Veneno e vinho
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Elise encarou Constance com dúvidas pairando por sua mente. Ela não tinha uma opinião concreta sobre a senhora. O ar misterioso e imponente da loira deixava a mais nova com uma pulga atrás da orelha. Uma não. Várias.
— Então, o que aconteceu a você? — Elise perguntou, decidindo por sanar sua curiosidade.
Constance sorriu, bebendo um pouco do vinho tinto que as duas compartilhavam. O líquido vermelho era cintilante na taça de cristal, fazendo a jovem manter o olhar fixo, enquanto a mais velha estruturava suas palavras.
— Honey, aqui vai a sua primeira lição: nunca revele a ninguém seus pontos fracos. — Ela fez uma pausa dramática e em seguida frisou: — A ninguém.
— Então não me perguntará o que aconteceu?
— Não. — Ela fitou os olhos verdes com confiança. — Eu não estou interessada em nada do que lhe aconteceu para te deixar assim. Você deve usar essa angústia e essa dor que você tem aí dentro para construir o seu escudo. Molde a sua armadura com as desventuras que a vida te trouxe. Use-as para se fortalecer.
Os olhos da loira ficaram marejados com as palavras de Constance. Ela não sabia como fazer isso. Não sabia como se fortalecer com as feridas ainda abertas que carregava consigo. Porém, Elise começava a criar certa admiração pela dona do cabaré. Sua força e personalidade era algo que transbordava até mesmo em seu jeito de falar.
— Honey, termine seu jantar e pode aproveitar um pouco o ambiente. Assista a alguns shows de dança, peça um drinque, fique à vontade... — A senhora levantou-se da mesa. — Eu infelizmente terei que me ausentar para tratar de negócios. Bon appétit.
Antes que ela se afastasse, Elise tocou sua mão e a olhou com olhos agradecidos:
— Contance, muito obrigada mesmo.
A loira mais velha sorriu ternamente e seguiu seu caminho, esbanjando elegância em seus saltos vermelhos.
Elise terminou a refeição pensativa. Precisava seguir o conselho da mulher e se fortalecer, mas não sabia por onde começar. Ela sentia-se mal de uma forma tão intensa que chegava a machucar fisicamente.
Sem dar espaço para que seus fantasmas se apossassem de sua mente novamente, a loira levantou-se e caminhou devagar até o salão principal. Outra vez despertou os olhares dos homens que estavam por perto. Eles ostentavam riqueza em suas mesas personalizadas com cortesãs belíssimas e bebida importada.
Ela ficou atenta a cada elogio que recebera em seu caminho até o bar, onde esperava encontrar o moreno misterioso e descobrir mais sobre ele. A cada palavra de cobiça que a loira ouvia, seu peito enchia-se de sensações diversas. O sentimento de encantá-los com sua beleza era gratificante e contribuía para que seus passos tornassem-se cada vez mais confiantes.
Quando ela repousou sobre o banco alto do bar, sorriu discretamente ao notar que Adam ainda estava lá, com seu copo de uísque quase intacto. Ele demorou alguns segundos para perceber a presença da loira no mesmo ambiente, já que estava com os olhos vidrados numa latina que se apresentava no palco.
Os movimentos de dança da morena deixavam vários outros homens com os olhos fixos nela, mas o moreno sabia com quem Katherine iria para a cama no fim da noite. E estava satisfeito em ter certeza que aquele corpo esculpido seria seu parque de diversões por quanto tempo ele quisesse.
— Vejo que alguém gostou da minha companhia... — Ele soltou, após dar um sorriso galanteador.
Elise fitou os olhos castanhos com atenção, observando a malícia que eles continham. Era admirável o jeito como as duas pérolas amarronzadas conseguiam refletir perfeitamente bem a figura da loira, com foco em seus lábios tingidos com um batom rosa claro.
— Vejo que alguém aqui é bastante presunçoso.
— Foi apenas uma constatação, senhorita Rivers. Já que retornou ao meu encontro.
— Oh, não sabia que esta área do Django era sua propriedade privada. — A loira ergueu uma das sobrancelhas e encarou o moreno, que agora sorria divertido com a situação.
Em pouco tempo de conversa Adam tinha esquecido completamente da morena que dançava no palco, encantado com as esmeraldas cintilantes de Elise.
— Como veio parar aqui, Elise? — Ele perguntou, bebendo um pouco de sua bebida e oferecendo-a com um gesto simples.
— É uma longa história. — Ela recusou sua oferta de drinque e virou-se para o responsável pelo bar. — O cavalheiro aqui me pagará um vinho.
Adam fitou atentamente a postura da loira que parecia gostar do que estava provocando no moreno. O barman olhou para ele que confirmou o pedido e em seguida serviu a taça transparente até a metade com o líquido carmesim.
Elise levou o objeto delicadamente até a boca e bebericou um pouco, fechando os olhos para fazê-lo. A bebida estava ajudando-a a manter a pose e a sensação de ter a atenção do homem para si era deliciosamente recompensadora.
— Se juntará à equipe de Constance? — Ele questionou com esperanças de que a resposta fosse positiva.
— Não pretendo abrir meus planos futuros para você.
Ele sorriu de lado, admirado com o jogo de cintura que ela estava demonstrando.
— Está aprendendo rápido a como agir, senhorita.
Ela acenou positivamente para ele, segurando a taça de vinho e bebendo mais um gole, com os olhos fixos nos dele.
Os dois se encararam sentindo as sensações que aquele pequeno jogo os estava proporcionando. Elise sentia o corpo queimar com o olhar penetrante de Adam, ao mesmo tempo em que o moreno deliciava-se admirando os lábios desenhados da loira.
Ele estava atraído por ela.
Ela estava atraída pelo poder de sedução recém descoberto.
Nunca achou que pudesse acabar num cabaré, encantada com o luxo e com as facilidades do lugar. Sentia-se viva a cada galanteio que recebia. E cada olhar cobiçoso fazia seu sangue vibrar.
Mas o olhar de Adam triplicava essa sensação.
Era como se toda luxúria que existisse estivesse concentrada no mar negro que eram os olhos do homem.
Os dois conversavam em meio a tiradas e flertes. A loira sempre brincando de instigar a curiosidade do moreno e depois mudar abruptamente de assunto. Enquanto ele investia pesado em suas armas de conquista. Sorrindo da forma mais sacana que conseguia.
O show acabou e os dois sequer notaram a latina, que antes recebia os olhares atenciosos do homem, se aproximar. A voz de Katherine soou ainda mais sensual ao beijar o pescoço do moreno e sussurrar em seu ouvido:
— O que achou do show, baby? — Ele demorou um pouco para responder, já que seus olhos não conseguiam desgrudar de Elise.
— Incrível como sempre.
A loira observava à cena, percebendo o nítido incômodo da morena. Adam virou-se para a mulher com quem ia pra cama e beijou seus lábios rapidamente, cortando a tentativa dela de aprofundar o ato.
Os olhos verdes da mulher que assistia a cena estreitaram-se diante da cara de pau do moreno. Sua boca levemente aberta insistia em demonstrar sua surpresa com o quanto ele conseguira ser descarado.
— Essa deve ser a Elise. — A latina disse, olhando-a com olhos julgadores. — Seja bem-vinda!
— Obrigada...
— Katherine! — Ela respondeu sorrindo.
— Prazer, Katherine. — Elise sorriu de volta, não com tanta sinceridade assim. — Vou deixá-los a sós.
— Um prazer conhecê-la, senhorita Rivers. — Adam se pronunciou e arrancou ainda mais surpresa da loira, que decidiu por apenas acenar discretamente e seguir para seus aposentos.
Seu trajeto até a escada foi marcado por seu cérebro repassando os últimos momentos vivenciados e processando as informações recebidas, enquanto ela era atingida por uma enxurrada de elogios e galanteios dos homens presentes.
Um pouco tonta por conta do vinho, ela sorriu para alguns varões que a cumprimentavam, acenando para o último que a cortejou.
Subiu as escadas sem muitos problemas e tratou de apressar seus passos para o quarto. Sua mente gritava com o acúmulo de pensamentos.
Morte de sua família. A fuga de casa. Constance. A conversa no jantar. Adam. Os elogios que recebera. A sensação de poder que saboreara. Katherine. Os galanteios de um moreno dissimulado. Fantasmas clamando por espaço.
Elise queria um botão que fizesse sua cabeça desligar. Que a colocasse em sono profundo, para que um vazio tomasse conta de seus pensamentos e a deixassem em paz ao menos por uma noite.
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