Vazio

17 Pressentimento - EXTRA


Notas iniciais
Boa leitura!

Annie dava passos largos pela rua movimentada, quase corria pela calçada. Já estava tarde, e ela não queria ter que ir andando para casa à noite, então planejava não demorar muito. A garota loira dava olhadas rápidas para os arredores e para trás, tentando garantir a si mesma de que ninguém a seguia.

Não conseguia deixar de pensar no que tinha dito a Eren naquele início de tarde; quase acabou falando demais. Mas simplesmente não conseguia ignorar tudo e fingir que nada aconteceu — ou melhor, que nada ia acontecer. Annie sabia perfeitamente que Eren só estava bem porque estava sendo protegido. Também tinha plena consciência do que seus “companheiros” eram capazes de fazer, e não se tratava apenas de Bertolt e Reiner.

No que é que eu fui me meter, praguejava mentalmente. Estava tudo certo, o plano era perfeito... Por que eu tinha que me apaixonar justo por ele?

Annie só parou quando chegou a uma pequena praça perto da estação de metrô principal da região mais ao sul da área Maria da cidade. Aquele era o ponto de encontro de muitos jovens — principalmente daqueles com hobbies mais “alternativos” —, além de ser também o ponto de encontro de algumas gangues pequenas, já que era uma área bem movimentada e fácil de se despistar por entre a multidão. Annie avistou um dos membros da gangue a qual pertencia encostado no muro de um beco próximo à praça, e assim que o garoto também a notou, fez um sinal com a cabeça chamando-a para onde ele estava.

A garota não pensou duas vezes; correu para onde o sujeito havia indicado. Chegando lá, percebeu que Bertolt estava bem ao fim do beco, cercado por mais outros quatro garotos e duas garotas, e sentiu-se aliviada por encontrá-lo. Ela fez um rápido comprimento com a cabeça para os outros membros, que retribuíram o gesto.

— Cadê Reiner? — perguntou ela, ainda arfando.

— Resolvendo algumas coisas com Riko-san e os outros — Bertolt deu de ombros. — Por que demorou tanto?

— A-ah, eu... — Annie não sabia se deveria contar logo para todos de uma vez o que estava pensando; acabou optando por conversar isso primeiro com Bertolt antes de anunciar a ideia. — Nada de importante.

Bertolt pode não ter perguntado na hora se estava tudo bem, mas certamente notou que Annie estava desconfortável com algo. Ele fez uma rápida nota mental de conversar sobre isso com ela mais tarde.

— Ainda bem que não é nada, por que eu quero mesmo saber quando nós iremos agir — resmungou Fritz Hoyer, um garoto de cabelo preto, curto e espetado, com olhos felinos e um rosto anguloso. Vale destacar que ele era um dos membros mais baixos do grupo; tinha em média 1,62m.

— É justamente por isso que você só pega os trabalhos mais idiotas — disse Adam Weiss, um clássico garoto loiro de olhos azuis com pinta de modelo. Mas também, era uma das mentes mais perversas do grupo. — Trabalhos dignos da pessoa para a qual são designados.

O que você está...? — começou Fritz, já peitando Adam, mas foi interrompido por uma mão comprida que agarrou a sua cabeça como se fosse uma bola de basquete.

— Cala a boca, tampinha — reclamou Zaki Edmund, um mulato de quase dois metros e, com certeza, o mais velho de todos. — Hoover-san quer falar.

Bertold assentiu, e deu um sorriso de satisfação quando todos se calaram. Daquela pequena gangue, não havia dúvidas de que Reiner e Bertolt eram os que lideravam, cada um à sua maneira: Reiner comandava as “operações em campo” enquanto Bertolt planejava tudo por debaixo dos panos. E era justamente por sua inteligência que era admirado pelos outros membros do grupo, principalmente por Edmund.

— Está tudo saindo como planejado — começou Bertolt. — Reiner e os outros devem conseguir as encomendas por amanhã, e o nosso terreno já está sendo formado dentro do Kyojin.

Todos comemoraram a notícia, animados com a expectativa dos resultados, com exceção de Annie.

— Adam, conseguiu o que eu te pedi? — quis saber Bertolt, em meio ao burburinho dos garotos.

— Já está tudo pronto para semana que vem — confirmou Adam, com um sorriso presunçoso. — Os outros também me confirmara, está tudo certo.

— A área Maria vai ser nossa! — comemorou Fritz, acompanhado pelos outros.

Para consolidar as boas notícias, foi decidido ir ao Homeland, um barzinho não muito longe dali. Annie não estava nem um pouco a fim de festejar, então tentou sair escondida e ir logo para casa. Mas, claro, Bertolt não a deixaria ir tão rápido.

— Ei, Annie... — chamou Bertolt, segurando-a pelo pulso. — Aonde vai?

— Para casa — murmurou, seca, fazendo Bertolt recuar.

— Eu sabia, aconteceu alguma coisa...

— Não foi nada, Bert — resmungou Annie.

Bertolt franziu o cenho para ela.

— É alguma coisa a ver com o grupo? — Bertolt arriscou um palpite. Annie desviou o olhar na hora, e então ele soube que estava certo. — Não pode nem contar para mim?

— Você é o líder! Como eu...

— Antes de líder, eu sou seu amigo — Bertolt a cortou.

Annie não estava preparada para aquilo; Bertolt sempre sabia como quebrar qualquer uma de suas defesas.

— Estou começando a ter um mau pressentimento sobre o plano... — disse sem olhar nos olhos dele, mexendo freneticamente em sua franja. Bertolt sabia que não era apenas aquilo.

— O que no meu plano não te agrada?

— Não é que não me agrada, mas...

Bertolt deu um passo em direção a Annie, o que a intimidou um pouco. Ela fechou os olhos e respirou fundo; era melhor acabar logo com aquilo.

— Nós não devíamos mexer com Eren...

— Ah, fala sério — murmurou Bertolt, apertando a ponte do nariz. — Ainda quer proteger aquele estúpido?

— Só acho que não será uma boa ideia envolver ele nisso — disse firme.

— Pensei que queria se vingar dele. — Ainda que um pouco irritado, Bertolt nunca abandonou o seu tom de voz sereno.

— Não dessa forma.

— De que forma então?

Annie também não sabia como responder àquilo. Desviou o olhar para o chão momentaneamente, tentando pensar em algo, mas não chegou a lugar algum. Bertolt deu um longo suspiro.

— Ainda gosta dele tanto assim?

Bertolt a olhou com ternura, o que amoleceu Annie mais uma vez. Talvez ele fosse a pessoa que melhor a conhecesse, e que melhor soubesse lidar com seu jeito meio “frio” de ser, mesmo que só fosse por fora.

— Não é questão de gostar ou não dele, só realmente estou com um mau pressentimento.

Ela parecia estar sendo sincera, e Bertolt não pôde fazer nada a não ser considerar aquela declaração. Annie, assim como Sasha, sabia julgar muito bem uma situação e tinha instintos bem apurados: se ela dizia que algo poderia dar errado, era sempre melhor se prevenir.

— Ah, está bem... — gemeu Bertolt, em desistência. — Vamos tentar não envolver Jäeger nisso. Que tal?

— Obrigada, Bert. — Annie abriu o seu melhor sorriso, aquele que fazia com que Bertolt confirmasse que qualquer esforço valia a pena.

— Vamos, eu vou te levar para casa.

— Não deveria ir comemorar com os outros?

— Eles sabem como comemorar sozinhos, não precisam de mim para isso.

Bertolt sorriu para Annie, que retribuiu o gesto. E assim, os dois foram juntos até a casa de Annie, numa conversa animada sobre qualquer coisa que não envolvesse a gangue, muito menos Eren.

Enquanto isso, os membros presentes da gangue comemoravam no Homeland. O barzinho era bastante frequentado pelo grupo; o dono do estabelecimento era um antigo conhecido de Edmund, então ninguém se preocupava com o fato de ser ilegal servir bebidas para menores ali.

— Ei, velhote! — gritou Fritz do balcão, segurando uma caneca de chope já vazia. — Manda mais uma rodada aí, e põe na conta dos Titãs!

O balconista, um senhor bigodudo, fez um positivo com o polegar e tratou de secar mais canecas para chope.

— Finalmente, nós vamos entrar em ação! — disse Fritz, o mais empolgado de todos.

— Tsc, quem liga para a ação; eu quero é ver o dinheiro entrando — comentou Anabelle Shitz, uma garota ruiva com sardinhas, o cabelo sempre num emaranhado de cachos que não passavam da altura do ombro.

— Ana sempre preocupada apenas com o dinheiro — comentou Louis Fairland, com sua voz suave. Louis era o mais tranquilo de todos; moreno de pele alva, podia facilmente passar despercebido por entre uma multidão sem ser notado. Pode-se dizer que ele era o “mão-leve" do grupo.

— Para onde foi Hoover-san? — perguntou Adam, notando a ausência do líder.

— Ele saiu com Annie, disse que tinha outros assuntos para resolver — respondeu Edmund, dando de ombros.

— Hm... — Adam recostou-se na cadeira e passou a mão pelo queixo, pensativo.

— No que está pensando, Adam? — perguntou Fritz, dando um gole no novo chope trazido pelo garçom bigodudo.

— Não acham que Reiner e Bertolt estão escondendo um pouco o jogo?

— Vai criar uma teoria da conspiração contra nosso próprio líder? — comentou Samantha Blanche, uma garota de cabelos escuros, lisos e compridos, num corte reto e com franjinha. Seu jeito de agir era similar ao de Annie, e por isso as duas se entendiam na maioria das vezes. — Não é algo muito inteligente.

Adam cerrou os olhos para Samantha e sorriu torto, mais como uma ameaça do que como qualquer outra coisa. Antes que o clima ficasse ruim, Fritz propôs um brinde coletivo, e então mudou o assunto para o jogo de baseball que teria naquela quarta. Aos poucos, todos foram descontraindo... a não ser Edmund, que estava sempre atento a tudo.