Veneno e vinho
6 Capítulo 5
Notas iniciais
O movimento estava frenético no cabaré. Os clientes abarrotavam o salão principal. A fumaça de seus charutos repousava divertida sobre suas mesas, enquanto as mais belas mulheres repousavam sobre suas pernas.
Na coxia, as quatro dançarinas aqueciam-se para o número daquela noite. Cada uma mais deslumbrante que a outra. Esticavam os braços para cima e em seguida para baixo. Demetria, uma mulher de cabelos ruivos naturais e olhar marcante, repassava a coreografia em um canto mais afastado.
Sua roupa caía-lhe perfeitamente bem. O azul escuro do vestido combinava adequadamente com o flamejar de suas madeixas. A música tocava em sua cabeça, enquanto os passos de dança eram feitos no minúsculo espaço em que se encontrava.
Ela girou em torno de si própria e ao fixar os pés no chão novamente, seu tornozelo bateu em um dos pés de um banco de ferro próximo dali.
Demetria sentiu a dor fina percorrer o membro e prolongar-se quando ela tentou pisar no chão. A dançarina então se sentou no mesmo banco que provocara seu acidente e chamou por Katherine, que estava maquiando-se numa penteadeira ao lado.
— Kath, eu preciso de uma ajuda aqui!
A latina virou o rosto para fitar a amiga de palco e arregalou os olhos ao vê-la segurando o tornozelo com uma expressão dolorosa no rosto. Apressou-se então em ir até ela, checar a gravidade da situação.
— Está inchando... — Demetria resmungou.
— Vai entrar no palco dentro de dez minutos! Como apronta uma dessas? Constance não ficará nem um pouco feliz se o número tiver que ser cancelado.
— Eu não tenho culpa, ok? Dá para ser um pouco solidária uma vez na vida? — Ela questionou retoricamente.
— Vou buscar gelo. — A morena decretou, antes de sair em direção à cozinha.
Enquanto ela se distanciava de Demetria, as outras dançarinas percebiam o ocorrido e aproximavam-se. Todas com a mesma preocupação: como Constance ficaria ao ser informada sobre isso.
Todas ali tinham medo de decepcionar a dona do cabaré. Não só porque a senhora era sua patroa, mas pelo fato delas odiarem deixá-la desapontada.
— Eu sei a coreografia. — As mulheres ouviram a voz tímida soar atrás delas e se viraram para fitar a dona da mesma.
Elise tinha os braços cruzados na frente de seu corpo e sua postura era um pouco retraída. Elas a olharam com descrença, mas Demetria sentiu que talvez a loira fosse sua chance de sair ilesa da situação.
— Ela sempre nos ver ensaiar. Deve realmente saber. — A ruiva falou, ainda sentindo a dor percorrer por seu tornozelo.
— Ok. Mas precisaremos de uma demonstração.
Uma mulata manifestou-se, cruzando os braços e encarando a novata, que assentiu. Afastaram alguns objetos para que Elise não pudesse se machucar também e a loira começou com a marcação.
— 1, 2, 3, chuta. — Ela repetiu por três vezes, executando o passo. — 3, 2, 1, gira.
Sua desenvoltura ia além. Com certeza ela andou praticando o número dentro de seu quarto, já que memorizar a coreografia era completamente diferente de dançá-la com tamanho domínio. Os dotes naturais de Elise também a ajudavam a levar os movimentos com elegância e suavidade.
— Acho que é o suficiente. — A mulher machucada pronunciou-se.
— O que foi o suficiente? — Katherine finalmente retornou com o gelo para Demetria e entrou na roda que as mulheres formaram, querendo entender a situação.
— Elise irá me substituir e estávamos checando se ela realmente sabia a coreografia.
A latina ergueu uma das sobrancelhas, olhando com desdém para a jovem no meio do círculo. Ela analisou a loira de cima a baixo e em seguida disse:
— Ela sequer é dançarina do Django. É apenas uma sem-teto.
— Achei que o que estivesse em pauta aqui fosse eu saber ou não a coreografia... — Elise pontuou, encarando Katherine com o olhar firme.
— E ela sabe bem. — Concordou Demetria.
— Espero que ela tome o seu lugar então. — A morena desejou, voltando seu olhar para a ruiva.
— Deixa de ser ridícula, Kath. Por que essa implicância toda com a garota? Ela só quer ajudar!
— Acho que sei exatamente o motivo. Diga-nos, Katherine, do que você tem medo? — Elise provocou, chegando um pouco mais perto da mulher.
Os olhos da morena queimaram em cima da protegida de Constance e seu sangue ferveu. Ela desejou poder estapear a loira ali mesmo, na frente de todas as outras garotas, mas controlou-se, lançando um último olhar para ela, e indo embora.
— Meu gelo! — Demetria gritou, antes que ela se afastasse o bastante.
Katherine lançou a bolsa de gelo para a ruiva que obteve destreza em segurá-la, sorrindo sarcástica para a latina.
— Agora vá se arrumar! — Ela ordenou para Elise, que sorriu vitoriosa.
{...}
Adam estava sentado no banco alto do bar do Django, onde costumava sempre assistir aos shows. Mantinha o copo de uísque em sua mão e o olhar fixo nas atrações da noite.
Anteriormente tinha feito uma varredura com o olhar, à procura de certa loira, mas não obteve resultados. Não via Elise desde a última conversa que tiveram. Ele sabia que estava sendo evitado pela mulher, e isso só lhe atraía ainda mais.
A loira tem se esquivado do homem, desde que percebera o perigo que ele representava.
Apesar do jogo de cintura da loira, Adam não desistira de se aproximar. Não seria Elise a primeira mulher a tentar fugir de seus galanteios, ele conseguiria fisgá-la de alguma forma, só precisava mudar sua estratégia.
Voltando seu olhar para o lugar onde aconteceria o show, ele observou as cortinas vermelhas abrirem lentamente, revelando o sorridente pianista que embalava uma canção animada. As pessoas começaram a se sacudir de um lado para o outro com o ritmo quente do jazz.
A primeira dançarina subiu saltitante ao palco, acompanhada de mais duas e de... Elise?
O moreno surpreendeu-se com a presença da loira ali. Pelo o que conhecia do número, Demetria deveria estar em seu lugar. E quando ela decidiu tornar-se dançarina? Constance esqueceu-se de avisá-lo?
Ele deixou com quê a surpresa tomasse conta de sua expressão, até que ela fosse substituída pelo deslumbre.
Embora houvesse quatro mulheres divinas no palco, ele não conseguia ver ninguém a não ser a loira, vestida em um traje azul-escuro, com os lábios tingidos de vermelho.
Ela era simplesmente a personificação da beleza.
Os passos da música eram sincronizados e perfeitamente executados pela dona do olhar de esmeralda. Ela sorria enquanto dançava e isso a iluminava mais que o refletor voltado para si.
Adam olhou ao redor, procurando por Constance e quando os olhos negros pousaram na senhora toda poderosa, ele percebeu o contentamento e também a surpresa explícita em sua expressão. Ela demorou algum tempo para olhar em sua direção, mas quando o fez, eles trocaram um sorriso de satisfação.
Rapidamente o moreno voltou a fitar a loira no palco. Os olhos dela emitiam um brilho nada usual. Ele nunca a vira tão radiante quanto estava agora. Ela parecia viva, vibrante e aparentava está apreciando o momento.
O número chegava ao fim, quando elas arrancaram a parte de baixo do vestido. Elise estava apenas com um colete, uma calcinha semelhante à um short, e uma meia-calça preta. O moreno piscou algumas vezes, para focar seus olhos naquela visão que mais lhe parecia uma miragem.
Certamente ele não esperava por essa.
Seu corpo demonstrava os sinais que a agora dançarina lhe provocava. O suor brotando em sua testa, não passou despercebido e logo o moço retirou um lenço do bolso de sua camisa e enxugou o local, voltando a guardá-lo no momento que a música parou de tocar.
As mulheres foram ovacionadas pelos presentes ali, mas Adam só tinha olhos para a loira, aplaudindo-a de pé. Ela vasculhou o salão com os olhos e encontrou a figura do homem em seu lugar usual. Sorriu internamente por ele está ali e desviou o olhar para os outros clientes.
Depois daquele espetáculo de dança, o homem teve certeza de uma coisa: não descansaria até ter Elise para si, em sua cama, ao menos por uma noite.
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