fim da conversa dos adultos. A reunião tinha durado meia hora, para uma criança extrovertida de três anos, Leona aguentou bastante em silêncio sem nada para brincar. Hange era capaz de compreender isso, e de qualquer forma, Onyankopon já havia terminado. A comandante ergueu a garotinha do chão. Leona passou um braço pelo pescoço da mãe enquanto olhava para o largo cartaz.

— O que é esse desenho?

— É um porto.

— Pra que serve?

— É pra outros países visitarem a gente, filhotinho.

Leona apertou o cenho como fez no estábulo, tentando entender o que a mãe acabara de falar. Hange tinha essa mania de superestimar a inteligência dos outros, incluindo a de crianças pequenas. A menina se inclinou para pegar os navios. Hange andou para trás, impedindo.

— Esses barquinhos não são nossos.

Onyankopon virou para a criança no colo da comandante, sorrindo enternecido.

— Qual deles você acha mais bonito?

Leona bateu o dedo no espaço entre o lábio superior e o nariz, murmurando um longo “hummm” gutural. Por fim, apontou para o barco cujo casco era pintado de azul e base de vermelho, o navio era largo e achatado feito uma enorme plataforma. Ele era o único carregando carga, nesse caso, pequenas caixas coloridas.

— Você gostou do porta-contêineres. Hehe, em breve veremos bastante deles por aqui.

Onyankopon pegou o barco. As caixinhas não se moveram, mostrando que eram parte do brinquedo e não peças soltas. Entregou-o à Leona. Ela pegou o navio pela base com todo cuidado do mundo, como se fosse uma pedra preciosa. Os olhos incandescentes ficaram do dobro do tamanho. Ela mostrou o barco à Hange quase o enfiando no rosto da cientista.

— Mãe, olha o que o senhor Onypon me deu.

Hange perguntou o que boas meninas respondem quando ganham presentes. Leona prontamente voltou-se para Onyankopon e agradeceu (bigada, sinhô Onypon). Ela forçou o corpo para baixo, a comandante a colocou no chão e a garotinha correu para os jovens do esquadrão 104, mostrando o brinquedo a eles.

— Olhem o que eu ganhei.

Armin apoiou as mãos nos joelhos para ver o brinquedo e Jean pediu para segurar o barco. Levi pensou que Onyankopon era um tremendo oportunista safado. Atacando a filha para chegar na mãe, foi o pensamento dele. Contudo, Leona estava tão feliz... dessa vez, Levi não foi capaz de sentir raiva do inglês, como se o ódio cego batesse de cara numa barreira criada de repente no caminho para o coração do capitão.

Na rodinha, Connie tomou o navio de Jean e convidou Leona para colocar o brinquedo na água. A garotinha concordou com pulinhos e palmas. Os outros soldados também ficaram animados feito crianças. Tinha chovido bastante na noite anterior, então tinham muitas poças d’água para brincar. Mikasa perguntou à Hange se estava tudo bem levarem Leona ao pátio. Não foi preciso insistir para receber permissão.

— Só não deixem ela tirar o casaco.

— Não vamos deixar.

— Quem chegar por último é a mulher do titã.

— E quem chegar primeiro vai ganhar sobremesa dupla no jantar.

— Ei!

Connie e Sasha apostaram corrida com Leona até o térreo, os três saíram em disparada pela porta aberta, a garotinha levando o porta-contêineres no colo. Armin saiu atrás, gritando para tomarem cuidado com as escadas. Jean e Mikasa foram em aceleração leve. Floch ficou em dúvida se os acompanhava. Decidiu ir. O ruivo saiu pedindo para os outros o esperarem.

Quando o último soldado desapareceu, Onyankopon coçou a cabeça.

— Acho que o barco não vai voltar inteiro.

Os ombros de Hange subiram e desceram quando ela riu de boca fechada. Tinha as mãos nos bolsos do casaco e o único olho transbordava complacência ao mirar a porta aberta por onde os soldados sumiram levando sua filha. Hange girou a cabeça para olhar Levi, a expressão da comandante era suave. Ele correspondeu o sossego, sabendo o que ela diria antes das palavras virem.

— Você está errado. A Leona não vai deixar ninguém estragar aquele navio.

Onyankopon ficou envergonhado diante a resposta de Hange, mas a comandante o tranquilizou através do sorriso gentil. O inglês sorriu timidamente.

No fundo da sala, Yelena permanecia na mesma posição ao lado da janela; as mãos atrás das costas e o pé esquerdo apoiado na parede. A marleyana olhou pelo vidro e viu soldados correndo pelo térreo, entre eles havendo uma miúda criancinha loira. Os gritos felizes chegavam abafados aos ouvidos limpos. Enquanto Hange, Levi e Onyankopon organizavam as cadeiras, Yelena pensou, sombriamente, como veio a calhar descobrir sobre a família da comandante da Tropa de Exploração antes de Zeke resolver vir para Paradis. A informação veio na hora correta, como se houvesse alguém lá em cima escrevendo o destino. Se o Deus de Onyankopon de fato existisse, a tal entidade compartilhava a mesma opinião da soldada marleyana.

Uma pessoa com filhos pode conspirar contra o plano de Zeke Yeager, por mais lúcido e eficaz que a estratégia criada por seu salvador seja. Se a comandante Hange resolvesse bancar o Judas, era bom ela manter aquela adorável garotinha bem trancada. Não que fosse fazer algo ruim com a menina, não, claro que não. No entanto, Hange não saberia disso até entrar nos eixos.

Yelena deslizou a mão para o bolso. Nenhum dos outros três ouviu o barulho de papel rasgado. O retângulo cor-de-rosa voou e foi abocanhado no ar. Por baixo do cabelo tigelinha, a cabeça de Yelena começou a construir um plano vil. Não sentia orgulho de arquitetar sequestros, porém, em tempos de guerra, era necessário elaborar esquemas alternativos para caso as coisas não corressem conforme o planejado.

Mas, isso era assunto para daqui alguns anos. Por ora, o tabuleiro estava a seu favor.

Lá fora, Leona pousava o barquinho cuidadosamente numa imensa poça d’água. O vento empurrou o navio. O brinquedo navegou livremente, ganhando velocidade. Leona foi atrás dele e os soldados correram com ela.

O sabor adocicado do tutti-frutti desvanecia na saliva. A língua moldou o doce até transformá-lo numa fina camada disforme. O chiclete escapou em forma de bola. Yelena soprou e soprou até uma gigantesca bolha cor-de-rosa crescer à frente do focinho humano. Encheu-a de ar até a cor rosada se tornar transparente. E então a bola cedeu à pressão, explodindo num estouro curto.