Venha me pegar (PRIMEIRA VERSÃO)

59 Não esqueça quem você é


Notas iniciais
Olá, Pessoal, cansei de me atrasar. Isso virou/está virando uma bola de neve. Portanto, decidi que vou pausar a VMP por um tempo. O meu psicológico não anda bom. Eu continuo escrevendo todos os dias, porém num ritmo mais lento que está se mostrando insuficiente para eu vencer os meus prazos. Além disso, apesar de o meu ritmo criativo ter diminuído, os meus textos não. São esboços de 15, 13, 10, 9 mil palavras. Eu levei um ano letivo para fazer o meu TCC, e ele tem 13 mil palavras. Ou seja, na questão do tamanho, trabalhar com VMP equivale a escrever um TCC em quinze dias. Só que não é um único TCC, né, são vários. Eu não vou parar de escrever. Continuarei trabalhando, só que offline, na santa paz de Cristo, enquanto dou um jeito de encontrar outro ritmo de escrita que seja confortável e atenda às minhas necessidades. Sempre coloquei a mim e a minha história em primeiro lugar. Pausá-la agora é um ato de carinho para com nós duas. E antes que alguém venha dizer “ain faça capítulos mais curtos, eu até prefiro”, já respondo de antemão: a fanfic é minha. Eu escrevo o que eu quero, como quero, do tamanho que quero, e ponto. Se eu sentir vontade de fazer uma história de 16 mil palavras do Levi correndo em círculos pela muralha, eu vou. Eu escrevo pensando no que >EU< quero ler. Se não agrada aos outros, aí já não é da minha responsabilidade. É isso. Se você leu até aqui, responda o formulário: https://forms.gle/1siu5axAFzaJn9LB6 A VMP volta no dia 20/09/2022. Sim, no aniversário da Leona. Se você quiser dar uma olhada no andamento dos capítulos futuros, confira o meu trello: https://trello.com/b/RMDyiIxt/guidiverse Abraços!

Estar apaixonada era incrível. A vida nunca fora tão bela e colorida. Leona, saltitante e serelepe, voltou para casa logo após visitar a Ouro. O senhor Levi estava no balcão da loja de chás, contando moedas. Antes de encontrá-lo, Leona abafou suas emoções inefáveis por intermédio de uma cara fechada. No fundo, ela até queria contar sobre Jason – pela Santa, como desejava ter alguém para compartilhar essa novidade! – no entanto, o senhor Levi não a deixava ficar na rua depois do horário da escola, nem com garotos e nem sem garotos. E, se por ventura comentasse que estava tudo bem, porque ela e o garoto iam matar aula, aí sim o senhor Levi iria surtar.

— Cheguei, senhor Levi. — Mesmo controlando o júbilo, resquícios de euforia permaneceram em sua face, sobretudo no sorriso que ela deu ao cumprimentar o capitão.

Levi a fitou de soslaio, pelo lado do olho que enxergava.

— Deu tudo certo na escola?

Leona parou abruptamente na soleira da porta. Minha Santa! O que o senhor Levi tencionava com aquele suspeito "deu tudo certo na escola?" Será que ele sabia? Seria Jason uma armadilha do senhor Levi para descobrir se Leona era uma daquelas "marginais retardadas que gazeiam aula e se drogam na rua"?

— Do que o senhor está falando? — Questionou Leona com desinteresse fingido. Por dentro, entrava em pânico.

— "Do que o senhor está falando"? — Enquanto repetia a fala de Leona com aborrecimento, o senhor Levi encarou-a como fitaria uma recruta que esqueceu qual é o ponto fraco do corpo dos titãs. — Estou perguntando sobre a sua menstruação.

Leona estivera tão animada com Jason que esqueceu do absorvente entre as pernas.

— Ah, deu sim! — Exclamou ela. — Tá pouquinho. Nem precisei trocar.

— Ótimo.

O capitão voltou a mexer no balcão. O senhor Levi, resmungando por causa da perna ruim, se agachou para pegar alguma coisa nas gavetas. Leona tomou essa mudança de foco como um sinal de que a conversa havia terminado. Suspirando de alívio, Leona subiu as escadas do viveiro e foi até seu quarto, rumo ao cofrinho de dinheiro. Hoje, ele seria quebrado.

XXX

Leona não poderia se encontrar com Jason de cara lavada. Ela precisava de um enfeite, algo que a deixasse atraente feito as outras meninas. Portanto, no início daquela tarde, antes de ir para a escola, Leona entrou na Ouro pela primeira e última vez em toda a sua vida, e saiu de lá com um batom vermelho que custou todas as suas economias.

De olhos arregalados, idolatrava o pequenino tubo dourado no trajeto para a escola. Leona girou a base. O bastão vermelho-vivo apareceu, brilhante e elegante. Aquilo sim era a cor de uma mulher de verdade. Abobalhada, ela olhava para o batom, em vez de para frente e para os lados. Os pedestres desviavam de Leona e, irritados, a mandavam prestar atenção por onde anda. Leona nem deu bola. Nada estragaria o seu dia perfeito.

Assim como ontem, Elizabeth não veio a atazanar. Posteriormente, Leona descobriu que Ana e Elizabeth, ambas as amiguinhas, faltaram à aula. De fato, não tinha como o dia ficar melhor. Só se a merenda fosse mingau, aí sim, Leona jogaria na loteria depois de beijar Jason.

A aula de geografia durava apenas duas horas, mas para Leona pareceu dois dias. Enquanto fitava, no mapa-múndi, os oceanos e os países (Paradis era tão minúscula perto dos outros), ela se perguntava como ia ser o seu primeiro beijo. Que gosto teria a boca de Jason? Certamente, gosto de menino. Mas, como se define "gosto de menino"? Deve ser amargo e meio azedo. Amargo e azedo combinavam com garotos. Bem, Leona torcia para sua hipótese ser um delírio de menina boca-virgem. Tomara que o Jason tenha gosto de fruta, e que ele esteja usando um perfume cítrico igual ao do senhor Onyankopon, pensou Leona, brincando com o lápis.

Tão logo o sinal bateu anunciando o recreio, Leona voou para o banheiro feminino. Com o batom na mão, mirou o seu reflexo no espelho. Apesar de emocionante, era esquisito demais ver-se nessa posição de menina-que-se-enfeita. Leona levou mais de cinco minutos para começar. A verdade é que, ela achava a cor tão bonita, que nem tinha coragem de usar.

De primeira, Leona ficou parecendo um palhaço – a pasta vermelha ficou torta e borrada em sua boca. Leona tirou-a com água e tentou de novo. Ela não secou a boca, portanto, na segunda vez, por seus lábios estarem molhados, a cor não pegou. No fim, ela repetiu o processo seis vezes até conseguir se maquiar de maneira satisfatória, e nem estava tão bom assim.

Leona contemplou sua imagem. O vermelho dava um tchan em sua boca descorada e sem-graça. Entretanto, Leona não gostou tanto assim. No fundo, ela esperava mais. Não obstante, a camada era estranha ao contato; Leona morria de vontade de lamber a boca. Para ser honesto, ela quase preferia seus lábios nus. Porém, batons e maquiagens foram feitos para embelezar mulheres. Aquele desconforto era meramente fruto da sua imaginação.

Destarte, Leona entrou no banheiro sendo uma menina feia, e saiu uma mulher maravilhosa. Os meninos olharam-na com espanto, e as meninas a encaravam com mais surpresa ainda, pois, além de elas repararem que o batom era brilhante demais para ser de marca barata, nenhuma esperava que a eldiana nariguda da escola fosse aparecer maquiada. Leona precisava admitir, o choque das colegas elevou seu orgulho. Se antes ela se sentira desconfortável, agora se sentia a mais linda do mundo.

Ela encontrou Jason no pátio da escola. O garoto a esperava com o rosto contraído de agitação e pressa. Leona, porém, não pôde evitar a demora. Gostara tanto de chamar atenção que deu duas voltas inteiras no corredor só para se deliciar com os olhares estupefatos das meninas.

— Oi, Jason. — Leona sorriu. — Desculpe a demora.

— Tudo bem.

O olhar do garoto caiu em sua boca. Leona trancou a respiração.

— Batom legal.

Leona soltou o ar e seu sorriso enfraqueceu. Ela estava esperando um elogio um pouco mais elaborado. Em seguida, Jason a pegou pelo braço.

— Vamos logo! Vamos pular o muro! Rápido, antes que a monitora volte.

Jason a puxou, correndo na frente. Contudo, Leona, já tomada pela emoção de estar fazendo uma travessura, se desvencilhou de Jason e passaram a correr lado a lado. O muro da Landgraab era alto, todavia, Jason também era, e bastou Leona montar nos ombros dele para subir no muro. Ela ajudou Jason puxando-o pela mão.

— EI, VOCÊS AÍ! — Alarmou-se o porteiro, que estava fumando no lado de fora do colégio.

O porteiro veio gritando atrás deles. Leona e Jason fugiram em meio a risadas carregadas de maldade inofensiva. O porteiro sedentário cansou-se de persegui-los em segundos. O velho ficou para trás, de mãos nos joelhos e respiração ofegante.

Leona e Jason correram até virar a esquina, e então pararam para descansar – por necessidade de Jason, pois Leona ainda tinha energia para correr por mais dez horas. O garoto parou respirando pela boca aberta. Leona tremia de prazer; seu buço estava suado, ela precisou lembrar-se mais de uma vez para não esfregar a língua nos lábios.

— Foi muito divertido! Você viu a cara dele? — Gargalhou Leona, animada, arrastando Jason. — Vem, vamos ao centro. Vou te levar numa sorveteria que eu adoro.

— Não quero tomar sorvete. — Jason não cedeu aos puxões de Leona. — Conheço um lugar bem mais legal.

— Que lugar? — Leona arqueou a sobrancelha.

Jason não respondeu sua pergunta.

— Vem ver. — Disse ele com entusiasmo vago, e guiou Leona para o lado oposto do centro comercial. E, consequentemente, da civilização.

Leona aceitou a ideia de Jason sem questionar. Ela estava contente por fazer algo novo, e curiosa sobre o local aonde Jason a levaria. Será que era um restaurante caro? Um parque de diversões? Uma loja...?

O caminho escolhido por Jason passava pela escola. Leona, num primeiro momento, se ansiou com o perigo de darem de cara com o porteiro, mas isso não aconteceu. Conforme se afastavam do centro, Leona começou a achar que, talvez, Jason fosse leva-la à praia. Porém, não avançaram a esse ponto. O lugar especial de Jason não se localizava tão longe da Landgraab, e Leona o conhecia.

Jason a levou para uma pequena ponte que atravessava um córrego local. A distância entre uma extremidade a outra não era tão longa. Leona tinha certeza de que poderia pular (claro, com muito impulso). A profundidade do córrego, em contrapartida, fez Leona desistir desse pensamento intrusivo.

Ela e Jason pararam no centro da ponte. As barreiras de proteção iam até a barriga de Leona. A menina, após largar a mochila encostada na barreira, apoiou os braços e observou a água marrom. Imagina só quanta sujeira haveria lá em baixo. Leona se afastou, se virou para Jason e sorriu. Aquele era um lugar bem inusitado para um primeiro encontro. Entretanto, não deixava de ser romântico. A ponte, o som da água... os pontos negativos eram somente o limo podre e o lixo no córrego.

— Que pontezinha suja, Jason. — Comentou Leona com desconfiança descontraída. — Eu gostei!

— Gostou mesmo? — A resposta de Leona pareceu espantar Jason. — Isso me deixa feliz.

Após terminar a fala, Jason ficou com a boca entreaberta, como se fosse acrescentar mais alguma coisa. Leona esperou. Jason, ainda de boca aberta, entreolhou a esquerda e a direita da ponte com olhos ansiosos, feito um cervo que sentiu o cheiro do predador. Ele apertava as alças da mochila e, após emitir um estalar de língua, fechou a boca.

— Tem algo errado? — Questionou Leona, transtornada com aquele comportamento de fugitivo.

— Não. — Replicou Jason com ar distraído e meio irritado, girando a cabeça para os lados. E então, por fim, seus olhos se iluminaram e ele deu uma risada mista de alívio e diversão.

Leona seguiu o olhar dele. A visão arrepiou todos os pelos de seu corpo: logo adiante, pelo caminho oposto ao da Landgraab, vinham Elizabeth, Ana, e um garoto que Leona não conhecia, mas cujo tamanho e largura assustaram-na. Se tratava de um rapaz mais velho, com uma barbicha feia no rosto, um andar desleixado e uma cara oleosa. Apesar de ele ter o porte de um touro, o brutamontes andava alguns passos atrás de Elizabeth e tinha a cabeça baixa, feito um cachorrinho de estimação.

Aquele, óbvio, só podia ser o namorado de Elizabeth. O valentão conhecido por ter mandado um garoto eldiano pelos ares.

Numa única arfada, Leona recuperou o ar que não sabia que tinha perdido. Ela deu a volta em Jason a fim de fugir pelo lado oposto.

— Jason, vamos embora!

Jason, entretanto, agarrou o pulso de Leona com uma força que quase a fez perder o equilíbrio. Uma alegria nervosa estampava-se na cara dele, do tipo que sentimos quando estamos fazendo uma coisa terrível, mas queremos ir até o fim. O entendimento clareou a mente de Leona com um feixe de horror. Não levou cinco segundos para entender a perfídia; a armadilha cruel armada para ela. E Leona, burra e imbecil de acreditar que alguém poderia amá-la, caiu como um pato.

— ME SOLTA!

Leona bateu o punho no braço de Jason. Por causa dos treinamentos, Leona era mais forte do que aparentava. O garoto largou Leona com um chiado surpreso. Entretanto, a essa altura, Elizabeth e seus comparsas já haviam chegado perto o bastante para intervir, e em instantes o namorado de Elizabeth transpassava o braço no pescoço de Leona.

— ME DEIXEM EM PAZ!

Esgoelava-se Leona enquanto o brutamontes a trazia para o centro da ponte, onde os outros três aguardavam. O senhor Levi havia ensinado Leona a escapar de mata-leões. Já estava com o queixo encaixado no antebraço do agressor e com o rosto virado para o lado do cotovelo. O namorado de Elizabeth não punha força total no golpe — o objetivo era segurá-la, e não a matar.

— Essa garotinha machucou você, Jason? — Riu o brutamontes.

— Não. — Fingiu Jason, sacudindo o braço. — Cadê o meu um dólar?

— UM DÓLAR? — Berrou Leona, repugnada. — VOCÊ ME FERROU POR UM DÓLAR!?

— É o que você vale, titãzinha. — Provocou Ana.

— Primeiro a diversão, depois o pagamento. — Determinou Elizabeth. — Docinho, vira essa vadiazinha pra mim. Deixa eu ver o rosto dessa desgraçada.

Leona foi movida de frente para Elizabeth. A eldiana fitou o rosto odioso da belavitense. Leona sentiu a enxurrada de fúria tantas vezes vivenciada na escola, agora numa intensidade absurda. Elizabeth, em compensação, expressava os mesmos sentimentos.

— E a nojentinha ainda vem de boca pintada. Esse batom aí é caro, pela qualidade da cor. Você se prostituiu pra comprar? — Zombou Elizabeth com indignação controlada.

— Não. — Rebateu Leona. Apesar do medo, a raiva a incitava a ser insolente. — Eu consegui o dinheiro vendendo uma foto sua sem maquiagem para o zoológico.

As palavras de Leona surtiram em Elizabeth o efeito de um soco. A garota avançou e deu uma cutucada no centro do peito de Leona, bem no meio dos pulmões, causando uma dor que iniciou lenta e logo tornou-se aguda.

— Olha quem fala, a própria titã carroça. — Cuspiu Elizabeth. — Cadê o seu batom?

— Sei lá. — Leona deu de ombros. — Procura no rabo da sua avó.

Elizabeth crispou os lábios. Em seguida, Leona recebia um tapa no rosto. Nem doeu. A mão de Elizabeth era leve como uma pluma, e o braço do brutamontes atravessado em sua cabeça impedira Elizabeth de acertar todos os dedos.

— Ana, olha a mochila dela.

Ana obedeceu. A serva encontrou o batom escondido no bolso menor da mochila. Ela quase caiu de costas ao averiguar que o batom era da Ouro. Elizabeth também se surpreendeu, porém escondeu o espanto.

— Obrigada pelo presente, eldiana. — Elizabeth pôs o batom no bolso, dando um sorriso triunfante a Leona.

— De nada. Aproveita e enfia mesmo no rabo da sua avó. — E dito isto, Leona, enfim, lambeu a boca, removendo a cor vermelha dos lábios. Que se foda.

— Você se acha a engraçadinha, não é? — Falou Elizabeth com desdém requintado. — Quebrar as coisas dos outros é uma brincadeira para você? O meu país dá abrigo pra você e pra sua família imunda, e você agradece assim? Você me fodeu, sua mal-agradecida.

Nisso, Leona reparou nas roupas de Elizabeth. Estavam no outono, a própria Leona e os outros adolescentes usavam camisa. Elizabeth, pelo contrário: trajava roupas pesadas dos pés a cabeça. Não era preciso ser gênio para compreender que Elizabeth estava escondendo o resultado do método educativo de seus pais.

Leona era obrigada a ter empatia?

— FODA-SE! — Bradou Leona. — Não estou nem aí se a sua mãe te bateu. Não foi minha culpa você ter quebrado a maquiagem. Para de ser uma puta e manda o seu namorado me soltar.

A resposta de Elizabeth foi uma risada trêmula e maldosa que beirava um ataque de nervos. A garota chegou perto, quase ao ponto de seu nariz encostar no de Leona, e explicou, com a voz baixa e debochada, tendo como trilha sonora as gargalhadas cômicas de Jason e Ana (embora não desse para saber se eles riam de Leona, ou de Elizabeth ter sido chamada de puta):

— A gente vai te soltar, eldiana, mas só depois de eu te lembrar que Belavista não é Liberio, e nem Paradis, aonde eldiano se cria, pra você sair fazendo o que quer. Lugar de eldiano é abaixo na cadeia alimentar. Eu vou te ensinar a não se esquecer.

E então, Elizabeth retirou uma faca de cozinha do cós da calça. Pequena e serrilhada, perfeita para cortar presunto. Ana e Jason petrificaram-se. As risadas pararam na hora. Até mesmo o namorado sem nome se assustou. Estava claro que aquela parte não estava nos planos.

O brutamontes continuava agarrando Leona. Elizabeth era uma puta covarde. Chamou o namorado para segurar Leona, porque sabia que só ela e Ana não dariam cabo. Por que essa vadiazinha não veio lutar de igual para igual? Entre o medo de Leona, um frenesi destrutivo nasceu, e seus olhos se incandesceram de desejos violentos.

— Elizabeth... — Choramingou Ana, olhando para os lados. — Estamos indo longe demais... eu não quero ir para a cadeia...

— Cale a boca, Ana, sua estraga-prazeres. — Ralhou Elizabeth.

Com um largo sorriso de glória e psicopatia, Elizabeth encostou a faca no bíceps de Leona.

— Vou fazer uma estrela em você, igualzinha as que o seu povo nojento usava. — Cantarolou Elizabeth, referindo-se às estrelas das braçadeiras dos habitantes liberianos de Marley. — Vai ficar marcado na sua pele, pra você não esquecer.

— Faça. — Desafiou Leona, entupida de perigosa valentia. Se aquela belavitense retardada achava que iria fazê-la mijar nas calças, enganava-se. Por trás do antebraço do brutamontes, Leona dava um sorriso tão psicótico quanto o da colega. Ninguém mais a intimidaria. Nunca mais. — Quero ver se você vai ter coragem.

A risada de Elizabeth desapareceu como se desligada por um interruptor. Elizabeth respirou fundo e mostrou que, afinal, tinha coragem. Ela cravou a faca na pele do braço de Leona e traçou a linha da primeira ponta da estrela liberiana.

Leona, tomada pela adrenalina, quase não sentiu a dor do ferimento. Toda a sua mente estava focada em partir Elizabeth em pedacinhos. Se Elizabeth tinha colhões para machucá-la, Leona também os teria. Como o senhor Levi ensinou, Leona deu um empurrão no cotovelo do brutamontes que, por Leona ser uma menina e por ela não apresentar resistência física, não a segurava com tanta força. No próximo segundo, Leona atacava Elizabeth.

As duas caíram no chão da ponte. A faca deslizou por entre as barras de proteção e despencou no córrego. Leona estivera esse tempo todo treinando com um saco de pancadas batizado de Elizabeth, e agora testava a força de seu soco na Elizabeth verdadeira. A belavitense, chocada e de nariz sangrando, erguia os cotovelos para se proteger. Ela escutou os gritos escandalosos de Ana e, a seguir, braços tentaram retirá-la de cima de Elizabeth. Porém, não ia rolar. Leona só sairia daqui depois de mandar Elizabeth para o cemitério.

Entretempos Leona interrompia a pancadaria para afastar os dois garotos com gritos e socos dados a esmo. E foi quando Elizabeth urrou, com a voz engrolada de sangue, "BATE NA CABEÇA", que os dois minutos de fama de Leona se acabaram.

A pancada foi forte. Leona viu pontos pretos na visão turva. Alguém a jogou para o lado. Todo o seu cérebro chacoalhava. O mundo nublado visto por seus olhos parava de fazer sentido para sua consciência. A escuridão começou a envolve-la. Ouviu a voz abafada de Elizabeth dizendo que iria matá-la, e em sua visão debilitada chegou a vê-la se aproximar. Porém, alguém ou alguma coisa fez Elizabeth e os outros darem meia-volta. Leona não conseguiu aguentar acordada tempo o bastante para ver o que/quem era.

XXX

O despertador que acordou Leona foi o sino da escola. Ela piscou inúmeras vezes até acordar de vez. A dor na cuca cumprimentou-a. Leona fez uma careta dolorosa e levou a mão à cabeça para conferir se sangrava. Descobriu estar com um curativo que circundava seu crânio como uma tiara muito larga. Leona tentou mover o corpo. Tudo doía, principalmente o seu braço e a cabeça. Sua visão continuava meio borrada, como se estivesse de olhos abertos em baixo d'água. Ela tentou se erguer no cotovelo do braço imaculado, e nisso alguém veio impedi-la.

— Fique deitada, por favor.

Pediu uma voz de menina possuidora de um forte sotaque inglês, que se esforçava, em vão, para conter o grande entusiasmo. No campo de visão de Leona, dois olhos arregalados apareceram. Leona os via de cabeça para baixo — olhos de ponta cabeça. Devia ser um delírio. Só podia ser um delírio.

As sobrancelhas dos olhos se franziram como se o cérebro por trás deles raciocinasse.

— Dona Elis, o que eu faço agora?

Dona Elis. Esse nome não lhe era estranho. Leona já havia escutado esse nome.

— Veja se a cabeça da menina ainda está nos trinques, Verônica.

A voz rançosa de dona Elis correspondia a de uma fumante. Dona Elis... fumante... Leona a conhecia. Tinha certeza. Aliás, quem era essa tal Verônica?

— Err... como eu faço? — Perguntou Verônica com interesse constrangido.

— Jesus. — Suspirou dona Elis, amolada. — Pergunta o nome e a idade dela. Vai vendo o que ela consegue responder.

— Tudo bem! Huh... — Os olhos grandes correram pela sala desconhecida. Verônica disse à Leona: — Espere um pouco.

Ah, finalmente, o silêncio! Leona acomodou a nuca dolorida no travesseiro desconfortável. De olhos fechados, Leona aproveitou o escuro com deleite. Matutar a identidade de dona Elis e sobre o lugar aonde se encontrava não lhe era mais uma ideia válida. Leona poderia resolver isso depois de descansar. As duas mulheres pareciam não saber o paradeiro de Elizabeth. Leona esperava que Elizabeth e seus amigos estivessem mortos. Seria tão bom, nunca mais se preocupar com Elizabeth...

De repente, alguém cutucou seu ombro. Leona ignorou. A pessoa a cutucou de novo. Leona moveu o braço para afastar o intruso como afastaria uma mosca. A pessoa, percebendo que Leona estava acordada, falou:

— Vou fazer algumas perguntas, ok? Por favor, tente responde-las. — Avisou Verônica num tom profissional que não combinava em nada com a sua energia jovial. — Qual é o seu nome?

— Leona. — Respondeu ela, torcendo para bastar para Verônica calar a boca.

— Leona de quê?

— Zöe Smith. — Acrescentou num rosnado irritado.

— Quantos anos você tem?

— Treze.

— Em qual escola você estuda?

— Landgraab.

— Qual é o nome do seu pai, mãe ou responsável? — Aqui Leona percebeu que Verônica estava lendo uma ficha.

— Levi Rivaille.

— Sua cabeça está ótima. — Disse Verônica com ar satisfeito. — Agora eu vou examinar você. Abra os olhos.

Essa Verônica não iria deixá-la em paz. Leona, bufando, abriu os olhos.

Diante dela, reapareceram o par de olhos animados, e dessa vez, por Verônica estar ao seu lado, e não de ponta cabeça, Leona conseguiu ver o rosto dela. Se tratava de uma menina mais ou menos da sua idade, porém, a única coisa que possuíam em comum era o ano de nascimento, pois Verônica era totalmente diferente de Leona, da cabeça aos pés.

A primeira coisa que chamou a atenção de Leona foi o cabelo de Verônica. Era preto e crespo de um jeito que Leona não sabia ser possível: o cabelo de Verônica era tão crespo e volumoso que mal dava para distinguir os cachinhos. O nariz de Verônica, tal qual o seu, não era como os do belavitenses – o de Verônica era largo na base das narinas, e sua ponta era arredondada. E, por último, em complemento aos traços incomuns às pessoas de Newcrest: Verônica era negra.

Verônica pegou a lanterna e lançou o raio de luz em seus olhos. Não dava para dizer se olhar de Leona estava vidrado em reação ao exame, ou por causa da beleza de Verônica.

— Quem é você? Aonde estou? — Perguntou Leona, abestalhada.

— Você está na Landgraab. — Verônica sorriu. — O porteiro encontrou você na ponte.

— Na Landgraab? — Repetiu Leona, vagamente alarmada.

Então, a ficha caiu: a dona Elis era a enfermeira da Landgraab. Leona estava na enfermaria do colégio. Recordou-se dos valentões fugindo. A ponte não ficava longe da escola. Na certa, o porteiro ouviu os gritos e encontrou-os.

Isso respondia todas as questões, exceto uma: como Verônica fora parar ali? Leona nunca a tinha visto na Landgraab. E se já a tivesse visto alguma vez, Leona lembraria – com toda certeza, a beleza de Verônica era inesquecível, bastava olhar uma vez para nunca mais se esquecer.

— Você estuda aqui? Eu nunca te vi.

— Eu sou da Schoul.

Verônica desligou a lanterna com um clique audível. Leona torceu a boca, desgostosa. A Schoul era a escola para refugiados. Se na Landgraab, uma escola aonde órfãos eram minoria, a situação era crítica, imagina num colégio majoritariamente composto por esses desalmados.

Verônica continuou:

— Mas lá não tem enfermaria, então eu pedi trabalho aqui.

— Implorou, para ser exata. — Intrometeu-se a dona Elis, observando as garotas atrás de sua mesinha, com um jornal aberto no colo e mastigando uma bala. — Veio na diretoria todos os dias, até a gente permitir.

— É. — Assumiu Verônica, meio envergonhada. Ela brincou com os botões do jaleco, que era grande demais para a sua altura. — Você sabe, nem sempre a oportunidade bate na nossa porta. A gente tem que insistir nela, às vezes.

— Eu concordo totalmente. — Respondeu Leona, assentindo. Mexer a cabeça causou dor, e ela levou a mão ao crânio.

— Está doendo?

— Um pouco. — Leona removeu a mão da cabeça, e no automático olhou para a palma em busca de sangue. — Eu me machuquei muito?

— Não. Foi um corte pequeno. O curativo está exagerado porque é o primeiro na cabeça que eu faço. — Verônica riu, sem graça.

— Eu acho que ficou muito bom. — Falou Leona com divertimento, tocando na bandagem que envolvia sua cabeça. Verônica tomou o cuidado de coloca-la por baixo da franja, de maneira que o cabelo caia sobre a faixa branca.

— Obrigada, mas farei melhor na próxima. — Verônica apontou para o curativo no braço de Leona. — Você se machucou aqui também. Acho que vai deixar uma cicatriz.

— Ah, que bom. — Leona revirou os olhos, de súbito zangada. Agora ela teria uma recordação da piranha da Elizabeth. Esperava ter deixado algumas cicatrizes nela também.

A ideia de ter uma marca na pele enfureceu Leona, e logo a menina estava de beiço e cara amarrada. Verônica, percebendo a retração, encolheu os ombros como quem pensa "eita!", e se afastou. Nesse instante, dona Elis se levantou de sua mesa e trouxe a mochila de Leona.

— Sua mochila.

— Obrigada. — Respondeu Leona, indiferente.

— O seu padrasto está na diretoria.

A carranca de Leona se transformou em olhos desorbitados. Sua pele tornou-se tão lívida que poderia ser confundida com leite. O senhor Levi iria matá-la. Primeiro por ter matado aula, em segundo por ter saído com alguém sem avisar, em terceiro por ter batido noutra menina, e em quarto por ter se machucado. A respiração de Leona tornou-se descompassada. Ela agarrou os ombros de dona Elis e rogou:

— NÃO, POR FAVOR, DONA ELIS! TUDO MENOS O SENHOR LEVI!

— Para, menina doida. — Dona Elis afastou os braços de Leona. — É óbvio que nós chamamos o seu padrasto, ou você achou que íamos te largar na rua sozinha?

— Eu preferiria! — Exclamou dolorosamente.

Adiante, Verônica dava risadinhas discretas — achava o drama de Leona engraçadíssimo, embora para Leona nada daquilo fosse engraçado.

XXX

Em poucos minutos, o senhor Levi apareceu na enfermaria. Pelo olhar severo e pela boca contraída, Leona soube que estava em apuros. O senhor Levi era do tipo que, quando de mau humor, ou nas horas de repreender, falava falava falava falava até gastar a audição do ouvinte. Entretanto, o senhor Levi achava-se quieto tal qual uma cobra.

— Eu preciso assinar alguma coisa? — Questionou o senhor Levi a dona Elis.

— Precisa assinar o documento alegando que você veio buscar a aluna. — Explicou a enfermeira, entregando o papel ao capitão.

O senhor Levi assinou o seu nome falso. Após riscar a última letra, ele deu, por cima do papel, uma olhada fria à Leona. A menina se encolheu por instinto. Por dentro, queimava. O senhor Levi não tinha nada que a olhar feio. A culpa não foi dela.

Após assinar o documento, o senhor Levi se aproximou da maca em que Leona sentava, e perguntou, em sua voz monótona:

— Você se machucou?

Leona foi tomada por uma perigosíssima vontade de dizer "não, esses curativos são parte da minha fantasia de múmia", no entanto, essa resposta equivalia a "por favor, o senhor poderia me fatiar?"

— Só na cabeça e no braço.

— Muito?

Leona negou.

— Ótimo. — O senhor Levi se virou. — Vem, vamos para casa.

As feições do senhor Levi nunca expressavam nada, e portanto era difícil dizer se ele estava feliz ou irritado por Leona não ter perdido um olho ou um braço na desventura.

Leona desceu da maca, pôs a mochila no braço bom e seguiu o capitão de cabeça baixa. Quando passou por Verônica, a aprendiz de médica acenou. Leona retribuiu o tchauzinho, sem ânimo.

Andava alguns passos atrás do senhor Levi. O capitão caminhava na frente, manobrando a bengala com maestria agressiva, emitindo um barulho contínuo no corredor vazio do colégio. Nenhum deles disse nada. O senhor Levi esperaria estarem no lado de fora para começar o interrogatório seguido pela punição. E foi assim mesmo que aconteceu.

— E então, Smith, gazeando aula para entrar em brigas? — Inquiriu o capitão em tom de quem tira satisfações, sem olhar para Leona.

Leona seguia inclinada a não contar sobre Jason. Não só porque não sentia a mínima vontade de dividir sua "vida íntima", como também porque, agora, Leona percebia como toda aquela situação era estúpida. Leona jamais diria ao senhor Levi que a briga aconteceu só porque ela caiu na conversa de um garoto que disse que a achava bonitinha.

— Eles começaram. Vivem me provocando por causa do meu nariz. Eu cansei de aturar. — Defendeu-se Leona num timbre que esperava não soar muito alterado, embora pressentisse que logo não conseguiria mais se segurar.

— Eu sei que você não começou a briga. — Aqui, o senhor Levi olhou-a por cima do ombro. — Você é uma amante, Smith, não uma gladiadora.

Leona não entendeu o que o senhor Levi pretendia dizer com essa conversa de amantes e gladiadores, mas o papo a ofendeu de igual modo. GLADIADOR significa "lutador que combate em arena contra outros lutadores ou com feras". AMANTE pode ser definido como "aquele que ama". Na sua opinião, entre uma coisa e outra, ser uma "gladiadora" era melhor.

— Eu não sou merda nenhuma de amante. — Cuspiu Leona, levantando a cabeça.

A resposta do senhor Levi foi um franzir de sobrancelhas.

— Bem, "gladiadora", — ele pronunciou a palavra com sarcasmo — você foi suspensa.

Se o senhor Levi esperava que a suspensão fosse deixar Leona chocada, triste, brava ou preocupada, então ele mordeu a língua. Leona apenas deu de ombros. Era até bom, na verdade. Estando suspensa, Leona não precisava ir à escola. Pena não ter sido expulsa.

— Por que eu tenho que continuar indo para a escola? — Rebelou-se Leona. — Eu já tenho trabalho. Já ganho o meu dinheiro. Não preciso estudar.

Ante as palavras de Leona, o senhor Levi parou de chofre. Ele se virou. A cara que o senhor Levi estava fazendo era uma das mais abertas que Leona já o vira fazer. Os olhos do capitão, normalmente pequenos e mortos, pareciam prestes a pular das órbitas.

— Não fala merda, Leona. Está esquecendo quem é o seu chefe? Se você parar de ir à escola, eu te demito, ouviu? — Sibilou ele. — Os seus pais eram estudiosos e inteligentes, você não quer ser como eles?

Leona ergueu o rosto tão subitamente que a franja voou. À moda dos adolescentes, sua postura carregava um desdém e um atrevimento grandes demais para a sua pouca idade:

— Ótima ideia. Vou ver se morro antes dos quarenta e cinco, como os meus pais.

A mão do senhor Levi tremeu sobre a bengala. Na certa, se essa discussão estivesse acontecendo na infância de Leona, o senhor Levi teria lhe acertado um cascudo dos bons. Porém, os tempos eram outros. O senhor Levi estalou os lábios e recomeçou a caminhada.

— Você está com a língua bem solta, não é, Smith? — Ele escondeu a fúria atrás da ironia. — De qualquer jeito, você não vai mais voltar para a Landgraab. A direção daquele colégio é péssima. Eu tentei explicar que você não bateria nos colegas por bater, e a diretora só fingiu que acreditou em mim. Eu duvido muito que ela vai chamar os pais dos outros envolvidos.

Leona não imaginava que o capitão tivesse a defendido da diretora. Ela se sentiu mal por tê-lo desrespeitado. Leona, contudo, continuava irritada e magoada, e por conseguinte não pediu desculpas.

— Eu cancelei a sua matrícula. — Declarou o senhor Levi. — Amanhã, vou te matricular na Schoul.

Sem mais nem menos, Leona explodiu:

— A SCHOUL NÃO! — Rugiu Leona, agitada e desesperada. — EU NÃO VOU ESTUDAR COM OS ÓRFÃOS!

— A Schoul é a única escola perto daqui, tirando a Landgraab. — Respondeu o senhor Levi sem se abalar, frio ao surto de Leona. — Você vai para a Schoul, querendo você ou não.

O olhar e a voz do senhor Levi não abriam espaço para queixas. Aquele era o veredito. Leona, porém, não ia desistir tão fácil. Ela correu para ficar diante do capitão. Eles eram quase da mesma altura – Leona era mais alta por um centímetro. Ela encarou-o de frente.

— Me matricule noutra escola. Eu não me importo de pegar bondes ou de caminhar mais. — Argumentava Leona. O senhor Levi não conhecia a orfandade como Leona a conheceu. Ela passou meses infernais na fazenda da rainha convivendo com os mais terríveis moleques e pirralhas (não é à toa que foram abandonados, mãe nenhuma atura criaturas tão horríveis). — Eu não gosto de órfãos. São todos burros, e malvados, e...

— Leona. — Levi a interrompeu. — Eu não sei se você já percebeu, mas você também é órfã.

A verdade nua e crua petrificou Leona. É claro que Leona sabia que era órfã. O capitão não precisava jogar na cara dela. Não só isso, aquelas palavras duras e diretas ferroaram Leona com uma dor pontuda e violenta. Somada à raiva, as emoções fortes trouxeram uma onda de lágrimas ao rosto da adolescente. Leona, porém, não iria deixar o senhor Levi vê-la chorar como uma garotinha. Ela girou nos calcanhares e zarpou. O senhor Levi não moveu um dedo para segurá-la, e nem a chamou.

Leona correu como se não houvesse amanhã, querendo fugir do senhor Levi, da Landgraab, de Elizabeth, da Schoul, de Belavista. Almejava poder desaparecer, escapar daquele planeta maldito. No entanto, em vez de escapulir para qualquer lugar onde ninguém fosse achá-la, Leona pegou-se correndo pelo caminho que dava para casa. E é claro que ela seguiu por essa estrada. Para onde mais Leona poderia ir?

XXX

No fim, implorar para não ser matriculada na Schoul de nada adiantou. O senhor Levi, em toda a autoridade que a maioridade e a posição de padrasto lhe impõem, solicitou a transferência de igual modo. A matrícula ficou pronta antes do fim de semana. Na segunda-feira, Leona iria para a Schoul.

Embora estivessem no meio do ano letivo, a sensação era idêntica à de um primeiro dia de aula. Leona se sentia aflita como em seu primeiro dia na Landgraab. Ela recordou, com tristeza, que os começos em seus antigos colégios não foram angustiantes. Quando Leona iniciou a primeira série, ela recebeu a novidade de braços abertos, e até mesmo a escola da fazenda não era tão ruim comparada à Landgraab. Mas, é claro, os desafios do passado sempre parecem menores quando nos defrontamos com um novo obstáculo.

A Schoul, além de ser algumas quadras mais longe, também era menor e mais sucateada do que a Landgraab. A escola não tinha porteiro, de maneira que não havia ninguém fiscalizando a entrada e a saída dos alunos. Ao contrário da Landgraab, as aulas da Schoul aconteciam às oito da manhã – e por isso a tal Verônica conseguia trabalhar à tarde. Dessa forma, além do nervosismo e da apreensão, Leona também estava louca para recuperar os sessenta minutos de sono que lhes foram roubados.

Ao redor de Leona, aguardando a abertura do portão, achavam-se os alunos da Schoul. Leona observava-os com olhares curiosos, porém acautelados. Se Leona fosse equiparar a Schoul a uma comida, ela diria que a Schoul era uma sobremesa de gelatina colorida, pois os estudantes vinham nas mais diferentes cores, trejeitos e fisionomias.

A Schoul fora construída para as crianças refugiadas da Revolta. Leona não viu quase nenhum belavitense. Na Schoul havia ingleses, árabes, hizuruneses, marleyanos, italianos, e, pasmem, eldianos. Leona quase desmaiou ao avistar cinco adolescentes liberianos conversando no muro.

— Viu só, Smith? Não é tão ruim. — Disse o senhor Levi, sentado na cadeira de rodas, percebendo sua estupefação. É óbvio que ele a acompanhou – vai que Leona mentisse sobre ter ido a aula.

— O povo da fazenda também era eldiano. — Desdenhou Leona, apesar de haver um quêzinho de dúvida em sua teimosia.

— Não quer dizer que aqui vai ser igual. — A réplica do senhor Levi foi abafada pelo sino da Schoul. — Tenha uma boa aula, Smith.

— Vou tentar. — Resmungou Leona.

O senhor Levi saiu girando as rodas da cadeira. O capitão possuía força nos braços; para ele, não era difícil movimentar-se na cadeira. Ágil como era, em minutos saiu dos arredores da Schoul.

Ela pensou em fugir de fininho. O senhor Levi já estava longe mesmo. Porém, a ideia se apagou de sua mente. Leona, afinal, sentia-se tentada a bisbilhotar os alunos da Schoul e tirar o seu preconceito com órfãos à limpo. Em meio à massa heterogênea de estudantes, rumou para o interior da escola.

A Schoul não dispunha de armários, por conseguinte os alunos andavam com as mochilas para lá e para cá. Era bem legal não ser a única pessoa de mochila nos corredores.

A turma de Leona correspondia ao número 83. Enquanto procurava a sala, Leona passeava pelo colégio, analisando com apressada atenção os corredores, os banheiros, as paredes, as salas que estavam com a porta aberta, e, de relance, a pequena biblioteca. A Schoul era muito menor do que a Landgraab em questão de infraestrutura. No entanto, os alunos que conversavam entre si, cadenciando os mais diversos sotaques e dialetos, davam a impressão contrária. Mesmo sendo menor no tamanho, a Schoul era maior do que a Landgraab. O mundo inteiro estava dentro da Schoul.

Ao enfim chegar em sua sala, Leona parou perto da porta e esperou junto dos estudantes que a partir de hoje seriam os seus colegas. Adiante, um trio composto por dois hizuruneses e um latino papeavam. Leona, ansiosa, apoiou o peso do corpo na perna direita e mordeu o interior do lábio. A parte extrovertida de sua personalidade tremulava de vontade de entrar na conversa. Contudo, gato escaldado tem medo de água fria, e Leona resolveu que era melhor observar o terreno um pouco mais antes de tomar iniciativa.

Tão logo a professora chegou, os alunos entraram na sala de aula. Leona se amocou perto da lousa e esperou os colegas sentarem, a fim de conferir quais carteiras ficariam vazias. Os estudantes começaram a se acomodar. Leona estranhou a maneira como eles arrastavam as cadeiras e as mesas para sentarem de dupla, trio e até mesmo quinteto, sem pedir permissão à professora. Pelo visto, a questão da individualidade das classes não era cobrada na Schoul.

Leona escolheu o quarto lugar da fileira do canto, se sentindo estranhamente isolada. Sua primeira aula seria de biologia. Enquanto organizava os cadernos na mesa, Leona reparava na tremedeira inconveniente de seus dedos. Controle-se, Leona, pensou ela com reprimenda, não fique nervosa.

— Bom dia, classe. — Cumprimentou-os a professora, uma jovem cuja etnia Leona não soube dizer, mas com certeza não era newcrastiana.

— Bom dia. — Alguns, incluindo Leona, responderam.

A professora se sentou em sua mesa. Ela pegou um caderno grande e comprido, que mais parecia um jornal, e apanhou uma caneta. A professora fitou o caderno por um instante, e, após o que pareceu uma análise, falou:

— Quem é Leona Zöe Smith?

— Sou eu.

Leona prendeu o ar e levantou a mão. Seu coração palpitava, morrendo de medo que a professora pedisse para ela se apresentar. Leona não tinha problemas com falar em público, tampouco com apresentações. Entretanto, na Landgraab, o professor também a fez se apresentar para os colegas, e aquilo, além de não ter sido uma experiência agradável (os alunos riam e cochichavam durante a fala de Leona), também serviu para chamar atenção indesejada.

Entretanto, a professora apenas disse:

— Seu nome já está na chamada, ok? — A professora sorriu. — Depois vá na biblioteca e peça para a bibliotecária te dar os livros das disciplinas.

— Ah... — Leona se aliviou tanto que se desconcertou. — Certo. Obrigada.

Depois disso, a professora iniciou a chamada. Nomes das mais múltiplas nacionalidades foram chamados, e os respectivos adolescentes respondiam. Leona uniu as mãos uma na outra e se pôs a esperar a professora chamar seu nome.

Nesse instante, uma bolinha de papel quicou em sua cabeça. Leona emitiu uma baixa reclamação incomodada, e, ao ver a bola de papel amassada, deu um sorriso cheio de escarnecimento e pensou, com desdenho "rá, já começaram a me notar". Leona abriu a folha esperando ver um desenho do seu nariz ou um palavrão que ofendia sua raça. No entanto, ela encontrou com uma curta mensagem: olhe para trás.

Leona olhou para trás involuntariamente. Seus olhos se arregalaram ao deparar-se com Verônica, a aprendiz de médica, acenando lá no fim da sala. Ela sentava de trio com outro inglês e com um liberiano – Leona adivinhou pelo nariz.

Leona boquiabriu-se. Ela nem sequer pensou na possibilidade de que poderia cair na turma de Verônica, e muito menos no prospecto de que Verônica a reconheceria. Sua boca entreaberta e chocada se transformou num sorriso, e Leona girou na cadeira para retribuir o cumprimento. Em meio aos "presente, professora" e "aqui, professora", Verônica, com a boca bem aberta e vagarosamente, começou a falar sem emitir som algum. Leona apertou os olhos e tentou ler os lábios dela.

— Leona Zöe Smith? — A ênfase dada pela professora indicava que ela havia chamado o seu nome mais de uma vez.

— Presente, professora! — Falou Leona, pressurosa.

Em segundos, outra bola de papel quicava em sua cabeça. Essa dizia: vem sentar com a gente.

Por educação, Leona esperou a professora terminar a chamada antes de ir se juntar à Verônica e aos amigos dela. Ela se levantou com a mochila aberta nas costas e o caderno em mãos.

— Adotou outro eldiano, Verônica? — Ironizou o inglês sentado à direita de Verônica. Ele era negro, corpulento, de ombros e rosto largo, e seu cabelo era raspado.

— Cala a boca, Simon. — Exasperou-se Verônica.

— Eu não sabia que eu estava para adoção. — Brincou Leona, resolvendo levar na esportiva.

O garoto sentado à esquerda de Verônica era um liberiano macilento. Ele tinha o rosto fino e um nariz muito mais arqueado do que o seu. Quando o menino se levantou para puxar uma mesa para Leona, ela se admirou com a altura dele. Parecia que o garoto encostaria no teto caso crescesse mais dois centímetros. Ele acoplou a carteira ao lado da dele. Quando Leona sentou, o eldiano pegou sua mão e balançou-a para cima e para baixo bem rapidinho.

— Muito prazer. — Falou ele com euforia exagerada. — Eu me chamo Zeke.

— Bonito nome! — Leona completou, debochada, entrementes: puxa, o senhor Levi vai adorar te conhecer.

— A sua cabeça está melhor? — Questionou Verônica, apoiando-se na carteira para ver Leona.

— Está. — Leona alisou o cocuruto.

— É essa que você atendeu na Landgraab? — Perguntava o tal Simon, também se apoiando na carteira para observar Leona.

— O machucado no braço deixou cicatriz? — Inquiriu Verônica, delicada.

— Sim. — Leona mostrou a ferida cicatrizada.

— Não é grande. — Comentava Zeke.

— Por que você veio para a Schoul? — Intercalava Verônica.

— É verdade que você bateu noutra pessoa? — Interessava-se Simon.

— Não foi nada demais. — Respondeu Leona, entreolhando os três estudantes, referindo-se às duas perguntas na sua resposta. — Eu entrei numa briguinha de nada, não foi grande coisa. Só que o meu padrasto se assustou, e decidiu me trocar de escola.

— Meh. Fez bem. — Simon revirou os olhos e botou a língua para fora. — Só tem arrombado na Landgraab. Já saí no soco com uns vinte alunos de lá.

— Exagerado... — Sussurrou Verônica.

— E não é!? — Concordou Leona, alvoraçada. — Cara, eu acho que se fizessem um teste psicotécnico na Landgraab, nenhum daqueles animais passava.

Simon e Verônica deram risada. Zeke também, mas ele o fez ao modo exagerado e inatural das pessoas que riem sem entender a piada. O rosto de Leona se iluminou. Era bom ver alguém da sua idade rindo consigo, e não de si.

Lá na frente, a professora pediu silêncio e avisou que iria ditar a lição sobre genética. Leona abriu o caderno e apanhou uma caneta para começar a escrever. Nisso, ela percebeu que, além da mochila e dos cadernos, havia trazido, também, a mensagem que Verônica havia lhe passado – vem sentar com a gente.