Vazio
16 Desacerto
Notas iniciais
— Eu juro que, se minhas costas não doessem tanto, você estaria acabado agora — murmurou Eren, com a cabeça apoiada na sua mesa.
— Eren, desculpa... — Armin sentia-se realmente culpado por ter encrencado o amigo. — Eu não pensei que sua mãe fosse descobrir tão rápido...
Graças à língua nervosa de Armin, Eren estava de castigo por uma semana por ter mentido para a mãe: não poderia sair de casa a não ser que fosse para o colégio ou fosse um pedido da mãe. Embora tenha sido estranho Carla ter apenas anunciado o castigo da porta do quarto, sem sermão nem nada, Eren não iria reclamar; quanto mais rápido ela pudesse esquecer aquela história, melhor.
— O que exatamente você disse a ela? — perguntou Eren, virando o rosto para poder olhar para Armin.
O garoto loiro não suportou aquele olhar inquisidor de Eren, e virou o rosto.
— B-bem... — Armin apertava uma mão na outra, nervosamente, apoiando-as sobre o colo. — Ela ligou querendo saber de você, pois achava que você estava meio estranho quando saiu de casa. — Bem, isso é verdade, pensou Eren. — Daí, eu disse que você não poderia atender, e ela perguntou o porquê. Eu não soube como responder, então só disse que você não estava em casa...
— Mas que porra, Armin! — praguejou Eren, fazendo com que as pessoas em volta parassem para olhar para ele. Diminuindo o tom de voz, mas não a sua raiva, Eren rosnou: — Você me entregou de bandeja!
— Calma! Eu não terminei! — suplicou Armin, levantando as mãos em rendição. — Eu disse que você tinha saído para comprar alguns lanches para a gente na loja de conveniência!
Aquela era uma desculpa razoável, Eren teve que confessar.
— Mas, ainda assim, eu iria voltar alguma hora, isso não a tiraria do meu pé.
— Por isso te liguei tantas vezes — murmurou Armin. — Se você ligasse para sua mãe, de onde quer que estivesse, e dissesse que estava na rua a caminho da minha casa e a acalmasse de uma vez, talvez ela não suspeitasse de que tinha algo errado.
Ok, esse tinha sido um bom plano, admitiu Eren. Puts, por que eu não atendi o celular?!, lamentou. Até que se lembrou de sua noite, De Levi o chamando pelo nome, de como foi acordado, do banho de banheira, do café da manhã — quase — sexy... É, faz sentido eu não ter atendido o celular.
— Ah, que droga... — murmurou o garoto moreno e escondeu o rosto entre os braços cruzados sobre a mesa.
A agonia que Eren sentia naquele momento era inexplicável. Não sabia quando — ou se — Levi ligaria, e, mesmo que ligasse, não poderia vê-lo. Como tudo pode dar errado de uma vez só?, perguntava-se o garoto. Em meio ao seu lamento, Eren sentiu uma pancada leve na nuca, fazendo-o contrair os músculos das costas... o que doeu mais do que o “normal”.
— Ai! — gritou Eren, erguendo-se com uma mão na nuca e outra nas costas. — Mas que porra...?
— Ah, qual é! — riu Jean, parado ao seu lado com as mãos repousadas no quadril. — Desde quando você é um fracote sem graça? Eu nem bati forte!
— O problema não foi o seu tapa, idiota — grunhiu Eren. — Minhas costas estão doendo pra caralho.
Jean arregalou os olhos e calou-se. Eren parecia mais estressado que o normal, e Jean sabia muito bem que não era uma boa ideia mexer com ele quando estava nesse humor. Jean olhou para Armin, como se perguntasse “O que deu nele?”, mas Armin apenas arqueou os ombros e negou com a cabeça.
— O que... O que aconteceu para as suas costas doerem tanto? — perguntou Jean, hesitante.
Eren olhou para Jean com um pouco de irritação, depois franziu o cenho para Armin e murmurou:
— Eu caí da escada na casa de Armin... — murmurou, ainda encarando o menino loiro. — Cinco degraus.
Armin apenas engoliu em seco e rezou para que algo grande acontecesse para tirar a atenção de Eren desse assunto logo...
— Sério, o que deu em você ontem? — resmungou Hanji para o homem baixinho ao seu lado, que apenas a ignorou. — Você acabou não me contando por que não atendeu o celular, nem o telefone de casa.
Levi revirou os olhos e continuou a vistoriar o depósito onde foram encontrados os cadáveres, procurando por evidências ou rastros dos criminosos.
— Não adianta insistir, Hanji-san — murmurou Eld, num tom apologético.
— Se vocês têm tempo para ficar falando besteira, então tratem de achar algo de relevante para a operação — reclamou Levi, saindo de perto dos dois para investigar outra área mais deserta.
Hanji o observou se afastar, considerando se ia atrás ou não, mas acabou soltando um suspiro de desistência. Eld percebeu a reação da mulher e sorriu.
— Você nunca desiste do Rivaille Heichou, não é? — disse Eld, com a voz morna.
— Pode não parecer, mas nos conhecemos há muito tempo... — respondeu nostálgica, lembrando-se de quando viu Levi pela primeira vez. — Acho que ele sempre teve esse jeito meio enfezado — riu.
— Ouvi dizer que os únicos que chegaram a conhecer o Heichou antes de se entrar para o Escritório de Investigação Policial foram você, o diretor Smith e o vice-diretor Zacharius. — Eld analisou a reação de Hanji para ver se estava sendo intrometido demais, mas ela não parecia se importar. — É verdade que ele ass...
O barulho de dois disparos fez com que Eld se calasse.
Todos os oficiais no local paralisaram olhando para onde vieram os tiros... Onde Levi estava. Hanji foi a primeira a correr até onde o homem baixinho estava, e eis que se depara com a cena: Levi, com cara de nojo profundo, apontando uma arma para o chão, onde um animal permanecia imóvel deitado em uma poça de sangue.
— Levi, não me diga que...
— Você sabe que odeio ratos — Levi a cortou, já guardando a arma e checando se gotas de sangue haviam pingado em sua calça. — Faço questão de matar qualquer um que encontro, mesmo não gostando de mortes desnecessárias.
— Alarme falso! — gritou Eld para os outros oficiais, que já se preparavam para agir, com as armas nas mãos. Um murmúrio uníssono de decepção e reprovação ecoou no depósito.
— Sinceramente, Rivaille, eu não sei como... — Hanji suspirou.
— Shh. — Levi colocou o indicador na frente da mulher, sinalizando que se classe.
— Você está fazendo “shh” pra mim?
— Shh! —pediu mais uma vez, só que agora usando toda a mão para tapar a boca de Hanji.
Eld não se atreveu a fazer nem mais um ruído. Levi sacou a arma e andou meio agachado por entre as estantes cheias de coisas diversas.
— Se isso é para matar outro rato... — cochichou Hanji para Eld, que se segurou para não rir. Levi os encarou com seu olhar mais frio e irritado, que até mesmo o coração de ambos tratou de bater mais fraco.
Levi adentrou ainda mais por entre as estantes, indo a locais cada vez mais escuros. À medida que avançava, o barulho de um gemido baixo e estrangulado ficava mais evidente. Um calafrio desceu pelas costas de Hanji. Tanto ela quando Eld sacaram as suas armas e continuaram seguindo Levi cuidadosamente, até que ele parou.
— Hanji? — A voz de Levi estava num tom normal, mas parecia vaga, distante.
— S-sim? — disse Hanji, com hesitação.
— Quantos cadáveres você disse que tinham encontrado?
— Quantos? — Hanji franziu o cenho, sem entender. — Se não me engando, foram sete...
— Acho que já podemos subir esse número para oito.
Levi guardou a arma e adotou uma postura ereta, mas tensa. Hanji e Eld, ainda sem entender muita coisa, o imitaram e foram até onde ele estava. Logo abaixo de uma estante caída com uma pilha de caixas e objetos estranhos estava o corpo de um homem de meia-idade, com cabelos loiros sujos de poeira e sangue seco. Suas mãos tremiam, e embora apenas a parte superior de seu corpo fosse visível, dava para perceber que ele estava muito ferido.
— Heichou, o que foi que... — Petra apareceu correndo meio afobada, seguida de Oluo e Gunther, todos alarmados por causa dos tiros. — Heichou...?
O grupo ficou parado encarando o quase cadáver se debater no chão. Eld e os outros aguardavam ordens de Levi, indecisos se deveriam retirar o corpo ou não, já que o próprio Levi não tomava ação nenhuma. Hanji não esperou; deu alguns passos em direção ao homem ferido, mas foi impedida pelo braço estendido de Levi, empatando seu caminho.
— É melhor deixá-lo aí — disse Levi, encarando fixamente o homem deitado. — Vai ser bem melhor se ele simplesmente “sumir”.
— O que você... — começou Hanji, mas foi impedida por um olhar assombroso de Levi.
Hanji recuou, planejando informar a Erwin sobre a situação, mas parou assim que escutou ganidos vindos do ferido.
— Ri... va...
— Oh, ainda possui fôlego o suficiente para falar? — Levi aproximou-se do homem e agachou à sua frente. — Nada mal, pedaço de merda.
O ferido, percebendo que Levi estava perto, debateu-se mais ainda, arranhando o chão para tentar chegar até ele.
— Ri... vai... lle... — o homem conseguiu dizer, com esforço. — Vá... pro... inferno...!
Levi o olhou com desgosto, como quem olha para uma barata debatendo-se em seus últimos minutos após ingerir veneno. Não hesitou em puxar a sua arma; além de achar aquela cena decadente, acreditava que seria melhor para o homem morrer de uma vez do que permanecer naquela situação dolorosa. Porém, assim que colocou o dedo no gatilho, Petra avançou para o seu braço, puxando-o para trás.
— Heichou, não!
— Petra — repreendeu Levi, rígido.
— Heichou... — A voz de Petra era quase um lamento. Ela olhou de Levi para o homem, depois para Levi de novo. — Ele já está morto.
De fato, o corpo estava imóvel. Levi soltou-se do aperto de Petra e foi até o cadáver checar por si mesmo.
— Hanji — ele chamou. A mulher o olhou séria. — O nome dele era Kyle O’Brian, ele pertencia à White Snake.
— Aquela gangue que estava causando problemas na zona norte? — perguntou Eld.
— Exato, aquela que a Agência Federal de Investigação estava atrás.
— Isso não faz sentido... — murmurou Petra. — Hitch Dreyse e Boris Feulner foram vistos na cena...
— Eles não foram vistos, essa foi apenas uma pista ainda não confirmada — corrigiu Eld.
— Ainda assim, eles fazem parte da Yakuza. — Gunther tinha chegado à mesma conclusão de Petra. — Os dois grupos não estavam trabalhando juntos?
— Não é assim que funciona — disse Levi.
— A parceria acaba assim que uma das partes descumpre com o acordo. — Hanji olhou fixamente para Levi, e ele sabia o que ela queria dizer. — Erwin precisa saber...
— Ainda não — Levi a cortou, dando meia volta e dirigindo-se à saída. —Eu ainda posso...
Estava tão apressado que não percebeu que Nile Dok, um dos líderes de equipe da AFI — Agência Federal de Investigação —, estava parado bem à sua frente.
— Pode o quê, Rivaille-san? — disse Nile com um sorriso sarcástico em seus lábios.
Levi só fez o que sempre fazia quando se encontrava com ele: o encarou desdém, dizendo claramente com a sua expressão que desejava que ele simplesmente desaparecesse.
O sinal finalmente tocou. Eren não queria ficar nem mais um segundo naquela cadeira dura; podia ser chato ficar de castigo, mas tinha que admitir que o ideal era descansar em casa para poder treinar para os jogos do torneio. Lentamente, foi levantando-se e pegando as suas coisas.
— Caiu mesmo da escada?
Eren se virou, meio assustado com a aparição repentina de Mikasa.
— O que quer dizer com isso?
— Só acho estranho... — Mikasa se aproximou de Eren, ficando a um palmo de distância. Sabia que, dessa forma, um olhar intimidador seria mais efetivo. — Não faz muito o seu estilo.
— Não conheço ninguém que caia da escada por hobby — disse Eren, tentando aliviar o clima, mas Mikasa só o olhava com aquele olhar frio... parecendo alguém que ele conhecia. — O que mais poderia ter acontecido?
— Você quem me diz.
Os dois ficaram se olhando por um tempo. Eren estava prestes a ceder quando Mikasa suspirou e pegou a mochila dele de sua mesa.
— Isso deve estar pesado.
— Você não precisa fazer isso, eu...
— Você sabe se virar sozinho, eu sei. — Mikasa revirou os olhos e pôs a mochila nas costas, pendurando-a no ombro livre de sua própria bolsa. — Mas, se somos amigos, não custa nada ajudar.... não é?
Ela o olhou com olhos brilhantes e esperançosos. Eren sabia que negar só o traria mais problemas, e, querendo ou não, aquela ajuda era muito bem-vinda. Com um suspiro, o garoto fez que sim com a cabeça.
— Só porque eu realmente estou acabado...
Mikasa sorriu para ele, um daqueles sorrisos raros que a fazia parecer — finalmente — ter a sua idade, pois sempre tinha a aparência de mais velha graças aos seu rosto quase sempre frio e inexpressivo. Eren estava quase feliz por ter aceitado a ajuda. Os dois caminharam juntos, conversando sobre qualquer coisa que viesse à cabeça, até que encontraram Annie encostada no portão principal do colégio.
— Parece que você não vai ao treino hoje — disse a garota loira, desencostando-se do muro. — Poderia ter ido à reunião avisar, não?
— Pedi a Jean para fazer isso por mim — respondeu Eren, parando em frente a Annie.
Ambos encararam-se por um tempo, numa conversa muda: Eren tentava entender o que era aquela atitude incomum de Annie, enquanto Annie procurava algum sinal em Eren de que ela ainda o afetava de alguma forma. O “diálogo” só foi interrompido quando Mikasa apressou-se e ficou ao lado de Eren.
— Vamos? —perguntou Mikasa, ignorando Annie.
— Sim... Vamos embora. — Eren deu um último olhar para Annie, num misto de dúvida e de pesar, e seguiu com a amiga a caminho de casa.
— Eren — Annie o chamou, fazendo-o virar-se para ela. — Eu...
— Desculpa, Annie. — Eren não demorou muito; já estava virando-se para voltar a andar. — Eu tenho que ir.
Annie o viu se afastar com um aperto no peito. Lembre-se de sua escolha, Annie, dizia a si mesma. Não dê para trás agora.
— Tentei evitar isso — disse a garota loira, quase que num lamento. — Juro que tentei.
Eren a olhou mais uma vez, confuso com aquela declaração repentina. Não sabia se ela estava falando do término ou de qualquer outra coisa.
— Agora, é por sua conta... Isso se você se importa. — Dito isso, a garota partiu.
Annie parecia mais abalada do que o normal.
Não, não estava tudo bem, e Eren sabia disso. Só não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, nem do que ela estava falando. Subitamente, a imagem de Reiner e Bertolt apareceu na sua cabeça, e algumas peças foram começando a se encaixar.
— Está tudo bem? — perguntou Mikasa quando notou que Eren estava imóvel mesmo depois de Annie ter saído.
— Aham, está sim — murmurou Eren. — Onde estão os seus pais?
— Devem estar no sul por agora. Por quê?
— Porque estava mesmo precisando de alguém para jogar Mortal Kombat.
Mikasa se surpreendeu com o convite; fazia tempo desde a última vez que ele a chamou para fazer alguma coisa.
— Mas você não estava de castigo?
— Eu não posso sair de casa, você não tem ninguém para ficar contigo; eu não quero jogar videogame sozinho, você não pode dormir sozinha numa casa tão grande... — Eren deu de ombros. — Parece que nós temos interesses em comum.
Mikasa sorriu e levantou uma sobrancelha para ele.
— E quem disse que eu não posso dormir sozinha na minha própria casa?
— Mas numa casa vazia? Não é apropriado para uma dama — brincou Eren, fingindo estar falando sério.
— Também não é apropriado para uma dama dormir na casa de um cavalheiro. — Ela entrou no clima da brincadeira.
— Não se considerar que você é praticamente da família.
Mikasa se surpreendeu com aquela declaração repentina. Sabia que ele a considerava da família, mas derretia seu coração toda vez que ouvia isso dele, já que era algo muito raro.
— E aí, você vem?
Ela sorriu e fez que sim com a cabeça; não tinha como negar aquele pedido.
Uma reunião de emergência foi marcada para aquela tarde, graças à descoberta do corpo de um dos membros da White Snake no local do crime. Ou melhor, era uma reunião de última hora para discutir a conduta do Oficial Rivaille, uma vez que Nile Dok o acusou de ter assassinado uma testemunha que podia ter contribuído com informações valiosas sobre o ocorrido no depósito. “A menos que haja algo que Rivaille-san não queira que algo seja descoberto”, como disse Nile.
Erwin e Levi já se encontravam na sala de reunião, uma sala retangular consideravelmente pequena, com apenas uma mesa oval de madeira escura com dez cadeiras de igual constituição. As paredes eram todas brancas, com exceção da parede em frente à porta, que, assim como o escritório de Erwin, era toda de vidro com vista para a cidade. Erwin estava sentado na ponta da mesa mais próxima à porta, os braços apoiados em cima da mesa e as mãos entrelaçadas. Já Levi, estava de pé em frente à parede de vidro, seus braços estavam cruzados e sua mente vagava por entre as ruas e avenidas.
— No que raios estava pensando? — questionou Erwin.
— Estava pensando em resolver isso de uma forma que não envolvesse você ou a agência ou qualquer um desses órgãos burocráticos e irritantes — respondeu Levi parecendo realmente entediado.
— Então eu sou irritante para você? — falou com um tom de voz mais fragilizado, o qual só mostrava para poucas pessoas.
Erwin ficou em silêncio, esperando uma resposta. Levi suspirou; sabia aonde Erwin ia chegar naquela conversa, e não estava nem um pouco a fim de tê-la.
— Sabe que eu não estou falando disso — respondeu Levi, duro e frio como gelo, fazendo Erwin recuar e mudar o rumo da conversa.
— O que planejava fazer? — Sua voz já tinha voltado ao tom sério de diretor de novo.
— Resolver por debaixo dos panos, como sempre.
— Nós não já combinamos que você não poderia fazer as coisas dessa forma?
— Não, combinamos que eu deveria tentar diminuir o número de mortos — corrigiu Levi. — Mas, se eu não estiver na posição de oficial, a contagem não é válida.
— Ainda assim, é um plano muito arriscado, sabendo que a AFI está trabalhando nesse caso também.
Levi se virou para Erwin, encarando-o nos olhos, pois sabia o efeito que tinha sobre ele. Os dois permaneceram daquela forma até que a porta fosse bruscamente aberta, e dela aparecessem Nile e seu vice-diretor, Dennis Eibringer, Hanji e Darius Zackly, Comandante da Polícia Militar — que supervisionava tanto o trabalho dos diretores de agência de investigação estadual quanto como federal.
— Estamos interrompendo alguma coisa? — perguntou Nile, irônico.
Levi se limitou a desprezá-lo, como sempre. Erwin tratou de se levantar e recebê-los adequadamente. Enquanto ele cuidava das formalidades, Hanji foi até Levi rapidamente.
— Que bela bagunça que você arrumou dessa vez, hein Raviolle — cochichou Hanji, segurando o sorriso.
Levi apenas arqueou uma sobrancelha para ela e sentou-se em uma das cadeiras mais próximas de Erwin, como sempre, enquanto Hanji sentou-se na cadeira ao seu outro lado. Darius tomou a cadeira da cabeceira e acomodou-se, retirando da pasta negra que trazia consigo os papéis com as informações necessárias para a reunião, e Nile e Dannis sentaram nas cadeiras em frente às de Erwin e Levi.
— Bem, já que estamos todos aqui, que comecemos a discussão sobre o caso na região de Sina.
— Com certeza, Zackly-san — disse Nile, retirando da sua própria pasta as informações que selecionara importantes. — Gostaria de começar logo com a descoberta do corpo de Kyle O’Brian, membro da White Snake, gangue a qual estamos atrás há meses e que o oficial Levi Rivaille assassinou sem hesitação.
— Você realmente não tem mais o que fazer — murmurou Levi.
— Na verdade, isso faz parte do meu trabalho — respondeu Nile.
— Não sabia que a sua agência estava tão desocupada — devolveu Levi.
— Vocês dois — chamou Dorius —, concentrem-se na reunião. — Ambos se calaram, dando vez para que Dorius continuasse. — Rivaille-kun, você nega ter apontado uma arma para O’Brian?
— Apontar uma arma não significa atirar — resmungou Levi. Assim que terminou de falar, sentiu um chutão no seu pé esquerdo, e quando olhou para o lado recebeu um olhar reprovador de Erwin. Relutante, concluiu: — Não, eu não nego ter apontado a arma para um possível suspeito o qual fazia parte de uma gangue criminosa.
— Ah, claro, um homem que já estava praticamente morto no chão... — zombou Nile.
— Bom saber que você também concorda que o homem estava praticamente morto — disse Hanji, sorrindo para Nile, que a encarou surpreso.
— E que foi finalizado com um ato cruel de Levi — devolveu Nile.
— Não me lembro de ver nada nos relatórios da perícia sobre marcas de tiro ou algo do tipo — Hanji estava segura de que iria pegá-lo.
— Ah, mas quem disse que eu o estava acusando de atirar? — Se cobras sorrissem, seria igual ao sorriso de Nile naquele momento. — Nada nos garante que ele não pressionou a pilha de objetos que o cobria para que apressasse a sua morte.
Hanji o fuzilou com os olhos.
— Isso já está ficando absurdo... — murmurou Levi, apertando a ponte do nariz.
— Zackly-san — Hanji o chamou—, gostaria que levasse em consideração as declarações dos outros presentes, eu inclusa, que confirmam que Rivaille não agrediu de forma alguma a vítima.
— Sim, estou ciente disso — disse Darius. — Dok-kun, tem alguma ressalva a fazer?
— Acho que a declaração não é válida, já que é da equipe do próprio Rivaille.
— E por que não seria válida? — questionou Hanji.
— É óbvio que é uma declaração tendenciosa para não prejudicar o líder deles.
— Se você não pode confiar em uma declaração feita por oficiais da polícia, independente de qual grupo eles pertençam, então eu não sei mais onde depositar fé — interveio Erwin.
— Eu deposito minha fé em meus próprios sentidos — rebateu Nile. Erwin franziu a sobrancelha, dando passagem para que Nile continuasse. — Não pude deixar de ouvir o próprio Rivaille dizer que... — Nile catou um de seus papéis e leu em voz alta: — “Deixe-o; seria melhor se ele simplesmente sumisse”.
Erwin fuzilou Levi com o olhar, como se dissesse “Por que não me contou sobre isso?!”.
— Lendo uma frase fora de contexto, até mesmo uma santa seria criminosa — devolveu Levi, pressionado por Erwin.
Um clima tenso pairava na sala. Dennis entregou outro papel a Nile e cochichou em seu ouvido, fazendo-o sorrir.
— Tenho mais uma ressalva a fazer. — Nile estava confiante. — Vocês dizem que Rivaille não o agrediu em momento algum, mas por acaso agressão verbal não conta?
— Como assim? — quis saber Darius.
— Talvez isto não esteja constado no relatório que lhe entregaram, mas eu ouvi claramente um diálogo entre Rivaille e O’Brian, que o reconheceu assim que se aproximou.
— E o que exatamente isso tem a ver? — perguntou Erwin.
— Zackly-san — Nile ignorou Erwin propositalmente —, também não acha estranho um gangster ter reconhecido Rivaille tão facilmente?
— Eu trabalho com casos especiais, a maioria se trata de gangues, assassinatos em série ou então crimes relacionados a política — disse Levi, ainda parecendo entediado. — Não me surpreende que aquele sujeito me reconheça.
— Ainda assim, isso não explica como a maioria dos casos seja resolvida por um passe de mágica quando você está envolvido, e o culpado simplesmente apareça em condições debilitadas ou até mesmo morto.
— Está mesmo questionando a forma como eu trabalho? — disse Levi, com o seu olhar mais afiado. Nile não pôde evitar recuar.
Três batidas na mesa foram ouvidas.
— Já chega, vocês dois — interveio Darius. — Dok-kun, você já está extrapolando o caso em questão.
Dannis pensou em discordar, em defesa de seu chefe, mas Nile o impediu dando um apertão em seu braço.
— Rivaille-kun, não é a primeira vez que seus métodos são questionados por seus colegas — continuou Darius. Levi não respondeu; apenas continuou prestando atenção. — Eu não duvido de suas habilidades, tenho a certeza de que você é um dos melhores oficiais que Erwin poderia ter a seu comando.
— Obrigada, Zackly-san — agradeceu Erwin, respeitosamente. Aquilo fez com que Nile torcesse o nariz.
—... E é justamente por isso que eu acho que esse caso será uma boa oportunidade para você — concluiu Darius.
Todos na sala franziram o cenho, não entendendo do que se tratava.
— O que quer dizer? — perguntou Levi.
— Não há dúvidas de que a gangue que a ANI está procurando está envolvida, mas também há a chance de a Yakuza estar envolvida, que é problema de vocês.
Nile percebeu do que se tratava a ideia de Darius.
— Mas só é um palpite que a Yakuza está envolvida! — disse Nile.
— E é justamente por isso que eu quero deixar esse caso nas mãos do Escritório de Investigação Policial de Shiganshina também. Acho que você está ciente, Dok-kun, do porquê de a Yakuza não ser mais um caso da ANI.
Com aquilo, Nile se calou e não questionou mais nada.
— Ainda não entendo como isso pode ser uma boa oportunidade — questionou Levi.
— É a sua chance de provar que você trabalha como qualquer outro oficial, e o fará ao lado de Dok-kun.
Levi e Nile se olharam e não conseguiram evitar torcer o nariz; o desgosto era mútuo.
— De fato, é uma oportunidade muito boa para livrar a sua fixa não muito boa, não é, Levi-kun? — disse Erwin, repreendendo-o com o olhar de novo.
Levi apenas suspirou, sabendo que aquilo significava trabalho dobrado.
— Ah, foi uma ótima reunião, cavalheiros — disse Darius, levantando-se e guardando os papéis.
Nile pigarreou e levantou-se, estendendo a mão do outro lado da mesa para Levi.
— Será um prazer trabalhar contigo, Rivaille-san — disse, meio desgostoso.
Levi não podia ignorar aquela formalidade — não na frente de Darius —, então se viu forçado a aceitar aquele aperto de mão. Ele preferiu não imaginar se Nile era do tipo que lavava as mãos após usar o banheiro.
— Igualmente — respondeu, tentando se livrar do aperto de Nile o mais rápido possível.
— Ótimo ver que os dois estão dispostos a cooperarem — disse Darius, sem realmente parecer se importar. — Agora, se me dão licença...
Darius fez um rápido cumprimento com a cabeça, acompanhado por todos, e se retirou da sala. Logo em seguida, Nile e seu vice, Dannis, deixaram a sala também — não sem antes dar um olhar mal-encarado para Levi.
— Ah, de alguma forma, conseguimos... — suspirou Erwin, bem mais relaxado.
— Tsc, aquele bastardo gosta de comprar briga... — murmurou Levi.
— Levi — Erwin o chamou, a voz urgente, fazendo-o virar-se. — Preciso que você se comporte.
— Eu não sou um cachorro, Erwin — reclamou Levi, de volta a seu tom monótono.
Erwin sorriu para Levi e, dando uma rápida olhada para o lado para checar se Hanji ainda estava na sala — o que era o caso —, aproximou-se de Levi o suficiente para segredar-lhe:
— Não, você está mais para uma pantera.
Levi sentiu um arrepio na espinha. Aquela reação foi satisfatória para Erwin, que pegou a sua pasta em cima da mesa e partiu para a porta.
— Sinto muito, mas ainda tenho trabalho a fazer, então vou na frente. —E sumiu pelo vão da porta.
Levi estalou a língua e andou na direção contrária, indo até a parede de vidro.
— Você e o diretor são muito próximos, não é? — perguntou Hanji quando chegou ao lado de Levi.
Ele não respondeu nada, apenas ficou admirando a vista do alto da cidade. Hanji já esperava por isso; ela abriu a boca para provocá-lo mais, mas foi surpreendida por Levi.
— Ele só é um intrometido que acha que me conhece só porque me tirou da favela.
Hanji sorriu. Era raro Levi estar disposto a se abrir.
— Você diz isso, mas sabe que no fundo não é o que pensa dele.
— Também é uma intrometida que acha que me conhece? — Aquela era uma pergunta retórica.
Levi olhou Hanji nos olhos e depois partiu para a porta.
— Eu acho que sou sua amiga — disse Hanji, fazendo Levi parar na soleira da porta. — E acho que você pode contar comigo quando precisar.
Levi não se virou; apenas permaneceu imóvel por mais um tempo e depois partiu.
Hanji retirou os óculos para descansar a vista e os colocou no topo da cabeça, admirando a vista da cidade como um grande borrão.
— Quando será que você irá deixar alguém entrar no seu coração e amolecê-lo? — perguntou-se Hanji, sorrindo com a ideia de Levi fazendo casal com Erwin.
Enquanto isso, um garoto que carregava uma chave desconhecida no peito, capaz de abrir até a mais bem-guardada das portas, jogava videogame do outro lado da cidade.
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