Vazio

21 Se você entende... - EXTRA


Notas iniciais
Boa leitura!

Marco andava de um lado a outro pelo quarto, nervoso. Estava na dúvida se contava ou deixava passar. Também havia a possibilidade de ter escutado errado, e não queria arriscar ter que falar aquilo em voz alta. Não, tinha muito a arriscar, não podia ser levado pela emoção tão facilmente.

Mas estava a tanto tempo segurando aquele segredo... Sentia como se fosse explodir a qualquer momento, e contar tudo de uma vez. Não, isso seria pior ainda, concluiu o garoto. Marco caiu de costas em cima da cama e usou o travesseiro para cobrir o rosto. Queria gritar, e bem alto. Deixar todo aquele sentimento acumulado escapar de alguma forma.

Mas já estava ficando tarde, e não queria incomodar os pais. Mais uma vez, calou-se para o bem-estar das pessoas à sua volta. O que fez todo o sentimento preso em sua garganta se revirar, implorando por liberdade, lutando por uma brecha para poder sair.

Rolou para um lado, rolou para o outro, mas nada mudava o que sentia, e nada o fazia esquecer as palavras que escutara naquela tarde. Preciso falar com ele, concluiu Marco. Mas... talvez fosse arriscado demais. O medo por ser julgado era muito grande, e a probabilidade de justo ele ser... Não, impossível.

— Talvez eu possa falar antes com Armin — Marco pensou alto, cogitando aquela possibilidade mais provável.

Armin era compreensivo, certamente não iria julgá-lo. Mas... Não era a pessoa ideal para aquele problema. Muito provavelmente, não seria capaz de ajudá-lo da forma como precisa.

— Hm... Mikasa? — pensou alto de novo. Descartou aquela ideia depois que calculou o nível de absurdo que seria conversar sobre isso com ela. Era difícil até mesmo pensar em como ela reagiria.

É, não tinha jeito... Marco precisava da ajuda de Eren.

— Notou Marco meio estranho hoje? — Jean perguntou a Armin.

Hm... Não sei, a gente mal se falou — concluiu Armin, dando de ombros.

Jean sempre fora um menino muito esforçado em tudo, principalmente quando se tratava de nota. Nunca deixou que sua média caísse mais do que oito, ou que ficasse fora do ranking dos 10 melhores de sua série. Para isso, sempre estudou bastante, mesmo que precisasse virar a noite para isso.

Só que, como tinha um déficit na área de humanas — ele, com certeza, preferia exatas —, decidiu que precisava de uma ajuda extra com geografia e, principalmente, com história. Para sua sorte, essas eram as matérias mais fortes de Armin, que se predispôs a ajudá-lo a estudar sempre que precisasse, mesmo sabendo que Jean era orgulhoso e raramente o pediria para isso. Ainda assim, tornou-se comum marcarem de conversar pelo computador para que Jean tirasse suas dúvidas.

— Hm... entendo — Jean fixou o olhar na parede enquanto coçava o queixo.

Você está achando algo estranho nele?

— Na verdade, estou — assumiu. — Talvez seja só impressão minha, mas Marco parece um pouco mais calado ultimamente...

Bem, ele nunca foi de falar muito.

— Eu sei, mas comigo não era assim. A gente costumava trocar mensagens direto, e agora ele mal me olha nos olhos.

Hm, agora que você falou... — Armin franziu o cenho. — Ele parece meio chateado com algo.

— Não acho que seja só isso — Jean balançou a cabeça —, ele teria vindo falar comigo.

Vai ver tem alguma coisa a ver com você — sugeriu Armin. Jean não tinha pensado naquela possibilidade. — Vocês brigaram ou tiveram alguma discussão?

— Não, nós... — Foi aí que um estalo ecoou na cabeça de Jean. — Será que foi isso...?

Armin fez uma expressão de confuso, indicando que não sabia do que o amigo estava falando.

— Faz algum tempo que ele tem estado incomodado com uma coisa, mas... É tão improvável...

E o que é? — quis saber Armin, mordendo-se de curiosidade.

— Ah, não acho que eu deva contar... — Jean balançou a mão, gesticulando para que Armin esquecesse aquele assunto.

Jean! — protestou Armin. — Se já falou até aqui, então termine de contar a história!

— Sabe, Armin, você é mais curioso do que aparenta — brincou Jean.

Corta essa! Desembucha de uma vez! — reclamou Armin.

Jean suspirou e balançou a cabeça, com um sorriso presunçoso estampado no rosto.

— Pelo visto não tem jeito, vou ter que te contar...

Aleluia — disse Armin, revirando os olhos.

— Teve uma vez, faz um tempo, que ele foi até a minha casa para jogarmos um jogo novo. Foi um jogo de corrida, eu estava ganhando, e aí ele soltou um comentário bem típico de perdedor...

Jean, dá para segurar um pouco seu ego?

— Espera, Armin, estou no meio da história.

Ok, então... — Armin soltou um suspiro e sorriu.

— Aí, eu respondi alguma coisa sobre o jeito estranho dele agir naqueles últimos dias, e aí ele se virou e disse “Se sabe disso, então por que me falou essas coisas?”, e foi embora sem dizer mais nada.

Uou, que ruim... — constatou Armin. — E o que você falou sobre ele?

— Aí é que está, eu não lembro direito — Jean deu de ombros. — Não foi um comentário sério, foi só... um comentário por comentar.

Sério, Jean, você tem que dar um jeito nessa sua “sinceridade” — alertou Armin.

— Engraçado as pessoas reclamarem de falsidade e depois virem reclamar comigo por sinceridade também — murmurou Jean.

Tem uma diferença entre sinceridade e o que você faz, Jean. — Depois daquilo, Jean permaneceu mudo, instigando Armin a continuar. — Pelo menos chegou a conversar sobre isso com ele depois?

— Tentei sim, mas ele não foi muito... receptivo... — Jean soltou um gemido ao se lembrar da forma incomumente fria a qual Marco o tratou. — Preferi por ignorar o assunto e seguir em frente, mas parece que...

—... Marco não pensou da mesma forma? — Armin arriscou um palpite.

— Exato.

Armin tentou conter uma risada, o que irritou um pouco Jean.

Incrível como você e Eren são completamente cegos para isso...

— Ei, Armin, não ria! — Jean o repreendeu. — E definitivamente não me compare àquele bastardo!

Essa é outra coisa que eu não entendo, por que você e Eren continuam se tratando como rivais?

— É bem óbvio que é porque... Porque... — Jean levou um tempo tentando achar as palavras certas para dizer, mas aquilo era mais difícil do que pensava. — Ah, sei lá! — disse Jean, por fim. — Eu só não quero ser o primeiro a amolecer.

Primeiro? — Armin riu mais uma vez, mas não de escárnio; realmente achava curiosa a relação dos dois. — Eren já te considera um grande amigo.

Mais uma surpresa para Jean naquela noite — talvez não tão surpresa assim.