Vejo Você mais tarde ?

9 ...e eu que achei que você fosse diferente !


Com os pensamentos naquele rostinho delicado e sujo ele entrou no apartamento de Sara, entregou o creme, lhe deu um beijo suave e perguntou a ele se precisava de ajuda.

_Não ... querido, está quase tudo pronto.

Ele se sentou no sofá, estava quieto e muito cansado.

Esfregou as mãos no rosto, o olhar muito distante, ela logo percebeu alguma coisa.

_O que foi, Gris ?

_Nada ... — respondeu simplesmente.

_Vá tomar um banho, me parece tão cansado.

Ele abriu seu laptop, precisava verificar alguns emails.

Acabou deslizando a cabeça no braço do sofá com o aparelho em seu colo, o cansaço ganhou a briga, os olhos pesados se fecharam sem muito esforço.

Ela se ajoelhou em frente a ele, ajeitou algumas almofadas sob a sua cabeça bem devagar, deslizou a mão em seu rosto. Ele trabalhava tanto !

Deixaria descansá — lo por alguns minutos depois o acordaria, estava morrendo de pena dele.

Pegou seu laptop, iria fechá — lo quando viu alguma coisa muito estranha.

Uma foto dele ao lado de uma mulher muito bonita, ela estava muito perto dele e parecia bem íntima.

O que era aquilo ? Ela olhou o email com mais cuidado.

"Olá, Grissom

Tudo bem ?

Segue as perguntas para o andamento da entrevista, conforme combinamos.

Se possível, gostaria de agendar um horário para conversarmos pessoalmente mais uma vez.

Fiquei encantada com nossos encontros, é um homem muito especial !

Até mais,

Carmem."

Seu coração palpitava, suas pernas tremiam, assim com as sua mãos.

_Não fez isso comigo .... não você !

Ela não sabia o que fazer, estava totalmente perdida.

O telefone dele tocou em seu bolso e ele acordou.

_Grissom !

_Oi dr. Grissom, é a Judy. Ligou uma pessoa chamada Carmem ...

_Carmem ? Que Carmem ? — Ele não se lembrava dela.

Sara ouviu aquele nome e ficou prestando atenção na conversa.

_Uma ... jornalista de uma revista .... pediu seu celular, eu não quis dar o número, mas peguei o dela.

_Fez muito bem, Judy !

Ela passou o número e ele desligou, se levantando.

_Quem é essa mulher, Grissom ?

_É uma jornalista ... que vai fazer uma entrevista para uma revista forense.

Ela virou o laptop para ele.

_Por acaso é essa ?

Ele olhou, colocou seus óculos e levantou as sobrancelhas.

_O que é isso ?

_Veja você mesmo.

Ele leu o email depois encarou a foto.

_Isso deve ter uma explicação ! Mas não sei se quero ouvir.

_Sara ... não é nada disso que está pensando !

_Nunca é, não é mesmo ? Se não tivesse visto ... por acaso, ia continuar me enganando ?

_Nunca te enganei.

_Vocês homens, são todos iguais ... e eu que achei que você fosse diferente !

Ele se lembrou de Hank, seu ex namorado.

_Você está me comparando com aquele cafajeste que você namorou, Sara !

_Acho que entre você e ele não há diferença nenhuma ....

_Nunca diga isso ...

_O que quer que eu pense ? Lidamos o tempo todo com evidências ... e essas parecem não ter contestação alguma. Não era você quem estava tão "preocupado" que te trocasse por outro ? — Agora ela entendia porque ele estava tão quieto e porque levou aquele bendito aparelho para casa. Estava esperando aquilo tudo .... talvez estivesse até ansioso.

_Está me julgando sem saber .... Sara. Achei que existisse confiança entre nós dois.

_Até tinha ... e pode ter certeza que fiz a minha parte ... agora você ... não posso dizer o mesmo ! Por favor ... — ela foi até a porta e a abriu. — Gostaria que se retirasse da minha casa, não temos mais nada que conversarmos.

_Não faça isso ... Sara.

_Não quero conviver com alguém em quem não confio ... você quebrou a regra !

Ela estava mesmo furiosa com ele, mas estava exagerando, e ele estava magoado com tudo o que ela dissera. Ele não era Hank !

Asim que Grissom saiu pela porta, ela desabou no sofá.

Não conseguia acreditar e nem aceitar que a tinha traído, mais uma vez seu coração recebera um golpe e aquele estava doendo muito mais. Ela o amava e agora sabia .... não deveria !

O que mais a indignava é que sofrera tanto ao saber que o medo dele de que o trocasse por outro era enorme. Foi difícil convencê — lo do contrário. Foi uma dura batalha e achou que tivesse vencido aquela etapa. Se ele teria mesmo a exata noção do que é ser trocado por outro deveria também saber que não era justo fazer aquilo com ela.

As lágrimas foram inevitáveis, chorou por muito tempo em silêncio. Pensou nas horas adoráveis que passaram juntos, na saudade que ele parecia ter sentido dela, agora duvidava se aquilo tivesse sido mesmo verdadeiro.

Enquanto estava trabalhando, esperando pela sua volta, ele estava muito distante dali, se encontrando com a tal Carmem.

Ela era mesmo bonita, a foto muito nítida, mostrava um sorriso brilhante, cabelos muito pretos de franja, um decote enorme na altura do busto, sentada ao lado dele com o braço por trás de sua cadeira. E ele, com um meio sorriso sem vontade, típico. Estava com a camisa que ela adorava, xadrez de azul e vermelho.

Foi até o forno, retirou a torta e deixou esfriar em cima da pia. Tinha perdido completamente a fome. A solução seria congelar !

Enquanto isso ele parecia inconformado com as acusações.

Chegando em casa abriu novamente seu laptop e releu o email. Observou a foto, e viu que ela tinha editado, tinha mais alguém do lado direito dele, não estavam sozinhos, como parecia.

Carmem era uma jornalista, amiga do reitor da universidade, eles estavam jantando quando ela apareceu se oferecendo para sentar com eles. Conversaram bastante e ele ainda saiu antes dela, mas antes, ela pedira ao garçom para que tirasse aquela foto !

Na segunda ocasião em que se encontraram ele estava sozinho almoçando, no mesmo restaurante quando ela surgiu novamente. Estava muito animada, parecia muito feliz, fez uma proposta de entrevista, que aceitou com alguma relutÂncia. Ele notou que ela o estava paquerando, era nítido, enquanto falava com ele, tocava seu braço com freqüência, quase que sensualmente.

Ela era muito interessante, mas não para ele. Havia notado seus olhares profundos em direção a ele, não era cego. Se sentiu lisonjeado, mas não realizado, Ele já tinha alguém que lhe bastava e tomava completamente seu pensamento.

Não foram encontros e sim duas coincidências. Aquilo era uma inverdade.

E ela nem lhe dera a chance de se explicar corretamente, o havia acusado de tanta coisa que o deixara abismado e muito chateado. Esperaria o tempo passar e a procuraria, com certeza.

Aquele não seria o momento adequado.

Esperou com ansiedade o próximo turno chegar, não sabia como ela estaria, esperava que a mágoa tivesse passado e que ela pensasse com mais clareza, com a mente mais aberta para as explicações dele. Não tinha gostado de brigar com ela.

Sara decidiu não misturar as coisas, trabalho era trabalho, romance era romance.

Sua vida pessoal com ele estava aos pedaços mas no trabalho precisava ter o bom senso de separar as coisas. Só não sabia se conseguiria.

Tinha passado uma noite péssima e um dia pior ainda, mas tinha que seguir em frente, mesmo que fosse apenas ... a metade dela !