Vazio

15 Quando o celular toca


Notas iniciais
Boa leitura!

— E então, o analgésico funciona? — perguntou Levi, com um sorriso travesso nos lábios.

— S-sim, mais ou menos... — respondeu Eren, desviando o olhar para baixo.

Eren estava sentado no balcão da cozinha — carregado por Levi —, enquanto Levi apoiava-se segurando no balcão de ambos os lados do garoto. Depois do “banho matinal”, Eren estava num estado em que apenas ficar em pé na posição ereta já era uma tarefa difícil, então teve que tomar um remédio para dor.

— De alguma forma, eu consigo sentar sem que isso incomode muito — explicou Eren. Levi se aproximou e deu um selinho na boca do garoto, dando uma puxadinha no lábio inferior antes de se afastar.

— Isso é bom — disse Levi se afastando e indo em direção aos armários da cozinha. — Diminui o trauma.

— Trauma?

— Você sabe, pirralhos tentem a se traumatizar muito fácil com situações dolorosas. — Devido ao tom de Levi, Eren não sabia se aquilo era uma brincadeira ou não.

— Mas essa não foi uma situação dolorosa! — respondeu Eren de imediato. — Quer dizer... Não tão dolorosa... Porque, tipo, também teve uma parte em que... — Querendo ou não, era muito embaraçoso para Eren falar sobre o sexo. Na verdade, ele sequer lembrava-se de ter feito isso com qualquer uma das ex-namoradas.

— Não tão dolorosa assim? Seu traseiro discorda. — Levi falava com o mesmo tom de voz frio e calmo, de costas para Eren.

— Se não tivesse sido bom, eu não teria gozado! — disse Eren, sem pensar. Assim que seu cérebro processou o que ele tinha acabado de dizer, Eren cobriu a boca com as duas mãos e arregalou os olhos, surpreso com o que tinha feito.

Levi parou o que estava fazendo para virar o rosto para Eren, olhando-o com olhos felinos, fazendo com que o garoto se arrepiasse. Era engraçado como apenas um olhar de Levi mexia tanto com Eren.

— Ah, então você só goza de for bom? — disse Levi, se aproximando lentamente, fazendo tudo dentro de Eren acender de ansiedade, gradativamente aumentando a cada passo.

— M-mas é claro... — Eren sentia os batimentos cardíacos acelerarem.

— Você gozou nas duas vezes em que transamos... — Levi apoiou as mãos no balcão cercando Eren novamente, deixando que as pontas dos narizes de ambos se encostassem, e nada mais. — O que isso quer dizer?

Que você sabe como foder um homem — respondeu Eren, já tomado pelo desejo, avançando ambas as mãos no cabelo de Levi e puxando-o para perto, para um beijo estonteante e febril.

Assim que a língua do garoto invadiu a sua boca, Levi correspondeu dominando a boca de Eren, usando os lábios para subjugá-lo ao seu ritmo mais brusco e invasivo — sua marca registrada. Ninguém sabia beijar como Levi o fazia. À medida que o beijo se intensificava, o corpo de Eren exigia mais contado, sua pele buscando a dele, puxando-o mais e mais. Levi recuava; não iria tocá-lo mais que aquilo até que o garoto implorasse... O que não iria demorar muito, considerando o estado do garoto.

O fato de não ter as mãos de Levi em seu corpo enlouquecia Eren. Mas, dessa vez, ele não iria ceder; iria fazer Levi não aguentar mais apenas beijá-lo. Tentou puxá-lo mais para perto e colar seu tronco no dele, mas Levi resistiu firmemente. Eren então o segurou pelas laterais da cabeça, impedindo-o de se mover, e chupou a sua língua devagar, deliciando-se por toda a extensão. Levi deixou escapar um gemido baixo, rouco, carregado de desejo.

Eren aproveitou essa abertura para puxá-lo e colar seu abdômen no peito de Levi, envolvendo-o com as pernas e puxando sua cabeça para trás para poder beijá-lo de cima. Eren dava rápidos beijos em Levi, cada um mais duro que o outro, praticamente sugando a boca do homem. Sincronizado com os beijos, o garoto movia o quadril para frente e para trás, provocando-o com o seu membro. Eren conseguiu tirar Levi do sério.

Sem delicadeza nenhuma, Levi agarrou a bunda de Eren com ambas as mãos, fazendo-o gemer em sua boca, e o puxou para si, fazendo com que toda a região genital do garoto de chocasse com o seu peitoral rígido.

Levi!... — gritou Eren, só não sabia se era um protesto ou uma súplica.

— Você não se cansa de me provocar, não é? — disse Levi, soberbo, enquanto apertava toda a extensão da bunda de Eren, passando para as coxas e a virilha. Eren gemia a cada aperto, implorando por mais, mas o seu clamor era suprimido pela boca de Levi. — Diga, Eren, o que você quer?

Você... — Ere mal respirava; estava ofegante e inebriado.

— Aqui... — Levi o beijou duro. —... Aqui... — Comprimiu o membro de Eren no seu peitoral de novo. —... Ou aqui? — Suas mãos apertaram violentamente as nádegas de Eren.

Não importa, eu só o quero! — exigiu Eren, já se contorcendo de excitação.

Levi sorriu e o agarrou na cintura, trazendo-o para perto de novo para beijá-lo — ou melhor, devorá-lo. Suas mãos correram por toda a extensão das costas do garoto até a sua nuca, onde fazia uma massagem um tanto violenta, mas ainda sensual. Eren já tinha esquecido há muito tempo que a sua bunda doía; no momento em que Levi o beija, seu toque é tudo que importa. Sentindo a necessidade do garoto de intensificar o contato, Levi desceu as mãos para a barra da camisa de Eren e a tirou num único movimento, atirando-a em qualquer lugar. Eren estava com o ritmo cardiorrespiratório completamente descompassado.

Levi o trouxe para perto puxando-o pelas costas, suas mãos possessivas o tomavam por inteiro. Eren o abraçou pelo pescoço, deixando uma folga para que Levi movesse a cabeça e mordesse livremente toda a sua mandíbula, depois descesse os lábios pelo meio de seu pescoço, beijando seu pomo-de-adão e a região da glote, deixando-o quase sem ar.

Eren o arranhava violentamente nas costas, o que apenas incentivava Levi a continuar. Ele seguiu deixando um rasto de beijos molhados até o seu peito, parando próximo ao mamilo. Esperou até escurar Eren ofegar, pedindo por mais, para que beliscasse lentamente a auréola do mamilo com os dentes. Depois, com apenas a ponta da língua, Levi acariciou e comprimiu o bico do mamilo de Eren, já endurecido. Quando os gemidos de Eren ficaram mais altos, Levi colocou todo o mamilo na boca e o sugou forte, saboreando-o com a língua. Eren jogou a cabeça para trás e deixou que um grunhido carnal saísse pela sua garganta, excitando Levi ao máximo.

Levi, atenda a porra do seu telefone! — gritou Hanji na mensagem de voz.

Os dois estavam tão “ocupados” que nem escutaram o telefone tocando até cair na caixa postal, onde Levi deixou selecionada a opção de escutar as mensagens de voz automaticamente.

Vá à merda, Hanji... — praguejou Levi, verdadeiramente frustrado.

Mesmo sendo sua folga, você sabe que não deve desligar o caralho do celular! — Hanji continuava praguejando do outro lado da linha. — Sete cadáveres foram encontrados naquele pavilhão da zona interna de Sina, e há sinais de que houve atividade de Hitch Dreyse e Boris Feulner. — Eren sentiu o corpo de Levi se enrijecer, além de ficar meio atordoado com aquela notícia matinal tão... forte. — Agora, se você puder deixar para limpar o seu apartamento pela vigésima vez para depois, eu e o resto da população agradeceríamos muito. — Fim da mensagem.

Ambos ficaram em silêncio por um tempo. Eren não era nenhum idiota para não perceber que Levi era necessário no trabalho, seja ele o que fosse — 7 cadáveres só essa manhã?! —, e que ele tinha que ir embora. Meio à contra gosto, Eren o soltou e encolheu-se, num pedido mudo de desculpas. Levi suspirou com pesar e deixou suas mãos escorregarem para o quadril do garoto.

— Eu tenho que... —Levi começou a falar já num tom de lamento, mas foi interrompido por Eren.

— Eu sei — disse Eren, compreensivo.

O silêncio reinou novamente, e junto com ele veio um desconforto que fez com que ambos desviassem o olhar para o chão. Levi foi o primeiro a se mover, soltando a cintura de Eren e pegando a camisa do chão.

— Toma, acho que te pertence — disse Levi enquanto jogava a camisa, no mesmo tom monótono que fazia Eren se perguntar se era uma brincadeira ou não.

— Valeu... — murmurou Eren. Ele estava meio na dúvida se devia perguntar ou não, e a curiosidade falou mais alto. — Só para saber, você é...?

— Policial — respondeu Levi de imediato. Somente aquilo já era um alívio para Eren, mas já que Levi parecia bem disposto a conversas...

— Sim, mas é de uma patente alta, certo? — Eren dizia as palavras com cuidado, sempre analisando a forma como Levi iria reagir para saber quando parar.

Levi apenas arqueou as sobrancelhas, surpreso com a pergunta do garoto.

— Por que acha isso? — Levi cruzou os braços e se apoiou na parede da cozinha.

— Porque aquela mulher não te ligaria em sua folga a menos que você fosse extremamente necessário naquela situação — respondeu Eren, orgulhoso de sua lógica. Para sua surpresa, Levi também parecia bastante satisfeito.

— Seu desenvolvimento foi coerente, mas há um erro... — informou Levi, com um sorriso no rosto. Eren franziu as sobrancelhas. —... Isso não tem nada a ver com a patente de um oficial, e sim com o grau de risco de uma operação.

Sim, isso também faz sentido, pensou Eren. Se for uma operação complicada ou perigosa, toda a equipe será necessária para dar cobertura.

— Ainda assim, acho que você combina com uma patente alta — disse Eren fazendo uma cara meio emburrada por não ter acertado a posição de Levi... ou assim ele pensava.

— Você é um pirralho mesmo... — murmurou Levi, rindo.

— O que disse?

— Por que acha que tenho patente alta?

— Ah, porque... — Eren desviou os olhos e passou a mão na nuca. Levi estava começando a amar essa mania. —... Você parece que...

— Dou ordens muito bem? — disse Levi, convencido.

—... Gosta de dar ordens — Eren o corrigiu.

Levi não pôde se segurar e fez uma cara séria, e foi andando calmamente até Eren, que desviou o olhar para o lado.

— Existe outra coisa que eu também gosto de fazer além de dar ordens — Levi segurou o rosto de Eren com firmeza e o pôs de frente para si, olhando-o nos olhos.

— Sete cadáveres num pavilhão — murmurou Eren, não conseguindo tirar aquela mensagem um tanto perturbadora da cabeça.

Levi suspirou e se afastou, voltando o curso para o quarto.

— Além de excitar, ele sabe broxar... — murmurou Levi, alto o suficiente para Eren ouvir. — Impressionante.

— Isso foi ironia, Levi-san? — perguntou Eren, divertido com a atitude daquele homem baixinho.

Trate de por a sua camisa e de comer alguma coisa — instruiu Levi do quarto. — Vou te levar em casa.

— Ah, não precisa se incomodar! Eu posso...

Não me faça repetir, Jäeger ­— Levi foi autoritário como sempre. — Quase não conseguiu sair da banheira por conta própria, acha mesmo que consegue ir andando para casa?

Levi tinha razão e Eren sabia disso, só não queria admitir. Detestava quando era um estorvo para os outros, ou quando era tratado como um “incapaz”. Só que sua bunda realmente doía, e ele não tinha muita escolha. Com muito pesar, chegou a uma conclusão: não poderia transar durante as semanas do Torneio de Primavera — por algum motivo ainda desconhecido pelo garoto, aquilo o incomodou mais do que esperava.

Espero que já esteja de camisa e que esteja comendo alguma coisa — disse Levi, mais como uma ameaça do que como algo atencioso.

Eren parou no mesmo segundo de imaginar como seria as suas semanas sem sexo e procurou a camisa. Foi então que ele descobriu que pular de um balcão pode ser uma tarefa mais complicada do que parece.

— É aqui que eu moro — informou Eren, parando em frente a sua casa, do outro lado da rua.

O garoto tirou o capacete e o devolveu a Levi, que estava distraído olhando para a casa de Eren. Nunca em toda a sua vida ele conseguiria se imaginar morando em uma casa tão... grande. Não que fosse uma mansão, mas era obviamente a casa de uma família, algo desconhecido para Levi.

— É uma bela casa — elogiou Levi.

Eren se surpreendeu com os olhos brilhantes de Levi, e não pôde evitar sentir um aperto no peito. Aquela expressão poderia fazê-lo fazer qualquer coisa.

— Quer entrar? — perguntou Eren, animado com a ideia de ter Levi no seu quarto. Mas a animação não era mútua.

— Claro que não! — negou Levi de imediato, arregalando os olhos.

— Ah, sim... Você tem trabalho... — murmurou.

— Hm, isso... Por causa do trabalho... — confirmou Levi, mais para si mesmo do que para o garoto.

— Bem, então isso é uma despedida...

Eren conseguiu — de alguma forma — sair da moto e parou logo ao lado de Levi. Assim que seus olhos se encontraram, o garoto desviou o olhar para o chão e passou a mão na nuca. Um sorriso torto surgiu no canto da boca de Levi.

— Então... Como dizer... Eu...

— Você é uma porcaria nisso, não é? — disse Levi, no mesmo tom frio usual. Eren o encarou com um olhar enfezado. — Certeza de que já namorou antes?

Sim, Levi-san — Eren falava pausadamente. — Eu tenho certeza.

— Não parece.

Levi-san!

— Você tem meu número.

Eren ficou por alguns segundos encarando o rosto calmo e inexpressivo de Levi — a não ser por um pequeno traço de sorriso no canto da boca. Até que entendeu o que o homem quis dizer: “não é definitivo, você pode me ligar”.

— Ah, sim, eu não te dei o meu! — Eren, começou a procurar na mochila papel e caneta para anotar o seu telefone.

— Nós trocamos mensagens — disse Levi, achando engraçada a reação do garoto. — Eu já tenho o seu número.

— Ah... é mesmo... — Eren passou a mão pela nuca.

Levi o analisou de cima a baixo, o que deixou Eren ainda mais constrangido. Graciosamente, Levi passou a perna por cima da moto e andou até a frente do garoto. Segurou o seu queixo e fez com que olhasse nos seus olhos.

— Por que está tão nervoso?

Eren suspirou profundamente. Não queria pagar de “menininha carente”, mas também não achava que tinha algum coeficiente para contar alguma mentira.

— Nunca namorei um cara antes...

— Não sabia que estávamos namorando — Levi o cortou no mesmo instante.

Eren ficou pálido, certamente não esperava aquela resposta. Além do mais, se culpava por ser tão idiota e ter apressado as coisas — deveria saber melhor do que ninguém que não se fala de relacionamento após uma foda. Levi percebeu o estado meio estático do garoto, mas também não sabia o que fazer... Eren o tinha deixado sem reação. Não esperava que o garoto fosse falar de namoro agora, coisa na qual ele não estava nem um pouco interessado. Mas, para falar a verdade, também não estava interessado em homens, e mesmo assim...

— Acho que vou indo. — A voz de Eren era trêmula e falha, o que expunha ainda mais o seu nervosismo.

O garoto se virou para correr e atravessar a rua em direção à sua casa. Estava tão angustiado que nem percebeu o carro passando justamente no momento em que foi atravessar, e teria sido acertado em cheio... Se não fosse o par de mãos firmes em sua cintura, puxando-o para trás.

— O que pensa que está fazendo? — grunhiu Levi em suas costas.

Mesmo que o carro já tenha ido embora, Levi continuou o segurando por mais alguns segundos silenciosos.

— Você é sempre tão imprudente assim? — Levi tentou quebrar o gelo. Mas não houve resposta de Eren; ser salvo pelo cara que claramente o “rejeitou” não era exatamente o que ele queria.

Levi desceu as mãos lentamente até o quadril de Eren, aproveitando cada parte da trajetória. Assim que chegou no lugar onde os ossos do quadril eram mais salientes, deu um leve aperto que arrancou um gemido baixo de Eren; era o que Levi queria escutar. Com as mãos ali mesmo, Levi o girou e o forçou a ficar de frente para ele, olhando-o nos olhos. Os lábios de Eren estavam entreabertos, e sua respiração era vacilante: tudo nele convidava Levi a beijá-lo... a não ser a deslumbrante casa de família logo atrás do garoto.

Pare de agir como uma garotinha mimada e simplesmente me ligue quando quiser transar de novo — disse Levi, direto e frio.

Eren hesitou por alguns segundos — tinha a certeza de que Levi o beijaria —, mas logo tratou de assentir com a cabeça. Levi deu uma rápida revistada em volta e, tendo a certeza de que não havia ninguém os observando, puxou o queixo de Eren para baixo e deu um rápido, mas ainda quente, selinho de despedida e partiu para a moto. Eren ficou apenas observando a tudo; certamente não esperava mais receber qualquer carinho de Levi — na verdade, tinha a certeza de que tinha estragado tudo quando Levi o comparou a uma “garotinha mimada”. Levi deu uma última olhada em Eren — ele era bonito o suficiente para fazer valer a pena olhar — e então colocou o capacete preto na cabeça. Com uma torcida brusca na manopla do acelerador, Levi fez com que o motor e o pneu cantassem um dueto animalesco, enquanto sumia no final da rua. Eren estava sem ação.

Eren! — gritou uma voz muito conhecida pelo garoto.

Ah, não! Não agora!, praguejou o garoto mentalmente quando reconheceu aquela voz. Eren não queria nem se mexer, acreditando que se não correspondesse, não seria reconhecido.

Eren, meu filho, entre logo! — insistiu Carla, gritando da porta da casa.

A última pessoa que Eren queria que o visse naquele momento era a sua mãe. Lentamente, até porque ainda sentia um incômodo no traseiro, ele se virou para acenar para a mãe e dar um sorriso amarelo. Pelo amor de Deus, que ela não tenha visto o selinho, era o que o garoto repetia como um mantra.

Carla fez um gesto nervoso com a mão, chamando-o para dentro de casa. Dando um longo suspiro, Eren atravessou a rua de mão dupla e foi até a mãe, ainda mancando um pouco por causa da dor.

— Filho, aconteceu alguma coisa com você? — perguntou Carla enquanto colocava gentilmente uma das mãos nas costas do filho, guiando-o para dentro de casa. — Por que está mancando?

— A-ah, sabe o que foi, mãe? — Eren se segurou para não fazer a mania da mão de novo. — É que... eu caí! — Ele fingiu uma cara de pesar.

— Caiu? — Carla estava desconfiando daquilo, até porque notou pela forma como o garoto andava que a dor era na região do cóccix, e não em um dos pés. — Como foi isso?

Como foi? Hm... Eu caí, é claro... — Eren estava queimando todos os neurônios para pensar em algo descente. —... Caí da escada.

— Escada?

— Aham, caí bem de bunda, sabe? — Eren virou a bunda com algum esforço e mostrou o local para a mãe. — Bem aqui, fui quicando uns cinco degraus.

— Poxa, filho, que coisa est...

— É, pois é, uma pena — ele a interrompeu, louco pra mudar de assunto. — Desculpa não ter te respondido, é porque o barulho da moto... — Eren se calou no mesmo segundo. Ótimo, fujo de um assunto sobre Levi para começar outro assunto sobre Levi. Maravilha.

— Ah, a culpa não é sua, é daquele louco com a moto — resmungou Carla, olhando para a rua.

— É, louco mesmo... — suspirou Eren com um sorriso, lembrando-se do arriscado selinho de despedida.

A mãe deu uma rápida analisada na feição distraída do garoto, com o cenho franzido.

— Você o conhecia?

— O quê? — Eren se fingiu de desentendido.

— Conhecia aquele homem?

Do que você está falando? Pfff, claro que não! — Por mais que o garoto tentasse, ele era péssimo com mentiras, principalmente quando era para sua mãe.

Carla apenas arqueou as sobrancelhas; além da encenação terrível e da despedida duvidosa do filho antes de “ir para a casa de Armin”, as orelhas de Eren estavam iguais a dois pimentões. Ele notou que sua mãe não estava acreditando nem um pouquinho naquela história, então partiu para o Plano B: mudar de assunto.

Ai, ai, ai! — gemeu Eren, colocando a mão na lombar. — Cara, isso está doendo tanto...

— Poxa, filho... — suspirou Carla, sem saber o que fazer. — Será que está roxo? — Ela começou a levantar a camisa de Eren, mas foi impedida pelas mãos do mesmo.

— O que importa não é a cor que está, mas sim a dor que eu sinto.

— Mas...

— Vamos fazer o seguinte: eu vou para o meu quarto deitar enquanto você procura a bolsa térmica e enche ela de gelo, ok?

Carla o olhou por um tempo, pensando se devia acreditar naquela história, mas acabou cedendo; se fosse verdade, não podia deixar o filho como estava.

— Tudo bem. Precisa de ajuda para subir as escadas?

— Não, não, eu consigo me virar.

Uma última consideração e Carla partiu para a cozinha, ainda desconfiada daquela história. Eren não perdeu tempo e foi o mais rápido que a sua dor permitia para o quarto, rezando para que a mãe relevasse tudo que aconteceu naquele final de semana. Quando finalmente caiu de bruços na cama, percebeu o que tinha acontecido com ele: tinha transado com um homem. Praticamente, um estranho. E ainda por cima, um policial. E tinha sido a melhor foda de sua vida.

Eren ficou sorrindo como um bobo, sozinho. Nunca tinha ficado tão feliz depois de uma “boa noite de sono”. Mas então sentiu um aperto no peito; quase tinha feito uma besteira da despedida, falando coisas desnecessárias. Eu e minha mania de falar o que dá na telha... Eu devo ter parecido um idiota. Foi um alívio receber aquele último selinho. Estava decidido: não iria falar com Levi até que Levi viesse falar com ele. Não iria mais fazer o papel de “carente” da relação, de forma alguma. Afinal de contas, era Eren Jäeger.

No meio de seu diálogo interior, Eren sentiu algo na sua cama vibrar. Foi até a sua mochila, jogada ao seu lado, e catou o celular no meio daquela bagunça. Inevitavelmente, um raio de esperança atravessou o peito de Eren, acreditando ser Levi. Mas não; era Armin. Claro que não era Levi-san, repreendeu-se. Está muito cedo para isso...

Olhando melhor, havia 12 chamadas perdidas de Armin. Aquilo era estranho; ele não era muito de ligar, então com certeza era uma emergência.

— Armin? — atendeu Eren, já nervoso. — Aconteceu alguma coisa?

Finalmente consegui falar com você! — respondeu Armin, exasperado. — Teve notícias de Connie?

— Connie? — Um flashback do que aconteceu no intervalo da sexta passou pela cabeça de Eren, deixando-o ainda mais alarmado. — Aconteceu alguma coisa com ele?

Não, mas é esse o problema — suspirou Armin. — Ontem, Sasha disse que ele estava agindo meio estranho no último horário da sexta, e que quando foi tentar falar com ele, ele já tinha ido embora.

— Hm... Connie realmente estava esquisito.

O problema não é esse — continuou. — Quando Sasha o encontrou, ela disse que o viu com um grupo de garotos estranhos e encapuzados, exatamente...

—... Como aqueles que a gente viu no intervalo — concluiu Eren. — Tem algo de errado nessa história.

Connie está me preocupando... — lamentou Armin. — Por sinal, estou surpreso que você ainda esteja vivo.

— Como assim?

Sua mãe ainda não te deu uma bronca?

Eren sentiu o coração bater mais forte.

— Por que ela faria isso? — Silêncio do outro lado da linha. — Armin, o que você...

— Eu não tive culpa! — balbuciou Armin. — Ela me ligou ontem perguntando por você!

— Ah, não... — gemeu Eren, passando a mão pelo rosto. — E o que você disse?

Ora, disse que...

— Eren? — A voz de Carla fez com que o coração de Eren falhasse. — Com quem está falando?

Quando Eren se virou, viu a mãe parada na soleira da porta, com um sorriso doce, calmo e ameaçador.

— C-com Armin, mãe... — gaguejou.

— Ah, Armin? — seu tom de voz era irônico. — Bom saber...

Ela não precisava dizer mais nada; Eren sabia que estava enrascado.