Vazio

3 Não aconteceu nada...


Notas iniciais
Oie, Chisana na área o/ Mais um capítulo fresquinho para vocês, seus lindos ♥ Só... por favor, tentem não me matar xD Bem, sem mais delongas, boa leitura!

Como eu fui parar nessa situação...?, perguntava-se Eren, ainda tendo o rosto esmagado pelo pé do suposto Yakuza. A verdade é que Eren podia facilmente sair daquela posição, mas — pela primeira vez — o garoto de olhos verdes estava sem ação.

Levi — ou, pelo menos, foi assim que os caras da gangue o chamaram — não demorou muito mais do que alguns segundos e o soltou, estalando a língua em desaprovação. Eren se apressou em sair daquela posição humilhante e pôs-se de pé, e só depois checou se estava tudo bem com a sua testa. Estava sangrando um pouco, mas não passava de um arranhão.

— Não tenho tempo para perder com fedelhos que não sabem nem apanhar sem fugir... — murmurou Levi, catando do chão sua pasta preta e alguns papéis que tinham se espalhado. — Que porcaria, sujou até os papéis...

Os pelos da nuca de Eren se eriçaram. Ele acha que eu estava fugindo?!

— Está me chamando de covarde?! — disse Eren, sem pensar duas vezes.

E depois se arrependeu.

O olhar que o tal de Levi o deu foi tão arrepiante quanto todos os outros. Eren recuou um passo, mas manteve a mesma expressão séria.

— Escuta aqui, garoto... — Levi terminou de arrumar as suas coisas, se levantou e andou em direção a Eren, que congelou na posição em que se encontrava. —... Por acaso eu tenho cara de quem se importa com o que você faz ou deixa de fazer?

Eren engoliu em seco. Poxa, por que ele está tão puto? Será que a camisa que eu manchei era cara...?

— Desculpe pela camisa! — Eren se apressou em dizer, mais nervoso do que esperava.

Levi arqueou uma sobrancelha, sem demonstrar qualquer emoção, mas achando a cena engraçada por dentro. Por fim, acabou decidindo ignorar o incidente; ele não ganharia nada importunando mais ainda a vida de um pirralho medroso.

— Tanto faz, eu estou atrasado demais para perder meu tempo com você — disse Levi, dando as costas para Eren e seguindo seu caminho. — Puta merda... — praguejou assim que checou o seu relógio de pulso. — Eu não vou conseguir trocar de roupa a tempo...

Levi reconsiderou seriamente voltar e descontar mais um pouco no garoto, mas logo descartou a ideia. Por mais irritado que estivesse, ainda não gostava de agir desnecessariamente. Mas o que vou fazer? Não posso aparecer na reunião assim...

Eren começou a se sentir culpado. Tudo bem que aquele homem era um nanico mal-encarado, e que ele o chutou e pisou no seu rosto, mas se olhasse bem... ele realmente não parecia ser um bandido ou coisa do tipo. Na verdade, ele só parecia ser um homem bem estressado e com bastante pressa.

— Hm... se não se importar... — Eren começou a dizer, mas a sua voz foi morrendo gradualmente. Por que eu estou com tanta vergonha?! Ele respirou fundo e continuou. — Eu posso... trocar com você. — conseguiu terminar com algum esforço.

Levi parou e virou-se para poder encará-lo, e eis que se depara com um colegial passando a mão na nuca freneticamente, com bochechas levemente coradas.

— Do que diabos está falando? — perguntou Levi, sem sair do seu monótono tom de voz.

— A camisa — respondeu Eren, sem ainda encará-lo nos olhos. — A minha também é branca de botões. Então, se não for um problema...

Eren ficou imóvel esperando uma resposta. Nossa, eu devo estar parecendo um idiota... Parte dele queria simplesmente sair daquela situação embaraçosa, enquanto outra parte queria simplesmente se matar de tanta vergonha por levar um chute e ainda ter que se desculpar.

Mas ele não obteve nenhuma resposta. Seus olhos procuraram pelo Levi e o encontraram andando em frente, de costas para Eren.

— Lev-

— O que está fazendo parado aí? — Eren foi cortado pelo Levi, que parou de andar mais uma vez para encará-lo. — Acha que eu vou trocar a camisa no meio da rua?

Oh, isso faz sentido, pensou Eren. Mas você bem que podia ter dito alguma coisa, não? O garoto se apressou e juntou-se a Levi. Os dois andaram em silêncio por alguns minutos e, para o alívio de Eren, foi extremamente natural. Aparentemente, Levi só deixava Eren tenso quando falava ou olhava diretamente para ele.

Subitamente, Levi desviou-se de seu caminho e entrou em uma pequena lanchonete. Ou ele está com muita pressa ou precisa diminuir a dose de café, pensou Eren enquanto analisava a velocidade na qual Levi fazia as coisas. A lanchonete por dentro tinha um clima agradável e caseiro: era toda decorada com bordados e estampas quadriculadas, e as poucas mesas que tinham eram todas de madeira. Eren estava prestes a se perguntar por que Levi tinha entrado aqui quando uma senhora apareceu para atendê-los no balcão.

— Sejam bem-vin... Ah, Levi-san! — A senhora sorriu para Levi, que apenas deu um cumprimento rápido com a cabeça, sem nunca alterar a sua expressão. — Veio para comprar o de sempre?

“De sempre”? Levi-san é um freguês frequente?! Por algum motivo, Eren simplesmente não conseguia ver Levi entrando em um lugar tão aconchegante como aquele por livre e espontânea vontade.

— Não, dessa vez eu apenas gostaria de usar o banheiro — respondeu Levi com educação, outra coisa inesperada para Eren. — Se importa?

— Oh, mas é claro que não, meu querido! — A senhora parecia realmente feliz em vê-lo.

Talvez eles sejam parentes, concluiu Eren. Para ele, essa era a única forma de alguém ficar feliz em ver um homem tão ranzinza.

— Com licença. — Levi fez uma reverência e seguiu em direção a um pequeno corredor à direita.

Eren a cumprimentou rapidamente e seguiu Levi. A senhora, por sua vez, apenas olhou para Eren com curiosidade. Nossa, ele é tão novo...

— Pronto, pode tirar a camisa — disse Levi assim que chegou em frente a uma porta de madeira no final do corredor.

Eren arregalou os olhos e sentiu as bochechas corarem de leve.

— M-mas, aqui...?! — perguntou Eren, envergonhado, olhando para os lados para ver se tinha alguém olhando.

— Por acaso existe um lugar específico para se tirar uma camisa? — retrucou Levi.

— Não, mas... Eu pensei que a gente fosse usar o banheiro.

— Sim, eu irei usar o banheiro — respondeu Levi, levantando as mangas sujas da camisa para Eren. — Além de trocar de blusa, planejo lavar os meus braços.

Eren não respondeu nada, apenas continuou o encarando com olhos suplicantes. Eren era, de maneira geral, um garoto bem extrovertido e “solto”, mas mesmo ele tinha algumas coisas das quais morria de vergonha. Ficar seminu era uma delas.

Levi não pôde evitar suspirar e abrir a porta do banheiro, gesticulando para Eren entrar. Este, por sua vez, soltou o ar em alívio e entrou sem hesitar.

— Essa juventude... — murmurou Levi, parecendo 20 anos mais velho do que realmente era.

Eren começou a desabotoar a camisa apressado quando escutou o barulho de “click” da fechadura sendo trancada. Ao se virar, depara-se com aquela figura ligeiramente mais baixa despindo-se também. Sim, ele estava despindo-se junto com outro homem. Sim, eles dividiam o mesmo banheiro. E sim, aquele foi um dos momentos mais constrangedores da vida de Eren — até então.

Levi olhou Eren de canto de olho, percebendo o constrangimento do garoto. O senso de humor de Levi não era dos melhores, mas tinha que admitir que aquele era um menino engraçado: uma hora parecia ser um garoto rebelde, outra hora parecia uma criança tímida... Sim, ele era interessante.

À medida que ia se despindo, uma vontade incontrolável crescia em Eren de espiar o homem ao seu lado. Dentro da sua cabeça, era só para ver se ele era mais “forte” do que Levi, mas lá no fundo Eren sabia que aquela era apenas uma desculpa boba. Não aguentando mais, o garoto terminou de tirar a camisa e a estendeu para Levi, sendo essa a sua oportunidade perfeita para olhá-lo.

Levi já tinha se despido fazia tempo, e estava lavando os braços na pia — o que acabou sendo uma oportunidade melhor ainda para Eren. O corpo de Levi era incrível: ele não tinha um porte físico de dar inveja, mas compensava com a massa de músculos que o delineavam muito bem. Não era como se ele fosse um fisiculturista, mas como se seu corpo fosse feito apenas de músculo. Não é à toa que aquele chute doeu tanto...

— Apreciando a vista? — Levi enxugava os braços com casualidade, não aparentando estar nem um pouco embaraçado. O completo oposto de Eren.

— Não! — Eren respondeu de imediato. — Quero dizer, eu só estava... — E lá estava a vergonha sufocante de antes, só que triplicada devido ao fato de estar semidesnudo. —... Esperando você... Pegar a camisa...

Levi deu apenas uma olhada de canto de olho para Eren, que sentiu sua barriga revirar-se. Levi não sabia o porquê, mas o controle que seu olhar tinha sobre aquele garoto era algo revigorante. Normalmente, as pessoas só o temem ou o odeiam por causa daqueles olhos tão penetrantes e desafiadores, mas não aquele garoto. Era, de certa forma, divertido. Mas Levi censurou o pensamento imediatamente; um fedelho era apenas um fedelho, no final das contas.

— Tome. — Levi jogou a sua camisa suja para Eren, que a pegou com a mão livre.

Levi deu um passo em direção a Eren para pegar a outra camisa e percebeu que a sua súbita aproximação fez o garoto recuar o tronco. Naquele momento, Levi quis se aproximar mais, chegar mais perto e ver o que mais a sua presença podia fazer naquele garoto esguio que ainda fedia a colegial. Mas não, sua consciência o estava julgando demais para fazer qualquer outra coisa. Levi apenas apanhou a camisa da mão de Eren e a vestiu com notória habilidade.

Sem saber direito o que fazer, Eren ficou encarando a outra camisa que estava em sua mão. Ela estava visivelmente suja, e ele não estava nem um pouco a fim de vesti-la, mas não tinha escolha. Ele a colocou precisando de quase o dobro do tempo que Levi precisou. A medida que a vestia, percebeu que o tecido era extremamente macio e confortável, além de ter um cheiro muito bom. Essa camisa com certeza é cara, e então rezou para que Levi não o cobrasse pelo incidente.

Sempre com agilidade, Levi terminava de ajeitar a camisa de Eren — que era de um tamanho notoriamente maior que o seu. Desistindo de arrumar as mangas, decidiu apenas dobrá-las até o cotovelo, o que não foi uma má ideia. Da sua pasta, tirou um pedaço de papel — ou seria um guardanapo? — e uma caneta. Escreveu alguns rabiscos e entregou o papel para Eren, que percebeu que Levi tinha anotado um endereço para ele.

— Não a lave junto com roupas normais em uma máquina de lavar, lave-a a seco — Levi explicava enquanto terminava de se arrumar. — Se puder ser à mão, será melhor ainda. Evite usar água quente, a menos que use um pouco de bórax pulverizado e uma colher de essência de terebintina.

Eren apenas o olhava confuso. Levi revirou os olhos e apertou a ponte do nariz.

— Deixe-me adivinhar — somente a forma como Levi disse foi suficiente para que Eren enrubescesse —, você não sabe lavar uma camisa de linho branco, sabe?

Eren apenas negou com a cabeça. Na verdade, ele nem sabia a diferença entre linho branco e qualquer outro tecido normal.

Ótimo... — murmurou Levi, já pensando no estado pecaminoso que sua camisa iria voltar. — Você mora com algum responsável, certo? Alguém que saiba lavar roupa?

— Lavar roupa não é exatamente a tarefa mais impossível do mundo... — resmungou Eren.

— E mesmo assim você não saber fazer com eficiência — rebateu Levi. Mas depois ele suspirou e decidiu amansar um pouco, ele não ia chegar a lugar algum o tratando de maneira tão ríspida. — Sua mãe... — disse apressado para mudar de assunto, só percebendo depois que aquela poderia ser uma pergunta rude para se fazer. — Você mora com sua mãe, certo?

Eren assentiu com a cabeça e isso foi um alívio para Levi.

— De 0 a 10, quão boa ela é lavando roupa?

— Você só pode estar de sacanagem...

— Vou aceitar isso como um 6.

Enquanto Levi considerava se escrevia um manual de instrução de como lavar a camisa, Eren apenas o encarava estupefato com a naturalidade de Levi ao agir de forma tão absurda.

— Espera, isso é sério? — perguntou Eren, ainda sem acreditar.

— Como não poderia ser? — respondeu Levi, sem perder o tom casual.

— Não se preocupe, minha mãe sabe lavar roupa. — Eren estava abismado por ter que confirmar isso para uma pessoa.

— Mas sabe lavar uma camisa de linho branco?

— Sabe como é, em caso de dúvida é só colocar no Google.

Levi não estava muito certo de devia deixar as coisas como estavam, mas não tinha muitas opções. Na melhor das hipóteses, apenas lavá-la de novo seria o suficiente.

— Certo... e o que é esse endereço? É o lugar onde eu devo devolvê-la? — Eren deu uma checada no bilhete que Levi tinha lhe dado. Hm... Apto. 601...

— Pode simplesmente deixar na portaria. — Levi destrancou a porta e seguiu com um passo apressado enquanto checava o relógio de pulso. — Ah, merda, estou mais atrasado do que deveria...

— Ei, espera... Levi-san!

Eren o chamava, mas ele não parou por nem um segundo. Nem mesmo para se despedir da senhora dona da loja; ele fez apenas um cumprimento rápido com a cabeça e partiu para a rua, à caminho do seu trabalho. Eren demorou alguns segundos cumprimentando a senhora, que o analisava com minúcia e percebera que ele e Levi trocaram as camisas. Eren notou o rubor da senhora e, embaraçado, despediu-se o mais rápido possível e partiu para o mesmo caminho de Levi. Mas quando o procurou, Levi era apenas uma silhueta distante virando a esquina de uma rua.

Meu Deus... Quem é esse cara...?

Quando Eren chegou em casa, o sol já estava quase se pondo. Ele mal tinha tinha guardado os sapatos quando Mikasa desceu as escadas correndo e correu em sua direção, abraçando-o.

— Ei, Mikasa! — resmungava enquanto tentava afastá-la. — Para que tudo isso?

Você disse que não se meteria em confusão! — Mikasa finalmente o soltou, mas ainda estava muito agitada. — O que... O que aconteceu com você?! — perguntou assim que analisou o estado de Eren: calça desfiada nos joelhos, cotovelos ralados, testa ferida, camisa suja... que, por sinal, não era a camisa do colégio.

— Você está fazendo um drama desnecessário — disse Eren passando por Mikasa e seguindo para o seu quarto no segundo andar. — Eu estou bem, ok?

Mikasa sabia que ele não era exatamente o tipo fácil de se lidar, então respirou fundo.

— Armin me ligou — ela confessou. Eren praguejou o amigo de diversas formas diferentes. — Ele contou sobre a confusão que vocês fizeram lá no Hannes’, e que os seis caras te seguiram — o tom de Mikasa era acusatório, o que deixava Eren louco.

— E o que você tem a ver com isso? — ele devolveu.

Ambos se encararam por mais alguns segundos no pé da escada até que Carla Jäeger, mãe de Eren, apareceu com uma cesta de roupas sujas.

— Oh, Eren, você vol... — ela se interrompeu quando viu o estado no qual seu filho se encontrava. — O que aconteceu com você?!

Eren deu uma boa examinada nele mesmo e pensava numa forma de explicar a situação sem que sua mãe surtasse. E o pior: não podia inventar nada, já que Mikasa o deduraria na hora — ela era mestra nisso. No fim, decidiu pular logo para o que interessava.

— Então, mãe... — Ele passou a mão na nuca. — Você sabe lavar camisa de linho branco?

Notas finais
Sim, sim, o título do capítulo foi bem auto explicativo: não aconteceu nada :D (ainda, hehehe) Seja pra bem ou não, eu estou tentando fazer uma fic yaoi que foque mais na história do que no yaoi em si, espero que entendam!