Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)
58 Aprendendo com os mais velhos
Os fogos de artifício já haviam cessado quando Onyankopon e Jean chegaram. Connie não veio – ele era fã do presidente Vladimir, provavelmente estava comemorando a reeleição. Parados em frente a loja de chás, Onyankopon deu duas palmadas no portão. Em menos de dez segundos, Leona abriu-o.
A cara de Leona não combinava com a garota apavorada que telefonou há meia hora. Contudo, as enormes manchas de suor nas axilas, bem como a alegria sincera e aliviada, denunciavam-na.
— Q-q-ue — Leona segurou a gagueira — que bom que vocês chegaram. — Ela deu um suspiro inatural. — Eu tranquei o senhor Levi lá em cima. Ele está com uma faca. Acho que ele quer... — E engoliu em seco.
— Alguma coisa aconteceu com ele. O capitão Levi jamais te faria mal, Leona.
Afirmou Jean com convicção, passando por Leona às pressas. Souberam quando ele chegou nos fundos porque ouviram os pássaros voarem.
— Você foi muito esperta lembrando do telefone. — Onyankopon deu um sorriso consolador à Leona. Ela precisava ouvir algumas palavras de incentivo. — Você foi muito corajosa.
O brilho que transpassou o rosto de Leona e a forma como ela aprumou os ombros confirmou o instinto de Onyankopon.
— Vocês precisam da minha ajuda? — Ofereceu-se ela, cheia de pundonor.
— Não. Você espera aqui.
Onyankopon atravessou o viveiro e subiu as escadas. Encontrou a porta do apartamento aberta. A porta rangia no ir e vir do seu balanço, sem que o vento fosse forte o bastante para fazê-la bater.
No apartamento, Onyankopon defrontou-se com o capitão Levi estatelado no chão. Jean, ajoelhado ao lado dele, amparava-o. A perna aleijada tremia feito aqueles brinquedinhos de dar corda.
— Ele caiu, Onyankopon!
— O que aconteceu? — A pergunta de Onyankopon foi direcionada a Levi. Queria verificar as faculdades mentais do capitão.
— Não sei. — Alegou Levi numa versão desorientada do seu famoso tom sem emoções. — Eu estava dormindo e acordei com barulho de tiro. Procurei o meu equipamento de batalha, mas não consegui encontra-lo. Aí, eu vi a Leona e a mandei chamar a mãe dela e o Erwin... mas não teria como, claro. Os dois estão mortos. Eu me esqueci... — A voz de Levi se transformou num gemido que ele controlou tão rápido quanto Leona barrara a gagueira. — Aonde a Leona está? — Mudar de assunto trouxe o vigor de Levi de volta.
— Ela está bem.
— O tiroteio já acabou?
— Não era tiroteio, capitão. Eram fogos de artifício. — Revelou Jean, utilizando a delicadeza com a qual falaria com um idoso no leito de morte.
— Fogos de artifício? — Repetiu Levi, em tom de dúvida. Ele ficou cinco segundos em silêncio. Aos poucos, e com constrangimento crescente, Levi assimilou os eventos da noite infernal. — Fogos de artifício... — Repetiu ele, com compreensão catatônica.
XXX
Após o resgate do pobre coitadinho do Levi, os quatro foram direto para o hospital, e aqui estavam desde ontem a noite. Levi não queria saber de médicos, mas Onyankopon insistiu que era preciso examinar a sua perna fodida.
Por sorte, Levi não quebrara nenhum osso em sua empreitada noturna. Ele só precisava de repouso e de umas pílulas fortes para dor. Entretanto, o ruim de ir em médicos é que sempre existe a chance de encontrarem alguma coisa errada.
Segundo o doutor, sua perna não era mais apta a aguentar grandes aventuras. Com uma expressão de pena, porém dura, o médico recomendou que Levi respeitasse as limitações de seu corpo e adquirisse uma cadeira de rodas. Ele deveria usar a cadeira na rua e nos dias em que sua perna estivesse de lua. Pelo menos, havia um lado bom: Levi não perderia totalmente a magnífica capacidade de andar – uma daquelas habilidades que você só dá valor quando se vê perto de perder.
Além disso, está proibido andar sem bengala, seu danadinho.
Levi saiu do consultório para o quarto hospitalar numa cadeira de rodas, já recebendo uma prévia de como é ser um inválido. No quarto, Onyankopon e Jean levantaram-se para recebe-lo. Leona, sentada numa poltrona com os cadernos do colégio no colo, elevou um rosto de olhos arregalados.
— O senhor Levi vai ficar bom? — Perguntou Leona, ansiosa, à enfermeira.
Ah, sim, esse era a primeira indicação de que você é um inválido infeliz: as pessoas perguntam sobre sua saúde aos outros, e não a você.
— Eu estou bem, Smith. — Rebateu o capitão, ríspido. — Alguém faça algo de útil e pegue a minha bengala.
— Senhor Rivaille, o senhor não deveria se levantar. — Instruiu a enfermeira.
— Eu não pedi a sua opinião, mocinha.
Ao ter a bengala, Levi mancou para a cama. O curtíssimo trajeto pareceu uma maratona. Com um suspiro, o capitão se jogou no colchão e tentou não encarar os amigos, que o miravam com atenção e dó. Puta merda. Levi não era nenhum miserável, ele era capaz de cuidar de si mesmo.
Levi achava que a sua vida não poderia piorar. Mas, podia. E muito.
— O psiquiatra vai vir daqui a pouco. — Avisou a enfermeira.
— PSIQUIATRA!? — Estrondou Levi, surpreso. Sim, a segunda regra dos inválidos: todo mundo pensa que a sua cabeça é tão fodida quanto o seu corpo. — EU NÃO VOU VER MERDA DE PSIQUIATRA NENHUM! EU NÃO SOU LOUCO!
Jean e Onyankopon se entreolharam. Levi teve vontade de pegar a cabeça dos dois e bater uma na outra até quebrar.
— Capitão, apenas fale com o doutor, tudo bem? Só experimenta. — Pediu Jean.
— Jean, eu não vou falar com ninguém. — Articulou Levi, bem devagarinho, para Jean entender. — O que um homem precisa fazer para ir para casa?
— Capitão... — Antes de continuar, Jean deu uma olhadela por cima do ombro, na direção de Leona. A menina estava absorta em seus cadernos, com a mão sobre a boca. Levi tinha absoluta certeza de que aquela concentração era fingimento. Leona estava de olhos no caderno, porém de ouvidos na conversa.
— Fala logo, caralho. — Impacientou-se Levi.
— O senhor mostrou uma faca para a Leona.
O rápido erguer de olhos feito por Leona provou a hipótese de Levi. O capitão, entretanto, não percebeu esse detalhe. Levi calou a boca pela primeira vez em muitas horas. Ele lembrava de ter pegado a faca porque não havia encontrado as espadas. Recordava de estar com a faca quando encontrou Leona, e de colocá-la perto da garota. Levi, no entanto, havia apanhado a faca para proteção, e não para ferir. Ele jamais machucaria Leona.
Os olhares de Jean e de Onyankopon diziam que ambos sabiam dessa verdade. No entanto, havia um porém: ontem, Levi perdeu o controle da própria sanidade. Ele achou que os fogos de artificio eram armas — juro pela Santa, o som era igualzinho. E se o capitão tivesse confundido Leona com um marleyano, como confundira os fogos?
Não adianta falar "não vai acontecer de novo". Levi era burro, mas não tanto. Ele não conseguiu se controlar ontem. Sabe-se lá o que poderia acontecer numa próxima vez.
— Certo. — Concordou Levi, derrotado.
— Gostei de ver, Levi. — Onyankopon fechou o punho erguido.
— Smith.
Na poltrona, Leona levantou a cabeça, uma interrogação inocente muito bem fingida pairava na cabeça dela.
— Me desculpe por ontem. — Levi desculpou-se com sinceridade.
— Não tem problema. — Leona sorriu pequeno. — O senhor vai ver o psiquiatra agora e ficar bonzinho.
— Assim espero.
— Vem, Leona. Eu vou te levar para casa. — Onyankopon, ao se aproximar da poltrona, olhou, de relance, os cadernos da menina. — Círculos e circunferências? — Riu ele. — Matériazinha difícil, não?
— Muito. — Bufando consternada, Leona fechou o caderno numa batida e o pôs na mochila. — Não consigo acertar nenhum exercício.
— Você quer ajuda?
— Eu iria adorar, senhor Onyankopon!
Leona se despediu de Jean com um abraço. Para Levi, o tchau-tchau foi um "quer que eu abra a loja?"
— Não. Nós não vamos trabalhar hoje.
Ela e Onyankopon saíram, deixando Levi e Jean a sós.
— O psiquiatra foi informado que o senhor é um herói da revolta. — Animou-se Jean. — O senhor não precisa fingir que é de Liberio.
— Ah, ainda bem. — Exasperou-se Levi, revirando os olhos.
Apesar de não parecer, a informação o deixou menos irritado. O psiquiatra não poderia ajudar o liberiano Levi Rivaille, um comerciante morador da extinta nação marleyana, que fugiu da Revolta às pressas com a enteada de oito anos. Levi Rivaille é um homem fictício com problemas fictícios. Em compensação, Levi Ackerman é um homem real, com um passado real, e problemas reais.
Nesse instante, alguém bateu na porta do quarto. Jean se levantou, esperançoso. O visitante se tratava de um homem magro e grisalho. Levi leu no crachá que o nome dele era Antony.
— Bom dia, senhores.
Antony cumprimentou-os com vivacidade. Ele se moveu com elegância e sentou-se ao lado da cama de Levi. A postura do psiquiatra mostrava descontração, como se fossem três amigos se encontrando num bar.
— Bom dia. — Respondeu Jean.
Levi, em contrapartida, apenas resmungou.
— Você é o senhor Rivaille, presumo.
Disse Antony com interesse educado. Levi ficou contente por ele usar esse tom de voz. A última coisa que o capitão queria era ser tratado como retardado.
— Sou. — Confirmou Levi, sucinto.
O psiquiatra meneou a cabeça para Jean. Com educação profissional, ele apontou para a saída usando a caneta da prancheta.
— Você poderia nos deixar sozinhos, rapaz?
— Huh? — Jean e Levi falaram em uníssono. Levi ansiou-se. Ele não percebera que a companhia de um conhecido era importante até agora.
— Claro, senhor. Desculpe. Eu já volto, sim, capitão? Boa sorte.
Jean acabou saindo do quarto, abandonando Levi com o psiquiatra. O capitão crispou os lábios e aguardou.
— Então, senhor Rivaille... — Começou o psiquiatra, dando uma olhada na prancheta. — Fiquei sabendo que o senhor teve uma noite turbulenta. Pode me falar mais sobre isso?
O capitão se ajeitou no leito, colocou as mãos entrelaçadas no colo e avaliou o olhar inteligente do psiquiatra, que nada transparecia além de profissionalismo. Antony trancava sua persona interior, impedindo as leituras do capitão. Parecia o Erwin.
O interesse do psiquiatra não tinha nenhum quê de curiosidade. Antony se comportava da maneira mais formal possível. Essa abordagem deixou Levi a vontade. O capitão não gostava de curiosos xeretando na sua vida.
— É. Eu fui dormir cedo por causa da minha perna, que estava doendo. Aí, eu acordei com o barulho de explosões... — Um nó se fez na garganta de Levi. Ele descobriu que não conseguiria contar tudo.
— Ah, os fogos de artifício. — O psiquiatra assentiu. A compreensão na face dele aliviou o nervosismo de Levi. — O senhor achou que eram bombas?
— Não, bombas não. — Levi apertou as sobrancelhas e procurou as palavras corretas. — Eu pensei que eram tiros. Pensei que o exército paradisiano tinha invadido Liberio.
— "O exército marleyano tinha invadido Paradis", o senhor quer dizer.
Ah, é. O psiquiatra fora informado de sua ficha verdadeira. Levi não havia, exatamente, se esquecido dessa informação, mas mentir sua nacionalidade havia se tornado algo tão recorrente que ele fazia no automático. Em resposta ao médico, Levi apenas aquiesceu.
— Entendo. — O psiquiatra fez uma anotação. — Naquele momento, o senhor achou que estava em Paradis?
— Achei. — Falou Levi, meditativo.
— O senhor sente falta da ilha?
Levi franziu as sobrancelhas e recuou, transtornado ante a pergunta do médico. Ele achava que o assunto ia ser o seu ataque de loucura, e não seus sentimentos. O capitão rosnou:
— Por que você quer saber?
— Ok. — O psiquiatra balançou a mão como quem diz deixa-para-lá. Levi se surpreendeu com o quão rápido ele deixou a questão de lado. Antony mudou de tópico: — Então, vamos falar sobre Belavista. O que o senhor acha daqui?
Fazer essa pergunta a Levi era como perguntar a um crente por que ele odeia o Diabo. Levi simplesmente não perdia uma oportunidade de falar mal daquela cidade barulhenta, suja e preconceituosa. O capitão abriu bem a boca e iniciou a chuva de reclamações, que mais parecia um monólogo:
— Eu odeio essa cidade. As pessoas daqui complicam merdas que, num geral, são muito simples de resolver. Eu preciso entrar em filas imensas para conseguir apanhar um papel, preciso comprar um telefone para poder me comunicar, e sou obrigado a pagar um imposto altíssimo só para manter minha loja de chás aberta. Isso sem falar na podridão que são essas ruas, e nessas linhas de bonde que ninguém entende. EU não entendo, pelo menos. Se a Leona, minha enteada, não está comigo, eu nem tento subir nessas merdas.
— Esses bondes são complicados. — Falou o psiquiatra, compassivo, A prancheta estava entupida de anotações. — Sorte a sua ter a Leona. A relação de vocês é boa?
Levi deveria ter a resposta na ponta da língua, mas não. A indagação o deixou pensativo. Ele tinha uma boa relação com Leona? Fora a ajuda que ela lhe dava na loja, Leona ficava longe do seu caminho a maior parte do dia. É duro definir algo que quase não existe. Levi, que fora abandonado aos dez anos e cresceu num lugar aonde a lei do mais forte prevalecia, considerava o relacionamento deles uma maravilha. Só de Leona não tentar fugir e de não haver brigas diárias, já tornava a relação magnífica, na opinião do capitão que cresceu sem amor.
— Sim. — Ele se viu na obrigatoriedade de acrescentar: — Eu acho.
— Qual é a idade da Leona?
— Treze anos.
— Adolescência é fogo. — O psiquiatra tomou outra nota. Uma bem curta, que Levi não conseguiu ler. — Fora a Leona, quem mais tem contato com o senhor?
Contar o nome das pessoas que conviviam consigo não deveria ser difícil, mas foi. Levi percebeu, afinal, que seus amigos não eram tão seus amigos. Quer dizer, eram, mas não eram. É difícil dizer. E inusitado também. Porque, por mais estranho que possa parecer, as primeiras pessoas em que Levi pensou foram Erwin e Hange, como se o fantasma da memória dos comandantes continuasse vivo. E também pensou em Petra, em Mike, em Oluo...
— Tem o Jean, que você já conheceu. O Onyankopon, um inglês que lutou comigo na Revolta. — Conforme Levi falava, sua voz ia se tornando mais e mais infeliz. — Tem a Gabi e o Falco, mas eles são mais amigos da Leona. Há a senhora Marper, minha vizinha. E alguns clientes que aparecem de vez em quando para conversar.
— Você gosta dessas pessoas?
— Eu gosto, mas... — De novo a sensação de garganta fechada.
Levi descobriu, claro como a água, que sentia falta de Paradis. O sentimento lancinante foi uma surpresa até mesmo para ele. Levi não sentia falta da nova Paradis, um país que assassinava estrangeiros e ameaçava outras nações. Levi sentia falta de sua antiga vida. Da vida que ele tinha no quartel, quando ralhava com os recrutas imundos e dormia num colchão duro. De quando ele ia ao escritório de Erwin e passava a tarde lá, discutindo sobre alguma estratégia de batalha, ou apenas acompanhando-o no chá da tarde. Tinha saudades de ir ao laboratório de Hange e encontrar ela e Moblit suados e sujos de fuligem.
Ele também sentia falta da vida ao lado de Hange; das visitas à casa dela nas sextas-feiras, de fazer amor no quartel, de sua risada escandalosa, e da filha que tiveram/iam ter juntos. A saudade era tanta que Levi evitava pensar em seus antigos companheiros, incluindo as lembranças mais doces.
Nada da vida atual chegava perto da passada. Mesmo na época dos titãs, e mais tarde na era dos marleyanos. Os melhores anos de sua vida já haviam acabado.
— Eu gosto das pessoas daqui. — Levi pegou-se continuando a fala cortada. Sua voz expressava tristeza vaga, e seus olhos encaravam as próprias mãos. — Mas, eu sinto falta das que perdi. Digo, dos meus colegas que se foram na guerra, e tudo o mais.
— O senhor gostaria de tê-los aqui? — Perguntou o psiquiatra, na lata. E Levi respondeu, também na lata:
— Não. Eu gostaria de voltar no tempo. — Levi pestanejou ante a verdade naquelas palavras. — É... — Concluiu ele, erguendo o olhar para o psiquiatra. — Eu gostaria de morar no passado.
Sim. Era isso. Levi não queria compartilhar a vida em Belavista com os antigos amigos e amantes, mas sim reviver o passado outra vez, de novo, e de novo, num loop infinito. Ele não tinha certeza se eram propostas diferentes. Achava que sim. Ou não. Sei lá.
Nesse momento, o psiquiatra balançou a cabeça com ar satisfeito.
— Acho que já tenho o suficiente.
— Huh? — Levi piscou, surpreso. — Acabou? Já?
— Sim. — O psiquiatra arrancou uma folha da prancheta e entregou-a ao capitão. — Aqui está a receita.
Levi leu o nome do remédio. Fluxotina. Teve medo de perguntar para que o remédio servia. O psiquiatra, contudo, respondeu antes de Levi perguntar:
— É para a ansiedade, e também atua como antidepressivo.
Antidepressivo? Erwin teria dado risada, caso estivesse aqui. Um daqueles risos estranhos que ele costumava dar em situações nas quais risadas não são adequadas. Erwin necessitara de um ANTIDEPRESSIVO, só que o comandante não buscou ajuda a tempo. E talvez não fosse adiantar, de qualquer maneira. Não existiam esses medicamentos em Paradis.
— É só isso?
— Por enquanto sim. — O psiquiatra se levantou. — Vamos vendo como o senhor responde ao medicamento. Nos veremos em breve.
Eles se despediram com um aperto de mão. O cumprimento do doutor Antony era firme. Levi descobriu que gostava dele.
XXX
Leona e o senhor Onyankopon sentaram lado a lado, com o caderno da escola entre os dois. O senhor Onyankopon, antes de servir a caneca de Leona de água, perguntou se ela não preferia leite. Leona, querendo bancar a adulta, disse gostar de café puro.
— Bem, vejamos...
Com a mão no queixo, o senhor Onyankopon analisou os exercícios passados pela professora. Nesse ínterim, Leona colocava duas colheres de açúcar em seu café. Ela pensou que não iria beber tudo, mas, por incrível que pareça, ela deixou a caneca pela metade num único gole. Café sem leite é uma delícia.
Após alguns segundos de análise, o senhor Onyankopon soltou uma risada nasal.
— Eu odiava essa matéria.
— Eu a odeio também.
O senhor Onyankopon fitou Leona de canto e sorriu. Leona achava os sorrisos dele os mais charmosos do mundo dos homens.
— Vamos começar pelo básico.
Onyankopon folheou o caderno procurando uma folha em branco. Leona teve um ataque cardíaco, temendo que o inglês encontrasse os desenhos de mulheres e homens nus. Por sorte, o senhor Onyankopon não avançou a esse ponto.
— Antes, vamos definir o que é cada caso. — O senhor Onyankopon desenhou um círculo. Torto e achatado, mas certamente um círculo. Depois, ele traçou uma linha reta no lado de fora da forma geométrica. — Essa linha que eu acabei de fazer está externa à circunferência...
— Circunferência é o círculo? — Interrompeu Leona, se inclinando sobre o caderno.
— Mais ou menos. Aqui, podemos dizer que sim. — O senhor Onyankopon deu de ombros. — Ela está externa à circunferência porque está do lado de fora do círculo. Entendeu?
Leona assentiu rapidamente, se sentindo tola por não ter captado essa porcaria óbvia antes. É óbvio: se estava fora do círculo, a reta só podia ser EXTERNA. Pelo amor da Santa.
O senhor Onyankopon desenhou outra reta. Dessa vez, posicionou-a coladinha ao círculo.
— Essa aqui é tangente à circunferência. — E a seguir, ele riscou uma atravessando o círculo. — E aqui está a secante.
Conforme o senhor Onyankopon falava, a mente de Leona clareava. Calmo, Onyankopon explicava com as vírgulas e os pontos finais pontuados corretamente. O timbre gentil trazia paz ao coração de Leona.
Leona sacudia a cabeça com cada vez mais ânimo. Depois que o senhor Onyankopon ensinou o funcionamento das fórmulas do ângulo central e dos ângulos inscritos, Leona se sentia pronta para realizar uma prova surpresa.
— Vamos resolver um exercício juntos? — Ofereceu ele, voltando para a folha de exercícios e escolhendo um de ângulo central. — Eu te ajudo a encontrar o valor de X.
— Não precisa. — Leona puxou o caderno, empolgada. — Eu consigo sozinha.
Após as definições e as explicações do senhor Onyankopon, aplicar a fórmula tornou-se uma tarefa fácil, quase intuitiva. Ela chegou à conclusão de que X é igual a 7. Mesmo sem a correção, Leona estava animada, pois ela tinha um forte pressentimento de ter acertado.
Onyankopon pegou o caderno. A perna de Leona tremia de ansiedade.
— Sete! Correto, Leona!
— Oba! — Comemorou ela, erguendo os braços com alegria. — Deixa eu fazer o próximo.
Leona continuou resolvendo a folha de exercícios. Quando ela, por ventura, se deparava com alguma dificuldade, o senhor Onyankopon a ajudava. Durante um exercício cheio de números negativos e vírgulas, Leona pegou-se prestando atenção no contraste da cor do seu cotovelo perto do braço do senhor Onyankopon, que era um homem negro.
A pele do senhor Onyankopon sempre a fascinou. Na infância, Leona considerava o senhor Onyankopon o homem mais bonito do mundo. E ainda o achava, na verdade. De todos os homens que Leona conheceu, Onyankopon era o que chegou mais perto de a fazer suspirar.
Ela corou por um momento e voltou-se para o exercício. Precisou de alguns segundos para lembrar em qual parte parou.
— Precisa de ajuda? — Onyankopon percebeu a perturbação de Leona.
— Não. — Ela balançou a cabeça.
— Vou me servir de mais café. Você quer?
— Por favor. — Aceitou Leona, sorrindo.
— Garota esperta.
O senhor Onyankopon deu um soquinho no ombro dela, a fazendo rir. Leona observou-o caminhar a curta distância até a cozinha. O senhor Onyankopon tinha o dom de fazer as pessoas se sentirem confortáveis. Tanto que, quando o inglês retornou, Leona falou, meio pensando alto:
— Espero que as minhas colegas estejam com tanta dificuldade quanto eu. — Leona apagou um número errado. — Eu gostaria que elas repetissem de ano.
— É? — O senhor Onyankopon serviu a caneca de Leona. — Por quê?
Leona nunca tinha contado sobre o bullying a ninguém. O senhor Levi não era a sua pessoa favorita para compartilhar segredos, sobretudo os que envolvem vulnerabilidade. Ele havia mudado bastante naqueles cinco anos, mas algumas feridas nunca cicatrizam. Leona jamais esqueceria o dia em que o senhor Levi certificou que ela não tinha "força e nem tamanho" para cuidar de alguém (no caso, de Hange), e o episódio que aconteceu meses após àquela afirmação fundamentava a concepção de Leona de que ela não devia depender dos outros para se proteger de infortúnios ordinários, como adolescentes abobados, por exemplo.
Em suma, Leona morreria de vergonha se tivesse que contar a alguém que não gosta de ir à escola porque alguns adolescentes idiotas riam dela. Ela não cogitava contar esse segredo nem a Gabi e nem a Falco, duas pessoas de idade próxima a sua. Leona não queria ninguém pensando que ela é uma garotinha assustada que faz xixi nas calças quando se defronta com o perigo.
Porém, o clima com o senhor Onyankopon estava tão agradável que Leona se sentia tentada a dizer a ele. Ademais, o senhor Onyankopon havia a elogiado pela forma como ela lidou com o senhor Levi. "Você foi muito corajosa", dissera ele. Esse cumprimento deveria fazer Leona se sentir constrangida em contar sobre o bullying, no entanto, o efeito foi totalmente o contrário. Seja dito de passagem, Leona não precisava confessar a história completa.
— Elas mexem comigo por causa do meu nariz. — Contou Leona, displicente.
— Sério? — Onyankopon quase se engasgou com o café. — Nossa, estou chocado. Você sempre teve tantos amigos. As suas festas de aniversário eram lotadas.
— Eu tenho sim alguns amigos, mas eles são de outra turma. — Mentiu Leona, finalizando a equação no caderno.
— Os alunos que mexem com você são da sua sala?
— São, mas só mexem comigo quando estou sozinha. — Ou seja, o tempo inteiro.
— Você tem medo? — Onyankopon deu uma olhada de rabo de olho para Leona.
— Nãaao. — Leona arrastou a sílaba e realizou um gesto de desimportância, rindo. — Não tenho medo. Quando eles vêm me zoar, eu dou risada e brinco junto. É que, eu nem sempre estou a fim de rir de mim mesma.
O senhor Onyankopon a encarou. Não era o tipo de olhar que busca um traço de mentira, e sim a face de alguém que pondera uma ideia. Por fim, ele soltou um "huuum" arrastado, e falou, girando o lápis nos dedos:
— Fico feliz de saber que você não tem problemas com os piadistas da sua turma, Leona. Mas, como você é... huh.... — O senhor Onyankopon parecia constrangido em dizer ELDIANA. Como se fugisse da palavra, ele voltou-se ao caderno e desenhou um símbolo de CERTO no exercício recém terminado. — ...como você não é belavitense, — completou ele, por fim — em breve você pode acabar passando por alguns perrengues. O Levi é um baita lutador, você deve saber. Eu estava pensando, talvez fosse uma boa ideia você pedir para ele te ensinar algumas coisas. Quer dizer, não que vá acontecer alguma coisa, Deus queira. Porém, se acontecer, você vai ter chance se defender. Além disso...
O senhor Onyankopon olhou para a esquerda e para a direita, em especial para as portas do apartamento, e então se aproximou de Leona. Ela respirou o cheiro de perfume cítrico. Onyankopon disse, abaixando a voz:
— ...eu acho que o Levi está precisando ocupar a cabeça com algum passatempo além da loja. Ele é muito sozinho.
— Sozinho!? — Exclamou Leona, confusa. — Ele tem a mim, e ao senhor, e ao Falco e à Gabi, e o Jean e o Connie vêm nos visitar às vezes. Isso sem falar nos clientes. O senhor Levi tem companhia de sobra!
— Estar sozinho e se sentir sozinho são coisas diferentes.
Leona abriu a boca para protestar, e então fechou-a. Aquela frase era uma daquelas que te faz refletir sobre a própria vida. Leona meditou se ela já havia se sentido desse jeito. Os meses passados na fazenda eram o período que mais se aproximavam desse sentimento de solidão-que-não-é-solidão, pois Leona estava rodeada de crianças e, mesmo assim, se sentia a pessoa mais solitária do mundo. O seu único amigo era o Buck. No entanto, o Buck era um companheiro um tanto cavalar demais.
Entretanto, no seu caso, Leona, definitivamente, não possuía amigos humanos. Já o senhor Levi, sim.
— Acho que entendo. — Concluiu ela. — Mas eu acho idiota da parte dele se sentir assim. — Continuou Leona, adotando um tom ofendido. — Eu ajudo na loja e sou legal com ele. E vocês também o tratam bem.
O senhor Onyankopon suspirou. Algo no olhar do inglês dizia que ele desaprovava o seu ponto de vista. Leona encolheu os ombros e coçou a nuca, meio sem jeito. Pessoas legais e atenciosas têm o dom espetacular de fazerem os outros se sentirem mal (e maus).
— É pesado pra ele. — Defendeu o senhor Onyankopon, numa voz grave. — Newcrest é muito diferente de Paradis, e a vida aqui está mudando rápido demais. Você viu o surto que ele teve por causa do telefone. Você é jovem, Leona, e para você é fácil se adaptar...
Nesse ponto, Leona franziu as sobrancelhas e fez beiço, pois aquilo era uma mentira. Ela nunca se adaptaria à Newcrest. O senhor Onyankopon, entretanto, ignorou sua zanga e continuou:
— ...mas para o Levi, que viveu a vida inteira num país sem telefones, sem bondes, e tudo o mais, é horrível. Além disso, ele morava num quartel, tinha a companhia dos outros soldados, que num geral pensavam igual a ele, e tinham assuntos mais lineares.
Aqui, Leona amenizou a teimosia. Parando para refletir, ela e o senhor Levi nunca conversavam sobre nada além da loja e da "sujeira" da casa.
— É verdade. — Aquiesceu Leona.
— Viu só? — Onyankopon deu batidinhas nas costas dela. — Pede pro Levi te ensinar a se defender. Tenho certeza de que vai ser um bom aprendizado, e você vai estar ajudando o Levi demais.
A proposta confiante e encorajadora convenceu Leona. Afinal, bem que seria útil aprender a espancar as pessoas, quem sabe a Elizabeth a deixasse em paz. Ela assentiu devagar e deu um sorriso de canto. O senhor Onyankopon retribuiu e bagunçou o cabelo dela.
— Não bagunça o meu cabelo. — Reclamou Leona, estupefata. — Eu levo um tempão pra deixar a minha franja nos eixos.
O senhor Onyankopon revirou os olhos e deu uma risadinha, como se pensasse "adolescentes...".
XXX
O capitão chegou algumas horas depois de o senhor Onyankopon ir embora. Jean o escoltou do hospital até em casa. Leona, que estava almoçando arroz e ovo frito, foi recebe-los na porta.
Jean vinha trazendo um objeto grande e dobrado. Jean pôs o troço no chão desdobrou-o, mostrando o verdadeiro formato do produto. Era uma cadeira de rodas. Leona arrepiou-se da cabeça aos pés. Entretanto, o capitão parecia estar bem só com a bengala.
— E essa cadeira? — Leona olhou mais de perto. Era do tipo que o cadeirante conseguia controlar girando as rodas, sem depender de um ajudante.
— Eu vou precisar dela daqui em diante. — Respondeu Levi com desgosto. — Mas só em distâncias longas. Ainda posso ir até a esquina sem cair duro.
— Mesmo assim, capitão. — Começou Jean, educadamente, como se o senhor Levi ainda tivesse o poder de aplicar-lhe uma punição militar por desacato. — É bom o senhor sempre andar com a cadeira, por precaução.
— Você quer que eu saia por aí com uma cadeira em baixo do braço, seu demente? — Aborreceu-se Levi. — Olha, da minha vida, cuido eu.
Jean não se ofendeu. Todos já estavam acostumados à personalidade meiga de Levi.
— É só um aviso. — Desculpou-se Jean. — Vou indo.
— Não quer almoçar com a gente? — Convidou Leona, apontando para a cozinha com o polegar. — Eu fiz mais de dois ovos.
— Não. Eu já avisei minha mãe que eu ia comer com ela hoje.
Jean foi embora depois disso. O capitão mandou Leona guardar a cadeira no depósito, e então mancou para a cozinha.
Leona passou uns bons minutos tentando dobrar a cadeira como Jean fizera, e só teve êxito na quarta tentativa. Logo após guardá-la, Leona rumou para a cozinha, onde o capitão já terminava sua refeição.
Leona sentou-se na cadeira em frente ao capitão, uniu as mãos umas nas outras e ali ficou, esfregando os dedos em silêncio. Seus olhos grandes e castanhos acompanhavam o garfo do senhor Levi. Será que ele estava bravo ou aquela irritação era apenas o jeito normal dele?
— Você está com cara de quem quer pedir alguma coisa. — Observou Levi, dando uma olhada a Leona por cima do prato.
— Não quero nada. — Leona desconversou. — Como foi no psiquiatra?
— Foi melhor do que eu imaginei, para ser honesto.
— Ele receitou algum remédio?
— Sim. — O senhor Levi abriu o paletó e retirou uma folha de papel. — Fluxotina.
Leona apanhou a folha, leu a receita e fez uma careta concentrada.
— Para que serve?
— Pra consertar minha cabeça, resumindo.
Leona abaixou a folha e encarou Levi com um olhar de "o senhor sabe que não foi isso que eu quis dizer".
— O médico disse que eu tenho ansiedade e depressão.
— Depressão? — Repetiu Leona, abestalhada.
— É.
— Puxa.
E a conversa acabou aí. Um silêncio desconfortável se fez entre eles, e o desconforto não vinha só do psicológico de Leona – ela não suspeitava, mas Levi também estava desconcertado na presença dela.
Percebendo que deveria pedir logo, Leona disse, sem rodeios:
— O senhor me ensina a lutar?
O garfo que o senhor Levi estava prestes a colocar na boca parou no ar. Atônito, ele encarou Leona com sua face de poucas expressões.
— Por que você quer lutar?
Leona já preparara uma justificativa.
— Depois de ontem, percebi que eu preciso aprender a me defender. — O objetivo de Leona era atingir Levi. E conseguiu. Ele desviou o olhar. Leona adicionou um inteligente tom ansioso na próxima frase: — Eu não posso só fugir. Se acontecer de eu não ter para aonde correr, estarei perdida.
O capitão olhou para o prato, e depois para o fogão, depois para a porta, e por fim para Leona. O olhar condescendente respondia à questão por si só.
XXX
A primeira aula aconteceu no entardecer, apesar dos avisos de Leona de que não precisavam começar hoje por causa da perna do capitão. O pátio da casa era pequeno, mas por ora serviria para os treinos. Segundo o senhor Levi, eles deviam preparar o terreno — "não podemos praticar num pátio imundo, Smith".
O capitão varreu o chão enquanto Leona afastava as tralhas para um canto longe do centro. Logo após aprontarem o ringue, o capitão e a menina pararam frente a frente. Lá em cima, os pássaros assistiam-nos, curiosos. Um corvo esperto saltou para os galhos mais próximos, querendo bisbilhotar os humanos de perto.
— Bem, Smith, para começar, tudo que eu sei, aprendi nas ruas. Não entendo nada dessas coisas de artes marciais, boxe, e o caralho a quatro. Eu sei o que sei, e ponto final. — Ele fez um gesto cortante com os braços. — Enfim, estou vendo que você está louquinha para aprender a dar porrada nos outros, mas antes vem a defesa. Primeiro a gente evita os socos do nosso inimigo, e só depois a gente fode o cara. Na nossa aula de estreia, vou te ensinar a dar uma rasteira num daqueles filhos da puta que nos pegam pelas costas. Vire-se.
Leona achou a introdução hilária. A voz inexpressiva do senhor Levi deixava as piadas mais engraçadas. Ainda sorrindo, ela deu as costas para o capitão.
Leona só não esperava que a ofensiva fosse ser um ataque de verdade.
O senhor Levi passou o antebraço duro ao redor do seu pescoço. Os ossos do braço do capitão apertaram a garganta de Leona. Ele segurava firme, deixando claro que a mataria sufocada caso bem desejasse. Em pânico, Leona arreganhou a boca num grito fino que se tornou mudo por causa da pressão em sua goela. Ela agarrou o braço do capitão e tentou abaixá-lo.
— Você já começou errado, Smith. — Resmungou Levi, a controlando com uma facilidade absurda. — Você não deve esticar o pescoço. — Leona, contudo, não conseguia não esticar o pescoço. — Ei, demente, não está me ouvindo!? Tente enfiar o queixo dentro do meu braço.
— O... senhor... enforcando... — Arfou Leona, revirando os olhos.
— Sem drama, Smith. Não estou apertando tão forte.
Mas ele estava, sim. Leona arranhou-o e tentou mordê-lo e abaixar seu braço. Entretanto, ela não era forte o bastante. Aleijado ou não, o senhor Levi era invencível. Leona, no auge do desespero, fez o que qualquer pessoa sensata faria: cometeu um golpe baixo. Numa manobra certeira de calcanhar, ela acertou um chute na perna aleijada do capitão.
O senhor Levi a largou, gemendo de dor e agarrando o joelho ruim. Leona, desajeitadamente, correu para longe do senhor Levi, com a mão ao redor do pescoço. O ar nunca foi tão puro e delicioso. Ela olhou para o céu de boca escancarada, puxando o ar com força. O corvo cantou "demente, demente, demente", imitando até o timbre grave do capitão.
— Já está aprendendo os seus truquezinhos, malandra?
Leona se surpreendeu ao ver um brilho divertido nos olhos do capitão.
— A culpa foi do senhor. — Acusou Leona com exasperação, a mão ainda no pescoço. — O senhor poderia ter me avisado.
— E você acha que os marginais vão te avisar, Smith? — Ironizou Levi.
— Eu sei, mas é o meu primeiro dia! — Persistiu Leona, ofendida.
— Tudo bem, tudo bem. — O senhor Levi pôs a mão no rosto e balançou a cabeça. — Vamos por partes, ok? Quando eu for te atacar pelas costas, você já tem que deixar o seu queixo preparado. Você não pode esticar o pescoço, se não aí mesmo o filho da puta vai te enforcar... ah, já sei! Vem aqui, tenta você. Passa o braço no meu pescoço.
Cismada, Leona fez o que ele pediu. Ela imaginou, delirando, o senhor Levi agarrando-a pelo braço e a arremessando na parede tal qual uma boneca. Contudo, o capitão apenas encaixou o queixo em seu antebraço da forma como ela deveria ter feito.
— Quando você encaixa o queixo desse jeito, você deixa o seu pescoço protegido. — Esclarecia ele. — Agora, o próximo passo é importante: você sempre vira a cabeça para o lado do cotovelo do marginal. — Ele girou a cabeça na direção do cotovelo de Leona e deu uma batidinha nele. — É aqui que o filho da puta perde a força, capiche?
Leona franziu as sobrancelhas ante a gíria antiga usada pelo senhor Levi.
— Uh... sim.
— E é pelo cotovelo que você vai sair. Desse jeito.
Levi forçou o cotovelo de Leona para cima, e pronto. Foi muito rápido. Leona demorou mais tempo para compreender o acontecido do que Levi levou para anular o seu golpe. O senhor Onyankopon estava certo. O senhor Levi era bom de briga. Imagine como ele costumava ser em sua forma perfeita.
— Sua vez.
— Ok! — Alegrou-se Leona, animada para replicar a técnica do capitão.
De novo, o senhor Levi não alertou-a sobre o ataque. Leona, porém, estava preparada dessa vez, e tão depressa quanto Levi atravessou o braço em seu pescoço, ela forçou o queixo para baixo e virou o rosto na direção do cotovelo do capitão, de maneira que ele não pôde encaixar o golpe da maneira certa.
Como o capitão era forte, Leona custou para se libertar, mas ela conseguiu sem recorrer aos "truquezinhos". Leona comemorou o feito com saltos e soquinhos no ar. Ela desejou que algum cretino da Landgraab tentasse agarrá-la pelo pescoço, só para mostrar o seu novo aprendizado de defesa.
O senhor Levi observou sua comemoração sem nada dizer, mas os lábios do capitão estavam repuxados, e seus olhos continuavam com aquele brilho tão difícil de presenciar em sua face.
XXX
O ano letivo terminou. Em contrapartida, as aulas com o senhor Levi apenas começavam. Apesar dos doloridos exercícios físicos diários, treinar aumentou a autoestima de Leona. O senhor Levi lhe ensinava todas as espécies de golpes, e como ele era baixinho, conhecia inúmeros truques para derrubar oponentes maiores. Leona gostava de aprender, e o senhor Levi dizia que a força do seu soco aumentava a cada semana. Não obstante, Leona desenvolveu a vaidade de contemplar os próprios músculos no espelho do banheiro. Ela não era o exemplo perfeito de mulher forçuda, mas serviria para as e os xexelentos da Landgraab.
O senhor Levi parecia feliz em orientá-la. O capitão construiu um saco de pancadas para Leona praticar. Penduraram-no no viveiro, bem no meio dos pássaros. Todos os dias, no entardecer, as aves assistiam-na distribuir socos e chutes no pobre saco, o qual Leona batizou carinhosamente de Elizabeth.
E assim as férias seguiram. Por três meses, Leona praticou luta com o senhor Levi, visitou Gabi e Falco na casa nova deles, trabalhou na loja de chás e gastou boa parte de seus ganhos com sorvetes deliciosos — o seu sabor favorito era "pedacinho do céu".
Mas, como tudo que é bom dura pouco, as aulas retornaram no fim do verão. E lá estava Leona, de mochila nas costas e carranca no rosto.
As aulas começaram com o gosto estragado de sempre. Para a infelicidade de Leona, Elizabeth e suas amiguinhas haviam passado de ano. A diretora, malvada como era, colocou-as na mesma turma. Em poucas semanas, Leona já estava com alergia à colégio, e até cogitava repetir de ano só para não estudar mais com as megeras.
As disciplinas não ajudavam. A matéria favorita de seu pai costumava ser HISTÓRIA. Inclusive, o avô de Leona trabalhava, justamente, como professor dessa mesma disciplina. A descendente dos Smith, entretanto, não seguia a tradição familiar.
Leona estava sentada em sua carteira na fileira da parede à direita (bem longe de Elizabeth), assistindo a chatíssima aula de história. De tempos em tempos, ela se perguntava como seu pai poderia ter gostado de história. Não sei se você sabe, mas história consiste em aprender sobre pessoas mortas há séculos, guerras que já acabaram, e governos não mais em vigor. Por que devemos estudar o passado, se o que importa é o futuro?
Não só isso, Leona odiava o professor Stephen. Nossa! O maior sonho de Leona era empurrar o professor Stephen da escada. Se tratava de um homem que usava oclinhos tão pequenos quanto seus olhinhos de rato. Em seu rosto de barba crespa instalava-se um sorriso expectante que sempre parecia estar esperando o melhor dos alunos. O professor Stephen não parava quieto durante a aula; ele passava os dois períodos andando na volta da lousa, e sua gesticulação excessiva dispersava a atenção dos estudantes.
Excentricidade não seria o bastante para causar aversão em Leona. Ela não era de odiar pessoas por motivos fúteis. Acontece que o professor Stephen amava a história do povo eldiano, em especial a Revolta. E Leona, sendo a única eldiana da sala, recebia toda a atenção do professor de história nas ocasiões em que ele resolvia fugir da ementa escolar e conversar sobre o presente, em vez de sobre o passado.
Portanto, naquela tarde, quando o professor chegou na sala de aula com um jornal em mãos, Leona já foi revirando os olhos.
— Jovens. — Começou o professor, com um ar sério por trás de seus oclinhos. — Alguém aqui lê o Belavistão?
Como os estudantes da Landgraab eram um bando de animais, é óbvio que a resposta foi uma negação coletiva. Leona também não tinha o hábito de ler o jornal, mas o senhor Levi sim, e as notícias daquela manhã não eram boas.
— O Médio Oriente rompeu o tratado de paz com Paradis. — Gesticulava o professor. — Alguém pode me dizer se isso é bom ou ruim?
O professor Stephen esperou. Ninguém falou palavrinha.
— Jovens, é péssimo. — Continuou ele. — Assim como Paradis, o Médio Oriente tem um histórico de guerras extenso, especialmente contra Marley. As motivações para o rompimento do tratado de paz não foram divulgadas, mas eu tenho algumas teorias.
Ele foi para o quadro e desenhou um esquema sobre Paradis e o Médio Oriente. Leona sentiu vontade de cometer um homicídio. Deveriam estar estudando a conquista do território americano, e não essa porcaria de Paradis e Médio Oriente. Leona não queria saber daquela merda. Se eles queriam comprar briga com Paradis, o problema era todo deles. Por que os perrengues dos outros deviam ser importantes para ela?
— Não sei se a professora do ano passado comentou com vocês (deveria; todos os jovens precisam aprender a discutir a política atual), o Médio Oriente foi muito maltratado na tirania marleyana. Depois que Marley foi devastada, o líder do Médio Oriente mandou suas tropas para lá e fez uma "colonização territorial", assim por dizer. No entanto... — O professor desenhou um arco conectando a palavra PARADIS à MARLEY — ...Paradis também tem interesse nas terras marleyanas. Como Paradis foi a vencedora da Revolta, as terras supostamente pertencem a ela. Há um ano, a rainha de Paradis e o líder do Médio Oriente firmaram um acordo de paz dividindo o território marleyano. Porém, o Médio Oriente é conhecido pelo seu ditador maluco e colecionador de regiões. Na minha opinião, o Médio Oriente cansou de compartilhar e vai tentar conquistar a parte de Paradis à força.
Em vez de prestar atenção, os estudantes riam e fitavam Leona, como se esperassem uma piada engraçadíssima a qualquer segundo. E, de fato, para o deleite dos colegas, o sorriso expectante e cobiçoso do professor Stephen caiu em Leona.
— Leona, qual é a sua opinião sobre a rixa entre Paradis e o Médio Oriente?
E era por isso que Leona odiava o professor Stephen. Ele perguntava a Leona se ela tinha visto notícias sobre Paradis, inquiria o seu ponto de vista sobre o sistema monárquico da ilha, perguntava o que ela achava da economia de Paradis, qual era a sua opinião sobre a Revolta, o que ela sentiu quando ouviu o clamor de Eren Yeager – embora Leona fosse uma garotinha de sete anos na época – e o que ela pensava acerca do próprio genocida.
O mais engraçado é que Leona nunca revelou ser de Paradis. Na cabeça do professor, Leona era versada (ou deveria ser) em história eldiana apenas por carregar o sangue de Eldia nas veias. E essa era só outra forma de dizer que ela não passava de uma GAROTA ELDIANA, com complemento e tudo. Leona queria poder ser somente uma GAROTA.
— Eu não sei, professor. — Respondeu ela debaixo das risadinhas dos colegas.
— Não sabe!? — Não importava o quanto Leona negasse, o professor SEMPRE se surpreendia. — Nesse caso, você imagina que Paradis pode iniciar uma guerra contra o Médio Oriente? Qual é a sua opinião?
Leona articulou sua réplica com base na personalidade da sua fantasia de liberiana:
— Talvez. Paradis adora uma guerra. Não é à toa que nós de Liberio os chamamos de "os eldianos de sangue ruim".
— Ótimo ponto, jovem. — O professor apontou o giz para Leona, sorrindo. — Assim como a Leona, eu também tenho fortes razões para acreditar que estamos prestes a ver uma guerra isolada explodir. Vejam só...
O professor continuou discorrendo sobre o Médio Oriente versus Paradis. Leona não dava a mínima para o Médio Oriente, contudo, no fundo, ela se preocupava, sim, com sua terra Natal. Porém, caso desejasse saber o que estava acontecendo, o senhor Levi e o senhor Onyankopon eram fontes muito melhores do que aquele professor idiota. Era melhor usar a aula frívola para colocar o sono em dia. Ela deitou o rosto entre os braços cruzados e fechou os olhos...
O sino anunciou o fim da aula. O professor acenou "até a próxima, jovens", e os alunos partiram. Sonolenta e bocejando, Leona se espreguiçou. Ela guardou o caderno molhado de saliva e o livro de história. Jogando a mochila por cima do ombro, Leona se levantou num único sobressalto.
Ao pôr-se de pé, Leona sentiu que alguma coisa estava errada.
A sensação bisonha vinha do meio das pernas. Era molhada, desconfortável e viscosa. Será que eu me caguei? Leona não sofria de incontinência fecal, mas essa era a única possibilidade, uma vez que ela não fazia xixi nas calças desde AQUELE DIA.
Leona olhou para a cadeira implorando para não haver nada anormal, entretanto, havia: uma pequena mancha redonda cuja cor Leona não conseguiu identificar se era vermelho-escuro ou marrom.
Leona congelou. Eu me caguei. Eu me caguei. Por sorte,o fluxo de estudantes eufóricos com o fim da aula escondia a adolescente petrificada. Ela respirou fundo duas, três vezes, e ajustou as alças da mochila para deixa-la o mais comprida possível. Então, chispou para o banheiro feminino.
Ela enfiou-se na primeira cabine que viu pela frente e se jogou na privada. Um negócio liquido, porém denso, escorreu de suas partes assim que Leona sentou. Aquilo era grosso demais para ser xixi, e como não saiu de sua bunda, não poderia ser merda. Quando ela viu as calcinhas e as calças pintadas de vermelho, a ficha caiu.
Leona MENSTRUOU. O vocábulo MENSTRUAÇÃO, segundo o dicionário, significa "fluxo de sangue e restos de mucosa uterina periodicamente eliminados pela vagina das mulheres." Em outras palavras, o seu útero estava se RENOVANDO. É como uma cobra trocando de pele, só que dentro da gente. Emudecida, Leona encarou a calcinha manchada. Ela cheirou o sangue e torceu o nariz.
E agora?
Sem pensar em nada, Leona se ergueu num salto. Sua perereca fez uma contração e mais sangue veio. Vestiu as calças sem se limpar, decidindo ir para casa o mais rápido possível. Se corresse a toda velocidade, chegaria lá em menos de oito minutos.
Leona botou a mochila protetora nas costas e abriu a porta da cabine com um tapa desnecessariamente agressivo. Quando a porta se escancarou, Leona desejou voltar atrás, pois, bem ali, em frente ao espelho, encontravam-se Elizabeth, Ana, e mais duas garotas do grupinho das vadias de Landgraab. As criadas de Elizabeth viraram-se no automático. Elizabeth, em contrapartida, viu Leona através do espelho. A garota estava passando um pó amarelo na cara. Para o espanto de Leona, a pele de Elizabeth era bizarramente pálida sem aquela máscara.
— Cuidado, garotas, não usem essa cabine. — Debochou Elizabeth. — Tem sarna de titã nessa privada.
Leona não tinha tempo para as brincadeirinhas de Elizabeth. Ela puxou a barra da blusa para baixo o máximo possível e andou para a saída. Entretanto, é óbvio, Elizabeth não iria perder a oportunidade de rir às custas de Leona:
— Espere aí, eldiana. Quero ter uma palavrinha com você.
Com elegância, Elizabeth finalizou a aplicação do pó e se aproximou. Ela se colocou no batente, barrando a saída da paradisiana. As outras garotas observavam, já dando risada. Era incrível como Elizabeth não conseguia ficar um minuto sem ter a atenção de Leona. Se Elizabeth fosse um garoto, Leona começaria a pensar que Elizabeth estava era apaixonada e não sabia expressar.
— O que você quer? — Questionou Leona com grosseria e impaciência.
— Não, não. Eu só quero fazer uma pergunta sincera. Eu gostaria de saber como você consegue andar... desse jeito. — Elizabeth fitou Leona dos pés a cabeça com olhares julgadores. O lábio dela se franziu numa manifestação de nojo. — Você já tem um rosto tão feio, por que você não usa roupas de menina, deixa o cabelo crescer, coloca uns brincos, e passa um batonzinho? Se você não fosse uma molambenta, talvez algum dos garotos feios quisesse beijar você. Desse jeito que você anda, eldiana, nem os cegos vão querer te beijar.
A meiguice na voz de Elizabeth era um contraste com as palavras cruéis. Aquele conselho indesejado era só mais uma artimanha para fazer piada de Leona. Diga-se de passagem, Leona não era nenhuma "molambenta". As suas roupas eram novas, limpas e passadas pelo senhor Levi. Contudo, esses detalhes não importavam para Elizabeth e sua trupe. As outras meninas davam risadinhas nada discretas e cochichavam entre si sobre a aparência de Leona.
Hoje, no entanto, Leona não estava com paciência para aguentar aquelas vadias. Ela deu um empurrão em Elizabeth para tirá-la do caminho. O gesto repentino a fez deixar o recipiente do pozinho cair. O objeto oval se quebrou, e o espelho a ele acoplado voou para o outro lado do banheiro.
— SUA ELDIANA IMUNDA! VOCÊ QUEBROU O MEU PÓ FACIAL!
Esquecida de Leona, Elizabeth avançou no recipiente quebrado e, balbuciando lamentações semelhantes a "minha mãe vai me matar", tentava consertar o espelho. As outras garotas, chocadas pela investida de Leona e pela reação de Elizabeth, entreolhavam-se. A essa altura, Leona já zarpava para casa.
A loja de chás não costumava receber clientes naquele horário. Leona entrou babando, querendo subir pela escadaria dos fundos. Ela não esperava, contudo, que houvesse gente na loja. Numa mesinha achavam-se o senhor Levi, a senhora Marper, a senhora Dino, a senhora Sauro, e a senhora Lee, todos os cinco de perninhas cruzadas, bebericando uma xícara de chá e comendo os bolinhos trazidos pela senhora Dino.
Leona parou de supetão. Sua chegada barulhenta chamou a atenção do senhor Levi e de suas amigas, e todos fitaram-na com curiosidade. Leona cruzou os braços por sobre a pélvis e deu um sorriso enviesado.
— Boa tarde, senhoras e senhor. O chá tá gostoso? — Cumprimentou Leona numa voz exageradamente alta e cordial, já rumando para os fundos.
— Aconteceu alguma coisa, Smith? — Perguntou o capitão Levi, de sobrancelha arqueada.
— Nada, senhor Levi. Eu só preciso... muito ir lá em cima. — Leona ficou com vergonha de falar que ia ao banheiro. — Aproveitem o chá.
Com exceção do senhor Levi, as senhoras deram de ombros e retornaram às fofocas.
Lá em cima, Leona correu ao banheiro. A calça estava um nojo. O padrão da mancha larga dava a entender que Leona se mijara. Ela jogou-as no cesto de roupa suja, já imaginando, com anseio amedrontado, o estado da calcinha. Os fundilhos estavam empapados de sangue. Leona enfiou-a no lixo, pois aquela sujeira certamente não sairia nem por todo o sabão desse mundo.
Ela sentiu uma enxurrada sangue descendo. Afobada, sentou-se na privada. Sua pele resvalou no assento e carimbou-o de vermelho. Ela começou a urinar e teve absoluta certeza de que o sangue escorria junto com o xixi. Sem reparar nas mãos sujas de sangue, colocou-as no rosto preocupado.
Hange, a sua mãe, sempre carregava um absorvente na bolsa quando viajava à Capital. Foi, inclusive, numa visita ao distrito rico, que sua mãe lhe ensinou o que era menstruação. Era rotina contemplar, durante cinco ou quatro dias por mês, papel higiênico sujo de vermelho no lixinho, e enfrentar as mudanças de humor de Hange.
No banho, Leona lavou as partes íntimas com uma abundante quantidade de água, apontando a mangueirinha do chuveiro direto para a perereca. O sangue não parava de escorrer. Parecia que ela sangraria até o fim dos tempos. Ela tinha sangue até dentro da bunda.
Por fim, o sangue acabou. Leona suspirou de alívio. Ao sair com a toalha enrolada no corpo, Leona percebeu o assento da privada encardido, e decidiu limpá-lo com papel higiênico antes de ir para o quarto. No entanto, o gesto de se curvar pressionou o ventre e sua perereca fez uma contração horrenda. Sangue vazou por entre as pernas de Leona. Soltando uma exclamação de frustação, Leona pulou no chuveiro.
Ao enfim terminar de se lavar pela segunda vez, Leona enrolou-se na toalha e saiu bem rapidinho. Ela correu na ponta dos pés descalços para o quarto. Ao chegar na porta e olhar para trás, ela viu o corredor respingado de gotas vermelhas. E não obstante, sentiu mais uma onda de sangue se aproximando.
— INFERNO! — Enfureceu-se Leona. — EU TE ODEIO, PERERECA, EU TE ODEIO!
Leona voltou para o chuveiro e tomou o seu terceiro banho.Seus dedos ficaram murchos. Dessa vez, contudo, ela foi mais esperta do que a perereca, e enfiou a toalha do banho entre as pernas. Nua e com o cabelo pingando, ela correu para o quarto de pernas abertas, feito uma pata prestes a colocar ovos.
Em seu quartinho, Leona descobriu que não sabia qual era o próximo passo. Ela precisava de absorventes, entretanto, duvidava muito que o senhor Levi tivesse isso no armário. Tremendo, Leona enrolou a toalha no quadril como se fosse uma fralda e vestiu a camiseta do pijama. Apreensiva, tentou vestir as bermudas por cima da toalha, mas não teve sucesso. A bermuda não era grande o bastante.
E então, quando Leona já entrava em desespero, alguém bateu na porta.
— VÁ EMBORA, SENHOR LEVI! — Berrou Leona, enfuriada. — EU ESTOU ME VESTINDO!
— Tem alguma coisa errada, Smith? — Perguntou o capitão em sua voz inexpressiva.
— Não. — Leona controlou-se ao máximo para não vociferar. Ela sentia uma vontade sobrenatural de decapitar o senhor Levi. — Vá embora. — Em seguida, completou com displicência forçada: — Por favor.
— Se não há nada errado, por que tem sangue no chão?
— Eu me cortei. — Mentiu Leona com naturalidade, torcendo para o senhor Levi acreditar e desaparecer da face da Terra. — Eu já vou limpar.
— Smith, eu não sou burro. — Replicou o senhor Levi com austeridade. Ele endureceu a voz: — Diga-me a verdade agora mesmo.
Foi como se Levi tivesse acendido um fósforo num cômodo cheio de dinamites.
— EU MENSTRUEI! — Seu rugido grave reverberou. Leona arfava entre os gritos: — MENSTRUEI! MENSTRUEI! ESTÁ BEM, SENHOR LEVI?! TÁ CONTENTE?!
Do outro lado fez-se silêncio. Leona, num estado de nervosismo puro, puxava o ar feito uma pessoa se afogando, e segurava a toalha firme entre as pernas bambas. Após cinco segundos de quietude, o senhor Levi disse:
— Não saia daí.
Ótima recomendação. "Não saia daí". Obrigada, senhor Levi, já pode mudar o seu título para "capitão óbvio". Leona escutou-o se afastar. O toc-toc-toc da bengala era rápido e constante, evidenciando a pressa.
Leona queria se sentar, mas temia sujar a cama. Ela afastou a toalha do meio das pernas e fitou a lambança. O sangue já se incrustava nos pelos pubianos, mesmo Leona tendo acabado de tomar três banhos. Enervada, ela se encostou na parede com as mãos segurando firme a toalha entre as pernas.
Hange saberia o que fazer. Certa vez, uma epidemia de caxumba (chamada de mata-nobres pelos paradisianos) assolou a população de Paradis. Leona foi premiada pelo vírus. Sua mãe ficou ao seu lado, lhe fez sopa de ervilhas, distraiu-a com desenhos e contou histórias nas noites de dor intensa. Hange tinha uma viagem importante a fazer, e sacrificou-a para cuidar de Leona. Sua mãe era assim; fazia das tripas coração para ver a filha feliz.
Se Hange estivesse aqui, Leona não estaria encolhida na parede, tremendo e sangrando. Ela sentiu um agudo e antigo aperto no peito. A dor tomou conta dela tal qual um beijo indesejado.
Em poucos minutos, bateram na porta. Dessa vez, não era o senhor Levi – Leona conhecia o padrão da batida do capitão. Ela se escondeu atrás da escrivaninha e perguntou, com a voz trêmula:
— Q-quem é?
— É a senhora Marper, querida. — Respondeu a voz benevolente da vizinha. — Posso entrar? Eu trouxe absorventes.
Leona não queria deixar a senhora Marper entrar, contudo, o prospecto de receber absorventes atiçou a boa vontade da garota. Ela permitiu com uma vergonha relutante. A senhora Marper entrou e Leona encolheu a cintura atrás da escrivaninha, tentando amocar-se de um jeito que a senhora Marper não visse a toalha. Não funcionou. A costureira viu. Entretanto, nada comentou sobre a gambiarra de Leona.
— Bem, querida, antes de tudo, vamos dar um jeito nisso. — A senhora Marper pôs dois sacos de absorventes abertos na cama. — Pegue uma calcinha.
Antes de ir, Leona enrolou a toalha no corpo de um jeito diferente, para a senhora Marper não ver o seu bumbum. A garota foi no armário e abriu a gaveta na qual guardava suas meias e calcinhas. Leona pegou qualquer uma. A vizinha estendeu a mão pedindo para Leona lhe entregar a peça de roupa. Leona se afligiu com a possibilidade de ter pego uma calcinha furada, velha e/ou freada (embora soubesse que nenhuma de suas calcinhas estava batizada). Porém, não deu tempo de voltar e escolher uma decente, pois a senhora Marper já retirava a calcinha de sua mão.
— A gente coloca o absorvente desse jeito. — Com agilidade, a senhora Marper removeu as tiras de papel que protegiam a cola do absorvente e, em seguida, grudou-o na calcinha. Era muito bizarro ver outra pessoa mexendo em suas roupas íntimas. O absorvente era gigante. Mesmo assim, coube perfeitamente nos fundilhos. — Pronto, agora você pode vestir.
— Eu... — Leona abaixou o olhar.
— Ah, você está com vergonha? — A senhora Marper deu uma risada. — Não se preocupe, eu fecho os olhos. — E colocou as mãos nos olhos fechados.
— Obrigada, senhora Marper. — Sorriu Leona.
Leona vestiu a calcinha em menos de dois segundos. O volume extra incomodava e o contato do algodão causava estranhamento, mas era bem melhor do que a toalha, e Leona se sentia bem em vestir algo seco e limpo. A seguir, ela apanhou a bermuda largada no chão e vestiu-a.
— Pronto.
A senhora Marper retirou as mãos dos olhos.
— Se sente melhor?
— Uau, muito. — Suspirou Leona.
— Bom. — A senhora Marper tornou-se séria, embora seus olhos continuassem sorrindo. — Você sabe por que isso está acontecendo?
— Sei. A partir de agora, meu útero vai fazer isso uma vez por mês, e eu vou sangrar e vou precisar dos absorventes, e se eu não menstruar é porque tem algo errado comigo ou porque estou grávida... — Narrava Leona num tom que ela torcia para ser educado. Estava grata pela ajuda da senhora Marper, mas, sinceramente, Leona queria ficar sozinha agora.
— Está tudo correto. — A senhora Marper balançava a cabeça. — Você sabe quais são os tipos de absorvente?
Hange nunca chegou nessa parte. Dado o atraso de Paradis, na certa só existia um tipo de absorvente na ilha. A menina balançou a cabeça, meio irritada por não saber a resposta. A senhora Marper pegou o primeiro pacote e mostrou-o à Leona.
— Esse absorvente que eu te dei é o noturno. Ele é maior e aguenta mais tempo do que um absorvente comum. — A senhora Marper mostrou o outro saco. A diferença de tamanho era berrante. — Esses a gente usa durante o dia, quando temos mais oportunidades para trocar. Uns têm abas, que são umas asinhas pra prender o absorvente, e outros não têm. Particularmente, prefiro os sem aba, porque são mais fáceis de tirar.
O absorvente que a senhora Marper lhe dera era sem abas. Os pacotes pertenciam a ela.
— Talvez você tenha cólicas. — Relatava a senhora Marper com as mãos unidas no colo. — Colocar uma bolsa de água quente no abdômen ajuda. Mas também há remédios. O Levi foi comprar alguns para você.
— A dor vai ser muito forte? — Perguntou Leona, desanimada.
— Vai de mulher para mulher. — A senhora Marper deu um sorriso reconfortante. — Não se preocupe, a gente aprende a conviver.
— Entendi. Bem, tomara que eu não tenha dores. — Ao seu modo indagador, inquiriu: — Tem como eu saber quando vou menstruar no próximo mês?
— Tem. — A senhora Marper apanhou uma caneta do bolso e escreveu a data de hoje no braço de Leona. — Como a sua está recém começando, o seu ciclo vai ser meio irregular por uns meses, mas é quase certo que ela vai descer entre o dia 8 e o dia 15, dado o dia em que você menstruou pela primeira vez. O corpo dá uns sinais — cólicas, espinhas, mudanças de humor... Quando você sentir a menstruação chegando, comece a colocar absorventes antes de ir para a escola, e sempre tenha dois ou três na mochila.
— Credo. — Leona fez beicinho. — Quanto trabalho.
— É um trabalhão, querida.
— Posso usar o absorvente noturno durante o dia? — Ela havia gostado bastante do comprimento e da largura do absorvente noturno.
— Claro. — Riu a senhora Marper.
— Certo. — Leona deu um sorriso pequeno, porém agradecido. — Obrigada.
— Disponha, querida. Se você tiver alguma dúvida, é só ir ali na loja.
A senhora Marper deu um beijo na testa de Leona e apertou seus ombros ao dar-lhe um pequeno abraço. Assombrada, Leona nada fez além de arregalar os olhos e endurecer o corpo. A senhora Marper se separou em poucos segundos, mas Leona pegou-se desejando que ela voltasse a abraça-la. Aquele breve gesto de carinho, por algum motivo que fugia da sua compreensão, quase a fez chorar.
— Ah, parabéns. Você é uma mocinha agora.
Leona acompanhou a senhora Marper pela escada da frente e observou-a atravessar a rua até o seu próprio apartamento.
Depois, Leona voltou para casa. Ela arreou as calças e checou o absorvente, que agora tinha uma macha vermelha no centro. Leona pensou que jamais se acostumaria com esse desconcertante ciclo fisiológico do sexo feminino.
Nesse instante, Leona escutou a maçaneta da porta ser girada e uma voz masculina resmungar um irritado palavrão ininteligível. Ela vestiu as calças e se sentou no sofá. O senhor Levi cumprimentou Leona com um desconfortável aceno de cabeça. Ele vinha carregando duas sacolas cheias, as quais foram colocadas sobre a mesinha de centro.
— Comprei tudo o que você precisa, Smith. — Ele distribuiu os sacos de absorvente um por um, sendo todos noturnos. Em seguida, ele dispôs os remédios para cólica e para dor de cabeça. A visão desconcertou Leona. — A senhora Marper me avisou que você poderia acabar preferindo os absorventes noturnos, por isso só comprei os desse tipo. Você está sentindo dor?
— Não. — Respondeu Leona com uma secura não pretendida. Entretanto, não sentiu remorso.
— Que bom. Se você sentir dor de barriga, você deve tomar esse remédio aqui. — O senhor Levi mostrou as pílulas. — A senhora Marper disse que compressas de água quente também ajudam.
— Eu já sei de tudo isso. — Falou Leona com agitação violenta. Por que o senhor Levi insistia em querer conversar? Não era problema dele. Leona resolveu sair de cena. Se ficasse ali por mais cinco minutos, acabaria mandando o senhor Levi ir se foder. — Vou pro meu quarto, tchau.
O senhor Levi a fitou com seus olhos impassíveis, mas não comentou nada sobre o comportamento rude, ao contrário do que ele normalmente fazia quando a garota estava "sendo insolente". O silêncio conformado do capitão a decepcionou, em vez de aliviá-la. Leona estava louca para bater boca com alguém.
Ela rumou para o quarto e enfiou-se em baixo do cobertor. Suas partes se contraíram, e o absorvente se encheu mais um pouquinho. Leona se encolheu, cobriu a cabeça e refletiu sobre os acontecimentos do dia.
A raiva de Leona foi substituída por preocupação. Ela ainda estaria sangrando na segunda. O que aconteceria com ela se, no próximo dia de aula, Elizabeth resolvesse fuxicar sua mochila e encontrasse os remédios e os absorventes enormes? Leona viraria a piada da escola. E se o absorvente não desse conta, e Leona acabasse carimbando a cadeira de novo? Isso, decerto, seria uma humilhação ainda maior. Além disso, no intervalo, Leona precisaria ir até o banheiro para trocar o absorvente, e isso significava encontrar um valentão ou valentona pelo caminho. Talvez valesse mais a pena manchar a cadeira.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Então, a preocupação retornou para raiva cega. Leona enterrou o rosto no travesseiro e deu um grito de ódio. Resolveu não ir a aula na segunda. Não ir a aula nunca mais, na verdade. Estava decidido! Se o senhor Levi quisesse brigar por ela largar a escola, Leona o enfrentaria. De jeito nenhum ela continuaria estudando com Elizabeth e seus amigos maldosos!
Nisso, o infeliz do senhor Levi bateu na porta do quarto. Leona se transformou em estátua. Imóvel, ficou em silêncio para ver se o senhor Levi desistia. Entretanto, ele entrou no quarto sem esperar pela permissão de Leona. Ah, entrar sem ser convidado já é sacanagem. Leona afastou o cobertor de repente e xingou:
— PORRA, O SENHOR NÃO SABE RESPEITAR — e aí Leona viu o prato de mingau trazido pelo senhor Levi. Seu vozeirão se transformou numa vozinha: — ...a privacidade dos outros.
O arrependimento tomou conta de Leona. Ela desviou o olhar e tentou sorrir. O senhor Levi fingiu que Leona não tinha acabado de destrata-lo, e entregou o prato a Leona. O mingau estava grossinho e tinha bastante canela, como Leona gostava.
Leona pôs o prato no colo. Se antes sentia raiva, agora sentia tristeza. O lábio da garota tremeu e o pranto subiu por sua garganta, mas ela o engoliu botando uma colherada generosa de mingau na boca.
— Você não precisa trabalhar amanhã, Smith. — Disse o senhor Levi, complacente. — Eu vou te dar o acréscimo de qualquer maneira.
— Obrigada. — Murmurou Leona, incapaz de encará-lo nos olhos. Se o fizesse, iria começar a chorar.
— Me chame se precisar de alguma coisa.
Ele saiu depois disso, deixando Leona sozinha com seus sentimentos conturbados. Como pôde Leona tratar mal o coitado do senhor Levi, que fez um mingau tão delicioso e trouxe para ela na cama, justo ele, que odiava comida no quarto?
As lágrimas rolaram sem parar. Leona chorou de boca aberta, com o mingau aparecendo sobre a língua e entre os dentes.
XXX
Por mais que Leona desejasse o contrário, a segunda-feira veio. O senhor Levi disse que ela não precisava trabalhar. Leona não aceitou. Sua mãe nunca deixou de ir ao quartel por causa da menstruação, e Leona, querendo ser igual a Hange, desceu para a loja de chás às nove em ponto e cumpriu seu horário de trabalho.
Se o senhor Levi tivesse oferecido a possibilidade de faltar na escola, Leona o faria com o maior prazer. Entretanto, o senhor Levi ignorou as indiretas de Leona sobre ficar em casa naquela tarde.
Desse modo, Leona escondeu três absorventes na mochila e rumou, triste e apreensiva, para a escola, pensando em Elizabeth. A garota devia ter preparado uma pegadinha bem cabeluda para Leona, como vingança pelo último encontro.
Todavia, Elizabeth, ao ver Leona, em vez de vir atazana-la, fez uma cara de total desprezo e virou o rosto num movimento tão súbito que Leona se perguntou como ela não quebrara o pescoço. Ana, sua serva fiel, seguiu a mestre com o rosto tão erguido quanto. Bem, isso, certamente, fora uma surpresa, dado que Leona esperava ser recebida por Elizabeth e seu namorado espancador eldianos, ou por uma trupe de meninas adeptas à violência física. De fato, cão que ladra, não morde. Algumas pessoas ditas "malvadas" muitas vezes são controladas por um para-te-quieto.
Sorrindo consigo mesma, Leona se encostou na parede ao lado dos armários e se pôs a esperar o sino da escola, assobiando animadamente. A felicidade pelo desfecho até se sobrepunha ao desconforto do absorvente.
Leona observava os alunos indo e vindo. Num geral, quando o corredor estava cheio daquela maneira, Leona se tornava invisível. Os estudantes passavam sem dar atenção a garota eldiana. Naquele instante, ela percebeu que oitenta por cento dos seus problemas na Landgraab se deviam à Elizabeth. Era Elizabeth quem a zoava, e a atitude atrevida incentivava os outros. Na certa, também era Elizabeth quem encorajava os demais valentões e valentonas a brigarem com Leona. Talvez, fosse apenas impressão sua. Devido ao seu alto astral por estar livre de Elizabeth por um dia, começara a achar que a vida seguiria linda e bela pelo resto dos anos letivos.
Mas, sem sombra de dúvidas, o que aconteceu a seguir sustentou a otimista e inconsciente esperança de Leona de que a vida estava prestes a melhorar.
Um garoto alto e magrelo andava enviesado no corredor em vez de em linha reta. Seus olhos azuis, ao invés de olhar para frente, miravam Leona. Logo abaixo dos olhos clarinhos, um sorriso jovial e receptivo se desenhava. Leona, meio desconfiada, olhou para os lados, pois seu primeiro instinto foi o de achar que o garoto estava admirando outra pessoa.
— Beleza, Leona?
Cumprimentou o garoto, sorrindo, com uma mão no bolso e a outra segurando a alça da mochila. Como aquele belavitense sabia o seu nome? Leona pestanejou e o encarou por cinco segundos antes de responder.
— Huh... beleza. — No automático, Leona entrou na defensiva. — Quem é você?
— Sou o Jason, da turma B. — O sorriso dele se alargou. Ele tinha um sorriso encantador. — Nossa, é a primeira vez que eu te encontro sozinha. Você está sempre com aquelas suas amigas, e no recreio eu nunca te vejo.
O garoto pensava que Elizabeth e Ana eram suas amigas! Que afronta à sua pessoa!
— Não são minhas amigas. — Leona assegurou com veemência.
— Ah. Desculpe.
Silêncio. Leona, acautelada, porém curiosa, analisava Jason, ponderando o que o teria feito vir falar com uma garota eldiana. O menino, por sua vez, olhava para os lados, segurava a mochila com mais força e estalava os lábios sem fazer barulho, como se buscasse uma maneira de continuar a conversa.
— Bem, vou ir direto ao ponto. — As bochechas de Jason ficaram vermelhas. — Você quer matar aula comigo amanhã?
Leona se assustou tanto que deu um sobressalto. Seus olhos arregalados encaravam Jason sem acreditar. Um garoto simplesmente acabara de a chamar para sair!? Isso é sério?! Leona deu uma risada fraca e coçou a nuca. Seu rosto se transformou num tomate. Ela desviou o olhar, envergonhada.
— Eu... — Leona limpou a garganta, sorrindo feito boba. — Você quer mesmo sair comigo?
— Sim. — O garoto corou ainda mais. Os dois davam um show de bochechas vermelhas. — Eu acho você bonitinha.
Jason disse que a achava BONITINHA!
Um garoto acabara de dizer que a achava BONITA!
BONITA! BONITA! BONITA!
O céu se parece com isso? Leona poderia jurar estar no céu. Ela se sentia leve feito um anjo nas nuvens. Leona, às vezes, sonhava acordada imaginando o seu primeiro encontro – em suas fantasias, o garoto sem rosto vinha com um buquê de flores e dizia "eu te amo, Leona" – porém, os eventos mais maravilhosos tendem a acontecer sem presságio.
Aliás, a melhor parte: Jason a achava BONITINHA! Todos viviam a chamando de nariguda feia, e aqui estava Leona, conquistando corações! Era o primeiro garoto que a chamava para sair em toda a sua vida, e é claro que Leona respondeu:
— Eu quero! — Exclamou ela, eufórica de um jeito que acuou Jason. — Eu quero! Eu quero!
— É isso aí! — Jason deixou-se contagiar-se pela alegria de Leona, embora ele ainda parecesse meio esquivo. — Amanhã a gente se encontra no intervalo, tudo bem?
— Perfeito. Combinado.
Leona estava tão feliz por finalmente ter um encontro que sequer teve tempo de estranhar que o garoto não a convidara para passarem o intervalo juntos, e que seu sorriso, embora cativante, não chegava aos olhos azuis.
O horário da saída nunca foi tão mágico. Os pássaros cantavam, o sol raiava. Os alunos andavam aos pares e quartetos conversando sobre os mais banais assuntos, e alguns pararam para observar Leona, que rodopiava e cantava:
— Seus olhos são tão azuis, seus beijos também...
Leona flutuou através do portão da escola, deu um abraço no porteiro confuso e saiu dançando. Os delinquentes espancavam Jacob no muro. O som dos socos era a melodia perfeita para a serenata de Leona, e ela recitava:
— Eu não acredito que você está apaixonado por mim... Você está dizendo a todos que eu conheço que eu estou na sua cabeça, ELES NÃO ACREDITAM QUE VOCÊ ESTÁ APAIXONADO POR MIM!
Feliz da vida, ela saltava pelo centro comercial sem se preocupar com os olhares tortos dos pedestres. Leonamal podia acreditar que finalmente iria ser beijada. Depois de amanhã, ninguém mais a chamaria de BOCA VIRGEM.
E então, quando Leona passou pela Ouro no seu caminho para casa, foi impossível não parar. A charmosa Evelyn Nesbit sorria para ela. Leona grudou a cara no vidro e espalmou as mãos, deixando a marca do suor de seus dedos e o contorno de seus lábios. Desejosa, ela admirou os colares, os anéis e os brincos no mostruário. Adornos que tornavam as mulheres mais lindas do que já eram. Leona queria estar deslumbrante no seu encontro com Jason.
E Leona, que estivera guardando dinheiro para comprar uma bicicleta, mudou de objetivo naquele momento.
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