Vazio
25 Perdoe-me - EXTRA
Notas iniciais
— Jean, solta minha mão — exigiu Marco, com olhos suplicantes e assustados.
— Não vai fugir nem nada, não é? — Jean só não tremia por que segurava firme o pulso de Marco. Estava mais nervoso do que nunca.
— Eu não sou uma criança! — exclamou Marco.
Jean achou que aquela tinha sido uma boa resposta, e liberou o garoto do aperto, dando um passo para trás. Marco recolheu a mão que tinha sido restringida e esfregou o pulso, levemente avermelhado.
— O que quer? — murmurou Marco, sem olhá-lo diretamente nos olhos. — Não acha que já me ofendeu o suficiente?
— Eu não quis...! — Jean balbuciava. Percebeu que não iria chegar a lugar algum daquela forma, então respirou fundo e passou ambas as mãos pelos cabelos. — Marco... Por quê?
— Por que o que? — perguntou de testa franzida.
— Por que justo eu...?
— Ah, fala sério Jean — praguejou Marco, mais puto do que já estava. — Está mesmo me perguntando por que eu gosto de você? Sério mesmo?
— Eu só quero entender... — A voz de Jean quase não saía. — É que... Eu não... E, sei lá... Você sempre... — Jean se embolava com as palavras, coisa que quase nunca acontecia.
— Você sempre fala tudo o que te vem à cabeça, pois acredita ser honestidade. — Sarcasmo escorria pelas palavras de Marco. — Por que agora está gaguejando?
Jean franziu a testa também, irritando-se com a hostilidade de Marco.
— Eu só estou tentando não falar mais besteiras do que eu já disse —tentou se justificar.
— Ah, fico feliz em saber que agora você liga para o que eu sinto. — Marco revirou os olhos.
Aquele foi a gota d’água para Jean.
— Escuta aqui, Marco — disse, engrossando a voz. — Eu juro que estou tentando pedir desculpas, mas você não está ajudando nem um pouco!
Marco se calou. Sim, estava terrivelmente chateado com Jean pelas coisas que lhe disse mais cedo, mas... Se ele estava tentando se desculpar, deveria ao menos escutá-lo. Jean, ao perceber o silêncio do garoto, prosseguiu.
— Eu não quis dizer nada daquilo. — Jean percebeu que Marco se mordia para não protestar, e tratou de continuar falando antes que Marco abrisse a boca. — Eu só estava com medo, ok?
Que desculpa de bosta, pensou Marco, revirando os olhos. Sabia que Jean amarelava e muito, mas culpar a covardia dele por aquela agressão verbal gratuita? Aí, não.
— Jean, se o que você chama de se desculpar é me enrolar com qualquer mentira, então...
— Eu não estou mentindo! — ele gritou enquanto batia ambas as mãos no armário atrás de Marco, cercando-o com os braços.
Os batimentos de Marco estavam fora de controle. À sua frente estava Jean, mas próximo do que nunca, olhando-o intensamente num misto de desespero e urgência. Queria tocá-lo, queria trazê-lo para perto, queria entregar-se a seu desejo... Mas sabia o que aconteceria se o fizesse.
— P-pare de gritar! — Marco cochichou, quase não conseguindo falar devido ao nervosismo. — As pessoas podem...
— Não tem mais ninguém aqui — informou Jean.
De fato, Marco olhou em volta — finalmente conseguiu tirar os olhos de Jean — e não encontrou nenhum dos colegas de time. O vestiário parecia ainda maior e mais frio quando vazio.
Jean pegou-se analisando o perfil de Marco, que olhava para o local em volta. ele estava com as bochechas coradas, a respiração entrecortada e a veia em seu pescoço pulsava freneticamente. Estava tão próximo de uma pessoa que o amava, naquela posição tão...
Estava começando a perder a calma, então Jean deu alguns passos para trás para respirar e passou a mão pelo cabelo, tentando entender o que estava acontecendo com ele. Sentia como se, caso não consertasse logo as coisas, fosse perder algo muito importante. Sentia como se fosse perder tudo.
E ele detestava perder.
— Jean... — Marco o chamou, fazendo-o voltar a olhá-lo. — Do que tem tanto medo?
— De perder — respondeu de imediato, sem nem mesmo pensar no que estava dizendo.
Marco suspirou, abaixando a cabeça enquanto soltava o ar. Você não está se ajudando, respondendo tão vagamente...
— O que eu preciso fazer para que entenda que eu quero me desculpar? — suplicou Jean.
Marco levou um tempo considerando aquela pergunta. Muitas coisas absurdas passaram por sua cabeça, como fazê-lo pedir desculpa de joelhos e coisas do tipo.
— Você ouviu a minha conversa com Eren, não foi? — perguntou Marco, ainda com a cabeça abaixada.
— Não me diga que isso tudo é...
— Você ouviu — Marco o cortou, com a voz firme, fazendo Jean engolir em seco. — Não ouviu?
Jean apenas assentiu com a cabeça, tentando adivinhar se aquilo era bom ou ruim.
— Então já sabe o que pode fazer — disse Marco, como se aquilo definisse tudo.
Jean apenas sorriu e balançou a cabeça.
— Você ainda não entendeu que eu não faço a mínima ideia do que fazer, não é?
— Se você ouviu a conversa — Marco tratou de explicar, falando mais alto que o amigo —, então sabe que eu fiquei realmente puto quando você me deu um fora tão ridículo. — Jean arregalou os olhos; nunca tinha visto Marco tomar aquela postura mais agressiva. — Sabe que eu sempre aceitei o fato de você gostar de Mikasa, mas... Caralho, Armin? E você ainda teve a coragem de fazer aquela ceninha ridícula, segurando a mão dele e pedindo para que ele não te deixasse, quando eu e Eren voltamos do ginásio...
Marco falava tudo de uma vez, liberando todo aquele peso que aguentava sozinho, pois nunca teve coragem de contar a ninguém. Bem, ele não tinha mais nada a perder. Tudo que importava para ele, agora, já tinha sido perdido: ele e Jean, talvez, nunca mais seriam os mesmos um com o outro.
Quando finalmente parou para ver a reação de Jean, ficou espantado. Ele estava de boca aberta, sem reação. Em seus olhos, estavam refletidos os sentimentos de culpa e de desespero. Não sabia que o que eu dizia mexia tanto com Jean, pensou. Até que sentiu algo incomodar sua bochecha. Quando passou a mão pelo rosto, entendeu a reação de Jean: tinha trilhas de lágrimas que teimavam em escapar de seus olhos, e mesmo quando já tinha acabado de falar elas continuaram caindo.
Marco limpava repetidas vezes o rosto, mas sempre apareciam mais lágrimas para sujá-lo de novo, pois não conseguia controlá-las. Era uma luta sem fim. Finalmente, desistiu de lutar contra elas; Marco sentou-se no chão, cobrindo os olhos com as duas mãos, e deixou que tudo saísse de uma vez.
— Marco...! — murmurou Jean, assim que o viu desabar.
No auge de seu desespero, Jean ajoelhou-se na frente do amigo e o segurou pelos pulsos, tentando tirá-los da frente dos olhos e fazê-lo olhara para ele. Só que mesmo sem as mãos, Marco continuava com os olhos fechados —lacrados, de tão forte que suas pálpebras se contraíam —, tentando esconder o rosto com o braço direito.
— Marco, você entendeu tudo errado! — Jean gritava. — Eu não fazia a mínima ideia de que você tinha se declarado, eu não consegui perceber que estudar com Armin te incomodava, e aquilo quando vocês dois voltaram do ginásio foi por que eu não sabia como agir perto de você depois de ter acabado de descobrir que...
— Cala a boca, Jean! — Marco gritava de volta, entre soluços. — Você já me feriu demais, eu não quero escutar mais nenhuma desculpa!
— Não é desculpa!
— Sai daqui!
Marco sequer ouvia o que Jean dizia; começou a se debater com tudo, tentando libertar suas mãos para poder sair dali o mais rápido possível. Sentia-se como se algo estivesse pressionando seu coração com muita força, a ponto de esmaga-lo.
Jean não podia deixá-lo ir, não sem resolver tudo. Estava decidido a reatar sua amizade com Marco, custe o que custar, e foi o que fez. Com mais força do que precisava, jogou os braços de Marco para os lados, deixando seu tronco aberto e desprotegido. Antes que Marco reagisse à sua reconquistada liberdade, Jean inclinou seu corpo para frente, pressionando o de Marco contra o armário. Segurando-o pela nuca com as duas mãos, Jean o forçou a olhar para cima e, sem pensar duas vezes, colou seus lábios nos dele.
Jean não o beijou com profundidade, invadindo sua boca com a língua ou movendo os lábios. Era mais um selinho dado de forma grosseira, como se esmagasse a boca dele com a sua. E tinha que admitir, os lábios de Marco eram macios e suaves, e moldavam-se muito bem aos seus. Quando percebeu que Marco não lutava mais, suavizou o toque e, aos poucos, foi descolando sua boca da dele, deixando-se aproveitar os últimos segundos que tinha para deleitar-se sobre aqueles lábios amenos que moldavam os seus.
Marco não podia acreditar no que tinha acabado de acontecer. Não sentia suas pernas, seus braços. Não sentia seu tronco. Não sentia o coração bater, o pulmão respirar. A única coisa que importava ali, que realmente existia para ele, era a sensação de Jean prensando seus lábios de forma quase rude, mas tão gostosa... O mundo podia arder em chamas lá fora; enquanto estivesse naquele vestiário com Jean, estaria tudo bem.
A cabeça de Jean estava um caos. Beijá-lo fazia parte de seu plano, mas não esperava que seu coração se acelerasse tanto. Quando tomou distância o suficiente para olhar a reação de Marco, sentiu seu ritmo cardíaco acelerar ainda mais: seu rosto estava levemente avermelhado; sua respiração, ofegante; seus olhos brilhavam com uma chama de puro desejo e... Aquela boca... Entreabertos, úmidos e rosados por causa da “agressão”, os lábios de Marco eram mais convidativos do que carne era para leões.
E Jean queria devorá-los.
— Marco... — A voz de Jean era rouca, refletindo todo o seu desejo. Ele pigarreou; não sabia o que estava acontecendo com ele, mas sabia, em sua consciência, que aquela reação física e momentânea que estava tendo naquele momento não era o que queria. Eu preciso fazer as pazes com ele... isso é tudo que importa. — Eu nunca gostei de homens. Nunca sequer pensei em ter alguma coisa com um.
Marco tinha saído das nuvens para bater de cara no chão. Mesmo depois daquele beijo, mesmo com aquelas mãos que ainda o seguravam firme pela nuca, Jean dizia aquelas coisas... Jean, o que você quer comigo?, perguntava-se. Já não basta de brincar com o que eu sinto desse jeito?
Como Marco não respondeu nada, Jean continuou.
— Você pode achar que eu disse todas aquelas coisas só por dizer, para que fazermos logo as pazes e acabou. — Jean falava sério olhando-o nos olhos, sequer piscava. — Mas eu realmente quis dizer cada uma daquelas palavras... Eu não tive a intenção de te magoar. Você é meu melhor amigo, é a pessoa com quem eu divido meu sonho de entrar para uma faculdade na capital, é a pessoa com quem eu planejava dividir o quarto no dormitório... Eu nunca iria te machucar daquela forma intencionalmente. Nunca.
Embora Marco não tivesse nenhuma expressão no rosto, seus olhos ameaçavam lacrimejar de novo. Jean subiu uma das mãos para a parte de trás da cabeça de Marco e o segurou pelos cabelos, fazendo Marco soltar um gemido baixo, quase inaudível, mas que fez algo estranho se contorcer na região inferior.
— Eu nunca quis beijar um homem... — repetiu Jean, talvez mais para si mesmo do que para Marco. — Mas... Se for para que você entenda que eu não quero que você deixe meu lado... Que você entenda que, mesmo não te amando da forma que você quer, o que eu sinto ainda é válido... Eu te beijaria todos os dias, só para não te ver chorar.
Aquilo ultrapassou todos os limites para Marco. Ele se libertou das duas mãos de Jean e entrelaçou ambos os braços em volta do pescoço do amigo, repousando a cabeça à esquerda da dele. E ali, em seu ninho particular, deixou que mais lágrimas silenciosas escorressem.
Jean retribuiu o abraço, deixando que suas mãos envolvessem as costas de Marco bem devagar. Primeiro, deu um abraço singelo e contido, um pouco sem jeito até. Mas, à medida que o calor e o cheiro de suor que emanavam de Marco tomaram conta de seus sentidos, pegou-se abraçando o amigo com força, juntando seu tronco ao dele. Podia sentir o coração de Marco martelar em seu peito, e aquilo acelerava o seu próprio.
— Por favor, perdoe-me... — sussurrou Jean no ouvido de Marco.
Depois de tudo aquilo que Jean fez, Marco era incapaz de negar aquele pedido, tão simples e tão sincero. Esfregou os olhos no braço para tirar as lágrimas da frente e tomou distância para olhá-lo nos olhos. Sim, Jean deixava transparente em seu rosto as suas intenções. Marco sorriu com ternura, e tirou os braços de seu pescoço.
— Eu te perdoo, Jean — disse Marco, por fim. Jean seu um suspiro de alívio profundo, quase que como se não conseguisse respirar até então. — Você não precisa fazer nada disso, eu já entendi que... Nós não daríamos certo. — Deu de ombros. — Mas eu também não quero perder sua amizade.
— Marco... — gemeu Jean, e o puxou para mais um abraço, dessa vez mais forte.
Só que agora era Jean que enterrava o rosto no ombro de Marco, envolvendo-o pela cintura e pela região das omoplatas, apertando-o como se fosse algo precioso, e que poderia fugir a qualquer momento. Marco passou os braços ao redor da cabeça de Jean mais uma vez, acariciando de leve a região do dorso que tinha o cabelo mais curto — ele adorava como os fios espetavam de leve sua mão.
Decidiu que aquele seria o último momento que o amaria, deixando todos os sentimentos que tinha por Jean naquele ninho aconchegante, onde sabia que nunca mais iria voltar.
Fale com o autor