Notas iniciais
Domingo é dia de Veneno e Vinho! ~todos comemoram~ Quero agradecer a cada um que deixou um comentário fofo nos capítulos anteriores e a todos que favoritaram a fic. Espero que gostem desse novo capítulo!

A água quente que escorria pelo corpo esbelto de Elise lhe parecia como o toque suave de uma seda, lavando seu cansaço e deixando-o escorrer pelo ralo. As lembranças de sua família ainda a atormentavam consideravelmente. Ela lembrava-se de Melissa ao fechar os olhos. De seu rosto angelical aos poucos padecendo.

Aquela imagem ficaria para sempre na memória da loira. Assim como a sensação de impotência que lhe preenchera enquanto observava tudo escondida atrás da pequena cômoda marrom.

Ela aguentara até o último momento.

Suas lágrimas escorriam silenciosamente pelo rosto de porcelana, enquanto suas mãos tampavam a boca bem desenhada da garota, impedindo que um grito de dor ecoasse por suas cordas vocais.

Ela presenciou todo o sofrimento de sua mãe e em seguida o de sua irmã, tendo que esconder-se para poupar a própria vida.

Em um surto de violência e ódio, seu padrasto – que já demonstrava um comportamento agressivo e grosseiro – abusou sexualmente de Melissa, levando-a a óbito por tal ato. A matriarca da família foi atingida com um golpe na cabeça, quando tentava ajudar a filha mais nova.

A loira havia se escondido desde que ouvira a discussão de Caroline, sua mãe, e Enrico, seu padrasto. O homem estava visivelmente bêbado, como era de costume, e suas palavras eram altas e totalmente violentas.

Quando percebeu o que tinha feito, ele fugiu da casa simples que compartilhava com as mulheres, levando apenas sua garrafa de uísque e um casaco.

Elise esperou alguns minutos, até ter certeza que era seguro sair de seu esconderijo, e pôde constatar que tudo o que seus olhos viram, era realmente verdade. Ela não estava presa em um pesadelo perturbador. Aquilo tudo era real e sua família estava morta.

O desespero que invadira a moça fez com que seus joelhos fraquejassem, enquanto ela jogava-se por cima do corpo sem vida da irmã. As lágrimas rolavam livremente pelos olhos esverdeados da loira. Seu coração parecia sufocar dentro da caixa torácica. Nada mais fazia sentido e naquele momento, ela desejou que tivesse morrido junto com as outras duas.

Ela demorou a criar coragem e forças para fugir daquele local. Seu corpo não obedecia aos seus comandos, assim como sua mente não conseguia raciocinar corretamente.

Saiu de casa com a roupa do corpo. Não queria nada que estivesse ali. Nada que pertencesse àquele passado obscuro, que lhe torturasse todos os dias. Saiu vagando pelas ruas do interior de Chicago, sem destino algum. Nada lhe passava pela cabeça. Não tinha para onde ir, ou a quem recorrer.

Elise foi acordada de seus devaneios dolorosos pela voz delicada de Constance, chamando-a.

— Só um minuto. — A loira respondeu enrolando-se na toalha vermelha que estava pendurada na parede.

Ela destrancou a porta do banheiro e sorriu ao ver as roupas separadas pela dona do cabaré para ela. Um vestido de seda preto e dourado, sem mangas e com uma leve abertura na altura dos joelhos; uma meia calça preta, digna de fazer inveja a qualquer melindrosa, e tamancos de saltos médios.

— O que achou? Deve servir para você. — Constance declarou animada, analisando as reações de Elise.

— O vestido é lindo. — A jovem acariciou o tecido sentindo a maciez do pano em seus dedos. — Obrigada novamente.

A desconfiança tomava conta da mente da loira, fazendo-a questionar todas as atitudes que a dona do cabaré tinha para com ela. Tal sentimento não passava despercebido pela astuta Fontaine, mas ela disfarçava perfeitamente bem.

— Agora se vista e desça para jantar.

Elise concordou com um sutil aceno e a jovem senhora retirou-se do quarto, dando a ela a privacidade necessária para se trocar.

Enquanto vestia o elegante traje, a mulher pensava no que aconteceria em sua vida de agora em diante.

Estava claro que Constance queria ajudá-la, mas, nas entrelinhas, ela sabia que a mulher esperava algo em troca.

Sua gratidão, no mínimo.

As palavras que a dona do cabaré dissera anteriormente ecoavam na mente da garota. Eu me vi em você. O que aquela frase realmente significava? Elise não conseguia achar uma semelhança que fosse entre as duas.

Constance era forte, rica e poderosa, enquanto a loira era completamente o oposto.

A declaração deixou a moça inquieta durante todo o banho, e mesmo depois de vestida adequadamente, não tirava da cabeça o fato da mulher achar-se parecida com ela. Decidindo por sanar sua curiosidade assim que tivesse oportunidade.

Enquanto escovava seu cabelo defronte à penteadeira de madeira maciça, os pensamentos angustiantes voltavam a tomar conta de sua mente.

A agonia dilacerante percorrendo seu corpo fazia questão de lembrá-la que tudo aquilo havia sido real, para que, nem ao menos por um instante, a loira cogitasse a possibilidade de estar sonhando.

Quando os fios dourados foram arrumados em um penteado comportado e bonito, ela saiu de seus aposentos em direção ao piso inferior da enorme construção.

Enquanto cruzava o salão à procura de Constance, os homens lhe lançavam olhares repletos de cobiça. A sensação de ser admirada por cada varão presente ali, causava-lhe um estranho deleite. Seu ego enchendo-se lentamente com a luxúria de se ser cortejada.

— Encantada com os elogios? — Ela ouviu a voz masculina direcionada a ela ao passar pelo bar do cabaré.

Seus olhos fitaram a belíssima face do homem que bebericava um copo de uísque sentado em um banco alto.

— Desculpe-me, mas tenho que encontrar uma amiga.

— Não disse que não. — Ele deu de ombros e virou o líquido em sua garganta.

Elise o observou curiosa por alguns instantes. O moreno era impressionantemente charmoso. Sua postura, seu jeito de falar e até a forma sutil que segurava o copo de uísque, pareciam milimetricamente calculadas para envolver quem quer que fosse o seu interlocutor.

O dar de ombros do rapaz desconhecido deixou a loira com uma sensação desconfortável e estranha, fazendo-a ficar intrigada com sua atitude.

— Elise! — Constance aproximou-se da mulher que ainda observava estática os traços marcantes do moreno. — Oh, vejo que conheceu Adam.

— Na verdade não. — A jovem respondeu aproximando-se de sua protetora.

— Falha minha, Constance. — O rapaz misterioso agora tinha um nome. Adam. Um nome e a oportunidade perfeita de apresentar-se para a encantadora novata. — Sou Adam, senhorita...

— Rivers. Elise White Rivers.

Ela estendeu a mão para que o moreno a pegasse e depositasse um beijo casto em seu dorso.

— É um prazer. — Ele disse fixando seu olhar no rosto corado da loira.

— Muito cuidado com este aqui. É um galanteador de primeira. — Constance avisou, rindo descontraída para Adam.

— Constance... — O moreno imitou o gesto que fizera com Elise, só que com bem menos intensidade. Cumprimentando a dona do cabaré.

As duas sorriram simpáticas antes de se afastarem. Adam fitou os passos da loira até que ela entrasse no restaurante com Constance. Ela, por sua vez, não deixou de olhá-lo por cima do ombro. O rapaz realmente tinha chamado sua atenção.

A mesa já estava pronta com um delicioso jantar à moda francesa, já que a dona do cabaré decidira implantar alguns pratos típicos de seu país no cardápio do Django.

Homens imponentes jantavam na companhia de belas mulheres, enquanto bebiam do mais carro vinho ou uísque.

Elise estava nitidamente com muita fome. Seu estômago começava a protestar por algo para comer e ela não se ateve à cerimônias, degustando do salmão que estava delicioso.

Constance observava a jovem com atenção. Os traços bem desenhados da loira carregavam um ar melancólico e absurdamente triste, chegando a comover a mais velha. Ela não sabia o que aconteceu com Elise antes de conhecê-la na rua mal movimentada, mas o que quer que tenha sido, com certeza deixaria marcas profundas para sempre no coração e na mente da jovem.

— Por que disse que se via em mim, Constance?

— Desculpe-me...?

— Fiquei pensando no que você falou durante o banho, tentando achar alguma semelhança aparente entre nós duas e não consegui ir além de ambas sermos loiras.

Constance sorriu abafado.

— O que eu quis dizer não tem nada a ver com aparência, honey. Eu estava falando de algo que foi roubado de você e que está nítido em suas expressões.

— O quê? — O corpo de Elise já começava a tremer apenas com a possibilidade de ter que contar tudo o que aconteceu para outra pessoa.

— Sua inocência e sua esperança.

De repente um nó formou-se na garganta da mais jovem, que teve de usar todas as suas forças para não desabar no choro ali mesmo no restaurante.

— Não se preocupe. Eu estou disposta a te ajudar.

— Como? — A voz da loira saiu fraca e entrecortada.

— Tornando você uma mulher forte, assim como essa que vos fala.

Notas finais
E aí? Gostaram de saber um pouco mais sobre o passado de Elise? E o que acharam do nosso moreno misterioso? Comentem! Nem que seja apenas um gostei! :D Beijos e até domingo que vem!