Estavam outra vez no oceano. A base outrora constituída de barracas adquirira uma infraestrutura digna do exército; dormitórios militares foram construídos na área plana, além de uma casa central para reuniões, e o albergue para prisioneiros fora levantado antes dos quartos para os superiores. Essa última casa era larga, simples e com grades nas janelas, dez soldados a vigiavam dia e noite, cinco no lado de fora e cinco no de dentro.

Os navios marleyanos capturados eram guardados em alto mar numa área fora da rota marítima dos que ainda chegariam na ilha. Há três dias, a base foi visitada por engenheiros. Armin ajudou-os a designar a melhor parte da costa para o futuro o porto. Após a construção, os barcos apreendidos serão abrigados nas baias e farão parte de Eldia. Enquanto isso, Hange já conseguira com Yelena a planta dos navios de guerra, bem como de carga e passageiros. Esses desenhos foram copiados e passados adiante para os engenheiros que os visitaram, e eles deviam trabalhar em conjunto com os estrangeiros na construção dos barcos paradisianos. É complicado forçar grupos rivais a trabalharem juntos, mas Hange achava que tudo era possível com um pouquinho de paciência e boa vontade.

Hange acreditava na benevolência existente em cada coração vivo. Levi, contra a ideologia do ser humano bondoso por natureza, achava isso uma estupidez sem limites. Quando Hange, dois anos atrás, expôs seu sonho em conhecer, aprender e trabalhar com os indivíduos do outro lado do oceano, Levi pensou que sua pobre amiga finalmente atravessara o horizonte do retardamento e alcançara o nirvana da esquizofrenia.

Entretanto, quanto mais semanas passavam, mais Levi mordia a língua. Os pesquisadores marleyanos se mostravam menos relutantes a dar aula aos eldianos, e o que antes era uma tarefa desgastante feita a contragosto começava a se tornar aprazível. Os soldados de guerra permaneciam firmes em suas convicções preconceituosas, porém, Levi sentia que amoleciam. A prova perfeita era Niccolo. Os membros do esquadrão 104 gostavam dele, e o rapaz parecia feliz em trabalhar na cozinha em vez de arriscar a vida por aí.

Isso era graças a Hange e sua aversão ao ódio. Paradis já teria um porto, uma ferrovia e até um aeroporto caso açoitassem os engenheiros. Com ameaças, mentiras e jogo político, poderiam ter se aliado a outras nações e botado os voluntários para correr. E, com um tiquinho de tortura, talvez já tivessem arrancado o plano secreto de Zeke da boca de Yelena – embora Levi não tivesse tanta certeza disso, Yelena parecia disposta a morrer de boca fechada. No entanto, Hange não queria trabalhar por esse viés. Para ela, alguns fins não justificavam os meios. A diferença entre o comando de Hange e o de Erwin ficava clara quando olhada por esse ângulo.

Levi pensava nisso enquanto esperava sua hora de agir. A lua brilhava no leste, os navios chegariam daqui a pouco e a noite seria longa. Dessa vez, não era agraciado pela companhia de Hange. A comandante executava sua parte do plano na casa de comando com Yelena e Onyankopon. Usando a tecnologia de Marley, Hange desenvolveu uma estratégia que consistia em atrair os barcos através da comunicação sem fio — outra novidade vinda do mundo além do oceano. Já tinham usado esse plano várias vezes e nunca falhou. Os soldados sempre eram pegos de surpresa pelo titã de Armin e acabavam rendidos rapidamente, sendo as pouquíssimas baixas originárias do lado inimigo, na maior parte dementes tentando escapar a nado. Os fujões sempre voltavam na tarde seguinte, jazendo mortos e inchados na areia da praia.

O navio irrompia no horizonte, apenas uma sombra mais escura que a água. Levi se escondia atrás das rochas, e pelo menos outros cem asas da liberdade faziam o mesmo. O barco ganhou cor conforme se aproximava da costa. De longe, Levi viu pequenos barquinhos descendo lentamente do maior. Pouco depois, uma explosão se fez no mar escuro. Os marleyanos abandonaram o navio feito formigas fugindo do formigueiro após uma criança incendiá-lo. Uns retardados nadaram para o mar aberto, mas a maioria veio para a terra. Quando as mãos imundas tocaram na areia branca, Levi e seus soldados apareceram para recepciona-los.

Um ofegante soldado barbudo agarrou as rochas. Assim que a larga cabeça emergiu, Levi colocou o cano da submetralhadora no capacete militar. Ambos sabiam que aquele pedacinho de ferro não conteria o poder da arma. O homem recuou, surpreso, olhou em volta e descobriu seus colegas sendo feitos reféns. Os marleyanos estavam armados, todavia, não dava tempo de eles sacarem as pistolas. E de qualquer forma, não funcionariam até estarem secas.

— Bem-vindos à nossa ilha infernal.

Levi lembrou-se de Hange no alto das rochas, cumprimentando os navios de longe e quase sendo morta. Aquilo havia acontecido há um mês, mas parecia ter sido há um milhão de anos. A saudação da comandante era alegre, a dele soava como uma ameaça. No fundo, estava se divertindo.

— Aqui, marleyano malvado come merda e os bonzinhos tomam chá.

Em poucos minutos, os soldados inimigos eram algemados e colocados em fila indiana. Três navios atracaram mais tarde, e a cena se repetiu até as estrelas desaparecerem no céu alaranjado.

Levi observou seus subordinados amarrarem os últimos prisioneiros. A maior parte dos inimigos tinha a expressão carregada de incredulidade, outros balbuciavam orações, e alguns imploravam pela vida. Apesar das reações distintas, todos partilhavam o mesmo traço de ódio acentuado.

Levi e mais trinta soldados escoltaram os cativos para a área aberta aonde os demais marleyanos rendidos foram postos para serem contados e identificados. Também precisavam ouvir o discurso de Hange sobre Paradis e a trégua que eram obrigados a fazer com o povo de Eldia. Essa palestra tinha o apoio de Yelena, representante de Zeke e porta-voz dos voluntários.

O capitão olhou para a multidão de prisioneiros sem conseguir ver o rosto daqueles homens e mulheres cabisbaixos, tendo em seu campo de visão apenas os arranhões nos capacetes beges. A nova turma de inimigos foi alinhada na aglomeração organizada, postos de joelhos como os outros atrás. Os cativos foram orientados a ficarem com as mãos na cabeça ou na frente do corpo, num lugar onde pudessem ser vistas. O capitão calculou trezentos militares rendidos, um recorde. Vista de cima, a multidão de marleyanos era um enorme quadrado gigante perfeitamente uniforme.

— Ótimo trabalho, capitão.

Yelena apareceu dando tapinhas nas costas de Levi. O capitão apertou os olhos, encarando-a por cima do ombro sem mascarar a zanga por ter sido tocado. A marleyana se afastou do Ackerman, engolindo em seco. Pouco depois, Hange e Onyankopon apareceram.

— Nossa, pegamos muita gente hoje.

Um assovio baixo escapou da boca da comandante mirando as fileiras de prisioneiros ajoelhados, vestindo a mesma farda e dispostos um ao lado do outro com a mesma distância de separação. Levi (e Hange) lembrou de Leona e seus soldadinhos de plástico, pois a garotinha costumava organizá-los da mesma forma. Hange tomou seu lugar na frente da multidão. Yelena foi com ela, trajando o uniforme completo do exército de Marley. A essa altura a lua já desaparecera do céu, passava das sete.

— Soldados de Marley.

Cabeças foram erguidas. Levi viu o queixo dos rendidos cair ao verem uma eldiana e uma marleyana lado a lado, ambas desarmadas e seguras na presença uma da outra, evidenciando que a relação não se baseava em presa e predador. Nas cabeças ignorantes, visões como aquela eram absurdos psicodélicos. Hange começou o discurso sobre Paradis, o tratamento para prisioneiros e a trégua. Soldados eldianos portando rifles contornavam os prisioneiros, e cada marleyano que abria a boca para interromper Hange era calado pelo beijo do cano gelado.

Levi assistia a palestra sem interesse, já tinha escutado a ladainha muitas vezes. Estreitou o olhar e viu Onyankopon ao seu lado com a mão no queixo, mirando Hange e Yelena.

O que caralhos esse inglês arrombado quer? Sai daqui, vai cagar.

O capitão seguiu o olhar do estrangeiro e terminou no quadril da comandante. Hange vestia o casaco verde da Tropa de Exploração, a saia do uniforme acabava depois do traseiro redondo, a barra da roupa naturalmente distante das coxas. O cinto apertado na cintura só ajudava a destacar as curvas femininas.

De repente, Levi se pegou admirando a bunda de Hange. Não só isso, estava admirando a bunda de Hange NA COMPANHIA DE ONYANKOPON! Ah, sim, só falta você chamar ela de gostosa e me oferecer uma cerveja, foi o pensamento de Levi ao rosnar. Precisou contar até dez para não castrar Onyankopon na base do chute. Após alguns segundos, para a felicidade das bolas inglesas, a consciência de Levi o acalmou dizendo para dar ao tarado o benefício da dúvida, afinal, existia a possibilidade do inglês estar contemplando as curvas de Yelena — que não chega nem perto das de Hange, por favor.

Repentinamente, o inglês estalou os dedos na altura do rosto. A expressão dele era a de uma pessoa que acaba de ter uma ideia.

— Capitão, vou dar uma saída, se elas acabarem antes de eu voltar, peça para me esperarem com os prisioneiros no mesmo lugar.

Levi assentiu. Onyankopon saiu andando numa velocidade rápida, quase trote, e após alguns passos começou a correr. O capitão voltou-se para Hange e Yelena. A comandante gesticulava enquanto falava com os prisioneiros, vez ou outra andando da esquerda para a direita na frente da primeira linha de soldados. Levi não prestava atenção na palestra. Em vez disso, pensava no quão bonita Hange ficava vestindo o uniforme da Tropa de Exploração. Aquele casaco lhe cabia tão bem. Ah, cabia sim.

As feições de Levi suavizaram enquanto admirava Hange. No fundo, desejou que a fala terminasse antes do inglês retornar. Levi se permitiria a travessura de não dar o recadinho e atrapalhar os planos do rapaz, seja lá qual fossem. Onyankopon que se foda.

No entanto, seu esquema maligno jamais foi realizado, pois Onyankopon voltou quando Yelena tomava a palavra. O inglês vinha com um sorriso na boca... e uma máquina fotográfica em mãos.

XXX

Às costas de Hange havia marleyanos ajoelhados com as mãos algemadas na nuca. Os cativos mantinham a cabeça baixa a fim de ocultarem o rosto, dando aos eldianos apenas o vislumbre das barbas cheias dos soldados homens. Ali estavam alinhados os tripulantes dos quatro navios que tentaram invadir Paradis naquela noite. Segundo Yelena, não apareciam outros pelo menos até o inverno terminar; mesmo assim, Hange escolheu manter um time de prontidão na base praiana para caso tivessem uma surpresa. Os morros de areia posavam orgulhosamente ao fundo dos prisioneiros, e os vigias pararam o serviço momentaneamente para prestar atenção na peculiar cena acontecendo logo a frente.

— Senhorita Hange, fique parada.

Onyankopon e sua máquina fotográfica portátil se posicionavam longe o bastante para a lente pegar os morros. Levi e seu esquadrão estavam logo atrás dele. Os soldados jovens cochichavam entre si, nunca tinham visto a “máquina de fazer pintura” em ação e e estavam curiosos para ver o funcionamento.

Hange tinha as mãos largadas aos lados do corpo, a barriga projetada para frente, o único olho arregalado, e sorria feito idiota. Mais parecia uma criança no primeiro dia de aula do que a comandante de um exército.

— Faz pose de importante.

Pediu Onyankopon em voz séria. As bochechas de Hange inflaram, o ar forçou os lábios cerrados até escapar junto a gotas de saliva. A comandante riu agarrada ao próprio ventre. Levi sorriu de canto. Hange era tão verdadeira, como nunca percebeu a beleza na sinceridade daquelas gargalhadas agudas?

— EU NÃO CONSIGO!

Onyankopon baixou a câmera. O inglês acabou sorrindo, uma leve curva paciente na face serena. Os soldados e o espião esperaram o riso de Hange cessar. Atrás dela, os marleyanos que resmungavam palavrões eram cutucados na cabeça pelo cano dos rifles eldianos.

Pouco a pouco, as risadas esvaíram. Hange limpou as lágrimas por baixo dos óculos. No próximo, retomava a posição infantil. Onyankopon revirou os olhos, tudo indicava que bateria a foto. Levi, rosnando, saiu de seu lugar na plateia para ir até Hange, invadindo o alcance da lente fotográfica.

— Hange, qual parte da “pose de importante” você não entendeu?

Levi não fez cerimônia para pegar os braços da comandante e colocá-los na lombar dela, Hange entrelaçou os dedos uns nos outros imediatamente e moveu o tronco para encarar o capitão a sua esquerda. Levi colocou a mão nas costas de Hange para deixá-la ereta. Em seguida, empurrava o queixo para cima, a fazendo erguer a cabeça.

— Afasta as pernas.

Hange obedeceu.

— Não tanto, doente.

A comandante arrastou a perna direita na areia, uniu-a com a esquerda, e então afastou-as ligeiramente, só para os calcanhares não encostarem um no outro. Levi a observou de cima a baixo. Nossa, o estado de Hange era deplorável. O capitão arrumou o casaco da comandante, dando batidinhas nos amassados. Depois, alinhou a gola da camisa branca e poliu a medalha verde representando a posição de Hange na Tropa de Exploração. Em seguida, olhou desapontadamente para o cabelo oleoso.

— Hange, seu cabelo está horrível. Olha essa merda, parece que está molhado, tá grudado na sua cabeça.

— O que você quer que eu faça? Que eu largue tudo pra ir tomar banho?

O capitão deu a volta ao redor da amiga. Ao parar, deu batidinhas nos dois ombros de Hange. Ela dobrou os joelhos, ficando alguns centímetros mais baixa.

— Só lavar o cabelo melhor já basta. Se o seu cabelo já é podre, não quero nem imaginar a imundice que deve ser essa boceta.

Mas ele vinha imaginando sim, e adoraria ver. Hange riu, sarcástica.

— Quer que eu te mostre?

— Muito cuidado ao oferecer isso para um homem, quatro-olhos.

Levi replicou no tom de voz entediado de sempre, porém, suas bochechas ficaram quentes. Ele começou a desatar o elástico no cabelo de Hange, mas suas mãos tremiam, dificultando a tarefa. A comandante replicou, sardônica:

— Muito cuidado por quê? Essa sua piroquinha não dá medo em ninguém.

O capitão ergueu o punho para dar um soco na cabeça de Hange. A comandante previu o golpe e fechou o olho. Em contrapartida, Levi desceu a mão inofensivamente para o meio do cabelo oleoso.

— Se você quer saber, a Santa me deu trinta centímetros de pau pra compensar a merda que ela fez com a minha altura.

A comandante quase caiu de tanto rir. Levi segurou-a pelos ombros para mantê-la na mesma posição, sorrindo pequeno.

— Para de se mexer.

O capitão desamarrou o cabelo de Hange, fazendo careta ao tocar nas madeixas engraxadas. Prendeu-o novamente num rabo de cavalo apresentável. Depois, foi para a frente e arrumou o resto do cabelo atrás das orelhas, deixando algumas mechas propositalmente caídas no rosto da comandante.

Levi roçou os dedos uns nos outros, sentindo-os engordurados por causa do cabelo imundo. Então, simplesmente esfregou as mãos no casaco da própria comandante para devolver o presentinho nojento. Hange não reclamou.

— Agora para de sorrir.

A comandante cerrou a boca.

— Com os olhos também.

Hange apertou a sobrancelha.

— Perfeito, parece gente.

Levi deu um sorriso pequeno cheio de significados, desde orgulho até paixão. Hange era uma pessoa totalmente diferente da cientista inconsequente com quem foi obrigado a conviver. Apesar da nova realidade tê-los afastado, não conseguia deixar de amar a pessoa que ela estava se tornando, assim como amou quem ela foi no passado. Hange captou a mensagem principal e respondeu através do olhar suave.

— Ei, capitão, que tal uma foto de vocês juntos?

Sugeriu Onyankopon. Levi virou-se já negando, Hange, no entanto, pensava diferente. Ela o segurou pelo pulso antes que pudesse fugir. Sem escapatória, Levi se posicionou ao lado da superior, colocou as mãos atrás da cintura e ergueu a cabeça. Não sorria e seus olhos eram dois ovos de ganso. A comandante o encarou de soslaio, o desconforto envergonhado de Levi era palpável e os olhos arregalados davam a impressão de susto. Onyankopon bateu duas fotos no momento em que Hange gargalhou. A comandante saiu na fotografia de olho fechado e boca aberta.

As imagens escaparam uma após a outra pelo compartimento de saída da máquina. Onyankopon cobriu as fotos para escondê-las da luz, e depois sacodiu ambas no ar. Ele entregou as duas para Armin, e os outros soldados imediatamente se aglomeraram aos ombros do garoto.

— Parabéns, estragou nossa foto.

Levi deu uma cotovelada não muito amigável na costela da comandante. O gesto só arrancou mais risadas dela. O capitão voltou para seu lugar em meio ao esquadrão 104, já arrancando as fotos dos soldados. Ficou surpreso ao constatar que Hange saíra espontaneamente linda enquanto ele ficou parecendo uma coruja com um pau enfiado no cu.

— Essas são de recordação. Agora, senhorita Hange, uma sua sozinha.

Hange retornou para a posição ensinada por Levi. Parada daquele jeito, passava a imagem de alguém profissional, e a pose transmitiria poder implacável caso Hange não sorrisse. Onyankopon baixou a máquina, e dessa vez Levi viu a sutil impaciência na face sempre complacente.

— Eu preciso ficar com cara de bunda? Poxa, gosto de sorrir.

Onyankopon suspirou cansadamente. O inglês levantou a câmera a altura do rosto, fechou o olho esquerdo e colocou o outro no visor. Hange ergueu a cabeça, ajeitou a postura, e sorriu de boca fechada.

— Como quiser, senhorita.

Onyankopon bateu duas, três, cinco, sete, dez, vinte e duas fotos, todas idênticas. Dez acabariam destruídas com o departamento histórico aonde foram guardadas, cinco seriam queimadas e quatro não chegariam ao destino final. Apenas três durariam muito tempo, e duas acabariam eternizada em livros de história sob os dizeres Hange Zöe, 14ª comandante do exército de Paradis, rende marleyanos na praia.

Alunos do ensino fundamental de todas as etnias passarão pela página pouco se importando com a aventura por trás da fotografia. Os universitários interessados no legado de Eldia estudarão essa imagem a fundo para mostrar o poder de Paradis. E na própria ilha correrão histórias e estórias, especialmente entre os mais velhos, sobre o dia que Marley conheceu a força do exército paradisiano.

É claro, pessoas vão reparar no doce sorriso da mulher de costas para os prisioneiros. Dentre esses sujeitos, alguns farão teses de doutorado sobre a psicopatia dos eldianos usando essa foto como evidência principal, enquanto outros só acharão o sorriso encantador. Os adolescentes, em especial eldianos, cutucarão a fotografia dizendo que a comandante da Tropa de Exploração devia ter uma boceta de aço para rir na cara do inimigo.

Entretanto, isso é assunto para o futuro, quando o renascimento de Eldia for um capítulo no seu livro de história.

— Deixa eu ver a foto?

Onyankopon entregou a fotografia preto-e-branco a Hange. A comandante segurou-a com as duas mãos e agitou o corpo em entusiasmo inarticulado, retribuindo o sorriso da sua própria imagem.

— Nossa, os detalhes dessa coisa são impressionantes. Ei, Onyankopon, posso ficar com ela?

— Pode, eu tirei uma a mais.

Hange segurou a fotografia cuidadosamente pela parte branca, tirou uma caneta do bolso do casaco e usou-a para marcar, no verso da imagem, o dia e o ano, logo abaixo escrevendo uma curta declaração. Não, essa foto não acabará nos livros de história, mas faz parte do trio de fotografias conservadas. Até onde sei, essa foto viveu dois séculos, e foi tão bem guardada que a tinta da caneta continuava lá quando o papel fotográfico começou a se deteriorar.

— Vai colocar no seu escritório, comandante?

— Não, vou dar para a minha filha.

XXX

Hange descansava atrás dos dormitórios, tinha um livro aberto apoiado na caneca de chá vazia e um caderno no colo, a iluminação fraca da lamparina circundava a terra ao redor, e a luz azulada da lua cheia caia sobre a mulher sentada. Levi esperava encontra-la ali, entretanto, não estava totalmente preparado para vê-la, e o gelo familiar, porém desagradável, tomou conta de seu estômago outrora sereno. Fora o estrídulo do grilo solitário no meio da relva, existia apenas o som do próprio coração de Levi.

— O que está fazendo?

A comandante já havia reparado na presença do capitão antes de ouvir sua voz. Hange girou a cabeça para dar-lhe o olho bom. A íris rolou de Levi para o caderno, do caderno para Levi, de Levi para o caderno, e então Hange respondeu, cheia de ironia:

— Estou depilando as pernas.

O capitão cruzou os braços e endureceu o olhar irritado.

— Quis dizer o que você está estudando, demente.

Disse ríspido enquanto sentava ao lado da comandante. Hange lhe entregou o caderno. Levi o folheou sem pressa, encontrando frases e anotações em marlês — idioma de Marley — escritas na letra de Hange. Suas aulas mal haviam começado, portanto só entendeu as palavras simples. Em certa parte do caderno, viu esquemas de alfabetização destacados em retângulo, e esses sim foi capaz de ler sem dificuldade. Levi percebeu que essas páginas especificas não pareciam lembretes para a dona do caderno, mas recados para outra. Uma criança, talvez.

— Você vai ensinar marlês pra bebê? — Devolveu o caderno.

— Sim. Estou aprendendo e ela vai aprender comigo.

A língua de Eldia era popular em todo o planeta por causa do expansionismo do antigo povo, eles nunca teriam dificuldade para se comunicar caso saíssem da ilha um dia. Mesmo assim, Hange insistiu para Yelena e Onyankopon disponibilizarem livros e professores para ensinar a língua de Marley aos soldados. Levi descobriu não ser fã de linguagens, aquelas palavras estranhas demoravam a entrar na sua cabeça; mesmo assim, fora a favor do plano de Hange desde o começo. Se alguma coisa acontecesse no futuro, como uma rebelião ou invasão, ninguém conseguiria enganá-los falando outro idioma. Hange pretendia ensinar marlês a Leona pelo mesmo motivo, Levi suponha. Só a ideia da filha de Hange ir parar nas mãos do inimigo o deixava nauseado.

— E como vão as aulas?

— Lentas. Ela é muito pequena, preciso tomar cuidado para não atrapalhar o desenvolvimento dela em aprender a nossa língua tentando ensinar outra. Estou ensinando a Minnie também.

— Você está ensinando marlês para a babá?

Levi sacudiu a cabeça e arrastou a palma da mão pela face. Pobre Minnie. A coitada deve passar fome para aceitar ser empregada de Hange. A comandante riu, deixando o caderno de lado e fechando o livro de linguagens.

— Como essa pobre coitada ainda não pediu demissão?

— Estou pagando para ensiná-la.

— Quatro-olhos, você é a única professora do mundo que paga para dar aulas.

Hange gargalhou, estava com uma das pernas dobrada e o outro joelho flexionado, o braço destro abraçava aquela perna e a mão esquerda apoiava-se no chão. Levi foi deixado no ponto cego. Sabendo disso, deu-se a liberdade de observar Hange com o rabo do olho, demorando-se um pouco mais do que gostaria no sorriso divertido, tentando enfrentar a ansiedade imensurável de beijá-lo.

— Sabe, é muito louco pensar que estaríamos aqui um dia, sentados no relento sem precisarmos nos preocupar com ataques de titãs.

Agora, o sorriso da comandante era maior; ela o ergueu na direção das estrelas, e Levi fez o mesmo. O céu noturno era o mesmo das muralhas, mas, por algum motivo, as estrelas vistas do lado de lá do muro sempre lhe pareceram mais brilhantes.

— É, mas ainda precisamos de sentinelas, por causa dos prisioneiros.

O sorriso de Hange desapareceu. Ela baixou o rosto, suspirando subitamente sentida, em seguida retirava os óculos e começava a limpá-los à luz da lamparina. Levi se arrependeu da resposta. Como sempre, sua boca suja falava antes do cérebro pensar. Não conseguiu pensar em nada para se redimir e ficou em silêncio.

— Estou trabalhando para que seja temporário.

E era verdade. Hange era cheia de ideias um tanto utopistas demais na opinião de Levi. Ela acreditava em um mundo livre de ódio aonde seres humanos viviam em harmonia, e lutava para transformar esse ideal em realidade. Levi duvidava que fosse possível, no entanto, não podia negar a camaradagem cada vez mais aparente entre os prisioneiros marleyanos e os soldados eldianos. Isso o fazia pensar, mesmo que não conseguissem mudar o mundo, pelo menos o mundo daquelas pessoas estava mudando.

— Eu sei. Você está indo muito bem.

Sorrindo, Hange recolocou os óculos com a mão destra, já a esquerda pousou sob a do capitão num gesto de puro carinho. Eles já haviam segurado a mão um do outro no passado, Hange, principalmente, tinha o hábito de segurar as mãos das pessoas quando conversava com elas, como fez com Eren quando o receberam no quartel-general pela primeira vez e como fez com Mikasa no restaurante. Era engraçado como uma coisa tão comum pode se tornar estranha de repente, fazendo seu coração bater mais rápido e o estômago congelar. Aquelas sensações eram novas e ele não soube como reagir, portanto, fingiu não estar vivendo aquilo.

Não precisou aguentar por muito tempo. Hange tirou a mão no próximo segundo, e nada em sua linguagem corporal ou facial indicava ter reparado no nervosismo do capitão.

— E você?

— Huh?

— O que está achando dos prisioneiros?

— Por enquanto, desconfio bastante da Yelena. Não confio em ninguém que seja amigo daquele barbudo nojento.

A veia em sua testa palpitou ao lembrar de Zeke. Tinha uma última promessa para com Erwin e não morreria antes de cumpri-la. Ah, não mesmo. A morte de Erwin e seus soldados tivera significado. Ele provaria isso nem que precisasse morrer tentando.

— Hah, somos dois. Meus olhos estão bem abertos para ela... er... quero dizer... — Ela apontou para o tapa-olho. — E por que você não gosta do Onyankopon?

— Huh? Quem disse que eu não gosto dele?

Levi tentou fazer-se de desentendido. Hange arqueou a sobrancelha e bateu em seu ombro de leve.

— Ninguém precisou me contar. Sua cara já diz.

— Essa é a minha cara normal.

— Pelo amor da Santa, Levi, eu conheço você.

Levi virou o rosto emburrado para o lado oposto, furioso por ter sido tão descuidado. A cabeça do capitão matutou milhões de respostas, entre elas a confissão do seu ciúme pelo inglês. Ele se encheu de coragem, abriu a boca para falar... e a fechou. Ah, como é complicado ser honesto. Por fim, resolveu fazer o que faz de melhor: depreciar.

— Ora, Hange, vamos falar só de mim? Vamos falar um pouco de você. Caidinha pelo Onyankopon, né? Eu vejo como você abre as pernas pra ele.

Hange recuou como se tivesse levado um susto, tinha as sobrancelhas arqueadas e a boca aberta. Em seguida, franzia o cenho e ria pelo nariz.

— Levi, você anda se drogando?

— Pelo amor da Santa, Hange, eu conheço você. — Respondeu Levi, imitando a voz da comandante.

— Eu não gosto dele.

— Como não? Eu vi você tentando seduzi-lo.

Levi estava outra vez no ponto cego. Ele viu a sobrancelha de Hange se arquear em baixo do tapa-olho. Um pequeno sorrisinho brotou nos lábios cerrados, e não tinha nada de engraçado nele.

— Eu trato as pessoas bem e você acha que estou carregando uma plaquinha escrito “por favor, me coma”.

Grunhindo, Levi baixou a face antes que suas bochechas ficassem vermelhas. Seu ciúme por Onyankopon continuava ardente, fazendo com que a explicação de Hange não fosse o bastante. Tratar as pessoas bem, ha ha, essa é boa.

— Bem, você seduz as pessoas sem perceber, sabe? Aposto que ele gosta de você.

— Huh? Eu seduzo as pessoas?

Hange o mirava agora, descrente, o sorriso divertido mostrava que ela não levava a conversa tão a sério quanto o capitão imaginava. Levi mordeu o interior do lábio, agradecendo internamente por Hange ser tão impudica. Em seguida, recebeu a resposta pela qual tanto ansiou.

— Não sei se ele gosta de mim, mas, se sim, sinto muito. Ele tem o quê? Vinte e três? Isso é quase a idade dos nossos subordinados. — Hange fez careta sacudindo a cabeça em negativo rapidamente, como se afastasse um pensamento nojento. — Nossa, não mesmo.

Levi segurou a risada atrás do sorriso de canto, e Hange não resguardou as suas. Silêncio caiu entre eles após esse momento, e dessa vez não foi o tipo de quietude desagradável que Levi vinha sentindo. A comandante ficou distraída com as estrelas e a lua, enquanto o capitão manteve a cabeça cabisbaixa, contando as pedrinhas no chão.

Lembrou da madrugada em que Hange veio lhe contar sobre a gravidez e a forma cruel como a tratou. Acabara de fazer algo parecido. Será que você nunca vai aprender, Levi?

Como pude ser tão tolo?

A forma como Hange tratava Onyankopon, de fato, não diferia do tratamento destinado aos outros do quartel. Hange era extrovertida e atenciosa, ela gostava de papear, conhecer pessoas e ser ouvida por elas. O diferencial de Onyankopon é o interesse por ciência, tópico favorito de Hange. Ambos gostavam de conversar, ambos amavam tecnologia, a conexão entre eles foi iminente. O que causou ciúme em Levi foi justamente a velocidade com que Hange foi capaz de conquista-lo.

Afinal, Hange era assim. Ela era como um feixe de luz num quarto escuro. Quando as coisas estavam ruins, você sempre podia contar com Hange para amenizar a situação. Se um dia a sua máquina de biscoitos quebrasse, Hange, tendo você pedido ajuda ou não, poria álcool no compartimento de gasolina, daria uma ou duas apertadas nos parafusos e diria “vamos ver se funciona”. E, mesmo você achando a solução um absurdo, é bem capaz que a sua máquina realmente volte a trabalhar.

No fim, ela era esse tipo de pessoa, o “vamos ver se funciona”. Hange era de agir, alguém que sorri ao pensar no futuro, e se o futuro não for bom, o enfrenta. Sim, Hange era inconveniente, meio chata, falante demais, porém, esses defeitos faziam parte do pacote, Zöe não seria a mesma sem esse lado insuportável.

Em suma, Hange era uma pessoa fácil de ser amada. E seres humanos assim, meu amigo, são os melhores.

Levi mirou aquele rosto conhecido erguido para o céu noturno. Desejou estar à direita para poder ver o olhar contemplando as estrelas tão brilhantes quanto o cintilar carregado na íris. Levi abriu a boca, a garganta convulsionou, a língua tremeu, seca. Ele baixou o olhar para a terra, e no seguinte ergueu-o novamente. E então, finalmente, a voz escapou; vacilante, porém decidida.

— Hange.

Levi não esperava que a cientista agisse primeiro.

A pele de Levi era morbidamente fria quase cem por cento do tempo, no entanto, naquele segundo fervia, e incendiou quando a mão da comandante o tocou na bochecha. Ela avançou. Levi não precisou dizer uma única palavra, sua confissão foi arrancada pelo beijo de Hange.

XXX

O berrante soou antes da cabeça da formação chegar ao portão da muralha. A caravana militar era uma gigantesca cobra se arrastando em linha reta pela planície. Quantos soldados deviam ser? Entre eldianos, marleyanos e voluntários, certamente mais de novecentos, talvez mil. A maior desde a fundação da Tropa de Exploração. O sol não era forte no céu de inverno, em poucos dias choveria neve.

Hange, três cavalos de distância do capitão, desmontou para pegar o berrante pendurado na sela. O som grave devolveu o cumprimento ao guarda estacionário no alto da muralha, e logo depois o responsável pela torre do sino fez o instrumento badalar. A música compassada soou muralha a fora, saudando os soldados com seu “bem-vindos de volta” harmonioso. Levi respirou fundo, sentindo o fedor da cidade. Estava em casa.

Hange, ocupando a primeira posição na vanguarda, seguiu o resto do caminho a pé, puxando o cavalo colorado pelas rédeas. Outros soldados a imitaram. Atrás de si, Levi ouvia as conversas paralelas dos subordinados.

“Estou tão feliz por estar em casa.”

“Tô louco pra dar um abraço na minha vó.”

“Eba! Partiu casinha!”

“Espero que o meu pai tenha alimentado o cachorro direito.”

“Será que aquela peça de teatro ainda está em cartaz?”

“Ah, cara, mal posso esperar pra ver a minha namorada.”

“Vou correndo pro bar mais próximo encher o rabo de cachaça.”

Os prisioneiros vinham na retaguarda, lá no fim da longa cobra, algemados em carroças. Recebiam a escolta dos soldados de elite — Mikasa na liderança — para caso a multidão enfurecida quebrasse a barreira da polícia militar. Felizmente, acidentes nunca aconteceram. A euforia da massa se mantinha constante até metade da caravana entrar, depois disso, muitos cidadãos ficavam entediados e a aglomeração se dissipava. Uns poucos ficavam para ver os cativos, e o máximo que acontecia a eles eram tomatadas podres.

Levi não precisou erguer a cabeça para ver a porta de pedra ser erguida pesarosamente feito o despertar de um gigante adormecido. Sendo comandante, Hange entrou primeiro, e assim que seus pés alcançaram o distrito de Shiganshina, gritos de boas-vindas foram proferidos em timbres diferentes.

Aplausos trovejaram através dos cidadãos aglomerados. Algumas pessoas pulavam de excitação, sorrisos de dentes amarelos se alargavam e crianças subiam nos ombros dos pais para assobiar cumprimentos aos soldados. As pessoas se debruçavam nas cordas postas pela Polícia Militar, clamando o nome dos filhos, sobrinhos, pais, tios, primos, amigos e namorados na caravana. Os soldados que moravam em Shiganshina já abandonavam os cavalos para pular sob a corda e abraçar os entes queridos. Não se deram ao trabalho de voltar, e nem precisavam, outros tomariam conta dos animais.

Milhares de vozes berravam frases diferentes em uníssono.

“Eren, come o cu desses marleyanos filhos da puta!”

“Vai, Armin, dá-lhe o teu titã colossal!”

“Devote o seu coração!”

“Boa, Tropa de Exploração, nunca critiquei”

“Comandante Hange, casa comigo, sua cavalona gostosa!”

“Capitão Levi, você é o genro que eu sempre quis!”

“Levi, meu camarada!”

“Vou beber em homenagem a vocês!”

“Comandante, você é incrível!”

"Eren, beija o meu bebê!"

Levi detestava exposição. Sequer olhava para os lados, ignorando as saudações barulhentas. Hange parecia desconfortável, contudo, diferente dele, ela era um pouco mais educada e cumprimentava as pessoas acenando a cabeça.

E assim, abaixo de silvos e ocasionais flores arremessadas aos cascos dos cavalos, o exército seguiu para a próxima cidade objetivando chegar ao portão da a muralha Rose, território aonde residia a sede da Tropa de Exploração.

A caravana militar diminuía a cada cidade. Levi não mais montava em seu cavalo. Lucy sacudia a cabeça impacientemente, reclamando de sede, Levi afagou o focinho gotejante, prometendo um bom balde d’água quando chegassem no quartel-general. O sino da muralha Rose badalou, o portão foi aberto, Levi começou a andar e Lucy o seguiu sem precisar ser puxada.

O brado recomeçou. A multidão estrondava gritos, saudações e pedidos de casamento, nada diferente dos moradores das outras cidades. Levi andava a poucos metros de Hange, observando a cabeleira castanha da cabeça erguida e as tiras do tapa-olho amarrado ao rosto feminino. Recordou a beleza daquele cabelo oleoso à luz da lua, e da textura da cicatriz quando tirou o tapa-olho de Hange para tocá-la.

Eles tinham ficado quanto tempo escondido atrás dos dormitórios? Levi havia recomeçado outro beijo após o primeiro terminar, e Hange intercalou o terceiro. Eles deram as mãos, e pouco depois a comandante subiu em seu colo. Por tanto tempo teve medo de não saber o que fazer caso se relacionassem, no entanto, quando chegou o momento, ambos sabiam exatamente o que devia ser feito. Eles se beijaram mais, e logo as unhas da comandante deslizaram para dentro do uniforme para arranhar as costas musculosas. Quando Levi beijou os seios por cima do casaco, ela abriu as duas camadas de roupa e o deixou prova-los. Levi lembrava de Hange envolvendo sua cabeça com o sobretudo, fosse para esconder a pele de qualquer engraçadinho fuxiqueiro ou se proteger da brisa fria. Ali, à luz da lamparina e da lua, ambos entenderam a crueldade de não poderem ir até o fim e aceitaram a pouca liberdade permitida.

De repente, um som se destacou no meio das saudações, no entanto não aos ouvidos de todos, incluindo os de Levi. Só aos de uma pessoa, na verdade. Hange parou de súbito, fazendo o corpo da cobra parar também. O olhar ansioso correu a massa em busca do que quer que tivesse chamado sua atenção, até se fixar à direita da estrada. Então, uma criança pequena atravessou o bloqueio de cordas. O policial veio berrando. A garotinha foi esperta ao escolher passar por baixo das suas pernas, surpreendendo o homem e o fazendo perder o equilíbrio. O rapaz tentou agarrá-la, porém, não tinha recuperado a verticalidade e acabou caindo de frente, arrancando gargalhadas dos espectadores.

Leona veio com os braços abertos, os pés levantando poeira conforme corria na direção dos soldados, mostrando todos os dentes num sorriso alegre e chamando pela mãe em sua voz infantil. Eles estavam fora há mais de vinte dias, a pobre garotinha devia estar morrendo de saudade. Levi olhou para a direita da estrada e viu Minnie, babá de Leona, vermelha de vergonha. Pelo menos, Minnie não precisava se preocupar com possíveis repreensões, Hange não estava furiosa – deveria, mas o coração materno não estava em condições de sentir apreensão.

— Bolinha, você veio me ver.

Hange largou as rédeas do cavalo. A comandante se agachou para recebe-la, e Leona de pronto saltou em seu pescoço. O reencontro entre mãe e filha calou o povo, mas só por dois segundos. A gritaria recomeçou, e agora as flores destinadas aos soldados eram jogadas sobre elas. Pessoas pulavam, dançavam, rodavam, incluindo as do fundo, que não faziam ideia do motivo da agitação, porém se deixavam levar pelo pensamento de manada. Os que trouxeram filhos os abraçaram, emocionados. Hange ignorou a multidão, tendo olho e beijos somente para a criancinha em seus braços. Por outro lado, Leona percebeu as flores.

— Olha, mãe, pra você.

Leona encaixou o caule da flor no cabelo da mãe. As pétalas da margarida-azul se destacaram nas mechas escuras, mas o sorriso logo abaixo era mais bonito, tal qual as pequenas lágrimas rolando pela bochecha da comandante. Levi, observando a cena, teve o coração preenchido por um sentimento honesto de amor e carinho. Estava genuinamente feliz por Hange ter alguém para recebe-la dentro das muralhas, ela merecia.

— Senti tanta saudade do meu filhotinho.

Leona voltou à abraça-la. Hange, ainda com a flor enfeitando o cabelo oleoso, colocou-se de pé, carregando a filha junto ao peito. Ao voltar para a cabeça da cobra, a garotinha inclinou o corpo para cumprimentar o cavalo de Hange.

— Buck! Buck! Buck!

Levi achou que ela ia colocar a menina no cavalo, e talvez Hange tivesse mesmo considerado essa ideia, porém, Leona havia ficado vinte dias separada de sua mãe, e por isso queria ficar perto dela agora. A garotinha cravou os pés na cintura da mulher como se buscasse apoio. A comandante entendeu o que ela queria e permitiu. Hange a ajudou, e logo Leona sentava nos ombros da mãe, derrubando os óculos dela ao abraçá-la pela cabeça.

— Mãe, eu te amo. Eu te amo TANTO!

Leona berrou a última palavra para o céu. O povo retribuiu o brado. A caravana retomou a caminhada. Aos lados da estrada, os espectadores continuavam saudando a Tropa de Exploração, muitos invocando o nome de Erwin. Hange, alheia, usou o pulso para limpar o olho. Ela levantou a cabeça sem óculos, Leona baixou a sua e beijou o nariz da mãe repetidas vezes. A resposta apaixonada da comandante combinou com o pensamento de Levi.

— Eu também te amo.