Vazio
4 Tudo que eu precisava - EXTRA
Notas iniciais
Annie estava inconsolável. Desde que tinha chegado na casa de Bertolt, ela se aninhou num canto do sofá, abraçou uma almofada e ali ficou por vários minutos. Reiner e Bertolt não sabiam exatamente o que fazer com a amiga, mas sabiam que não podiam deixá-la naquele estado. Bertolt foi o primeiro a arriscar uma conversa, já que, dos dois, ele era o mais “sensível” com as palavras.
— Acho que, em todos esses anos, eu nunca a vi dessa forma — disse casualmente.
— Deve ser por que eu nunca fui tão estúpida — devolveu Annie, mais fria do que o normal.
Bertolt recuou no mesmo instante, pois percebeu que ela não estava para conversa. Mas não Reiner; ele simplesmente não aceitava ver a amiga triste por algo tão simples.
— Qual foi, Annie... — começou Reiner. Bertolt apenas deu-lhe um olhar de “cuidado com o que fala”. — Todos do Kyojin sabem desde o primeiro ano que Eren tem fama de ser “rápido como corte Tramontina” quando se trata de rel...
Annie lançou um olhar ameaçador que faria qualquer um borrar as calças. Reiner, como estava acostumado — ele era o que mais o recebia —, apenas calou-se um pouco e recuou um passo.
— Eu não quero ouvir esses discursos de consolo — disse Annie depois de respirar fundo. — Só quero que ajam como sempre, uma hora eu vou me juntar a vocês.
Bertolt sentiu um aperto no peito.
— Annie... — Calmamente, ele sentou-se ao lado da garota encolhida e segurou uma de suas mãos, sendo seguido por Reiner, que permaneceu de pé em frente aos dois. — Nós dois sabemos que não será assim. — Annie abriu a boca para protestar, mas logo a fechou. Ela sabia que Bertolt tinha razão. — Eu sei que eu e, principalmente, Reiner não somos exatamente a dupla de “melhores amigas” que você precisava agora. — Numa situação normal, Annie teria achado aquilo engraçado, mas naquele momento ela apenas o escutava atentamente. — Mas saiba que, mesmo assim, nós estaremos aqui para você.
Não importa o quão dura Annie seja, ela simplesmente não era capaz de permanecer fria depois das palavras de Bertolt. Delicadamente, ela segurou o braço de Reiner e o puxou, forçando-o a ficar de joelhos para que ela pudesse abraçá-lo ao mesmo tempo em que abraçava Bertolt. Ambos coraram.
— Obrigada, de verdade, meninos... — disse Annie, com a voz embalada de choro. — Isso era tudo que eu precisava ouvir.
Um grande alívio perpassou por Reiner e Bertolt, estando o último imensamente satisfeito por ter sido capaz de amolecer a garota “tão dura quanto diamante”. Não demorou muito para que Annie os soltasse — ela não era muito de contato físico — e assim que o fez, tratou de enxugar as lágrimas o mais rápido possível.
— Ah, eu sou tão besta por estar chorando... — disse dando um sorriso tímido.
— Que isso, claro que não... — disse Reiner, coçando a cabeça.
Annie riu por dentro ao ver a reação de Reiner. Ela sabia que ele era muito parecido com ela: uma rocha por fora, mas por dentro ele era um amor de pessoa.
— Sabem o que me deixou mais puta? — Annie perguntou aleatoriamente. Reiner e Bertolt se entreolharam e negaram com a cabeça. E então ela prosseguiu: — É que ele não me disse nada.
Bertolt franziu o cenho
— Como assim?
— Eren simplesmente disse... — De certa forma, doía um pouco lembrar aquele momento. —... Que “não era um bom momento para ter um relacionamento tão sério com ele” — disse enquanto sinalizava as aspas com os dedos.
— E isso não foi bom? — questionou Reiner inocentemente. Annie apenas olhou estupefata, e ele logo tratou de se corrigir. — Q-quero dizer... Veja pelo lado bom! Pelo menos ele foi sincero...! — disse de uma forma meio forçada.
Annie bufou e balançou a cabeça.
— Vocês realmente não entendem... — lamentou Annie.
— Ajudaria se você fosse mais clara — Bertolt tentou soar o mais delicado possível.
Annie o examinou com cuidado e concluiu que ela já não se importava mais em esconder seu lado mais sensível para aqueles dois. Afinal de contas, eles já se conheciam por tempo o suficiente para que fossem tão importantes para ela.
— Não foi o que parecia ser quando começamos a ficar. — Os dois ainda pareciam não estar entendendo, mas Annie já esperava por isso. — No início, Eren era muito atencioso e sempre puxava assunto, não importava sobre o que era. — Ela fez uma pausa para checar se eles estavam prestando atenção e prosseguiu. — Depois de algumas semanas, ele me pediu em namoro, e então passou a mandar muitas mensagens. Conversar com Eren era muito fácil e... — De novo, Annie sentiu um aperto no coração. Seus olhos umedeceram.
— Continue — incentivou Bertolt, percebendo que Annie estava se afundando em pensamentos.
— Ah, sim... — Ela respirou fundo. — Depois de quase duas semanas de namoro, a frequência de mensagens caiu drasticamente, mas nós ainda conversávamos muito no colégio. Eu me perguntava se ele estava ocupado com alguma coisa, mas nunca cheguei a conversar com ele sobre isso porque era um detalhe bobo. — Mais uma vez, ela checou se os meninos estavam prestando atenção e, para sua surpresa, ambos estavam focados... principalmente Bertolt. — E foi mais ou menos por aí que ele perguntou se eu... queria... dormir com ele...
Annie sentia a pele de sua bochecha esquentar, e para o seu alívio, ela não era a única: Reiner fingia uma tosse para cobrir o rubor das bochechas. O que a intrigou foi que Bertolt continuava imóvel, com os olhos fixos nela.
— E então, você aceitou? — Bertolt perguntou diretamente, surpreendendo tanto Annie quanto Reiner, que arregalou os olhos.
— Não! — respondeu automaticamente. — Quero dizer... não tão rápido...
Annie desviou os olhos para o chão. Simplesmente não aguentava a vergonha de estar falando dessas coisas para dois garotos — seus melhores amigos, mas ainda assim garotos. Bertolt desviou os olhos para o outro canto da sala, respirou fundo e murmurou:
— Agora eu entendo...
— Duvido muito — comentou Annie, ainda sem encará-los.
Bertolt procurou pelos seus olhos no mesmo segundo para confirmar se ela estava só o provocando ou se estava falando sério. E acabou se deparando com uma Annie profundamente triste, ainda encarando o chão com olhos marejados. Bertolt estava mais do que incomodado com aquela situação; estava inquieto. Ele simplesmente precisava saber o que aquele idiota tinha feito a Annie para deixá-la da forma que estava. Enquanto isso, Reiner se sentia apenas um intruso na sala.
— Quero dizer, acho que vocês, meninos, não se importam muito... — Annie se interrompeu, pensando se dizia ou não, e acabou ligando o “foda-se” —... Com esse negócio de “com que você tem a sua primeira vez”.
Naquele momento, o mundo de Bertolt parou de girar — e o de Reiner passou a fazer menos sentido ainda.
Fale com o autor