Vazio
22 Sinto sua falta
Notas iniciais
— Parece que faz milênios que eu não venho aqui...! — comentou Hanji, assim que entrou no apartamento de Levi.
— Tire os sapatos — ordenou Levi, deixando seu calçado ao lado da porta. — E pare de ser dramática, você veio aqui semana passada.
— Mas você não me deixou entrar — reclamou Hanji, tirando as sapatilhas, lembrando-se de quando veio junto com a equipe dele para beber. Levi revirou os olhos para ela e foi até o balcão da cozinha para deixar sua pasta e outras coisas que carregava consigo. — O que me lembra... — Hanji coçou o queixo, lembrando-se de um fato curioso daquele dia. — Você não me contou o que aquele garoto estava fazendo aqui.
Levi paralisou na frente do balcão, de costas para Hanji.
— Hã?
— Aquele garoto que estava aqui quando eu vim com sua equipe... — Hanji estava com um sorriso de orelha a orelha. Não precisava ser um expert em comportamento humano para perceber que Levi ficara tenso com a pergunta. Aí tem coisa!, deduziu Hanji. — Quem era?
Hanji ia se aproximando lentamente, como uma raposa indo até sua presa, o que incomodou Levi profundamente. Odiava sentir-se encorralado.
— Não acha que está sendo intrometida demais, quatro-olhos?
— Ah, Levi, qual é! — Hanji parou ao lado de Levi e apoiou-se em cima do balcão, para poder olhar para seu rosto. — Somos amigos, não somos?
Levi deu uma rápida olhada na mulher ao seu lado: Hanji estava com um sorriso bobo e olhos brilhantes, visivelmente animada com a fofoca. Não pôde evitar revirar os olhos e dar um leve peteleco em sua testa, fazendo ela se afastar e massagear o local atingido.
— Quantos anos você tem? Sete? — resmungou Levi.
Com aquilo, retirou-se para seu quarto para poder tomar banho e trocar de roupa, deixando para trás uma Hanji carrancuda e levemente magoada. Tudo bem que Levi não era exatamente do tipo “livro aberto”, mas imaginava que, depois de tudo que passaram juntos, ele seria um pouco mais franco com ela.
Gastou um tempo para lembrar-se de quando o viu pela primeira vez, bem mais ranzinza e completamente indisciplinado. A imagem de Levi bem mais magro, pálido e mal-encarado a fez sorrir; aqueles tinham sido bons tempos. Não podia negar a falta que sentia da época em que trabalhavam na mesma equipe, de quando Levi baixou a guarda e deixou que os outros colegas se aproximassem.
— E pensar que eu...
Hanji foi interrompida pelo toque do celular de Levi. Por instinto, a mulher se inclinou por entre as coisas de Levi em cima do balcão, procurando o aparelho do colega.
— Levi, o seu celular está...
Como um raio, Levi apareceu na entrada do corredor e voou até sua pasta, procurando o celular. O problema é que ainda estava com a toalha enrolada na cintura. Hanji não sentiu necessidade de desviar o olhar; já estiveram naquela situação antes.
— Meus parabéns, Levi — disse, abafando o riso, enquanto olhava de cima a baixo.
Só que ele não respondeu à implicação de imediato; estava ocupado demais checando de quem tinha sido a ligação. Sua expressão murchou quando constatou o número, guardando o celular na pasta novamente.
— Não vai retornar?
— Não vale a pena... — murmurou Levi.
— Hm... — Hanji fingiu estar pensando num dilema, cruzando os braços e fazendo cara de séria. — Não vale a pena ou... Não é a pessoa que você estava esperando?
— Quando foi que você se tornou tão inconveniente, Hanji? — Levi revirou os olhos de novo.
— Quando foi que você se tornou tão carrancudo? — Hanji devolveu a provocação sem perder o bom-humor.
Levi estalou a língua e voltou para o quarto para pôr uma roupa. Hanji não aguentou a curiosidade e aproveitou aquele momento de ausência de Levi para mexer em seu telefone e ver de quem tinha sido a ligação. Foi pega de surpresa quando viu na tela de bloqueio a notificação:
“Chamada perdida [19:47]: Erwin Smith”.
— Mais uma! — gritou Hanji ao bartender, erguendo a sua caneca de chope.
— Quando é que você planeja parar? — perguntou Levi, perfeitamente sóbrio.
— Ah, qual é, Raviolle — murmurou Hanji, com as bochechas coradas pela bebedeira. — Nem bêbado você consegue descontrair?!
— Eu não estou bêbado — constatou Levi, dando um gole em seu copo de uísque.
— Então tá bebendo muito pouco! — Hanji gritava e gesticulava como se só houvessem os dois no mundo.
— Na verdade, eu bebi mais que você. — Levi passou a mão pelos cabelos, incomodado com o quão abafado estava o estabelecimento. — Você já está no limite, vou te levar até sua casa...
— Vamos ficar mais um pouco... — Hanji fez um biquinho.
Levi suspirou.
— Hanji, já está tarde.
— Eu durmo na sua casa.
— E quem foi que te convidou?
— Desde quando eu preciso de convite para isso? — resmungou Hanji, franzindo o cenho. Levi soltou outro suspiro.
— Você sequer trouxe uma muda de roupas para tomar banho.
— E quem precisa tomar banho?! — Hanji começou a rir alto. Levi estava começando a cogitar ir embora e deixá-la ali mesmo.
— Sinceramente, Hanji, por que me trouxe aqui?
Percebendo o tom levemente irritadiço de Levi, Hanji parou de rir e soltou um suspiro. Ela tirou os óculos e adotou uma postura um pouco mais séria, embora ainda tivesse a sombra de um sorriso nos lábios.
— Hanji? — ele a chamou.
— Sabe, eu estava lembrando-me da nossa antiga equipe esses dias — disse nostálgica. Levi permaneceu calado. — De como era divertido, mesmo com todas as encrencas...
— Aonde quer chegar? — Levi a cortou. Não estava muito no clima para voltar àquela época.
Outro suspiro de Hanji. Ela sabia que não iria ser fácil desde o início, só esperava que ele não fosse tão ríspido.
— Levi, você anda tão distante — Hanji falava séria, embora seus olhos refletissem outra coisa. — Principalmente depois que você e...
— Por favor, não. — Levi desviou os olhos para o lado, já imaginando do que Hanji estava falando.
— Levi...
— Está perdendo seu tempo. — Ele ameaçou levantar-se da cadeira, mas foi impedido por um aperto na sua mão dado por Hanji.
— Já faz quase um ano que você está assim — disse Hanji, suplicante, olhando-o nos olhos. — Por favor, converse comigo sobre o que aconteceu entre você e Erwin.
Eren tinha acabado de tomar banho e se preparava para dormir. Já estava com seu pijama cinza-claro, só faltava terminar de escovar os dentes e pronto. O problema é que tinha a certeza de que não seria capaz de dormir tão cedo — não depois de tudo que aconteceu naquela tarde.
Como se descobrir que seu amigo ia se drogar e apanhar no lugar dele não fosse ruim o bastante, teve aquela conversa maravilhosa com seus pais na cozinha, viu seu pai dar uma de otário pela milésima vez e sua mãe ainda não tinha saído do quarto, tamanha a frustração.
E isso sem falar que o cara com quem transou pela “primeira vez” ainda não tinha dado notícia de vida. Sim, sua noite estava muitíssimo agradável. Claro que Levi era o menor de seus problemas naquele momento, mas com certeza tê-lo ali, envolvido num abraço, ajudaria a aliviar a tensão que estava sentindo.
Sem energia nenhuma, jogou-se na cama assim que terminou de escovar os dentes. Mas ainda estava inquieto demais para poder dormir, então engatinhou até a ponta da cama para alcançar o celular em cima da escrivaninha. Só que o que viu na tela foi o mesmo que durante todo o dia: nada. Com um gemido de desistência, Eren foi até a cabeceira da cama e enterrou o rosto no travesseiro.
— Levi-san, por favor... — sussurrava bem baixinho. —... Liga pra mim.
— Não tenho nada para falar — murmurou Levi, puxando a mão de volta.
Hanji o olhou com pesar.
— Levi, nem mesmo um idiota deixaria de notar que Erwin ainda é louco por você...
— Não é mútuo — retrucou Levi, sem nem deixar Hanji terminar de falar.
— Por que está sendo tão relutante com isso? — grunhiu Hanji.
— Por que nós não damos certo — respondeu Levi, sem perder a calma. — Ponto final.
Hanji arfou e passou as duas mãos pelo rosto.
— Só não me diga que isso tudo é por que você ainda acha que homens não deviam ficar juntos... — murmurou Hanji.
Levi passou um tempo calado, considerando o que ia falar para Hanji. Decidiu que não ganharia nada escondendo o jogo para ela; iria ver o quão sério ela estava falando quando disse que estaria lá para ele, como uma amiga faria.
— Não, não é por isso — respondeu Levi, apoiando a cabeça na mão direita, sustentada pelo cotovelo na mesa. — Acho que não tenho mais problemas com esse tipo de relacionamento. Meu problema é com Erwin mesmo.
Por essa Hanji não esperava. Teve que piscar os olhos e digerir aquela informação aos poucos, tendo a certeza de que aquela não era apenas uma ilusão criada pelo álcool.
— O que está querendo dizer? —Hanji teve que perguntar; ainda não acreditava no que Levi estava dizendo.
Ele soltou um suspiro e percebeu que, se não fosse direto, aquela bêbada nunca iria largar do seu pé com aquele assunto.
— Lembra-se daquele garoto que você viu no meu apartamento?
Hanji arregalou os olhos, não acreditando no que seus ouvidos estavam escutando.
— Não me diga que...
Levi assentiu com a cabeça, já se preparando para a chuva de perguntas que ela iria fazer. Mas o que recebeu foi uma gargalhada bem longa, com direito a algumas lágrimas.
— Tá de brincadeira! — balbuciava entre risos. — Você?! Com aquele garoto?! Há!
— Eu não podia esperar nada menos de você... — murmurou Levi, frio por fora, mas terrivelmente constrangido por dentro.
— Não me entenda mal — Hanji recuperou-se da crise de risos e agora falava num tom mais sereno —, não estou fazendo graça de seu relacionamento...
— Imagina — murmurou Levi.
—... É só que eu não esperava que a pessoa que te conquistaria fosse um garoto tão novo...!
— Ele não me conquistou — informou Levi.
Aquela frase parecia completamente desconexa com as outras, fazendo Hanji franzir o cenho.
— Mas eu pensei que vocês estivessem saindo...
— E isso não significa que estamos namorando ou coisa do tipo. — Por algum motivo, Levi sentiu a necessidade de desviar o olhar. — Não é como se eu o amasse.
— Ah, entendi. — Hanji sorriu e balançou a cabeça. — Está na moda isso de só ficar, sem relacionamento sério, não é? Você deve ter levado um fora — disse enquanto cobria a boca para esconder o riso.
— Você bêbada fica dez mil vezes pior — constatou Levi, revirando os olhos. — Quem não quis um relacionamento sério fui eu — explicou.
Hanji parou de rir e o olhou surpresa.
— Não vai me dizer que é por que ainda acha que terá problemas com...?
— Ah, não, o sexo foi bom — respondeu Levi, dando de ombros. — Na verdade, foi muito bom.
Hanji não pôde evitar corar mais do que a bebida já tinha feito. Nunca teve problemas com pudor ou essas coisas, mas nunca esperou ouvir um comentário daqueles vindo de Levi.
— Vocês já transaram?
— Claro que sim.
— Caralho... — Hanji passou a mão pela testa, pondo a franja bagunçada para trás. — Eu preciso conhecer esse garoto!
— E quem é você para que eu o apresente? Minha mãe? — Levi conteve o riso.
— Eu preciso conhecer o garoto que fez o Agente Rivaille, também membro da Yakuza, aceitar fazer sexo gay — declarou Hanji, com olhos brilhantes.
— Dá para não falar isso em voz alta?! — murmurou Levi.
— Aaah, então era dele a ligação que você estava esperando? — Mesmo bêbada, Hanji foi capaz de juntar os pontos.
Levi suspirou e se levantou, sem dar explicações a Hanji.
— Para onde está indo?
— Ao banheiro.
— Sério que o maníaco por limpeza vai usar o banheiro de um bar? —Hanji brincou.
— Posso conseguir não ficar bêbado, mas nem eu consigo controlar a vontade de...
— Eu já entendi — disse Hanji, balançando as mãos.
Com isso, Levi desapareceu por entre os fregueses do bar, a maioria composta de homens. Hanji ficou pensando se deveria pedir um chope de saideira quando sentiu a mesa tremer. A primeira coisa que veio à cabeça foi que era um terremoto, mas logo viu uma luz se acender em sua frente. Era o celular de Levi tocando, posto em cima de sua carteira, ao lado do porta-guardanapos. Que estranho, pensou Hanji. Levi nunca deixa suas coisas em cima da mesa assim...
Como sempre, a curiosidade falou mais alto; Hanji se inclinou sobre a mesa e colocou os óculos de volta, tentando ler o nome da pessoa que estava ligando. Outra coisa incomum: diferente de todos os outros contatos, aquele em especial estava com um apelido... E um não muito original.
“Chamada: Pirralho Jäeger”.
Eren acabou não aguentando aquela tortura. Tinha chegado à conclusão de que manter o charminho ia ser pior ainda. Além do mais, queria muito vê-lo de novo; a ideia de passar mais tempo sem Levi era inquietante. Só não sabia se ia atender... Já tinha passado das nove, que era o horário que Levi sempre respondia, mas também já estava muito tarde — onze e quarenta da noite, praticamente. Só desejava não ser um incômodo...
E então, para sua surpresa, a chamada foi atendida. As esperanças de Eren estavam tão baixas que mal pôde acreditar naquilo.
— Levi-san?! — Eren atendeu, meio afobado. — Ah, que bom, pensei que...
— Sinto muito, garotinho, mas eu naaão sou Levi-san — respondeu uma voz feminina do outro lado. Por algum motivo, Eren a achou familiar.
— A-ah, certo... — Eren não sabia como reagir àquilo. Por que uma mulher atendeu o celular de Levi-san? E ainda por cima, ela está falando estranho... — Então, tem como você passar para ele?
— Na verdade, não tem como eu fazer isso. — A mulher deu um riso abafado, como se estivesse se contendo. — Sabe como é, eu não tenho um pênis... Não posso ir pra lá! — E começou a rir mais.
É, ela está bêbada, concluiu Eren. E aquilo o tirou completamente do sério. Afinal de contas, o que Levi estava fazendo com uma mulher bêbada a essa hora da noite?
— Pelo visto, estou atrapalhando — Eren falava grosseiramente —, então se me der licença...
— Ei, espera — pediu a mulher, tentando recuperar o fôlego. — Tem uma coisa que eu quero te perguntar.
Eren não estava com saco para isso.
— Se não se importa, eu preciso...
— Foi você quem transou com Levi?
Certamente, não esperava que ela fosse tão direta. Seja por ciúmes ou por possessividade mesmo, Eren sentiu a necessidade de declarar para ela que Levi era seu.
— Sim, fui eu — disse Eren, quase que numa ameaça. — Já que nós estamos saindo.
— Mas não namorando, não é?
Aquilo foi como uma facada para Eren. Instantaneamente, Eren soube: odiava aquela mulher, não importava quem fosse.
— Eu tenho uma proposta.
— Eu recuso — respondeu Eren, de imediato.
— Sem nem mesmo escutá-la? — a mulher riu. — Pelo visto merece o apelido de pirralho!
Eren só não avançou em cima daquela mulher só por que ela não estava em sua frente. Ele podia sentiu uma veia pulsando em sua testa. Como ela sabe que Levi-san me chama de pirralho?!
— Se você for cabeça-dura que nem Levi, vai ser difícil ajudar vocês dois — a mulher suspirou.
O humor de Eren mudou instantaneamente. Ela planeja nos ajudar...?
— Você precisa fazer o seguinte... — ela começou a explicar.
— Impressionante — elogiou Levi assim que voltou. — Você não arrumou nenhum problema enquanto eu estava fora.
— Pfff, eu não faço esse tipo de coisa! — balbuciou Hanji, abanando a mão.
— Na verdade, essa é a marca registrada de quando você está bêbada.
— Mentiiiiira, que isso não é verdade! — Hanji dizia entre risos.
Levi suspirou e acenou para o bartender, sinalizando que queria a conta.
— Já estamos indo? — perguntou Hanji assim que conseguiu parar de rir.
— Você está chegando ao cúmulo do ridículo — informou Levi. — Traz a conta — pediu Levi assim que um dos garçons foi até a mesa deles.
— Pode deixar — respondeu o garçom, dando um rápido cumprimento antes de ir até o balcão.
Hanji cruzou os braços por cima da mesa e deitou a cabeça ali, olhando para Levi com um sorriso terno estampado no rosto.
— Ei, Raviolle... — ela chamou com a voz morna.
— O que foi, quatro-olhos?
— Muito obrigada por essa noite... Eu senti falta de conversar assim com você.
Levi podia ser grosso o quanto fosse por fora; por dentro, ele era uma pessoa realmente calorosa. Não era todo dia que um assassino de carteirinha como ele recebia uma declaração daquelas, principalmente vinda de alguém que sabia o que ele faz. Sem nem perceber, Levi se inclinou por cima da mesa e passou a mão pela cabeça de Hanji, bagunçando mais ainda o cabelo já desarrumado.
— Eu também, quatro-olhos... — murmurou baixinho. — Eu também...
Eren dormiu realmente mal naquela noite. Já estava mal-humorado quando foi se deitar, aquela ligação estranha da mulher bêbada só fez piorar a situação. E ela ainda disse aquelas coisas para mim, resmungou Eren, lembrando-se do que escutara:
“Se você continuar assim, nunca irá conquistar Levi”, ela o tinha dito antes de desligar.
Aquilo o tirou do sério. Só de lembrar, rangeu os dentes e apertou firme o que quer que estivesse segurando — que, no caso, era seu lápis. Sem perceber, acabou partindo-o ao meio... No meio da aula de História. Agradeceu aos céus por ter sido apenas chamado a atenção, e que só da próxima vez que inventasse de atrapalhar o foco da aula seria levado para a sala do diretor Shadis.
Espere só para ver, pensou Eren, como se estivesse falando com a mulher que atendeu ao telefone de Levi, em resposta à proposta que ela tinha feito. Eu com certeza vou aparecer lá, e vou te mostrar a quem Levi-san pertence!
Claro, Eren tinha em mente que Levi deixou bem claro que eles não estavam namorando — ou seja, não queria nada sério —, mas aquilo não agradava nem um pouco o garoto. Não tinha percebido o quanto queria ser o único para Levi até escutar uma mulher chamá-lo pelo primeiro nome, e ainda por cima sem honorífico nenhum.
Eren ficou tão concentrado em pensar numa forma de fazer Levi mudar de ideia que quase não percebeu o pedacinho de papel posto em cima de sua mesa. Ele olhou em volta, procurando pelo dono do bilhete, mas não viu nenhum sinal do autor. Deu de ombros e abriu o bilhete, estranhando a mensagem contida:
“Encontre-me na quadra coberta do ginásio”.
A letra era familiar, mas como Eren não era muito atento a esses pequenos detalhes, não conseguiu identificar o autor. Será que é alguém me chamando para uma briga?, foi a primeira coisa que Eren pensou. Mas não fazia sentido; não tinha dado motivos para ninguém querer arrumar confusão com ele... Pelo menos, não ultimamente.
Não demorou muito para que o sinal do intervalo tocasse, e junto com ele vieram Jean e Armin para sua mesa.
— Não sabia que você era tão idiota a ponto de quebrar um lápis no meio da aula — disse Jean, assim que se aproximou. — Quero dizer, o que diabos foi aquilo?
— Está irritado com alguma coisa? — perguntou Armin logo em seguida, tentando evitar uma possível discussão entre os dois.
—Ah, se vocês soubessem... — Eren murmurou e passou as duas mãos pelo cabelo.
Armin e Jean se entreolharam, confusos, como se perguntassem “Está sabendo de alguma coisa?”. Ambos puxaram as cadeiras mais próximas e sentaram ao lado de Eren.
— O que aconteceu? — Armin foi o primeiro a perguntar.
— Meu pai... — Eren suspirou. — Ele teve mais um daqueles ataques de “meu trabalho é mais importante” e Deus sabe quando ele volta para casa.
— Nossa, quero saber como sua mãe aguenta — lamentou Jean.
— É esse o problema — Eren ficou mais agitado. — Mesmo com essa frequência de “viagens surpresa” dele, mesmo sabendo o quanto ele a machuca por se manter distante, mesmo com tudo isso... — Eren parou de falar; sabia que estava indo longe demais com aquele pensamento.
Armin, como sempre colhedor, pôs a mão no ombro de Eren e o balançou de levinho.
— E como ela está agora? — quis saber Jean.
— Um caco — Eren revirou os olhos. — Ela já estava chateada comigo, e somado com esse problema com meu pai...
— Cara, ela precisa sair de casa — comentou Armin. — Ver as amigas, achar um trabalho, fazer aula de dança... Qualquer coisa que possa ocupar a mente dela.
Aquilo foi como uma luz para Eren. E se eu...?
— Ei, Eren! — chamou Mikasa, se aproximando. — Posso dormir na sua... — Não demorou muito para que Mikasa analisasse a situação e percebesse que o clima estava ruim. — Aconteceu alguma coisa?
— Foi mal, Mikasa... — Eren deu de ombros. — Não vai rolar.
— Por quê? — ela já estava começando a ficar aflita.
— Meus pais meio que...
— Ah, eles brigaram de novo?
— É — Eren desviou os para o chão. — Sem falar que minha mãe está meio chateada comigo, então...
— Eu entendo — lamentou Mikasa. — Bem, eu e as meninas vamos sair hoje à tarde para o cinema, quer ir e desestressar um pouco?
— Não vai dar, temos treino hoje — Armin respondeu, dando de ombros.
— Ah... — Mikasa ficou visivelmente desapontada. — Isso também é bom.
— Mikasa, você vem? — Ymir a chamou da porta da sala.
— Espera! — Mikasa gritou de volta. — Eu já...
— Pode ir, Mikasa, não tem problema — disse Eren, tentando dar um sorriso. — Eu estou tranquilo com tudo isso.
Ainda meio relutante em deixar Eren, Mikasa seguiu suas amigas até a cantina. Assim que ela foi, os três meninos permaneceram calados, sem saber se voltavam a conversa anterior ou se mudavam de assunto. Em meio àquele desconforto, Jean notou o bilhete em cima da mesa de Eren.
— O que é isso? — perguntou enquanto já desdobrava o papel.
— Ah, é mesmo! — exclamou Eren, levantando-se da cadeira. — Tinha quase esquecido, valeu Jean!
Praticamente correndo, Eren foi até a porta e sumiu pelo corredor, em direção ao ginásio. Jean achou aquilo muito estranho, e quando terminou de abrir o bilhete para ler o que estava escrito, arregalou os olhos.
— O que foi? — perguntou Armin, alarmado. Jean não respondeu nada; apenas mostrou o bilhete para Armin. — Ei, essa não é a letra de...?
Não demorou muito para que Eren alcançasse o ginásio. Como não havia nenhum tipo de evento esportivo durante os intervalos, a quadra estava completamente vazia. Eren estava começando a se preocupar, achando que alguém estava armando para ele ou coisa do tipo, até que viu alguém se mexer na arquibancada. Não era à toa que a letra do bilhete era familiar, Eren só não esperava que fosse de...
—... Marco? — Sim, Eren estava surpreso. — Por que me chamou aqui? E por que...
— Ainda bem que você veio — disse Marco, parecendo estar nervoso. — Precisava muito falar com você...
Marco não era exatamente o seu amigo mais próximo, então aquela situação era meio estranha para Eren.
— E por que justo aqui? Você podia ter me chamado lá na...
— Não, tinha que ser aqui — Marco o cortou. Eren franziu o cenho, mostrando que não estava entendendo a situação, e Marco suspirou. — Bem, pelo menos eu achei que você não quisesse que todo mundo descobrisse que você era gay.
O coração de Eren falhou algumas batidas.
Fale com o autor