*

Maisy ainda não havia falado com a mãe desde o dia anterior. Mantera-se trancada no quarto a refletir sobre a decisão que tinha tomado. Trabalhar num bar de strip nunca fora o primeiro trabalho que ela pensara fazer, mas não havia mais chances. Nunca tiveram experiência como é de constatar, mas dispunha de tudo para aprender o que tivesse que aprender, e para que pudesse trazer algum dinheiro

para casa todos os dias.

Em tentativa para esquecer o assunto pelo momento, levantou-se da cadeira em frente à secretária, onde tinha estado com os seus pensamentos por uma, duas horas no máximo.

Não ouviu nenhum barulho na casa, por isso constatou que Rose ainda dormia. Dirigiu-se à cozinha, que se encontrava arrumada como sempre. Rose, apesar de não ter muitas condições, era dedicada às arrumações, e toda a casa estava sempre limpa, sem sinais de pó ou um objeto traiçoeiro fora de sítio.

Maisy deixou soltar um pequeno sorriso quando se lembrou desse pormenor, e tirou de seguida leite do frigorífico, que por sinal era a única bebida que existia na casa para além da água, claro.

Maisy colocou uma toalha sobre a mesa de madeira, e depois pôs o pão de já há dois dias atrás em cima da mesma junto com o leite. E seria esse o pequeno-almoço de mãe e filha. Contudo, nada que importasse a Maisy.

Deixou-se tomar o pequeno-almoço sozinha, pois sabia que Rose não acordaria tão cedo. Ainda por mais com a notícia do dia anterior, o mais provável era a mulher ficar na cama por umas longas horas.

Após longos minutos em silêncio, Maisy arrumou a sua louça e saiu da cozinha, apagando a luz que por sua vez falhava, o que significava que a lâmpada precisava de ser mudada. Mais uma coisa a pagar — pensou Maisy.

Foi para o seu quarto, onde passava maior parte do tempo. Não que houvesse algo especial naquele espaço pequeno de 4 paredes que caía de podre, mas era o único local onde se sentia à vontade em casa. Pegou num livro que se encontrava em cima da mesinha de cabeceira e sentou-se na cama, apoiada com uma almofada às costas. Então, começou a lê-lo. Nunca andara na escola, a não ser até ao 6º ano. Depois, saíu já que para Rose as dificuldades económicas tornavam-se sempre a acrescer. Mas Maisy não era ignorante, pelo contrário. Lia livros de bastantes coisas, desde Ciências a Arte, até Filosofia. Era uma rapariga um tanto inteligente, conseguia decifrar o que se encontrava nos livros bem depressa. A Matemática era difícil para ela, mas passou horas e horas só para conseguir resolver um pequeno pormenor que o livro que lia apontava. Era persistente, o que era bom.

O livro que lia agora era sobre Trigonometria. Havia-o arranjado na biblioteca no dia anterior quando voltava para casa. A biblioteca era a sua única fonte de material que a deixava estudar em paz. Não precisava de adquirir nada com crédito.Apenas bastava pedir que lhe emprestassem os livros, e teria-os facilmente.

Quando se preparava para folhear a página, a porta do quarto abriu-se. Maisy olhou para a frente,assustada com a repentina ação, e deparou-se com uma Rose já vestida e confusa à sua frente.

- Já estás acordada? — perguntou ligeiramente, encostada à porta do quarto.

- Sim, não tinha sono. — Maisy respondeu, fechando o livro de Trigonometria. Rose olhou de recanto para o livro que Maisy lia, e sorriu por uns instantes. Sentia-se orgulhosa da filha. Apesar de não lhe poder dar educação e cultura, a jovem sempre fazia algo para não se deixar passar por ignorante. Maisy detestava quando a olhavam de lado na rua por não ter as roupas perfeitas, ou o cabelo completamente arranjado. Mas Rose, continuava orgulhosa da filha.

- Está bem. — disse por fim.

- O pequeno-almoço está preparado. — Maisy apontou, puxando uma mecha de cabelo para detrás da orelha.

- Eu sei, já vi. Obrigada filha. — Rose sorriu amavelmente. Preparava-se para fechar a porta do quarto mas Maisy parou-a.

- Eu já arranjei trabalho. — a sua voz saiu rouca, mas determinada. Rose virou-se, espantada para a filha e aproximou-se dela.

- Eu disse para não arranjares emprego nenhum Maisy! — bufou, um pouco nervosa. Maisy levantou-se da cama, e aproximou-se da mãe .

- Mãe, não te preocupes. Eu faço isto por ti e por mim. — amarrou nas mãos de Rose com determinação, o que fez a mesma surpreender-se com a filha. — Vou começar hoje à noite.

- Hoje à noite? — afligiu-se Rose — onde vais trabalhar Maisy? — indagou, preocupada. Maisy não iria contar à mãe que ia dançar num bar de STRIP, por isso limitou-se a pensar em uma mentira que pudesse esconder tudo.

Após algum tempo em silêncio, Maisy falou.

- Vou trabalhar numa padaria aqui perto. Fica aberta todas as noites. — disse Maisy, sentando-se na cama.

- Eu não quero que vás trabalhar. — Rose afirmou.

- Mas eu vou à mesma mãe.

- Porquê? Eu posso arranjar-me ou então posso apenas ter algum tempo para vi-

- Não digas isso ! — Maisy bradou. Estava aflita, e com medo que a mãe a fosse abandonar tão rapidamente. O que seria dela sem a companhia da mãe?

- É verdade filha. — Rose declarou compreensiva, com a atitude de Maisy.

-Não. Eu vou trabalhar e é isso! — disse Maisy , olhando intensamente para o chão. De seguida, sentiu a mãe a dar-lhe um beijo nos cabelos, e finalmente estava sozinha no quarto. O que quer dizer que Rose havia aceitado o que Maisy ia fazer. Suspirou , e deitou-se na cama um pouco aliviada por poder trabalhar.

*

O som de um telemóvel a tocar, acordou Maisy, que descansava desde as dez horas da manhã. Pegou no telemóvel que vibrava em cima da mesinha de cabeceira, e rapidamente notou que era o número do bar. Atendeu-o rapidamente, olhando de seguida para as horas do seu relógio, e apercebeu-se que faltava meia-hora até à sua hora de trabalho.

- Estou sim? — a jovem respondeu, limpando a garganta com tosse.

- Gostaria de avisar que o teu trabalho começa daqui a meia hora querida. — a voz feminina falou do outro lado. A senhora parecia ser simpática.

-Sim, eu sei. Obrigada por me informar. — Maisy respondeu sofregamente, enquanto se levantava da cama e se preparava para sair.

- De nada. — a voz gentil desligou o telefone de seguida. Maisy, à pressa, pegou na bolsa em que levava telemóvel, lenços e outras coisas de menor interesse, e correu até ao hall da entrada, nervosa e ansiosa ao mesmo tempo . Quando se preparava para abrir a porta, uma voz parou-a . A de Rose com certeza .

- Já vais? — Rose disse, de braços cruzados. Estava a cozinhar, pelos cálculos de Maisy pois tinha um avental posto.

-Sim, e acho que já vou chegar atrasada. — Maisy caminhou até à mãe e deu-lhe um beijo na testa. — Tenho de ir! — preparava-se para abrir a porta de novo, mas foi parada.

-A que horas voltas Maisy? — Rose inquiriu, com uma ponta de preocupação na sua voz.

-Não sei mãe. Mas penso que não volto muito tarde. — Maisy sorriu, e abriu por fim a porta. — Não esperes por mim! Rose não teve tempo de falar, pois Maisy já havia saído de casa a correr desesperada.

Pelas indicações que lhe haviam sido dadas no dia anterior, sabia que ainda faltavam alguns quarteirões até chegar ao local. Amarrando sempre a sua bolsa, correu e correu, e quase que ia sendo atropelada ao atravessar a passadeira em sinal vermelho. Tempo depois, avistava já o clube de STRIP. Não era difícil localizá-lo. As luzes, e as letras brilhantes que se encontravam nas placas do edifício podiam chamar a atenção de uma pessoa a metros de distância. E talvez era essa a intenção.

Já mais calma, porém com a respiração acelerada, parou em frente à porta do clube, e engoliu em seco. Agora é que havia percebido o quão nervosa estava. Não tinha experiência ! Mas a senhora com quem havia falado sabia disso. E gostava mais das raparigas que não sabiam dançar. Era um desafio novo para o clube, e sempre podia ensinar Maisy.

Arrancando um último suspiro, Maisy entrou no clube. Como já seria de esperar, cheirava a alcóol, cigarro, e sexo.

Isso assustava Maisy, mas sabia que apenas estava lá para dançar. Apenas isso.

Aos poucos e poucos, e afastando-se dos homens que pareciam famintos, sentados em posições descontraídas a verem mulheres a dançar, Maisy dirigiu-se até ao bar do clube, onde pudesse encontrar a senhora com que havia falado ao telemóvel.

Até o bar estaca cheio . Cheio de homens embriagados no geral. Maisy encostou-se ao balcão do bar, e quando se preparava para chamar o "Bartender", foi impedida por um par de mãos nos seus ombros. Foi virada repentinamente, e deparou-se com um homem, que aparentava ter os seus 40 anos, a olhar para ela de uma maneira assustadora. Maisy sentiu-se nua com o olhar do homem pousado sobre o dela.

- Anda linda. Vamo-nos divertir. — o indivíduo sorriu maliciosamente. Porém, Maisy tentou largar-se dos braços dele, completamente aflita. Sentia que era naquele momento que ia ser estuprada.

- Horton, larga-a. — uma voz atrás do balcão interrompeu o homem de puxar Maisy. No entanto, até a largou.

Maisy virou-se para a pessoa que a tinha salvado e deparou-se com uma mulher. Parecia estar na casa dos 25 anos. O homem acabou por sair da beira de Maisy e desaparecer por diante a multidão, deixando Maisy suspirar aliviada.

-Obrigada. — respondeu, ainda assustada. A mulher sorriu e fez sinal para a seguir. Maisy deu a volta ao balcão, e seguiu os passos da mesma. Notou que a rapariga- agora chamava-a de tal coisa, pois o seu aspeto físico assim o sugeria- usava roupas um tanto provocadoras. Vestido vermelho apertado, que ia até a nem metade da coxa, uns saltos altos pretos, e o cabelo estava bagunçado, o que dava um ar rebelde mas sofisticado à rapariga. Afastando-a dos seus pensamentos, deparou-se que tinha sido levada a um quarto onde se vestiam as dançarinas.

- Porque estou aqui? — Maisy indagou à rapariga que havia fechado a porta da pequena sala.

- Veste isto. — a rapariga passou-lhe um fato preto, digno de stripper, e de seguida saltos altos da mesma cor. O rosto de Maisy ficou pálido de medo, mas apenas limitou-se a obedecer à rapariga. Foi para trás de uma pequena cabine e levou as roupas consigo. Não sabia como se vestia aquele fato, mas mesmo assim não se queixou. Se conseguia aprender Filosofia, também conseguia vestir um fato.

-Não estejas nervosa. — a voz do outro lado falou, segundos após Maisy ter entrado na cabine. — Hoje não vais dançar para ninguém. Apenas vais aprender como se dança no varão e outras técnicas. — a voz parou de falar, e Maisy pareceu mais aliviada. — Mas amanhã já vais dançar para o público.

Estas palavras foram necessárias para pôr Maisy nervosa. Mas mesmo assim, tentou pensar na parte positiva deste trabalho. Ia ajudar a mãe.

Depois de estar completamente vestida, e — mal — se aguentando nos saltos de 10 centímetros, Maisy saiu da cabine, um pouco insegura do que levava vestido.

- Perfeito. — a rapariga olhou para o fato de Maisy, como se apercebesse que lhe assentava maravilhosamente. — Já agora, o meu nome é Cassie. — a rapariga apertou a mãe de Maisy, e esta retribuíu o gesto de bom grado.

- Sou a Maisy. — sorriu. Sentiu que ia simpatizar com Cassie muito rapidamente. Cassie sorriu largamente, e voltou a falar.

-Bem Maisy, eu vou-te dar uma aula hoje de dança. Penso que vais conseguir aprender tudo numa só noite. — Cassie olhou para Maisy tendo a certeza do que dizia.

- Está bem. — respondeu firmemente.

- Anda. — Cassie fez sinal para Maisy a seguir, e abriu uma porta ligada à sala, mostrando dois varões e uma parede coberta de espelhos gigantíssimos.

- Ao trabalho! — Cassie sorriu amavelmente para Maisy, enquanto que esta abanou a cabeça afirmativamente.