Vazio
18 E as máscaras caem...
Notas iniciais
Naquele dia, Eren tinha acordado melhor. Tinha que admitir, os remédios para dor que seu pai tinha realmente mereciam a recomendação de um médico. Outra surpresa foi ver que sua mãe não teve nenhuma objeção em relação a Mikasa passar a tarde com Eren, que acabou dormindo lá mesmo — devido à frequência com a qual ia na casa dos Jäeger, ela já tinha uma muda de roupas limpas guardada.
O café da manhã não foi dos melhores; Carla ainda não conversava naturalmente com Eren, o que o preocupava. Sabia que ela usava a estratégia do "gelo" quando queria que ele fosse por si só contar a verdade — uma pressão emocional era sempre efetiva com Eren. Só que não tinha como ele explicar por que não estava na casa de Armin, e também não conseguia pensar em nada melhor para usar como desculpa.
— Seu pai volta hoje — disse Carla, como quem não quer nada, enquanto lavava os pratos.
— Ah, é? —respondeu Eren, com o mesmo desinteresse. — Onde ele estava dessa vez?
— Não me impressiona que não saiba onde estava seu pai, não sabe nem para onde você vai... — Carla o provocou mesmo sabendo que estava agindo de forma infantil, pois sabia que era extremamente eficiente.
Mikasa pôs a mão no ombro de Eren e o olhou, perguntando num diálogo mudo, se tinha alguma coisa errada — tinha a certeza de que aquela era uma “indireta bem direta”. Eren retirou a mão da amiga e negou com a cabeça; lidaria com a curiosidade de Mikasa depois.
— Sinto muito se não consigo lembrar todas as viagens que o Dr. Jäeger, um dos melhores neurologistas do país, faz para dar palestras ou monitorar pesquisas — respondeu Eren num tom muito ousado se considerar que era com sua mão com quem estava falando.
Carla largou tudo na pia e se virou para olhar para ele, com a expressão num misto de raiva e ultraje.
— Faz ideia de como eu e seu pai nos preocupamos com você?! — gritou Carla. — Acha que pode ir sumindo por aí e depois tudo vai estar bem?!
— Eu estava com minha namorada! — respondeu Eren, gritando também.
Não queria gritar com a mãe, nem ter que chegar ao ponto de mentir mais uma vez, mas brigar com Carla não era exatamente a coisa mais divertida do mundo para Eren. Ele continuou buscando nos olhos da mãe algum sinal de que já tinha sido o suficiente, que aquela explicação bastava. Eren estava suando frio; ele nunca tinha contado que já tinha transado antes, e a situação na qual decidiu fazer isso não foi uma das melhores.
Carla mudou a sua postura no mesmo segundo em que absorveu as palavras do filho. Ao perceber que sua mãe tinha se acalmado um pouco, Eren respirou fundo e tentou voltar ao normal.
— Não queria que soubesse porque... Bem... — O garoto desviou os olhos e passou a mão na nuca.
A lembrança de Levi o fez corar, e aquilo complementou a cena perfeitamente; Carla estava convencida.
— Ah, eu... — Carla também não sabia o que dizer naquele momento. Só então percebeu que nunca tinha sentado com seu marido para conversar sobre a vida sexual de Eren, e se perguntava desde quando ele dormia com garotas. — Você, ao menos... Sabe... — Carla começou a gesticular e Eren passou de rosado para rubro.
— Mãe! — murmurou o menino, dando olhadas nada discretas para Mikasa, que estava realmente surpresa... Mas não pelo motivo que Carla pensava.
— Oh, Mikasa, que indelicadeza a minha! — disse Carla rindo nervosamente, com a mão cobrindo a boca. — Bem, eu acho que vocês já estão atrasados! Hora de ir ao colégio!
—Também acho — concordou Eren, já saindo da mesa e se dirigindo ao quarto.
— Ah... Meu filho já é um homem... — murmurou Carla para si mesma.
Mikasa seguiu silenciosamente Eren, tentando absorver a noticia de que ele já tinha outra namorada. Somente começou a agir normal de novo quando Eren quase terminava de escovar os dentes.
— Quem é?
— Quem o quê? — Eren tentava falar sem derramar espuma.
— A sua... namorada...
Em um segundo, toda a espuma que havia na boca de Eren se espalhou pelo chão do banheiro e pela camisa de Mikasa. A sorte foi que ela ainda não tinha colocado o uniforme do colégio. Mikasa olhou para a camisa e depois para Eren, com a clara expressão de “Mas que porra foi isso?!”. Eren estava branco; não tinha como inventar uma nova namorada, pois sabia que Mikasa procuraria saber quem era. Até que uma luz acendeu no fundo de sua cabeça: E se eu simplesmente não mentir?
— Era tudo mentira. — Como aquilo não deixava de ser verdade, Eren conseguiu manter a sua expressão calma e tranquila.
Mikasa ficou ainda mais confusa.
— Então, o que...?
— Ainda assim — ele a interrompeu —, trata-se de... coisas de homem.
— Do tipo? — Mikasa arqueou uma sobrancelha, não acreditando muito.
— Se fosse um garoto, saberia do que estou falando. — Eren deu um sorriso de satisfação e voltou para o quarto, terminando de arrumar a mochila. — Você deveria trocar logo de roupa!
Mikasa apenas revirou os olhos e ignorou aquilo. Não era novidade Carla e Eren discutirem por assuntos bobos, então chegou à conclusão de que não era nada de mais. Além do mais, estava realmente querendo mostrar para ele que conseguia dar o espaço que ele precisava.
— Eren...
O garoto congelou na porta do quarto, já tentando pensar em outra desculpa para enrolar Mikasa.
—... Suas costas já estão melhor?
Eren soltou um suspiro profundo de alívio.
— Já sim... — disse, finalmente começando a relaxar. — Meu pai tem uns remédios bons para a dor. Ainda incomoda um pouco quando eu me inclino ou coisa do tipo, mas dá para sobreviver. — Eren deu de ombros.
— Ah, que bom.
Eren deu um sorriso para Mikasa e pegou na maçaneta da porta.
— Acho que vai precisar deles quando o Torneio começar — disse rindo.
— Como assim?
— Você vai entender...
E então fechou a porta, dando privacidade à amiga.
— Ora, ora, ora... — Nile estava sentado em uma cadeira de aço do lado de fora de uma das salas para interrogação da Agência de Investigação de Shiganshina, a AIS. Levantou-se quando viu Levi e Eld se aproximarem. — Vejam só quem finalmente decidiu acordar para o trabalho.
— Este não é meu único caso, diferente de desocupados como você — respondeu Levi, com sua voz monótona de tédio, passando direto por ele e indo para Mike, que estava parado ao lado da cadeira de Nile. — Encontraram suspeitos?
— Não, mas essas pessoas afirmam que viram o crime se desenrolar. — Mike puxou de uma maleta as pastas com arquivos de duas pessoas. — Uma é uma comerciante ambulante de 43 anos, Maria Pollok. A outra é um homem que estava passando no local, Reinald Buther.
— Passando no local? — perguntou Levi. Mike respondeu assentindo com a cabeça. — Muito conveniente, não?
— Essas pessoas não têm motivos para mentir, Levi — disse Erwin, que apareceu por um dos corredores da agência. Mike e Eld fizeram rápidos cumprimentos com a cabeça, retribuídos por Erwin. Chegando mais perto, complementou: — Afinal de contas, eles mesmos vieram falar com os policiais durante a investigação no depósito.
— Uma chance perfeita para fugir do quadro de suspeitos — comentou Nile, que apenas escutava a tudo. — Afinal de contas, seria uma boa desculpa para caso algo relacionado a eles fosse encontrado durante a investigação.
Levi fez uma expressão de mal-humorado, mas acabou tendo que concordar com Nile; ele tinha pensado a mesma coisa. Decidiu não insistir nesse assunto.
— O que está fazendo aqui? — murmurou Levi para Erwin.
— O quê? Não posso andar livremente pela minha agência? — respondeu brincando. Percebendo que Levi, como sempre, não tinha entrado na brincadeira, se aproximou e sussurrou: — Dessa vez, não é com você que eu quero falar.
Outro arrepio pela espinha de Levi.
— Mike, já acabou o que tinha de fazer aqui? — perguntou Erwin, com a sua compostura recuperada.
— Bem, eu deveria assistir ao interrogatório de Rivaille e Dok-san.
— Não se preocupe, acredito que eles sabem como fazer esse serviço. — Erwin piscou discretamente para Levi, que revirou os olhos.
Mike assentiu e seguiu o diretor corredor adentro, deixando os arquivos de Maria Pollok e Reinald Buther nas mãos de Levi.
— E depois o desocupado sou eu... — murmurou Nile, propositalmente alto para que Levi e Eld ouvissem.
— Bem, vamos começar? — disse Eld apressadamente, antes que Levi retrucasse e aquilo virasse uma discussão. — Onde estão as testemunhas?
— Maria Pollok está na sala quatro, e Reinald Buther está nessa daqui. — Nile sinalizou a sala atrás dele com o polegar. — Sendo assim, eu vou...
— Eu cuido de Buther — Levi o cortou antes que ele decidisse alguma coisa. — Eld, acompanhe Dok até a sala quatro.
Levi deu um olhar significante para Eld, que soube imediatamente quais eram as intenções de seu chefe. Eld não disse nada, apenas assentiu. Nile não pôde deixar de perceber aquela comunicação muda, e suspeitou de que havia algo por trás daquele comando.
— Eu sei chegar lá sozinho — protestou Nile.
— Não quero ninguém bisbilhotando minha agência — murmurou Levi, pressionando a pasta com as informações de Maria Pollok contra o peito de Nile, que a segurou no mesmo instante.
Levi não esperou uma resposta; deu meia volta e entrou na sala do interrogatório e deixou para trás um Nile puto da vida.
— Minha agência — Nile praguejou baixinho. — Quem esse nanico pensa que é?
— O melhor agente de Shiganshina — respondeu Eld, orgulhoso de seu chefe. Nile se virou e olhou surpreso para Eld; certamente, não esperava tamanha ousadia de um “segundo em comando”. — A sala quatro é por aqui.
Eld mostrou o corredor com o braço, dando passagem para Nile. Com uma carranca, ele seguiu o comando de Eld.
— Estou rodeado de gente excêntrica...
Levi entrou na sala de pouca iluminação desejando poder sair dali o mais rápido possível. Por algum motivo, tinha acordado com esse péssimo humor, e não sabia o que exatamente estava causando isso. Tudo bem que ele não era a pessoa mais alegre e sorridente da cidade, mas não costumava tratar agentes de outras unidades de forma tão ríspida, nem mesmo Nile.
Ficou se perguntando por que interrogatórios tinham as paredes pintadas de cinza-escuro e apenas uma lâmpada central, até que chegou à mesa onde Reinald estava sentado e deixou a pasta com seus arquivos em cima.
— Vamos logo com isso... — murmurou Levi, puxando uma cadeira, mas ficou de pé, imóvel, assim que olhou para Reinald.
Ele era um homem de meia-idade comum, trajando uma camisa azul escuro de botões, calça jeans e sapatos sociais. Tinha o cabelo preto-acinzentado com fios brancos nas laterais acima da orelha penteado para trás, mas com algumas mechas rebeldes que o deixavam mais novo. Seu rosto era quadrado, não tinha muitas rugas, e estava com a barba bem-feita.
E os olhos... esses eram verdes. Um verde meio escuro, mas naquele momento, para Levi, eles pareciam claros e vívidos. Por um segundo, Levi podia jurar que tinha escutado alguém chamá-lo.
Levi-san...
— Está tudo bem com você? — perguntou Reinald.
Levi piscou algumas vezes, como se tivesse acabado de acordar, e pigarreou. Voltando à realidade, viu que Reinald tinha olhos mais puxados para o castanho do que para o verde. Analisando-o melhor, teve suas suspeitas confirmadas: sabia exatamente com quem estava lidando.
— Sim, eu só... — Levi balançou a cabeça. — Bem, vamos começar logo.
Reinald franziu o cenho e analisou Levi dos pés à cabeça. Algo nele parecia muito familiar...
— Avise ao seu chefe que eu termino aqui em vinte minutos — informou Nile a Eld, fazendo questão de despojar todo o seu desprezo quando se referiu a Levi.
— Pode deixar — disse Eld, com um falso sorriso estampado no rosto.
Nile ficou olhando Eld, parado, esperando o momento no qual ele iria embora.
— Você já pode ir, já estamos na sala quatro — ordenou Nile.
— Quero ter a certeza de que você vai entrar — respondeu Eld, ainda sorrindo. — Ordens do meu chefe.
Nile não gostou do tom de voz de Eld, mas chegou à conclusão de que todos naquela agência eram assim. Com um estalar de língua de reprovação, Nile se virou e entrou na sala para falar com Maria. Assim que Nile sumiu de vista, Eld abandonou aquele sorriso ridículo e partiu para a sua tarefa de verdade, entrando na porta ao lado.
Nile soltou um suspiro profundo assim que entrou na sala. Quem o esperava era uma mulher com um quê de cigana, com roupas extravagantes mais puxadas para o vermelho e brincos dourados enormes. Já vi que isso vai demorar...
— Então, Pollok-san... — começou Nile, quando sentou-se na cadeira de aço do outro lado da mesa, de frente para Maria. —... Você disse que viu o desenrolar do crime no depósito da região de Sina, certo?
— Sim, sim — afirmou Maria, tanto com as palavras quanto com a cabeça. — Vi uns homens estranhos chegarem, invadirem o local e depois fugirem bem rápido — Maria estava nervosa e falava rápido, quase atropelando uma palavra com outra.
— Acalme-se — ordenou Nile. — Preciso que você conte com mais detalhes.
Maria respirou fundo e passou a mão nos cabelos castanhos e cacheados, procurando se acalmar.
— Os homens...
— Comece contando o que estava fazendo no local — Nile a cortou, olhando incisivamente para a mulher.
Ambos se encararam por alguns segundos, até que Maria desistiu e desviou o olhar para seu colo.
— Eu sou uma vendedora de bijuterias — começou. Nile apoiou os braços na mesa e entrelaçou os dedos na frente do rosto, cobrindo-o parcialmente. — Meu ponto de vendas naquele dia era na esquina da rua do depósito.
— Hm... Prossiga.
— No fim da tarde, quando eu já estava juntando as minhas mercadorias para ir para casa, umas pessoas estranhas apareceram em motos e outros vieram dentro de uma van preta.
— Anotou alguma placa?
— Eu não saio anotando placas aleatórias de carros — retrucou Maria.
— Preciso tirar o máximo de informações de você, senhora — Nile usou sua voz autoritária, fazendo Maria se arrepender de sua arrogância. — Colabore.
A mulher assentiu e continuou.
— Todos eles usavam óculos de sol e roupas escuras, sendo que os que saíram da van estavam de kimono, e a maioria tinha tatuagens grandes, coisa de cobrir quase o braço todo...
Nile estalou a língua e recostou-se à cadeira de novo. Merda, esses são padrões dos membros da Yakuza... Maria percebeu a irritação de Nile e parou de falar, pensando se tinha dito algo de errado.
— Por favor, continue.
— Certo... — Maria tomou um tempo tentando se lembrar de mais coisa. — Acho que foi nesse momento que eu me escondi atrás da caçamba de lixo...
— Então é só isso? — perguntou Nile, incomodado. — Você só viu isso?
— Não precisa ser nenhum gênio para deduzir que aquela gente era perigosa — retrucou Maria, cruzando os braços e torcendo a boca. — Mas não, não foi apenas isso. Depois de me esconder, fiquei espiando para conseguir um bom momento para fugir dali.
— E então, o que viu?
— Um dos motoqueiros estava com algo parecido com um pé de cabra, e o usou para arrebentar a corrente que trancava o portão do depósito. Depois disso, uma mulher de cabelo claro entrou acompanhada de mais dois homens, enquanto o resto do grupo ficou do lado de fora.
— Por acaso — Nile pegou de sua pasta as fotos de Hitch Dreyse e Boris Feulner que tinha consigo —, a mulher e um dos homens seriam esses daqui?
Maria puxou as fotos mais para perto de si, analisando-as com cuidado, e arregalou os olhos quando conseguiu os identificar.
— Sim! São esses sim! — dizia enquanto apontava para as fotos.
Nile praguejou mentalmente. No final das contas, Levi e sua equipe estavam certos, e os suspeitos que eles estavam atrás foram realmente responsáveis pelos assassinatos.
— Viu mais alguma coisa?
— Hm... Depois que os três entraram, os homens do lado de foram permaneceram quase que imóveis... — disse, tentando se lembrar. — Só se mexeram quando escutaram um barulho bem alto de algo caindo, como se fosse uma pilha de coisas metálicas, e aí todos entraram de uma vez armados... Sim, sim, foi aí que começou o tiroteio.
— Alguém saiu ou entrou depois disso?
— Eu não sei... — Maria mexia no cabelo freneticamente, ficando cada vez mais nervosa quando se lembrava da cena. — Quando escutei os tiros, tratei de esconder-me por completo atrás da caçamba...
— E quando foi que decidiu sair?
— Quando os tiros pararam, é claro. Dei uma espiada primeiro, e foi aí que vi aquele homem de camisa azul-escuro escondido atrás de um dos carros que estavam estacionados na rua, só que... — Maria parou e franziu o cenho, pensativa.
— O que foi?
Maria olhou para a porta, depois para Nile, e aproximou-se dele por cima da mesa. Nile imitou o gesto.
— Pode ter sido só impressão minha — segredou-lhe Maria —, mas tenho quase certeza de que o vi... sorrindo...
Levi passou a mão no cabelo e sentou-se de uma vez.
— Então, Gail... — começou Levi, pegando Reinald de surpresa ao escutar seu verdadeiro nome. — Pode começar me contando que porra vocês estavam fazendo no depósito antes da hora?
Reinald — ou melhor, Gail — perdeu o ar no mesmo segundo. Segurando-se forte nos braços da cadeira de aço, ele engoliu em seco. Tinha razão, aquele rosto era familiar.
— E-então é verdade, v-você trabalha com a polícia... — gaguejou Gail. —... R-Rivaille-san...!
— Poupe-me dessa palhaçada. — Levi revirou os olhos. — Acha que eu sou idiota? Sei que Kitts continua vigiando meus passos aqui na agência, e que você foi informado disso também.
Gail parou no mesmo segundo a encenação e encarou Levi feio.
— Se sabe disso, então também sabe por que tivemos de pressionar os White Snake antes do previsto.
Levi bateu na mesa com força, fazendo Gail dar um pulo na cadeira.
— Tinham que esperar o local estar limpo! — rosnou Levi, quase perfurando Gail com o olhar. — Agora temos uma testemunha ocular e denúncias do bairro inteiro sobre atividade de gangue!
— N-nós não pensamos que...
— Vocês sequer pensam, não é?
Gail ficou calado, concluindo que era melhor não falar mais nada. Levi se levantou, não aguentando ficar parado, e andou de um lado para o outro, pensando no que faria agora.
— Bem... — disse Nile, tentando descobrir se ela estava enlouquecendo ou se sempre teve esse olhar meio maníaco. — Essa informação será considerada, mas iremos antes conferir a história de Buther primeiro.
Maria ficou um tempo considerando aquela informação, mas acabou ignorando; se a polícia não acreditava nela, que assim seja.
— Então, mais alguma coisa?
— De importante, mais nada — disse dando de ombros. — Ah não, espera! — ela deu um pulo na cadeira e olhou para cima, como quem se lembra de algo muito antigo. — Depois que todos saíram, preparando-se para ir embora, um deles fechou o depósito e pichou o portão.
— Pichou? — Nile procurou por algo parecido nos arquivos do caso em sua pasta, mas não encontrou nada. — Não tinha nada disso quando nós fomos até o depósito...
— Claro que não tinha — disse Maria, como se aquilo fosse óbvio. — Eles não usaram tinta no spray.
Nile soltou um gemido de raiva.
— Água salobra — murmurou o homem, e Maria concordou com a cabeça, sorrindo maliciosamente. — Puta que pariu...
Era comum a Yakuza deixar marcas feitas com água salobra em operações que passam em mais de um lugar, para avisar aos outros membros que os assuntos naquele local já estavam acabados. A vantagem de usar água salobra nas marcações é que o registro sumia em menos de uma hora, evitando deixar qualquer evidência.
Se havia uma “marca d’água” naquele local, significava que...
—... Esse não foi o único local — murmurou Nile.
— O quê?
— Nada — Nile balançou a mão e se levantou da cadeira. — É tudo que tem para me dizer?
Maria fez que sim com a cabeça.
— Então aguarde aqui até que um oficial venha para terminar de registrar a sua declaração e estará livre — disse enquanto catava os papéis e colocava tudo dentro da pasta. — Shiganshina agradece a sua contribuição.
Dito aquilo, Nile saiu da sala e correu para o elevador, sem deixar um relatório.
— Heichou! — disse Petra, assim que viu Levi entrar na sala da equipe. — Bom dia.
— Idem, que horas são? — perguntou, sem muita paciência para cumprimentos.
— Hm... — Petra procurou o celular pelos bolsos. — São... Meio dia e quarenta, quase.
— Já deve ter saído para o intervalo... — murmurou Levi.
— O que disse?
— Perguntei onde está Eld — disse Levi, disfarçando.
Petra, Gunther e Oluo se entreolharam, sem entender aquela pergunta.
— Pensávamos que estava com você — disse Gunther, dando de ombros.
— Aconteceu alguma coisa? — quis saber Oluo.
— Sim, aconteceu... — murmurou Levi, apertando a ponte do nariz.
— Heichou — Petra chamou e, usando a cabeça, sinalizou a porta.
Levi se virou e viu que Eld entrava na sala carregando um caderno preto não muito maior que sua mão.
— Como o esperado, Dok-san não relatou nada sobre a entrevista com Pollok-san — declarou Eld, entregando-lhe o caderno preto.
— Bom trabalho, Eld.
— Heichou — Eld o chamou, inclinando-se para sussurrar em seu ouvido. — Eles sabem sobre a marca d’água.
Levi estalou a língua e assentiu com a cabeça, agradecendo pela informação.
— Preciso que vocês distraiam um pouco os oficiais — anunciou Levi.
— Como assim? — quis saber Petra.
— Provavelmente houve um crime-holofote na avenida mais próxima do depósito — explicou Levi. — Não vai ser difícil ver que teve atividade da Yakusa, crimes-holofote são feitos justamente para isso.
— E por que temos que perder nosso tempo lá? — perguntou Gunther.
Levi deu um olhar congelante para Gunther, que soube imediatamente que não deveria ter dito nada.
Com pressa, Levi foi até a sua mesa e pegou as duas armas extras que guardava para situações em que não tinha tempo de conseguir um armamento mais pesado e as pôs nos lugares vazios de seu coldre. Deu uma checada no celular rápida: nenhuma notificação. Estalou a língua mais uma vez e foi até a porta.
— Vocês não estão perdendo tempo... — disse Levi, olhando para Gunther. —... Estão ganhando. — Sem demorar mais do que isso, Levi foi até a porta. — Eld, já sabe o que fazer.
— Pode deixar, Heichou.
Com aquela confirmação, Levi deixou a sala. Num piscar de olhos, já estava no hall dos elevadores, apertando o botão com mais força do que o necessário. Enquanto o elevador não chegava, olhou de novo o celular para ter certeza, mas não foi diferente; Eren não tinha mandado nenhuma mensagem ainda.
— Pelo visto, ele não vai me ligar mesmo... — murmurou Eren fazendo bico, com o tronco apoiado em cima da sua mesa, olhando para a tela do celular.
Tinha acabado de bater o sinal do intervalo do almoço, e Eren estava ansioso para ver se Levi tinha falado com ele... mas não. Nem sequer uma mensagem...
Do nada, um burburinho de pessoas cochichando começou do corredor, o que chamou a atenção de Eren. Assim que olhou para a porta, viu Connie olhando de um lado para o outro, como se estivesse procurando alguma coisa. Ele não tinha dado sinal de vida o final de semana inteiro, e ainda por cima não tinha ido à aula essa manhã também. Eren estava prestes a se levantar e ir até ele quando seus olhos se encontraram, e Connie fez uma expressão de puro alívio.
— Eren! — gritou enquanto corria até a mesa do amigo.
— Connie, o que foi que...
— Eu preciso falar com você — disse Connie, com urgência, seus olhos arregalados de preocupação.
— Claro... — disse Eren, meio hesitante. — O que aconteceu?
— Não, não pode ser aqui — Connie olhou em volta, para os colegas de classe que o olhavam como se fosse um animal silvestre. —Tem muita gente.
Tinha algo muito estranho naquela conversa, mas o que Eren podia fazer? Acabou concordando com a cabeça e se levantou, seguindo Connie pelo corredor.
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