Vazio

11 Provação


Notas iniciais
Boa leitura!

Naquela noite, Eren voltou a ter sonhos estranhos. Dessa vez, teve a visão de uma cidade muito escura, suja e cheia de pessoas. Não importa para onde ele olhava, o cenário era sempre caótico. Depois de muito andar, Eren se deparou com uma criança, pálida e magra, de cabelos negros emaranhados. Quando seus olhos se encontraram, Eren sentiu o seu corpo gelar, e os arrepios acabaram por acordá-lo antes da hora — mais uma vez.

Mesmo querendo voltar a dormir, não conseguia; ainda assim, só foi se arrumar quando o despertador tocou. Mal-humorado, o garoto trocou de roupa e desceu as escadas sem escovar os dentes, deixando isso para depois do café.

— Bom dia, filho! — disse Carla assim que Eren entrou na cozinha. — Olha quem veio te fazer companhia para o café da manhã.

Quem será?, perguntou-se brincando, pois já sabia a resposta. Não era surpresa nenhuma ver a garota de cabelos negros enrolada num cachecol vermelho que ele tinha dado sentada na mesa. A surpresa era ver que ela não aparentava estar mais chateada.

— Bom dia, Er... — Mikasa se interrompeu e arregalou os olhos.

— O que foi? — perguntou Eren, já ficando assustado também.

— Eu é que pergunto... — Mikasa ainda estava incrédula. — O que foi isso?

Num pulo, a garota foi até o amigo e começou a examinar o seu pescoço. Foi aí que Eren lembrou que Levi tinha... deixado sua marca.

— Aaah, isso?! — Eren a empurrou para longe, para que ela parasse de analisar. — Isso foram mosquitos!

— Mosquitos? — Mikasa não estava acreditando nem um pouco naquilo.

— Mas nós não estamos nem perto do verão... — comentou Carla.

Eren sentiu sua barriga se revirar. Por favor, fica quieta, mãe!

Mikasa olhou para Carla e depois para Eren, como se dissesse “Explica isso agora”. As orelhas de Eren começaram a esquentar.

— Não está acreditando em mim?! — Eren fingiu ultraje. — Mas é verdade!

Mikasa apenas cerrou os olhos, e aquilo bastou para que Eren desistisse de mentir. A garota se aproximou para checar as orelhas de Eren ­­— tão vermelhas quanto tomate — quando Carla comentou enquanto colocava o sanduíche e o suco em cima da mesa para Eren.

— Ah, é verdade! — lembrou-se Carla. — Choveu muito nesse início de primavera, e apareceram alguns mosquitos por aqui...

Eren nem sabia disso, mas estava satisfeito por ter a sua mentira “comprovada”. Ou quase isso. Ele olhou presunçoso para Mikasa, que ainda não acreditava 100% naquela história — as orelhas de Eren não mentem.

— E por que o lugar está tão vermelho?

— Passei a noite inteira coçando — Eren praticamente atirou as palavras, de tão rápido que disse. Num piscar de olhos, atravessou a cozinha e já estava comendo. Mikasa ia insistir no assunto, mas, assim que Eren percebeu as intenções da amiga, completou: — Mais importante, está tudo bem?

— Como assim?

— Com você. — Eren não sabia se ter uma “DR” de manhã é a coisa mais indicada para uma vida saudável, mas com certeza era melhor do que falar de seu chupão no pescoço. — Você sabe, depois da nossa discussão...

— Ah... — Mikasa começou a mexer freneticamente na mecha rebelde de sua franja, com as bochechas levemente coradas. — Eu pensei muito no que você disse, e cheguei a uma conclusão.

Eren ficou surpreso com aquela resposta. Esperava que ela ficasse dias remoendo o que ele disse e considerando se largava do pé dele ou não. Afinal de contas, ela quase nunca escutava o que ele dizia, porque sempre se considerava mais certa. Mal sabia Eren que quem fez Mikasa realmente pensar não foi ele, mas sim Annie.

— E qual é?

— Que eu irei parar de cuidar de você...

Sério?!

—... Quando você me provar que não precisa mais.

Eren passou alguns segundos olhando para o rosto de Mikasa.

— Como é que é?

— Quando eu deixei você ir sozinho com os meninos para o fliperama, você se meteu em encrenca e voltou para casa com a testa, os joelhos e os cotovelos machucados — explicou Mikasa. — E isso só mostra que você precisa sim de mim.

A garota estava muito segura de que tudo que tinha dito estava corretíssimo. Eren procurava uma forma de contra-argumentar, mas não dava; olhando do ponto de vista dela, ela tinha razão. Ele não podia fazer mais nada além de sorrir e entrar no esquema dela.

— E como eu provo? — Quando Eren disse isso, Mikasa sentiu um imenso alívio. Finalmente, sem mais brigas...

— Não saber como provar também é um sinal de imaturidade — disse Mikasa, sentando-se ao lado de Eren, feliz por estar falando com ele normalmente de novo.

— Ora, ora, Eren — Carla sentou-se do outro lado de Eren, com seu próprio prato de café da manhã. — Está levando bronca de Mikasa de novo?

Mãe! — grunhiu Eren. — Você também? — As duas mulheres começaram a rir.

E assim, aquele café da manhã acabou sendo mais animado do que o normal.

Ah... eu acho que vou matar alguém hoje... — resmungou Levi com o rosto apoiado em cima de sua mesa.

— Que coisa ruim de se falar a essa hora da manhã, Heichou — disse Eld Jinn, braço direito de Levi e segundo no comando da Equipe de Casos Especiais.

— Ele está obviamente expressando seu cansaço em frases aleatórias, assim como eu quando...

Cale-se, Oluo, ninguém precisa saber — resmungou Petra para Oluo.

— Ei, ei, não comecem a discutir tão cedo... — disse Gunther assim que entrou na sala da Equipe.

Levi soltou um suspiro brusco e alto, o que foi seguido de vários minutos de silêncio profundo do resto da equipe. Parecia que os membros estavam mais “falantes” do que o normal, e aquilo só fazia a dor de cabeça de Levi piorar. Juntando o resto das forças que tinha, Levi colocou-se em posição ereta na cadeira e passou a mão pelo cabelo para ajeitá-lo.

— Petra...

— Sim, Heichou — a mulher respondeu no mesmo segundo.

— Por favor, traga-me um chá.

— Preto, Senhor?

— Claro.

Num piscar de olhos, a mulher de cabelos alaranjados saiu em direção ao pequeno lounge que servia como uma pseudo-cozinha. Os outros membros continuaram estáticos, até que Levi os encarou com seu olhar de morte, que era o mesmo que dizer “Voltem para o trabalho. Agora”. Os únicos barulhos a serem ouvidos eram o de papéis sendo folheados, dedos batendo no teclado do computador e passos apressados de um lado a outro.

— Aqui está, Heichou. — Petra colocou cuidadosamente a xícara de chá ao lado de Levi, que apenas assentiu com a cabeça em agradecimento. — Levi Heichou, você parece meio cansado hoje...

— Minha insônia atacou mais uma vez — explicou enquanto apertava a ponte do nariz. — Não é nada novo, então não precisa se preocupar.

— Mas é preocupante, Senhor — disse Petra, meio incerta se devia estar falando sobre isso com Levi. — Você está dormindo muito pouco ultimamente...

— Minha média de sono é de 3 horas por dia — comentou Levi. — Estou te dizendo, pare de se preocupar com algo tão inútil e foque no seu trabalho.

Petra hesitou em seguir as ordens de Levi, mas acabou cedendo; era impossível para ela conseguir convencer Levi de alguma coisa. Enquanto isso, um Oluo ciumento apenas observava a cena.

Não muito depois, Mike Zacharius — braço direito de Erwin e segundo no comando — apareceu na porta carregando uma pilha de papéis. Assim que entrou, percebeu que o clima na sala não estava lá dos melhores, e não foi difícil perceber de quem era a culpa.

— Algo aqui não cheira bem — comentou Mike quando pôs a pilha de papéis na mesa de Levi, que apenas olhou da pilha para Mike com desgosto.

Que merda é essa?

— Vai descobrir daqui há pouco. — Mike percebeu que Levi simplesmente não mudou a sua feição, então completou: — Erwin está te chamando na sala dele.

— Tsc... Vocês não me deixam em paz mesmo — murmurou Levi, dando um bom gole no chá para depois levantar-se da cadeira e ir para a porta, acompanhado de Mike.

— Senhor — Eld o chamou —, sobre o caso do assassinato do político...

— Você estará no comando dessa investigação — Levi o cortou. E, antes de escutar um “Mas, Senhor...”, ele completou: — Provavelmente, eu terei de sair em breve, e quero que você adiante as coisas para mim.

— Sim, senhor.

Tendo acertado tudo com o seu time, Levi deixou a sala e foi caminhando sem pressa alguma para a sala de Erwin. Ele já sabia o que o Diretor do Escritório de Investigação Policial de Shiganshina tinha para falar. Isso vai demorar...

Levi estava tão acostumado com aquela sala que entrou sem bater; hábito que somente ele e Mike tinham desenvolvido. Erwin estava sentado na sua cadeira preta logo atrás de uma mesa bem comprida feita de madeira escura — na verdade, quase tudo na sala de Erwin era decorado com tons de marrom escuro, verde-musgo e preto. Logo atrás da mesa, uma estante cheia de livros, documentos e outros arquivos preenchia a parede de quina a quina. E, ao lado direito, estava uma parede de vidro que dava vista para a cidade, o que simbolizava os conceitos de transparência e ampla visibilidade que Erwin tanto presava.

— Você perdeu mesmo o costume de bater na porta... — comentou Erwin.

— Do que você está falando? Aqui é quase o meu segundo escritório — disse Levi, com ironia.

Erwin riu, mas não por muito tempo. Tinha certo pesar em seus olhos, e Levi detestava aquilo. Ou melhor; detestava ser o motivo daquilo. O Diretor suspirou e cruzou os dedos em cima da mesa. Lá vem merda, pensou Levi.

— Levi, ninguém aqui duvida de suas habilidades como membro do corpo policial... — Oh não, isso de novo não, lamentou Levi, lembrando-se da última vez em que teve essa conversa. —... Mas isso me preocupa.

— Desnecessariamente — murmurou Levi.

Erwin o encarou com intensidade, mas acabou desistindo. Sabia que esse tipo de intimidação não funcionava contra aquele homem.

— Levi, você carrega nos ombros o recorde de assassinatos. Sabe disse, não é?

— Se isso fosse importante, então Mike não seria o segundo no comando, já que o histórico dele é tão sujo quanto o meu.

— Deixe Mike fora disso.

Levi desviou os olhos. Detestava quando Erwin pegava no pé dele por causa de mortes que ele julgava serem necessárias.

— Eu não saio matando aleatoriamente — declarou Levi. — Faz parte do meu trabalho perseguir esses bastardos, você sabe disso.

— Perseguir é diferente de matar, Levi.

— Não no meu mundo — retrucou imediatamente.

Alguns minutos de silêncio procederam até que Erwin finalmente cedesse.

— Não existe outra forma? Até mesmo para que possamos interrogar as vítimas...

— Para quê? — Levi murmurou. — Todas as informações que esses ratos imundos possuem eu também sei. Se houvesse algo a mais, eu extrairia a informação e só depois mataria.

Mais um longo período de silêncio. Dessa vez, quem cedeu foi Levi.

— Você sabe que é necessário.

— Tente fazer as coisas de um outro jeito, de uma forma mais humana... — Erwin passou a mão pelo cabelo.

Erwin. — Essa chamada foi o suficiente para que o Diretor soubesse que Levi não queria enrolar mais. — O que exatamente aconteceu?

Levi conhecia Erwin o suficiente para saber que ele tinha abdicado da sua própria parte humana para ter o trabalho feito. Aquele discurso simplesmente não se encaixava com a conduta do Diretor. Erwin apenas suspirou e afrouxou a gravata.

— Os superiores estão satisfeitos com a atual baixa de criminalidade, mas estão duvidosos da nossa eficácia já que há um baixo número de pessoas presas.

— Então esses porcos gostam de gastar os impostos com presidiários...

Erwin o repreendeu com o olhar, mas Levi nem se abalou.

— Levi, eu preciso de mais detenções. E isso será impossível, a menos que você controle melhor a mira da sua arma.

— Minha mira é perfeita, eu não perco um tiro. — A feição de Erwin foi suficiente para que Levi entendesse a situação. — Nada de cabeça, coração, intestino, baço, fígado, aorta ou qualquer coisa letal. Já entendi...

— Eu agradeço muito.

—... Vou ver o que posso fazer.

Aquela não era a resposta ideal que Erwin queria, mas era o melhor que Levi podia oferecer e ele tinha sabia disso. Afinal de contas, foi ideia dele dar trabalho dobrado para Levi; um papel que só poderia ser feito pelo Líder do Esquadrão de Casos Especiais. Na verdade, era um papel exclusivo de Levi, e não de seu posto — o que apenas aumentava a pressão em cima dele. Não, Erwin não podia culpá-lo pela sua maneira grosseira de agir.

— Mike te entregou os documentos?

— Aquela pilha monstruosa de papéis? — Levi suspirou. — Só não me diga que é para ag-

Para agora; preciso que dê uma lida rápida em todos os formulários — Erwin o cortou. — Assim, terá plena consciência da situação na qual será posto.

— Pensei que era para eu encerrar de vez o problema em Trost — disse Levi, confuso.

— Não, esse problema não será resolvido tão facilmente...

— Como assim?

Erwin apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos para esconder o rosto, deixando apenas os olhos à mostra.

Precisamos de uma pedra maior para tapar esse buraco.

— Por que está de suéter, Eren? — Connie perguntou, já que era o mais indiscreto do grupo.

— A-ah... Vocês não estão sentindo esse frio também? — Eren tentou disfarçar, mas sabia que estava fazendo um péssimo trabalho. Eu não posso dizer que é porque a gola é alta o suficiente para esconder os chupões que um cara que eu conheci há dois dias me deu, no final das contas... — Mas e aí, onde estão Reiner e Bertolt? —Eren tentou desviar de assunto.

— É uma boa pergunta... — disse Marco. — Faz um tempo desde que eles passaram o intervalo com a gente.

— Na verdade, é até óbvio. — Jean deu de ombros.

— Como assim? — perguntou Connie.

— Ora, Eren é o ex da melhor amiga deles... Nada mais normal do que eles se distanciarem dele por enquanto.

— Mas nós também somos amigos, e também fazemos parte do mesmo time de baseball — apontou Marco.

— Só que aqueles dois são amigos de Annie desde antes de entrarem no colégio — explicou Armin. — Com certeza o desejo de Annie pesa mais.

— Hm, entendo... — murmurou Eren.

— Nossa, vai ser uma porcaria se o time ficar com um clima ruim por sua causa, Eren — comentou Connie.

— Quem mandou você namorar a auxiliar e depois dar um pé na bunda nela tão sem-noção? — Jean o provocou, bagunçando o cabelo de Eren.

— Como se eu soubesse que ia dar nisso! — defendeu-se Eren.

— Você não aprende nunca mesmo... — comentou Mikasa, o que gerou uma onda de risos.

Até você, Mikasa?! — perguntou Eren, indignado.

— Na verdade, eu acho que ela é a que mais tem propriedade para falar sobre isso! — disse Armin.

A brincadeira continuou rolando, para a infelicidade de Eren. Enquanto os meninos — especialmente Jean — faziam uma baderna em cima da suposta incapacidade de aprendizado de Eren, Mikasa permaneceu pensativa sobre Reiner e Bertolt, principalmente por causa daquela ligação que Bertolt fez a Annie. Como ela andou afastada de Eren, Mikasa não pôde notar se havia, de fato, algum comportamento estranho naqueles dois.

— Está tudo bem, Mikasa? — Armin veio perguntar assim que notou o silêncio da amiga, mesmo quando Jean falava várias besteiras acerca de Eren. Geralmente, ela era a primeira a defendê-lo.

— Armin, você tem notado algo de estranho em Reiner e Bertolt?

O garoto a olhou confuso, já que ela nunca chegou a se importar muito com a existência dos dois.

— Bertolt está meio sumido desde que Annie e Eren começaram a namorar — Mikasa não tinha notado isso —, mas Reiner só foi sumir assim também depois que eles terminaram.

— Hm, entendo...

— Por que a pergunta?

— Nada, só estava pensando em uma coisa.

Logo em seguida, ela voltou para o meio dos garotos — para defender Eren e dar um gelo em Jean, claro. Armin apenas a observou de longe. Tanto Eren quanto Mikasa estavam escondendo algo... e não parecia ser coisa boa.

O primeiro treino do time de baseball foi bem puxado. Talvez seja parte da estratégia, talvez seja para descontar a raiva de Eren, o que importa é que Annie fez uma sequência de exercícios extremamente cansativa, matando o time em apenas uma hora.

— 15 minutos para descanso, e depois corrida em volta da quadra — anunciou Annie.

Em questão de segundos, os bancos da arquibancada foram preenchidos por um bando de meninos suados e exaustos.

Ei, Eren, diga-me uma coisa... — murmurou Jean, entre arfadas. — Por que eu tenho a impressão de que isso tudo é culpa sua?

— Porque, pra você, tudo é culpa minha... — devolveu Eren, quase sem energia ou fôlego para falar.

— Eu realmente não gostaria de estar no lugar de vocês — comentou Armin, quase sem um pingo de suor, se comparado aos outros meninos.

Armin... eu te odeio... —murmurou Connie, deitado no chão mesmo.

Annie tinha uma afeição inexplicável por Armin, então nunca pegava muito pesado em cima dele. Claro que Armin não gostava de ser tratado diferente, e sempre se esforçava por cobrança própria, mas querendo ou não é bem diferente quando se tem outra pessoa para fazer pressão.

Olha só, Reiner e Bertolt também parecem está quase secos — comentou Marco.

Ah... Mas aí é por um motivo diferente... — disse Jean.

Aqueles dois têm uma resistência física quase sobre-humana — comentou Connie.

Eren virou-se para olhar para Reiner e Bertolt. Assim que seus olhos se cruzaram, Eren recebeu um par de olhos frios como gelo, e então ambos se afastaram. Eren ficou surpreso com a atitude deles; no final das contas, eles ainda eram amigos... Não é?

Certamente, a atitude de Reiner e Bertolt não passou despercebida por Armin. Mikasa estava certa, pensou o garoto loiro. Tem alguma coisa errada com esses dois... Mas, no fundo, Armin esperava que só fosse mágoa pelo término de Annie.

No final das contas, aquele dia foi lembrado como “O dia em que o time de baseball teve cãibra múltipla”... Especialmente os membros do 2° ano, que tiveram um treino extra caprichado.

Eren mal conseguia mover as pernas quando chegou em casa. Carla sugeriu que ele usasse uma bolsa térmica para relaxar os músculos, mas Eren disse que apenas um banho de banheira seria o suficiente. E, realmente, foi muito efetivo; era como se o corpo de Eren se derretesse na água quente. Assim que terminou o banho, ele colocou uma cueca boxer e se jogou na cama, sem pensar em mais nada... a não ser em um par de olhos cinzentos.

Eren usou a sua última gota de energia para pegar o celular e buscar o papel com o número de Levi na sua escrivaninha. Assim que o encontrou, Eren se jogou na cama de novo e passou um tempo só observando o pedaço de papel, pensando no que faria. Já eram 21h praticamente, e Eren realmente não queria incomodá-lo. Afinal de contas, eles tinham ficado ontem, e seria desespero se Eren ligasse no dia seguinte. Mas foi ele que me deu o número..., pensou Eren. Indeciso, Eren optou por manda uma mensagem; não o incomodaria caso ele estivesse ocupado e também não soaria muito “desesperado”.

“Eu te ligaria, mas não quero incomodar e também estou exausto demais pra conseguir conversar”.

Assim que mandou a mensagem, Eren se odiou por ser impulsivo demais e não reler o que estava escrevendo para checar se não estava escrevendo besteira — o que foi o caso. Mas, antes que Eren realmente se envergonhasse do que mandou, ele sentiu o celular vibrar.

“Oh, então pirralhos também ficam exaustos...”, disse Levi.

Eren não pode evitar sorrir como um bobo para o celular. Mesmo tento sido uma mensagem ridícula, Levi o respondeu sem demora.

“Já não disse para parar de me chamar de pirralho?”, respondeu Eren. Cinco segundos depois, Levi respondeu:

“Está querendo ser tratado como adulto, Jäeger?”. Por algum motivo, aquela mensagem fez o coração de Eren disparar.

“Pensei já ter te provado que mereço ser tratado como um”, respondeu o garoto. Ele simplesmente não parava de sorrir para o celular; estava muito orgulhoso da ousadia que estava tendo.

Mas Levi não respondeu. Eren estava se mordendo de nervosismo, querendo que ele respondesse logo. Será que eu passei dos limites?, pensou Eren. Ou então, ele estava só zoando com a minha cara e eu não percebi? Antes que Eren surtasse, o celular vibrou.

“Acho que preciso de uma prova final”.

O coração de Eren falhou uma batida. Só de ler aquelas palavras, Eren conseguia imaginar o próprio Levi as dizendo com sua voz grave e um pouco rouca. O garoto quase não respirava.

“Quando?”

“Hoje é quinta, então acho melhor deixar pro final de semana de uma vez”.

Aquilo fez Eren se contorcer na cama. Não! Por que tanto tempo?! Foi então que Levi complementou com outra mensagem:

“Teria problema você dormir aqui?”.

Mais uma batida falha do coração do garoto, que já se excitava só com a ansiedade.

“O único problema é que eu não planejo dormir”.