Velha Infância - Berita
18 Capítulo 17
Notas iniciais
Beto e Júnior passaram na delegacia, mas foi totalmente inútil. Durante todo o trajeto, o rapaz ligava para o celular de Clarita, mas o mesmo era desligado na sua cara.
– Droga! – exclamou Beto, fechando as mãos como se estivesse pronto para bater em alguém. – Vai ser impossível encontrar ela se os filhos de uma mãe não atenderem a ligação e pedirem dinheiro.
– Tenha calma, filho.
– Calma? A última coisa que vou ter é calma. A mulher da minha vida está correndo perigo e o senhor quer que eu tenha calma?
Júnior olha o filho e pelo canto do olho, surpreso com suas palavras.
– Mesmo não querendo, a única coisa a ser feita é esperar os sequestradores ligarem pedindo o valor do resgate.
Beto respira fundo e fecha os olhos tentando acreditar nas palavras que ouvira do pai.
(...)
Depois de ter uma noite mal dormida, Clarita tomou seu café da manhã ainda vendada. Apenas ouvia a voz dos homens que a sequestraram, trocaram poucas palavras até então.
– Quando será que a chefinha vai ligar? – um deles questiona.
– Cala a boca! – reclamou o outro. – A loirinha pode ouvir e colocar tudo a perder.
Clarita acha estranho a conversa e começa a prestar mais atenção em cada palavra dita ali.
– Acho que pedirão para nós darmos um perdido na garota.
– Será? Tão bonitinha desse jeito.
– Sabe, ontem pensei comigo: o que será que essa loirinha aprontou para pedirem que a gente fizesse um trabalho sujo com ela.
– Ela não parece ser má.
Clarita tossiu e logo os homens pararam a conversa.
– Estou com sede – fala ela.
– Vai lá pegar água pra ela! – ordenou um deles.
A garota ouve os passos do outro, se afastando dali. Em seguida, ela sente uma mão acariciar o seu rosto, mas logo para de fazer isto, pois o seu celular começa a tocar. O homem se afastou de Clarita para atender a ligação, ela não pode escutar, mas ficou mais feliz ao ver que o outro chegara com a sua água.
Mais tarde, Clarita estava ouvindo os caras jogarem cartas perto dela. O tédio tomava conta e o medo que ela sentia no início já não sentia mais.
– Será que vocês podem tirar isso dos meus olhos? – questiona ela.
– Pra você nos ver e nos ferrarmos? Não, obrigado.
– Geralmente, bandidos usam toucas para esconder o rosto.
– Não estou com vontade de passar calor.
Clarita bufou.
– Não vão nem ligar para alguém pra pedir meu resgate?
– Não acha que está muita abusadinha?
Novamente ela bufou.
– Só não entendo porque fizeram isso comigo – ela começa a choramingar. – Eu não fiz nada contra vocês, nem mesmo sei quem são vocês para terem feito isso comigo. Eu apenas estava voltando de uma festa, onde fui com os meus amigos e olha onde estou. Nunca roubei, trabalho para me sustentar ganhando uma miséria e vocês me sequestram? Por causa de dinheiro? Se for, esqueça. Sou uma pobre órfã.
– Órfã? – ambos disseram.
– Sim.
Minutos depois, Clarita sente seus olhos se incomodarem com a claridade do lugar – um galpão abandonado – e vê um dos caras – que agora estão com o rosto coberto – lhe entregar um celular.
– Ligue para alguém mais próximo de você e diga que está tudo bem com você – falou o homem. – Diga apenas isso!
Clarita assentiu e digitou o número rapidamente – número este que surpreendentemente ela sabe de cor.
– Alô?– disse ela, insegura.
– Clarita? – a voz do outro lado bradou. – Você está bem? Onde você está? Estou tão preocupado com você, meu amor.
As últimas palavras que ouvira a deixaram sem reação alguma. Meu amor. Aquelas simples palavrinhas a rodeavam, o que não permitia pensar direito. Só então viu a expressão na cara do homem que estava em sua frente, então voltou para a realidade.
– Está tudo bem comigo, Beto.
– Onde você está?
– Isso não é importante – disse ela. – O que importa é que estou bem, okay?
– Clarita, você sabe quem foi que te sequestrou?
– Não.
– Sabe onde você está?
– Não.
– Clarita...
– Por favor, Beto! Não sei o que vai acontecer comigo, mas não faça mais perguntas okay? Eu estou bem e... Obrigada por todos os bons momentos que passamos juntos.
– Isso é uma despedida?
Ela respira fundo antes de responder, e depois de ter deixado uma lágrima cair diz:
– Sim.
E imediatamente ela finaliza a ligação.
– Terminou com o namorado?
– Isso não é da sua conta – rangeu ela.
– Olha a maneira que fala comigo! – ameaçou o sequestrador.
Clarita dá de ombros e recebe um tapa na cara.
– Ei espera! – fala o outro. – Ela ligou para um tal de Beto...
– E daí? – questiona o outro.
– E se for o Beto filho do dono do Café Boutique? – sugeriu, deixando o colega com os olhos arregalados.
(...)
Três dias depois daquela ligação de Clarita, Beto finalmente recebeu a ligação dos sequestradores. Foi combinado que eles se encontrarão perto de uma BR. Beto entregará uma grande quantia em dinheiro e os sequestradores entregarão Clarita.
– Tem certeza que querem ir junto? – ele pergunta para seus pais.
– Claro! Isso é perigoso, não vamos permitir que vá sozinho.
– Eu só quero a trazer de volta. Só Deus sabe como tem sido difícil para Bia saber que a irmã foi sequestrada e não poder fazer nada.
Carol dá um pequeno sorriso para o filho.
– Vai dar tudo certo – afirmou ela. – Você vai ver.
– Tomara, mãe. Tomara...
(...)
Clarita não estava acreditando que aquilo irá realmente acontecer. Os sequestradores nem imaginam, mas ela sabe tudo o que eles planejam a mando do seu – ou melhor, sua – superiora.
Beto será enganado e ela não pode deixar isso acontecer. Mesmo tentando pensar em várias maneiras para fugir ou estragar os planos deles, Clarita não conseguira pensar em nada que tivesse 100% de chances para dar certo.
E o tempo estava acabando para isto.
Trinta minutos.
Quinze minutos.
Cinco minutos.
E lá estava Beto. Ele sai de seu carro com uma maleta em mãos. Um dos sequestradores vai ao seu encontro.
– Cadê a Clarita? – perguntou Beto.
– Primeiro o dinheiro.
– Primeiro ela.
– Não tenho tempo para perder com discussões bobas, ou dá o dinheiro ou fica sem a gostosinha.
Beto se sente incomodado com a maneira que o homem chamou Clarita, mas tenta ignorar. Então, resolveu entregar a maleta para o sequestrador.
Sendo guiada pelo outro sequestrador, Clarita sai do carro. Mas não se aproxima muito.
– Clarita! – exclamou Beto, ao vê-la.
Ela dá um pequeno sorriso e logo o sequestrador a coloca de volta no carro.
– O que estão fazendo? – gritou Beto.
– Perdeu seu trouxa!
O sequestrador que estava com a maleta tenta entrar dentro do carro para dirigi-lo, mas Beto é mais rápido e o segura pelo braço. Antes mesmo de começarem uma briga, Beto ouve Clarita gritar:
– Beto, cuidado!
E ouve-se o som de um tiro.
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