Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
48 Apunhalando um amigo em prol de uma causa nobre
Notas iniciais
Hange despertou antes do sol nascer. Ela sentou, esfregou o olho remanente e respirou fundo. Acabara de acordar e já se sentia cansada. Hange levantou aos bocejos e preparou-se para o dia de trabalho. Ao despir-se, conferiu o hematoma no peito. A manchinha roxa já desbotava.
De banho tomado e uniforme vestido senão pelas botas e pelo casaco, Hange preparou o chá da manhã. Ela comia enquanto esperava por Minnie. Hange só saia para trabalhar depois da chegada da babá, pois não impelia-se a deixar Leona sozinha nem por algumas horas. Aproveitando-se da solitude, Hange se pôs a ler a lista de doces anotada no bloquinho. O oitavo aniversário de Leona seria no próximo dia vinte. Estavam recém no primeiro do mês, mas Hange já começara a pesquisar aonde e como faria a celebração. Os últimos aniversários de Leona foram barulhentos e entupidos de gente. Com a guerra batendo na porta, Hange considerava uma festinha reservada esse ano. Leona iria se chatear por não ter uma farra, mas a filha não faria objeções. O seu filhotinho entenderia.
Nessa época de serviço redobrado, Hange e Leona não tomavam chá juntas pois Hange saia para o trabalho antes de Leona acordar. Hoje, porém, não foi assim. Hange surpreendeu-se ao ver sua filha entrar na cozinha ainda de pijama. Os olhinhos da menina estavam minúsculos e meio grogues. Leona a cumprimentou com uma tranquilidade pouco convincente, e sua boca desenhava um sorriso muito mal contido. Aquela carinha significava mãe-estou-aprontando-alguma.
— Bom dia, Bolinha. — Hange rapidamente guardou o bloquinho. — Acordou cedo.
— Nem reparei.
Leona foi até a despensa pegar a garrafa de leite. Depois, se juntou à mãe na mesa. Leona mordia os lábios, balançava as pernas e evitava encarar Hange. Sempre que os olhos das duas se cruzavam, Leona dava uma risadinha. Ela parecia louca para confessar algo à sua mãe. Hange sorriu por atrás da xícara de chá.
— Certo. — Hange pôs a xícara na mesa. — O que você está tramando?
— Eu? — Leona pôs as mãos no peito com ar ofendido. — Nada, mãe.
— Você não engana ninguém. Desembucha.
Leona sacudiu a cabeça bem rapidinho e fez cara de anjo. Hange apoiou o queixo nas mãos e não fez nada se não encarar sua filha, sorrindo. Leona desconcertou-se. As bochechas da menina inflaram com o esforço de segurar as gargalhadas. Por fim, Leona explodiu:
— Certo, certo, certo, vou te dar uma pista! — Anunciou ela afobada. — Não, vou dar duas pistas!
— Pode falar.
Hange nunca soube quais eram as pistas do segredo de Leona. Naquele instante um baque forte quase derrubou a porta da frente. Hange ergueu-se em pose de guarda e nem um pouco contente pela grosseria matutina. Leona, alarmada, entreolhou a porta e a mãe. Através do olho-mágico Hange viu um homem baixinho com o bigode farto crispando acima da boca raivosa. O velho lhe era familiar. Hange matutou de onde conhecia aquela cara de porco. Lembrou-se: o velho era o dono da loja de jornais.
A comandante deu um olhar perplexo à filha. Leona aos sussurros perguntou quem estava lá fora. Hange estendeu o braço num comando mudo para Leona se manter afastada. Então, Hange escancarou a porta. O velho antes com o barrigão grudado na entrada da casa recuou e abaixou a cabeça como se sua coragem se esvaísse agora que estava diante da comandante da Tropa de Exploração. O jornaleiro atirou um exemplar do Folha de Paradis aos pés de Hange e disse num rosnado reprimido:
— Seu jornal.
O homem deu as costas e saiu resmungando. Hange mirou o jornal e enrijeceu. Letras de fôrma grandes, negras e grossas gritavam MILITAR DA TROPA DE EXPLORAÇÃO AFIRMA QUE EREN YEAGER ESTÁ NA PRISÃO. Um subordinado da sua divisão vazou a prisão de Eren. O coração de Hange deu um salto e sua mão congelou sobre a madeira da porta aberta.
Leona soube que sua mãe estava furiosa porque Hange levantou os óculos.
— Mãe?
— Leona. — A voz de Hange tornou-se severa. — Vista-se. Nós estamos saindo.
— Por quê? — Perguntou Leona em aparente confusão. — A escola ainda não abriu.
— Eu sei, vou deixar você na casa do Peter. Anda logo.
A ordem de Hange não abria espaço para reclamações. Leona subiu as escadas correndo. Hange calçou as botas, amarrou o tapa-olho e vestiu o casaco da Tropa de Exploração.
XXX
Hange encontrou o quartel-general trancado graças aos civis aglomerados em frente ao prédio. Atônita, pagou o cocheiro e não ficou para receber o troco. Hange respirou fundo, ergueu a cabeça e iniciou o curto trajeto de dez segundos até o portão do quartel.
Um dos indivíduos do bando avistou Hange e apontou-a. Todos viraram-se ao mesmo tempo. Hange reconheceu Flegel Reeves, o chefe da companhia Reeves, e Peaure e Roy, os jornalistas do Folha de Paradis. Repórteres de jornais rivais batalhavam para entrevistá-la. Civis indignados a vaiavam. "Vagabunda", "puta", "cadela", dentre outros xingamentos que denegriam a vida particular de Hange, eram abafados pelos questionamentos dos mais próximos:
— Comandante Hange, ouvi dizer que haverá uma evacuação de emergência no distrito Shiganshina. Essa tolice é verdadeira!? A companhia Reeves tem uma unidade lá, você sabe!
— Não sei. — Hange respondeu com indiferença forçada.
— Comandante Hange, é verdade que os soldados voluntários foram presos? — Um jornalista do A Voz de Paradis a agarrou pelo ombro. Hange desvencilhou-se com uma sacudida.
— Diga-nos por que Eren Yeager está preso. — Pedia Roy.
— Não sei de nada. — Insistia Hange.
Hange foi bombardeada de indagações iradas e de absurdos como acusações de lavagem de dinheiro, propina, conspirações à favor de Marley, rapto de crianças marleyanas (provavelmente por causa de Gabi e Falco) e até tráfico de lança-trovões. Hange empurrava os atacantes e limitava-se a mandá-los procurar os policiais militares. Os xingamentos tornaram-se mais numerosos. Hange não fazia ideia de que existia tantas injúrias à intimidade feminina. "Megera" foi a ofensa mais branda.
Quando Hange finalmente alcançou o portão, Peaure se entrepôs entre Hange e a paz. Os berros ensurdecedores de Peaure deram dor de cabeça em Hange.
— HANGE, HÁ OITO ANOS VOCÊ DISSE AO POVO QUE NOSSOS INIMIGOS SÃO AS PESSOAS FORA DA ILHA! A INVESTIDA VITORIOSA DE YEAGER CONTRA MARLEY NOS DEU UM FUTURO! O PARADEIRO DE EREN É DO INTERESSE DE PARADIS!
Hange nada fez além de encarar o buracão que era a boca arreganhada de Peaure. O peito da comandante queimava de raiva. Roy espremeu-se entre a multidão e parou ao lado de Peaure. O senhor fitou Hange e disse num tom menos escandaloso, porém tão inquisitivo quanto:
— Lembra-se quando você disse que daria informações ao povo? Mudou de ideia?
Hange não precisava ter suas palavras de oito anos atrás atiradas em sua cara agora. Ela exasperou-se:
— A situação mudou. — Bradou Hange desestabilizada. — As informações têm um sentido diferente agora que as muralhas estão abertas.
A comandante empurrou Roy e Peaure do caminho. Hange tirou o molho de chaves do bolso com desjeito e demorou dolorosos três segundos para pôr a chave na fechadura do portão. Flegel Reeves, atropelando todo mundo para chegar às costas da comandante, pôs a cereja do bolo:
— Eu sei que você está em maus lençóis, comandante Hange. Só vou pedir uma coisa: olhe nos meus olhos e diga que posso confiar em você.
Num lampejo de delírio, Hange olhou por cima do ombro esquerdo achando que ainda enxergava desse lado. Ela se deu conta do erro e girou a cabeça na direção oposta. Hange mirou o rosto ansiado de Flegel e respondeu:
— Tudo o que fazemos é pelo bem do povo de Paradis.
Hange passou pelo portão e enfim se livrou do bando. No prédio, um soldado atrapalhado barrou-a, lhe mostrou o jornal e comunicou os problemas. Hange o interrompeu alegando já estar a par da situação e pediu o jornal emprestado. Hange foi parada por mais cinco subordinados no circuito até o escritório, e dispensou a todos por meio de um breve aceno de mão. Na sala do comandante, Hange sentou-se em sua larga mesa e respirou fundo. Ela fitou o relógio de coluna. Eram recém oito da manhã. O dia mal começara. Hange se recompôs e leu a manchete:
"Na noite do dia trinta e um de agosto os soldados Forster, Holger, Wim e Ruize, da Tropa de Exploração, confessaram com exclusividade ao Folha de Paradis que Eren Yeager foi detido na madrugada do seu retorno à Paradis após sete meses em Marley. 'Nós fomos terminantemente contra a ideia de prender o nosso salvador', pontuou Forster. O soldado atribui a ordem de prisão aos superiores da Tropa de Exploração."
"O Folha de Paradis questionou-os sobre os voluntários e espiões aprisionados no quartel-general da Tropa Estacionária. Eles alegaram desconhecer a veracidade do rumor, entretanto apoiaram a decisão de encarcerar os forasteiros. 'Nós conseguiríamos derrotar Marley sem a ajuda dos voluntários. A prisão é o local certo para eles, e não para o Eren. Se os boatos forem verdadeiros, me alegra saber que pelo menos o pessoal da Tropa Estacionária está preocupado em fazer as coisas corretamente', afirmou Forster."
Hange apertou o jornal com tanta força que seus antebraços tremeram. Ela arremessou-o na parede. As folhas espalharam-se e Hange não se deu ao trabalho de juntá-las. Mandou chamar os quatro entrevistados na sala de reuniões. Nem queria pensar no que faria com a cabeça de Floch e seus amiguinhos caso eles não tivessem vindo trabalhar. Em meia hora, Jean e Armin apareceram no escritório.
— Eles estão a esperando, comandante. — Jean comunicou.
— Comandante... — Armin, hesitante, chamou-a quando Hange passou por ele. — Eu sei que não é um bom momento, mas...
— Armin, eu já falei. — Hange respondeu ríspida e sem parar de caminhar. — Não sou eu quem está proibindo vocês de visitarem Eren. É o Zackly. Peça permissão a ele.
Na sala aguardavam os acusados, os líderes de esquadrão e dois dos subordinados de maior estimação de Hange; isto é, Mikasa e Connie. Jean e Armin chegaram com a comandante e situaram-se ao lado dela. Hange sentou-se à frente dos réus. Ela fitou Floch, o nome mais presente na manchete, o mais velho dos quatro e também aquele em quem Hange mais confiava entre os culpados. Floch não expressou remorso ante o olhar desapontado de Hange.
— Então vocês vazaram a informação sobre o Eren. Por quê, Floch?
Floch respondeu com resolução ensaiada:
— Porque o Eren precisa ser libertado. Nós não fizemos nada de errado, comandante, fizemos apenas o que era certo. Nossa vitória se deu graças à Eren Yeager. Ele vai liderar a ascensão do novo império de Eldia.
— Paradis não é um império, é uma nação. — Hange usou a mesma voz que utilizava com Leona quando a filha não queria entender as lições. — E essa vitória que vocês tanto comemoram deu aos outros países uma razão para unir forças contra Paradis. Eren pôs a gente em perigo.
— Não. — Floch endureceu a voz. — Eren teria nos colocado em perigo se não tivéssemos a opção da nivelação. Comandante, não percebe o poder em nossas mãos? Se conseguirmos ativá-la, ninguém poderá invadir nossa ilha.
Nivelação é o nome dado à operação de despertar os titãs colossais adormecidos no interior das muralhas. A primeira vez que essa opção foi dita em voz alta foi numa reunião com Kiyomi. Na ocasião, a família Azumabito apresentou a possibilidade de usar a nivelação como arma de intimidação. Para os hizurunêses é fácil falar. Somente eldianos sabem como titãs são imprevisíveis. Sobretudo Hange, uma pesquisadora do ramo.
— A nivelação é o último recurso. — Hange explicava devagar. — Nós não sabemos como ativá-la. E se não funcionar, Floch? E se os titãs caírem mortos assim que os libertarmos? E se não precisarmos mais deles, aonde a gente guarda centenas de titãs colossais? Você sabe muito bem qual é o tamanho dessas criaturas... — Enquanto Hange falava, Floch dava sinais de querer interrompê-la. Hange elevou a voz e continuou até o fim. — E eles se forem mortos, como criamos outros? Você já pensou nisso? Não há garantia de que a nivelação vai funcionar como você imagina.
— Como você espera saber sem arriscar? — Floch rebateu sem rodeios.
Silêncio. Hange sabe que a fala de Floch deveria ser dela. E de fato teria sido caso essa conversa tivesse acontecido nove anos atrás. Os líderes de esquadrão conversavam entre si em murmúrios. Hange sentia-os a julgando. Como ninguém responde Floch, ele prossegue:
— Eren Yeager vai liderar esse império... nação, que seja. Comandante, você precisa soltá-lo.
— Você pode estar certo. — Hange admite, infeliz. — Mas eu já tomei a decisão de conferir o plano do Zeke antes de preparar o próximo passo. A responsabilidade é toda minha. Portanto, eu não posso permitir insubordinações por parte dos meus próprios soldados. — Hange voltou-se à Jean, Connie e Mikasa. — Levem esses quatro para a prisão do distrito. Celas separadas, por favor.
A ordem findou a reunião. Mikasa algemou Louise enquanto Jean e Connie ocupavam-se com os outros três. Floch se rendeu de imediato. despedida dele foi melodramática:
— Eu vou rezar pela vitória do meu império. — Declarou Floch, cheio de dignidade.
Os líderes de esquadrão cochichavam. Hange identificava o tom de desaprovação na conversa sussurrada dos subordinados. Por mais infantil e autocomplacente que fosse, Hange não parava de pensar que Floch não se engrandeceria caso Erwin estivesse aqui, e os subalternos tampouco murmurariam críticas às costas do décimo terceiro comandante. Os líderes de esquadrão saíram depois dos prisioneiros.
Hange perdeu a confiança em Floch tal qual a fé em Yelena. Ah, sim, havia a questão dos voluntários encarcerados. Esse boato era verdadeiro? Por que ninguém a comunicou? Além de seus próprios soldados, os outros comandantes também agiam às escondidas. E sobre Hange caia o peso das ações, incluindo as que não eram de sua autoria. Todos se voltavam contra ela.
Hange recordou-se de Sannes, o policial preso pelo crime de ser cúmplice do rei mentiroso. Hange não compreendia como Sannes, a quem julgava um lacaio burro, podia considerar-se bom após as atrocidades cometidas em nome da família Reiss. Agora Hange descobria-se no lugar de Sannes. Era uma questão de tempo até alguém colocá-la na cadeia por estar tentando, a seu modo, proteger as pessoas.
A mágoa tornou-se maciça. Hange estrangulou o grito de raiva. Ela elevou as mãos, ansiando ter o pescoço de alguém entre os torcidos dedos trêmulos. A seguir, a tristeza a acometeu. Seus braços desabaram e Hange curvou os ombros. Como queria esconder-se em algum buraco.
— Estou cansada. Quero ir pra casa.
Seria tão bom ir para casa... Hange dispensaria Minnie e levaria Leona e os amigos ao parque. Hange pagaria cachorros-quentes e sucos às crianças. Ou então, quem sabe, Leona e ela pudessem roubar o dirigível e fugir de Paradis. Ao vislumbre dessa insanidade, Hange sobressaltou-se.
— Não. Há muito a se fazer.
Hange ergueu-se determinada. Ela precisava ir ao quartel-general da Tropa Estacionária averiguar os rumores sobre as prisões dos voluntários. Como Hange queria chegar lá o mais rápido possível, decidiu ir a cavalo. Buck adorava passear pela cidade. O cavalo fez um trabalho eficiente levando Hange até o prédio. O quartel-general da Tropa Estacionária costumava ser mais tumultuado que o da Tropa de Exploração. Agora, os tempos eram outros. O castelo há anos não recebia uma reforma; dava para ver pela pintura descascada e pela decoração antiquada.
Hange pediu para falar com o comandante Dot Pixis. Por ser outra comandante, Hange passou na frente da fila de jornalistas e subordinados. Pixis sorriu ao vê-la. O sorriso, contudo, não chegou aos olhos do militar.
— Saudações, comandante Hange Zöe, a nossa menina de ouro. — Mesurou Pixis. — Gostaria de uma taça de vinho? Faz tempo que eu não bebo em companhia de uma dama.
Pixis engoliu um longo gole de seu vinho já pela metade. O líder da Tropa Estacionária era conhecido por beber a qualquer hora do dia e em qualquer lugar, inclusive em serviço. Ele serviu uma taça para Hange. A comandante reparou no idioma marleyano talhado na embalagem. Um golinho de vinho não cairia mal – beber até morrer de cirrose parecia uma ótima opção. No entanto, Hange recusou a proposta. Não era hora de beber.
— Não, obrigada. — Ela se sentou. — Vou direto ao ponto: o senhor prendeu os voluntários?
— Sim. — Pixis serviu-se de mais vinho.
— Incluindo os que participaram da invasão?
— Sim. — Ele bebeu.
— Os generais te deram permissão?
— Deram.
— A Polícia Militar sabe?
— Sim. — Mais um gole.
— E a Marinha?
— Também.
— A Tropa de Exploração não foi informada. Eu descobri pelo jornal.
— Bem... — Pixis deu de ombros. — Como vocês andam iniciando guerras sem perguntar a opinião dos outros, imaginei que nós da Tropa Estacionária também tínhamos o direito de tomar algumas decisões sem consultá-los. Posso estar velho, mas não estou morto.
Pixis insinuava que Eren atacou Marley com o aval de Hange. A comandante comprimiu os lábios.
— Pixis, eu jamais exporia a ilha a um perigo mundial se eu não fosse obrigada. Eren não nos deu opção. O senhor sabe.
Pixis a avaliou. Hange sustentou o olhar e endureceu as próprias feições. Não daria o braço a torcer quando estava sendo honesta. Hange continuou fitando Pixis mesmo depois de o líder cortar contato visual. O outro militar se recostou na cadeira e pôs a mão na testa enrugada.
— Nesse caso, só há mais motivos para suspeitarmos dos voluntários.
A frase de Pixis tinha um quê de decepção. Pixis era um dos satisfeitos com os avanços tecnológicos da ilha, e ele sabia que nada daquilo seria possível sem a ajuda dos voluntários. No entanto, certos forasteiros emanavam maus presságios. Pixis percebeu o conformismo de Hange.
— De quem o senhor desconfia? — Perguntou Hange já sabendo a resposta.
— Yelena. — Pixis dava a ideia de estar falando de um assunto muito refletido. — Ela registrou cada passo na ilha, sempre foi prestativa, deixava-se ser rendida pelos nossos soldados, se mostrou submissa quase cem por cento do tempo... essa solicitude excessiva me deixa cabreiro. A mim sempre pareceu que Yelena estava desesperada para passar confiança. Pela minha experiência com mulheres, isso ou é um sério complexo de ser aceita ou há interesse por trás. E agora, vamos falar sobre o Floch... sim, eu li o jornal. Bem, o Floch e a Yelena andaram bastante juntos no tempo em que vocês estiveram em Marley. E o Floch é amigo de Eren.
— O senhor está querendo dizer que a Yelena e o Floch sabiam que o Eren ia fugir? — Perguntou Hange, incrédula.
— Em resumo, sim.
— O senhor já conversou com a Yelena?
— Ainda não. Se for verdade, eu estou tão encucado quanto você. Por que o Eren iria atrás de Yelena, em vez de conversar conosco?
— Eu não sei. Eu tentei conversar com o Eren, mas ele não quis conversar comigo.
A resposta de Pixis foi um resmungo gutural. Se Pixis ainda não falara com Yelena, então ele não ia querer que Hange fosse a primeira a interrogá-la. Isso era bom, pois Hange não obteve sucesso ao inquiri-la alguns meses atrás. A comandante resolveu consultar o único voluntário de fato fidedigno.
— Pixis, o Onyankopon está aqui?
— Você deseja vê-lo?
— Posso?
— Contanto que você o mantenha em rédeas curtas.
Hange pensou em dar uma resposta mal-educada. Porém, não era uma boa ideia defender Onyankopon. Sendo assim, Hange apenas aquiesceu.
— Ótimo. — Pixis escreveu a autorização e entregou-a à Hange. — Ele está em prisão domiciliar. Não tínhamos quartos o bastante para todos. Dê isso ao guarda, é um subordinado meu. A propósito, como vai a menina do Erwin? Faz tempo que não a vejo.
— A Leona vai bem. Ela anda eufórica porque o aniversário dela está chegando. — Hange fitou o relógio desgastado e sem números do escritório. — A Leona deve estar saindo da escola a essa hora. — Hange divagou por um segundo. Em seguida, sorriu para Pixis. — Obrigada pela permissão. Até logo, comandante Pixis.
Os comandantes apertaram as mãos. Como era costume de Pixis fazer com mulheres, ele deu um beijinho nas costas da mão de Hange. O beijo deixou a pele de Hange com cheiro de vinho.
XXX
A comandante foi recebida não pelo inglês, mas por um soldado da Tropa Estacionária. Hange apresentou a permissão de Pixis. Apesar de Hange ocupar o posto mais alto da Tropa de Exploração e sua divisão ser a mais prestigiada e influente das quatro, os subordinados não podiam desobedecer os dirigentes para acatar às ordens de outros departamentos
Hange encontrou Onyankopon de espreita na janela onde estivera observando a visitante através das frestas estreitas. A casa de Onyankopon estava escura e abafada. Como não havia grades, o guarda decerto exigiu que Onyankopon mantivesse as janelas e as portas fechadas.
— Hange. — Diferente de Pixis, Onyankopon nem tentou sorrir ao vê-la.
— Boa tarde, sabichão. Se importa se eu almoçar com você? — O tom amigável de Hange suavizou a tensão.
— Só tenho chá e bolinhos.
— Para mim está ótimo. Podemos comer lá fora?
O inglês pareceu feliz em sair de sua cela improvisada. Enquanto a água fervia, Hange ajudou Onyankopon a levar a mesa e duas cadeiras para o quintal. Eles sentaram debaixo do ameno sol primaveril. Buck pastava a poucos centímetros dos humanos, em evidente estado de incômodo por causa do freio em sua boca. Os bolinhos estavam meio duros. Hange não reclamou. Onyankopon apanhou um baralho de cartas.
— Quer jogar?
— Pode ser.
Onyankopon distribuiu as cartas. Nove para cada. Hange deu uma olhadela nas suas. Ela perdeu-se um pouquinho admirando a roupa colorida do curinga. Se tivesse prestado atenção nos naipes, perceberia que recebera uma trinca completa.
— Estou decepcionado com a desconfiança de vocês.
Era verdade. Hange nunca tinha visto Onyankopon tão aborrecido. O inglês comprou uma carta do baralho, a alocou em seu jogo e descartou uma rainha. Hange comprou distraidamente. Era um valete. Hange o rejeitou sem conferir se a carta se encaixava em sua mão. Onyankopon continuava manifestando suas frustrações:
— Nós arriscamos nossas vidas juntos. Por que nos prender poucos dias depois de voltarmos de uma batalha? Poxa, senhorita Hange, somos companheiros ou não somos? Durante cinco anos nos dedicamos à Eldia. — Onyankopon substituiu um ás de copas por uma carta desconhecida pega no baralho. — Veja só tudo o que construímos. E agora você vai nos transformar em reféns? Você não acredita mais em nós? — Onyankopon deu uma ênfase magoada nas próximas palavras: — Nem em mim?
Hange ignorou Onyankopon incluindo-a na ordem de prisão. Embora ela desconhecesse as prisões até aquela manhã, Hange era comandante. Ela tinha uma parcela de culpa em tudo que tinha o dedo do exército de Paradis. Hange assentia às reclamações de Onyankopon, concordando e se compadecendo.
— Eu compreendo. É sacanagem. Não tenho desculpas para dar a você. Eu nem sabia que vocês estavam presos até ler o jornal, juro. Não sei como puderam...
Hange remexeu suas cartas. Na hora de descartar, quase pôs o curinga fora sem querer. Onyankopon melhorou a cara de rabo após ouvir as condolências de Hange. Ele pôs uma sequência de espadas na mesa.
— Eu também não. Poxa, todos nós mostramos lealdade à Eldia o bastante, creio eu.
Onyankopon mostrava-se perplexo com as prisões. Hange o observava por cima do leque de cartas cuja desorganização evidenciava o desinteresse de Hange pela partida. Onyankopon deu um meio-sorriso ao comprar um curinga do baralho. Ele realizou uma combinação de cartas onde o curinga substituía o número cinco.
Onyankopon sabia das reuniões entre Eren e Yelena? Hange duvidava. Onyankopon e Yelena costumavam ser bons amigos, mas Hange não os via juntos com a mesma frequência há dois anos. Pensando agora, Onyankopon ficou apreensivo ao ler a carta de Eren. Pessoalmente, Hange torcia para Onyankopon não estar envolvido.
— E-ei. — Gaguejou Onyankopon de maneira desconfortável. — O que foi?
Hange descobriu-se debruçada na mesa e por cima de Onyankopon. Seu nariz por pouco não encostava no rosto abismado do inglês. Hange nem piscou ante a desconcertante realização. Em vez disso, ela espiou o guarda da Tropa Estacionária – o soldado almoçava sob a sombra de uma árvore. Hange fixou seu único olho nos do inglês e confidenciou:
— Temos fortes evidências de que Eren e Yelena estavam se encontrando em segredo antes de viajarmos.
— O quê!? — Exclamou Onyankopon num sussurro estrangulado. — Yelena e Eren se encontraram em segredo? — Repetiu ele, descrente. — Yelena sabia que o Eren ia atacar Marley?
— Sim. — Hange confirmou num murmúrio afobado de alívio e voltou a se sentar. — Você realmente não sabia.
— Não!
O desapontamento de Onyankopon mudou para choque inconformado. Do ponto de vista de Hange, Onyankopon não estava fingindo. É claro, Hange poderia estar errada. Afinal, Floch trabalhou com ela por oito anos e a apunhalou. De qualquer maneira, Hange acreditou em sua intuição.
— Onyankopon, eu tenho poder para proteger você. — Disse Hange com sinceridade. — Mas, pelo bem do seu futuro, eu preciso que você converse comigo sobre a Yelena.
Onyankopon remexeu-se inquieto. Embora a relação não fosse como antes, ele e Yelena eram companheiros de longa data. Se Yelena fosse uma farsante, Onyankopon sofreria a dor da traição independentemente de o punhal não ter sido cravado em suas costas. E apesar de Hange e ele terem se tornado grandes amigos, Onyankopon ressentia-se em delatar os podres da velha parceira. Hange o entendeu e respeitou. Se lhe pedissem para fazer o mesmo com Levi, Hange se sentiria de igual modo.
— Quem reuniu os voluntários para ajudar Paradis foi Yelena. Ela sempre foi a cabeça do nosso grupo. Yelena dava prioridade aos marleyanos mestiços e aos soldados de outras nacionalidades, como eu, porque somos mais propensos a trair Marley. Alguns marleyanos se juntaram a nós, a maioria oportunistas de baixa patente.
"No começo havia muita desconfiança. Você sabe, Hange, Marley não é adorada, mas a ideologia anti-Eldia é quase lei. Quando alguém mostrava sinais de desistência ou de desobediência, Yelena botava o dedo no gatilho. Conto nos dedos quantos conseguiram misericórdia. Yelena nunca teve problemas em sujar as mãos para mostrar lealdade à Zeke, mesmo que isso significasse assassinar nossos amigos. Eu ficava assustado, mas eu virava o rosto e repetia que um marleyano morto vale por vinte cabeças eldianas decapitadas- ah, me desculpe pela expressão. Em poucas semanas não havia mais desertores a se executar. Não sei por qual razão a Yelena mancomunou com Eren e não contou a nenhum de nós, se desde o começo nós a seguimos de olhos fechados."
Hange gostou de ter suas suspeitas a respeito de Yelena confirmadas. Claro, Levi achava Yelena uma perfeita vilã, no entanto ele é paradisiano, inimigo de Zeke e, vale mencionar, o namorado de Hange, então a opinião de Levi não era apartidária. Como Onyankopon foi honesto, Hange também foi.
— Eu lembro até hoje do tiro que ela deu na cabeça daquele marleyano na primeira noite aqui. Acho isso muito estranho, Onyankopon. Ela agiu tão sem piedade com os colegas, mas quando vocês chegaram aqui, ela fez de tudo para proteger vocês e os outros tripulantes do navio. Ela até deu liberdade a vocês e fez de tudo para ganhar nossa confiança.
— Sim, eu concordo, foi uma mudança brusca. Eu e os outros imaginávamos que Yelena estivesse retribuindo a nossa lealdade, sabe, tentando compensar suas barbaridades de alguma forma. Ainda mais porque não estamos em Marley. Nós somos a minoria aqui, então é compreensível que ela tenha tentado proteger os seus amigos.
Hange refletia. No mistério de Yelena, as palavras-chave eram CONFIANÇA e SEGURANÇA. Hange fitou o leque de cartas em suas mãos. O curinga ria de Hange. Ela lembrou por acaso que o curinga vale vinte pontos no jogo dos pontinhos — uma sentença de morte caso você esteja jogando com o limite de cem pontos.
— Você sabe qual é o plano do Zeke?
— Não sei. Yelena nunca me contou.
— Se o Zeke for um agente duplo (não estou dizendo que ele é), você acha que a Yelena seria capaz de fazer mal a nós? Digo, a mim, aos meus soldados, e às pessoas inocentes?
Onyankopon respondeu no tom de alguém que admite um fato no qual acredita a contragosto:
— Sim, acho.
Nem sempre estar preparado para a verdade nos priva das emoções negativas. Nas entranhas da sua alma, Hange tinha absoluta certeza de que Yelena era a responsável pelo sequestro de Leona. Hange não devia estar pensando na filha com o país a beira de um colapso, mas não conseguia tirar o sequestro da cabeça. Se Yelena era capaz de raptar uma criança para desestruturar o exército, então ela não possuía limites. E se Yelena e Floch conversaram na ausência da Tropa de Exploração... Floch, aquele que vazou a prisão de Eren e quem repassou à Hange a investigação sobre a tal "rebelião". E pensar que esse cínico segurou Leona no colo quando ela era um neném de seis dias.
Por fim, Hange despejou suas cartas na mesa.
— Parece que eu perdi o jogo, Onyankopon. — Ela se levantou. — Vamos sair daqui.
— Hein? Eu também? — Onyankopon surpreendeu-se. — Não estou gostando disso.
XXX
— Boa tarde, Annie.
Embora Annie não pudesse respondê-lo, Armin sempre a cumprimentava. O soldado se aproximou da gigantesca rajada de gelo onde a liberiana portadora da titã fêmea petrificou a si própria há oito anos. Desde então inúmeros estudos foram feitos e diferentes aparelhos tentaram quebrar o cristal. Nem os lança-trovões foram capazes de riscar o impenetrável escudo.
Pesquisadores discutiam diversas teorias sobre a condição de Annie. A mais aceita era a de que ela submeteu-se a uma espécie de coma. Não havia como saber se Annie estava viva ou morta, mas Armin acreditava na primeira opção. Ele via as sutis mudanças, ou pensava ver, que seu rosto movera-se para a direita, e que os seus dedos se fecharam um pouquinho desde a última visita. Se Annie estivesse viva, os treze anos dela estavam acabando. Armin parecia ser o único preocupado com esse detalhe. Os demais apenas questionavam-se como realizariam a herança com Annie pétrea.
Armin sentou-se em frente ao casulo transparente onde Annie dormia o profundo sono da inconsciência. Sempre que ia à Capital, Armin visitava Annie em segredo. Nem Mikasa e Eren sabiam. Bem, ultimamente havia muitas coisas que Eren não sabia acerca de Armin e vice-versa.
— Annie, se você soubesse como as coisas estão... Nós invadimos Marley. Foi péssimo. Eu odiei.
A liberiana não reagia ao papo do paradisiano. Armin, contudo, continuava falando. Não havia muitas pessoas aqui fora com quem pudesse e/ou quisesse conversar. Annie era a sua ouvinte favorita.
— Escuta, quando eu era criança, o meu avozinho me deu um livro sobre o mundo fora das muralhas. O governo proibia livros do gênero. Eu só tinha nove anos e meu avô confiou aquele livro criminoso à mim mesmo sabendo que ele poderia acabar na cadeia. Tenho o livro até hoje. Ele é cheio de desenhos do mar, das pirâmides do Egito, das geleiras, das montanhas, enfim, todo o tipo de coisa. Eu e o Eren costumávamos ler esse livro dia e noite. A gente se maravilhava com a possibilidade de investigar terras inexploradas... então descobrimos que o mundo não é como imaginávamos.
"O Eren mudou. Descobrir sobre Marley... eu não sei, Annie, ele quebrou. O Eren começou a andar com outras pessoas, a fazer umas piadas que eu não achava a mínima graça, e a injetar umas coisas estranhas no braço. Ele começou a me procurar só para perguntar se eu desencadeei mais lembranças do Bertholdt. Eren nem me contou seu objetivo de trabalhar com Zeke. Fiquei chateado, confesso, fiquei mesmo. Eu jamais tomaria uma decisão dessas sem contar a ele e a Mikasa. Você acha que estou certo em estar chateado?"
Armin ressentia-se quando lembrava que as mudanças não aconteceram do dia para a noite. Armin percebeu a mudança de personalidade e acreditou na falsa ilusão de que Eren jamais os enganaria. Se Armin tivesse confrontado Eren, talvez as coisas pudessem ter acontecido de outra maneira. Quem sabe a Sasha ainda estivesse viva.
— Logo Marley vai lançar um ataque contra a ilha em retaliação. Nosso caminho pacifista foi pro brejo. Por causa da escolha de uma pessoa, nós não temos saída senão a guerra. É meio parecido com o que aconteceu com você e os rapazes, não é?
Quando teve acesso às memórias de Bertholdt, Armin descobriu que a missão dada aos guerreiros falhou no instante em que eles desembarcaram na ilha. Marcel, o portador do titã mandíbula, foi devorado por outro titã – Ymir. Annie queria recuperar o novo transformado e retornar à Marley. Entretanto, Reiner, um garoto de doze anos que sofria de uma forte necessidade se provar, os convenceu a seguir o plano sem o titã mandíbula. Essa escolha desencadeou uma série de eventos infelizes. Se não fosse por Reiner, Annie não estaria cristalizada.
Assim como Annie e Bertholdt, os paradisianos meteram-se em encrenca por causa de uma única pessoa. No entanto, Reiner era uma criança apavorada numa ilha esquisita e em companhia de mais duas crianças apavoradas. Eren, em contrapartida, é um homem feito cheio de aliados. Armin conseguia entender Reiner, mas não conseguia entender Eren.
Não tinha noção de quais eram as intenções de Eren – Armin possuía palpites pessimistas, entretanto preferia agarrar-se ao benefício da dúvida. Bom, ele veio aqui para esclarecer os propósitos de Eren e acabar de vez com a desconfiança. Tentar, para ser honesto. Eren estava preso bem debaixo do quartel-general da Tropa de Exploração, mas salvo Hange e os policiais militares, ninguém tinha permissão de ver Eren. Mikasa sugeriu invadirem a prisão na surdina, mas Armin a convenceu a seguir a burocracia. Hange se afogava em problemas e o exército estava instável tanto em questões internas quanto externas. Abrir mais um protocolo de insubordinação não ajudaria em nada.
Armin ergueu-se do chão gelado de pedra. O subsolo onde Annie descansava era um calabouço escuro, úmido e frio, movimentado apenas durante a ronda do policial ou quando um pesquisador vinha estudar Annie. Na maior parte do tempo Annie repousava solitária em seu cristal. Às vezes, nas noites congelantes de inverno, Armin se questionava como Annie estaria se sentindo ali, abandonada.
Annie e Armin costumavam ser amigos antes de a identidade da titã fêmea ser revelada. Por incrível que pareça, Annie o procurava primeiro, usando o dever de casa teórico como desculpa embora fosse plenamente apta a fazer sem ajuda. Ao contrário dos outros, que conversavam com Armin por conveniência e decoro (Armin andava com Eren e Mikasa, aqueles com quem os demais queriam de fato papear), Annie o procurava nas poucas ocasiões em que Armin se encontrava sozinho.
Ele fitou Annie. As pálpebras fechadas, os cílios longos, os cabelos curtos os quais ela prendia num coque. A serenidade de Annie não passava nenhuma tranquilidade à Armin. Gostava mais dela consciente. Armin se aproximou do casulo e pensou, se Marley invadisse Paradis agora, qual seria o fim de Annie? Armin esperava que a libertassem. Ele desejava que Annie visse a luz do sol antes de seus treze anos acabarem.
— ÊPAAAAA!
A voz intrusa ecoou no calabouço. Armin soltou uma exclamação aguda. Hitch Dreyse, a policial responsável por Annie, muxoxava na escada. Hitch trazia um jornal dobrado em formato de megafone.
— Querido visitante, é proibido ver com as mãos.
Armin se sentiu como se acabasse de ser pego bisbilhotando o banheiro feminino. Não havia nada de errado em olhar Annie de perto, mas não era isso o que o seu coração achava. E pela cara de Hitch, ela também pensava desse modo.
— NÃO NÃO HITCH ME DESCULPA AI MINHA SANTINHA FOI SEM QUERER EU SÓ ESTAVA TENTANDO OBTER INFORMAÇÕES IMPORTANTES PORQUE VOCÊ SABE NÉ QUANDO UM TRANSFORMADO TOCA EM OUTRO A GENTE PODE TER ACESSO ÀS LEMBRANÇAS INFORMAÇÕES IMPORTANTES E TUDO O MAIS EU E O EREN JÁ FIZEMOS VÁRIAS VEZES AI POR FAVOR NÃO ME IMPEÇA DE VIR!
— "Informações importantes"? — Hitch desceu as escadas. Armin viu a zombaria na feição de reprimenda. — Eu sei que tipo de "informações importantes" os homens querem.
Armin apressou-se em dar mais desculpas. Hitch deu um tapinha na boca de Armin com o jornal, calando-o.
— Não se preocupe, anjo. Eu não vou proibir você de vir. Annie ficaria entediada tendo só a mim para conversar. — Hitch deu um sorriso respeitoso à sua colega desmaiada. — Sério, como você consegue ser tão popular entre os homens? — Hitch direcionou-se à Armin: — Vamos lá para cima? Zackly vai recebe-lo em instantes.
O quartel-general da polícia militar era o maior e mais bonito de todos. Se alguém se perdesse lá dentro, decerto jamais encontraria o caminho para fora. Por sorte, Hitch conhecia o lugar como a palma da mão. Armin perguntou, reparando no Folha de Paradis de Hitch:
— O que você achou das notícias?
— Acho que a revolta faz sentido. — Disse Hitch com franqueza. — Nenhum dos comandantes deu uma resposta satisfatória ao povo.
— É um beco sem saída. — Lamentou Armin. — Precisamos saber logo quais são as intenções de Eren.
Nesse instante, um jovem policial atlético e uma velha policial ofegante passaram correndo pelos transeuntes. A policial mandou Hitch vir ajuda-los a conter a multidão. Hitch e Armin se entreolharam. Eles seguiram os policiais e se depararam com a aglomeração no portão do quartel-general. O protesto ocorrido pela manhã no prédio da Tropa de Exploração era uma turminha do barulho perto daquele amontoamento heterogêneo de plebeus, nobres, mulheres, homens, idosos e adolescentes. Alguns erguiam cartazes declarando ódio aos marleaynos e apoio à Paradis. Um menininho montado nos ombros do pai sacudia uma bandeirinha bordada da silhueta do titã de ataque. Os manifestantes rogavam a libertação de Eren.
"EREN É A NOSSA ESPERANÇA!"
"LIBERTEM O EREN!"
"MORTE AOS MARLEYANOS!"
"VINGANÇA!"
"DEVOLVAM O EREN PARA O POVO!"
Hitch juntou-se aos policiais se queixando do serviço cansativo. Armin, estupefato, fitava a multidão tentando enxergar Mikasa entre os protestantes. Armin suspirou desafogado ao vê-la já dentro do território do quartel, acompanhada pelo policial que a estivera guiando.
— Armin, estou aqui.
— Mikasa! — Armin exclamou aliviado. — Você conseguiu chegar em segurança!
— Vamos logo. Não podemos perder a hora com Zackly.
Mikasa disparou a passos largos. Armin acompanhou-a. Enquanto se dirigiam para o saguão, três recrutas desceram as escadas correndo. Armin teria os ignorado caso não tivesse identificado de rabo de olho o símbolo das asas da liberdade no uniforme dos adolescentes.
— Aqueles são os recrutas da Tropa de Exploração? O que eles estão fazendo aqui? Você aí!
— Armin, deixe-os. Não temos tempo para isso agora.
E de qualquer forma os recrutas já haviam fugido. O terceiro deles, um jovenzinho de cabelo raspado nas laterais, mirou Armin por cima do ombro e desviou a face de pronto. Armin teve uma sensação estranha no estômago. Uma espécie de dejá-vù reverso – eu nunca vi isso acontecer, mas sei que vou lembrar disso mais tarde.
A sala de Zackly se localizava no último andar. Haja disposição para subir tanta escadaria. Armin pediu licença ao bater na porta e pediu novamente quando Zackly deu permissão. Armin e Mikasa encontraram Zackly contemplando a expansiva janela cuja altura ia até o teto, assistindo a multidão enfurecida. Armin iniciou o diálogo:
— Obrigado por nos receber, general Zackly.
— Eu sinto muito que vocês tenham visto essa confusão. Em condições normais esse castelo é calmo e pacifico. Até poderíamos tomar um chá lá em baixo caso não... Bom, independente das circunstâncias é sempre um prazer ver vocês, heróis de Shiganshina.
Zackly virou-se. O general portava uma expressão taciturna. Zackly convidou-os a sentar. Mikasa e Armin obedeceram. O general retomou a fala:
— Parece que a Hange está correndo para cima e para baixo como de costume. Ela acabou de passar aqui, ela e aquele preto —nunca gostei daquele rapaz, não sei por quê. Pelo menos ele é útil. Hange e ele descobriram informações preocupantes.
Armin achou que o ranço do general se relacionasse com a indiscreta entonação afetada que Zackly fez ao referir-se à Onyankopon. Armin entendia a cisma dos paradisianos com os marleyanos, agora suspeição baseada em cor da pele é um completo absurdo. Armin não pôde segurar a face de desaprovação.
— Quais informações? — Mikasa questionou.
— Antes de mais nada... — Zackly apertou as sobrancelhas e determinou justamente a ordem que Armin e Mikasa vieram contestar: — Vocês não podem ver o Eren.
— Por quê!? — Mikasa elevou a voz uma nota.
— Por quê? — Armin tentou soar displicente.
— Essas informações são confidenciais, não saiam espalhando: os forasteiros e Eren estavam se reunindo em segredo. Estamos investigando os responsáveis. Não estamos obtendo resultados satisfatórios. Eren, sobretudo, se recusa a falar conosco.
— Bem, se o senhor nos deixar falar com ele... — Sugeriu Mikasa.
— Nós achamos que Zeke Yeager está controlando o Eren. — Zackly complementou.
Armin boquiabriu-se e Mikasa esbugalhou os olhos. Os dois amigos estavam lívidos. Armin tinha sérias dúvidas de que Eren estivesse sendo controlado. Não importa se Zeke é o irmão de Eren, não fazia do feitio de Eren seguir ordens de outrem. Era mais fácil Eren estar controlando Zeke. Ao menos que Zeke tenha reivindicado o poder do titã fundador e o estivesse usando em Eren, claro.
Porém, o resto do exército desconhecia esse lado de Eren. E tampouco conheciam Zeke – Armin também não fazia ideia do caráter de Zeke Yeager. A pergunta-chave veio de Mikasa:
— O que vai acontecer com o Eren?
Fez-se um silêncio agourento. O general expressava uma séria insensibilidade que poderia ser confundida com impassibilidade por olhos menos atentos. O olhar do general rolou tal qual uma pessoa desvia o foco para o lugar onde esconde um segredo obscuro. Armin seguiu os olhos do general. Sua visão caiu numa cadeira de tortura novinha em folha, acolchoada e elegante, acompanhada por um pequeno banquinho exclusivo para o torturador. A cadeira estivera ali o tempo todo à espreita. Armin sobressaltou-se por reparar nela tão de repente. Estaria Zackly pensando em torturar Eren?
— O que é isso?! — Mikasa acabara de chegar na mesma conclusão de Armin.
— Nada. — Zackly deu de ombros. — Estão assustados com a cadeira? Ah, os recrutas entregaram agora há pouco. Eu não tinha aonde coloca-la, então trouxe para cá.
Contemplar a cadeira de tortura agitou Armin. Zackly adorava travestir seu sadismo de justiça.
— General, Mikasa e eu podemos ajudar! Conhecemos Eren desde pequeno, nós podemos tentar.
— Não. — Repetiu Zackly, inflexível. — As circunstâncias requerem cuidado e mãos experientes. Não vamos mais discutir.
O general recusou-se a cooperar a partir daí. As queixas de Armin e de Mikasa de nada adiantaram, e logo eles foram expulsos da sala. Eren falhou com o governo e a Tropa de Exploração mostrou não ter controle sobre ele. Agora as outras divisões e as autoridades se viam no direito de meterem o nariz. Zackly já devia estar procurando candidatos à herança dos três titãs sob a posse de Eren.
— Ele não quer nos ouvir! Por que ninguém quer nos ouvir?!
Mikasa reclamava enquanto se afastavam do corredor. Quatro policiais passaram por eles e se dirigiram à sala de Zackly. Deviam ser os policiais responsáveis pelo interrogatório de Eren. Armin sussurrou o pressentimento à Mikasa. A Ackerman decidiu que iria dar um jeito de ouvir a conversa entre Zackly e os policias. Armin a agarrou pelo pulso.
— Mikasa, não podemos desobedecer a lei militar. — Armin não soou convincente.
— Armin, eu não me importo. Vou descobrir o que querem com Eren. Independente do que aconteça, eu vou proteger o Ere-
Mikasa avançou em Armin sem dar chance de reação. Se num segundo conversavam, noutro Mikasa lançava-se ao chão trazendo Armin junto e tomando o cuidado de ficar por cima a fim de protegê-lo. A explosão ensurdecedora e a fumaça escandalizaram Armin e ele tentou inverter os papéis com Mikasa. Por sorte, o pior já passara. Mikasa não se machucou. A bomba ou seja lá o que for aparentemente explodiu pelo lado de fora.
— Uma bomba, Mikasa! — Exclamou Armin entre as tosses. — Você está bem?
— Estou. Vamos sair daqui.
Armin descobriu estar certo sobre a direção da explosão. Chamas alaranjadas cresciam no rombo aberto no prédio. Cacos de vidro esparramavam-se no chão, muitos alcançando o portão fechado onde a multidão outrora barulhenta se encontrava aos burburinhos. Armin perdeu o ar ao identificar a localização do buraco: na janela do general Zackly.
— Armin... — Disse Mikasa estarrecida — o general Zackly...
O corpo do general jazia em meio aos vidros. Zackly morreu de olhos abertos. O olhar tranquilo evidenciava uma morte indolor apesar do resultado catastrófico. Metade do corpo de Zackly fora detonado. Sobrara apenas um braço, a cabeça e parte do tronco. Zackly perdeu os dentes da frente e os lábios. A caveira banguela sorria. Se Armin e Mikasa tivessem ficado lá só por mais três minutos, seus corpos fariam companhia ao de Zackly.
Os protestantes observavam. O menino com a bandeirinha do titã de ataque e seu pai pasmado fitavam a cena. Alguns cidadãos vomitaram e três ou quatro desmaiaram. E então um homem na primeira fila berrou, à guisa de glória:
— OFEREÇAM OS SEUS CORAÇÕES!
OFEREÇAM SEUS CORAÇÕES era o lema da Tropa de Exploração. O resto juntou-se à loucura, instigados pelo hino. Seguiu-se uma cena que teria sido bonita noutra época, ou noutro cenário: nobres e plebeus bateram continência. As pessoas puseram a mão no coração, muitos errando a mão correta e/ou o lado do peito, e berraram OFEREÇAM SEUS CORAÇÕES AO RENASCIDO IMPÉRIO DE ELDIA. Aturdidos, Armin e Mikasa assistiram o escândalo mirabolante. Armin só conseguia pensar no quão perturbador era presenciar tamanha sede de vingança. Hitch jogou o casaco do uniforme sobre Zackly, por fim protegendo a privacidade do general em sua morte.
XXX
Zackly foi assassinado. A notícia correu rápido. Onyankopon e Hange mal chegaram em Trost e já retornavam à Capital. Hange estava atônita. Ela concluiu, com ironia cruel, que devia ter comprado o terno para Leona em vez de tê-lo apenas alugado.
Zackly morreu quando Armin e Mikasa estavam no quartel-general da policia. Hange pensou que era só o que lhe faltava dois subordinados seus estarem envolvidos na morte de seu chefe. Ao chegar na reunião, Hange descobriu que a participação de Armin e Mikasa foi de testemunha. Graças à Santa.
Zackly foi morto por uma bomba escondida em sua sala. Aconteceu duas horas após Hange e Onyankopon visitá-lo. Segundo a investigação, a bomba fora escondida na "cadeira especial" de Zackly (apelido de "a cadeira de torturar pessoas do general"). Hange passara o dia troteando e almejava uma cadeira confortável, mas não havia cadeiras naquela sala. Os presentes postavam-se em pé ao redor da mesa retangular. Onyankpon, por estar sob a vigilância de Hange, teve de vir junto. O inglês descansava encostado na parede. Hange o invejou.
Nile Dok parava na cabeça da mesa. Kayle, a comandante da marinha, estava à frente de Hange e Pixis na outra extremidade de Nile Dok. Quem deu início a reunião foi o subordinado de Nile, um senhor calvo e de olhos pequenos:
— Além do general, quatro policiais foram mortos. Culpados e motivos são desconhecidos. Alguma teoria?
E para a surpresa de zero pessoas, o policial encarou Hange acusadoramente. Hange indicou Onyankopon e se defendeu:
— Onyankopon esteve comigo o dia todo e a cadeira não estava lá quando nós chegamos. Os outros voluntários estão presos, pergunte ao Pixis. — Só para reforçar, Hange complementou: — Não me reuni com nenhum outro estrangeiro.
O policial não deu indícios de acreditar em Hange.
— É verdade, policial. — Pixis confirmou.
O policial deu indícios de acreditar em Pixis.
— Certo. Quem mais teve acesso?
— Com licença. — Armin levantou a mão. — O Zackly disse que aquela cadeira foi entregue por recrutas.
— Recrutas de qual divisão? — Questionou Nile.
— Ele não disse... — Armin hesitou em concluir seu relato. Ele aparentava estar assustado. — Mas quando Mikasa e eu chegamos no quartel, vimos três recrutas da Tropa de Exploração saindo do prédio.
Todos os olhares recaíram em Hange. A comandante endureceu. Na hora Hange pensou em Floch. Sua cólera para com o subordinado e seus amiguinhos era tanta que Hange sequer lembrou de constranger-se ante os olhares irritados. O único na sala que comiserou-se de Hange foi Nile.
— Eu soube que você prendeu uns linguarudos hoje cedo, Hange. Você acha-
Um policial adentrou a sala de reuniões a toda velocidade. O estrondo violento da porta sendo aberta sobressaltou os militares.
— TEMOS UMA EMERGÊNCIA!
O policial esbaforido precisou de duas longas arfadas para reunir fôlego e falar. Por favor, que não seja o Eren, implorou Hange. E como aquele afinal não era o seu dia de sorte:
— EREN YEAGER ESCAPOU DA PRISÃO!
XXX
A quilômetros e quilômetros da Capital, numa área rural, Floch aguardava o salvador. Ele e os outros três jamais foram para a prisão. O carcereiro, afinal, era uma ovelha do seu rebanho. Inclusive, o guarda se encontrava aqui, junto dos outros Yeageristas.
Floch admirava o enviado da Santa caminhar pela estradinha de terra. Vestido em farrapos, sem camisa, sujo e com aquela aura tensa de maníaco, Eren parecia ser a última pessoa que a Santa convocaria. Portanto, Floch sabia que era ele. Floch recordou aquela escritura do livro da Santa – "pois é isto o que eu, a SANTA, digo: daqui a pouco farei com que tremam o céu e a terra, o mar e a terra firme." A ressurreição se aproximava. Finalmente Eldia retomaria seu lugar de dona do mundo.
— Uau, quanta gente.
Eren balançava a cabeça, impressionado com o empenho de Floch em reunir fieis. Floch garantia que eram pessoas de coração puro, leal e, o mais importante: servos da Santa. Floch entregou roupas limpas ao seu líder. Nossa, Eren fedia como um saco de ratos mortos. Floch aguentou a catinga de bom grado.
— Tem muito mais, Eren. Temos membros e espiões em todos os lugares de Paradis. Aliás, nós explodimos Zackly e os outros que queriam realizar a herança dos seus titãs. — Floch abraçou Eren. O fedor maltratou as narinas de Floch. Ele tolerou. É possível ver prazer no sofrimento. — Nós sabemos que só você pode salvar o nosso império, Eren Yeager.
Eren retribuiu o abraço e deu-lhe batidinhas de conforto nas costas. Eren e Floch tornaram-se próximos nos últimos anos; uma amizade improvável nascida da casualidade. De todos os sobreviventes de Shiganshina, Floch jamais imaginava que justo o debiloide impulsivo se tornaria o seu melhor amigo. Reviravoltas dessa particularidade só podem ser obra da Santa.
Os Yeageristas aplaudiram o abraço do enviado e do apóstolo. Eren vestiu as roupas limpas e se pôs a guiar o rebanho para o próximo passo. Eren relatou seus planos grandiosos de como e quando conquistariam o sangue real de Zeke. Adiante, o sol começava a se pôr no horizonte. Floch apreciou o sol poente e respirou a brisa fresca do anoitecer. Ele se lembrou de outra passagem do livro da Santa, uma que sua mãe gostava: "o sol parou, e a lua se deteve, até a nação vingar-se dos seus inimigos."
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