Vazio
27 Mãe e filho
Bertolt permaneceu sentado em um dos bancos da praça de sempre, olhando as pessoas passarem. Estava meio puto pelo que aconteceu com Connie, e ainda por cima sabia que algo estava acontecendo com Marco... Talvez isso seja bom, pensou, com um discreto sorriso se formando no canto de seu lábio.
— Sorrindo sozinho? — perguntou Reiner, sentando-se ao lado do amigo no banco. — Que medonho.
— Estava apenas lembrando uma situação boa — explicou Bertolt. — E então, quais as notícias?
— Tenho duas boas e uma ruim.
— Pelo menos, as boas estão em maioria — disse Bertolt, em seu tom sereno de sempre. — As boas primeiro.
— Hugo estabeleceu muito bem o ponto dele no Kyojin e Rico-san definitivamente fechou negócio.
— Sabia que conseguiria convencê-la — Bertolt sorriu para Reiner, que pôs a mão no rosto do amigo e o empurrou de leve.
— Que sorriso medonho — resmungou. Bertolt se limitou a rir.
— E o que me diz de ruim?
— Sabe aquela briga que todos estão comentando?
— A do Jäeger? — O tom de voz de Bertolt mudou completamente.
Reiner assentiu com a cabeça.
— Ele se meteu nos negócios de Hugo com Connie.
— Que merda! — resmungou Bertolt. — Jäeger sempre...
— Você realmente detesta o cara, não é? — observou Reiner. — O que ele te fez de tão ruim? Nem eu me lembro de...
— Deixa isso para lá — disse Bertolt, balançando a cabeça. — Caralho... Connie era uma boa isca...!
— Não está botando muita fé nele?
— Pode até ser... — Bertolt passou uma mão pelo cabelo. — Mas se tem uma coisa da qual eu tenho certeza é a que Connie é quase um ídolo para os calouros do primeiro ano. Se ele começasse a usar...
— Talvez, ele ainda venha procurar por mais.
— Não, ele não vem — resmungou Bertolt. — Não conseguiu ouvir ele se vangloriando o tempo inteiro de que tinha conseguido uma posição oficial no torneio?
— E é exatamente por isso — insistiu Reiner. — Uma posição oficial requer mais treinamento e mais esforço físico, e isso sem falar no estresse de ter Annie no seu pé...
— Ah, isso é verdade — concordou Bertolt, lembrando-se dos anos de dor e sofrimento em que Annie usava os dois de cobaias para as suas sequências de treinamento. Não é à toa que os dois são os mais bem preparados do time.
— Então, não acha que, quando a barra pesar para ele...?
—... Ele procurará por mais energia — concluiu Bertolt. — Hm, é um bom plano... Mas irá demorar muito.
— Não se preocupe, já temos uma boa clientela dentro do terceiro ano.
— Ainda assim, precisamos de mais elos fracos... — Por um momento, a imagem de Marco durante o treinamento passou pela cabeça de Bertolt. — Reiner... Você ouviu alguma coisa sobre Marco e Jean?
— Por que essa mudança do nada?
— Só me diga se ouviu ou não.
Reiner levou uns segundos pensando, até que se lembrou de Crista comentando algo do tipo com Annie.
— Acho que ele e Jäeger brigaram com Jean, ou algo do tipo... Ah, e Armin também estava no meio, se não me engano.
— Incrível como Jäeger consegue se meter em todas as brigas possíveis... — Bertolt revirou os olhos. — Mas eu não esperava escutar o nome de Armin nessa briga.
— Aparentemente, ele e Jean fizeram alguma coisa com Marco que deixou Eren puto. — Reiner deu de ombros.
— Isso faz menos sentido ainda... — Bertolt inclinou-se para frente, apoiando-se em seus joelhos, enquanto encarava o chão fixamente.
Reiner observou a atitude do amigo e já sabia o que aquilo significava. De levinho, deu um tapa atrás da cabeça de Bertolt, tirando-o de seus pensamentos.
— Não sei que plano está bolando, mas é melhor parar — advertiu Reiner. — Jäeger é uma peça importante, esqueceu? E Annie também pediu para deixarmos ele de fora.
— Eu sei, não estava pensando nele... — Bertolt olhou para Reiner com um sorriso malicioso. — Estava pensando num plano ainda melhor.
— Consegue sair? — perguntou Levi, num misto de preocupação e gozação.
— Só me dá um segundo... — gemeu Eren em suas costas.
Claro que, com toda a adrenalina do momento, Eren não percebeu o quão fodida estava a sua bunda... literalmente. Só foi notar quando a dor se acentuou com a carona na moto, e agora estava complicado até sair da moto, quem dirá andar. Que desculpa eu uso agora? Caí de um barranco?
— Eren, segure-se nas alças de apoio nas laterais — pediu Levi enquanto puxada com o pé o descanso da moto.
Eren obedeceu, inclinando-se para trás e segurando-se nas alças. Levi saiu da moto com cuidado para não chutá-lo no movimento, e consegui perfeitamente bem. Eren estava meio tenso com o fato de que só havia um pedal segurando ele e a moto em pé, quando Levi passou um braço pela sua cintura.
— O que está fazendo? — perguntou Eren, alarmado.
— Tirando-te da moto, o que mais?
— M-mas assim? — Eren começou a olhar em volta. — Numa rua cheia de...
Eren calou-se assim que viu que a rua na qual Levi o trouxe era bem tranquila, com só uma ou duas pessoas andando pela calçada. Lembrou-se de que já estava ficando um pouco tarde, e por isso o movimento ali cai bastante.
— Cheia de ar, só se for — murmurou Levi, revirando os olhos.
— Não sei se você sabe, mas estar nessa situação é bem humilhante — resmungou Eren, mas sem rejeitar o braço de Levi envolvendo sua cintura.
— Ah, é? — Levi falava com a voz morna, aproximando-se do pescoço do garoto. — Eu gosto quando você fica assim...
Eren falhou uma batida. Ter Levi próximo sempre o deixava nervoso, ainda mais quando ele “atacava” regiões mais indefesas, como o seu pescoço.
— Gosta quando minha bunda fica dolorida? Ah, que legal... — resmungou de novo, fingindo que não se importava com ele ali.
— Não, não isso. — Levi deu-lhe um beijo casto no pescoço, onde estava encostado, e voltou a adotar uma postura mais ereta quando um casal com uma filha passou. Eren pôde escutar um suspiro baixo vir de Levi. Não conseguiu evitar perguntar-se do que Levi gostava quando ele continuou: — Já esta na hora de você ir pra casa, vem — Levi o puxou um pouco para o lado, como se fosse arrastar ele para fora da moto.
— E-espera, espera aí! — protestou Eren, pondo a mão no peito de Levi. — Como exatamente você vai...?
Levi revirou os olhos e tirou a mão de Eren da frente, puxando-o até que o tronco do garoto caiu sobre seu ombro e, assim, o carregou para fora da moto. O movimento todo não durou mais de quatro segundos. Claro que Eren deu alguns gemidos de dor e protesto, mas não podia negar que aquela foi uma maneira bem prática de se sair da moto.
— Nunca mais faça isso de novo — grunhiu Eren.
— Isso vai depender da boa vontade de sua bunda — respondeu Levi, com a sombra de um sorriso nos lábios.
— Isso vai depender da boa vontade do seu... — Eren foi interrompido por uma mão em sua boca.
— Tem uma criança na rua — reclamou Levi.
Eren tirou a mão dele de sua boca e franziu o cenho.
— E daí? — resmungou Eren. — Não é como se ela fosse nos escutar a essa distância. — Levi se limitou a revirar os olhos. — Não me diga que você gosta de cr...
— Eu só não gosto de ser desnecessário — ele respondeu antes que Eren terminasse. — Mas isso não vem ao caso, você tem que ir.
— Está me despachando? — perguntou com um sorriso zombeteiro.
— Pensei que estivesse preocupado com sua mãe — explicou Levi, dando de ombros.
— Bem lembrado — disse Eren, dando um passo em direção a Levi. — Então...
— O que foi?
— Isso é uma despedida, certo? — Eren desviou os olhos para o chão e passou a mão pela nuca. — E, bem, você disse que... nós...
Levi deu um sorriso torto e segurou a cabeça de Eren com as duas mãos, puxando-o para um casto e singelo selinho.
— Não é como se fosse a última vez que vamos nos ver — disse Levi, enquanto tomava distância novamente.
— É, eu estava com medo de ouvir o contrário — murmurou. — Então... Eu te ligo? Ou... Você me...
— Mande-me uma mensagem quando quiser falar comigo, responderei assim que puder — Levi ainda tinha um sorriso torto nos lábios. Divertia-se vendo o quão envergonhado Eren estava.
— Ok... — murmurou Eren. — Pois é, eu já...
— Vai indo?
— É... isso mesmo.
— Por que está tão nervoso? — Levi pôs as mãos dentro do bolso da calça.
Eren olhou para aquele homem incrivelmente sedutor, parado à sua frente, e só conseguiu suspirar.
— Não quero fazer uma besteira e fazer você mudar de ideia — desabafou o garoto.
— Eren, fui eu quem fez besteira — Levi o confortou. — E eu não namoraria um cara se não tivesse certeza de que é isso que eu quero.
Eren sentiu um delicioso aperto no peito; como se estivesse tão feliz que seu coração não conseguisse suportar. Levi hora nenhuma falou em “namorar”... Até agora. Eren não sabia explicar, mas aquelas palavras vindas de um até então estranho faziam com que todo o seu corpo vibrasse. Ele foi até Levi e, com carinho, envolveu seus braços pela cabeça dele e o abraçou com ternura, colocando sua cabeça sobre a dele.
— Eu queria poder dormir com você hoje — confessou Eren.
— Não se preocupe, nós teremos muito tempo para isso — respondeu Levi, sem tirar as mãos do bolso. — Agora, você precisa ir ver sua mãe.
Eren, a contra gosto, desfez o abraço e franziu o cenho para Levi.
— Não tem como você ir dormir lá em casa? — perguntou Eren.
— Acho que a última coisa que sua mãe precisa agora é de um estranho dormindo com seu filho.
— Já entendi, já entendi... — Eren revirou os olhos.
— Se já entendeu, então vá para casa de uma vez. — Levi foi até a moto e colocou o capacete preto.
Eren deu um último suspiro e virou-se na direção da sua casa. Claro que andar não estava sendo nada fácil com a bunda daquele jeito, mas ele já tinha um pouco de experiência com aquela dor. Quando Levi acelerou, fazendo o motor da moto rugir, Eren olhou para trás para dar uma última espiada para ver Levi se afastar numa velocidade quase absurda.
Demorou mais do que o esperado para que chegasse. Como já imaginava, todas as luzes estavam apagadas, deixando a casa com um ar meio sombrio. Eren apenas seguiu pela escada e foi até a porta do quarto dos pais, que se manteve fechada. Deu duas batidinhas na porta e esperou por uma resposta de Carla. Três segundos e nada.
— Mãe? — Eren chamou, dando duas batinhas mais uma vez.
Nada.
Talvez ela já esteja dormindo, pensou Eren. Com cuidado, abriu a porta sem fazer barulho e deixou que apenas uma fresta de luz do corredor entrasse para ver como estava a mãe. Carla deitada de bruços na cama; estava com as mesmas roupas de mais cedo, o cabelo estava um pouco assanhado e, mesmo com a pouca luz, Eren pôde notar que ela soluçava um pouco.
— Mãe...! — Sem pensar duas vezes, Eren foi até Carla e deitou-se ao seu lado, abraçando-lhe pelas costas. — Mãe, eu voltei, eu estou aqui. — Carla não respondeu nada, apenas continuou soluçando baixinho. — Por favor, não fique assim... Eu já cheguei em casa.
— Eren... — Carla tentava falar entre soluços. — Você... não gosta de mim?
— O quê? Não! — Eren estava meio confuso com a pergunta. — Quero dizer, é claro que eu gosto de você, você é a minha mãe...
— Então, você não gosta dessa casa?
— Eu cresci aqui, é claro que eu também gosto dessa casa.
— Então... — A voz de Carla foi diminuindo cada vez mais, sendo aos poucos engolida pelos soluços. — Por que você... e seu pai... estão sempre dando um jeito... de sair daqui...?
Eren a abraçou com mais força, aninhando a mãe em seus braços.
— Não me compare a ele, mãe — Eren falava sério. — Eu saio para ver meus amigos, ele sai para... — ele não conseguiu concluir a frase; não queria machucar mais ainda a mãe.
— Eu sei... — sussurrou Carla, bem baixinho. — Eu sei... o que ele... anda fazendo...
— Ah, mãe... — lamentou Eren, escondendo o rosto nas costas de Carla.
— Eu só... Eu não sei por que... — Carla gaguejava, tentando achar as palavras certas. — Ele devia...
Eren e Carla permaneceram calados por mais um tempo, onde somente os soluços de Carla ecoavam pelo quarto. Quando ela finalmente conseguiu se acalmar um pouco, virou-se para ficar de frente para Eren e passou a mão pelo cabelo do filho. Carla sempre se surpreendia com o quanto Eren tinha puxado os traços dela... Com exceção daqueles lindos olhos verdes e brilhantes, como dois faróis esmeralda em meio à escuridão do quarto. Mesmo tentando bastante, não conseguia impedir que as lágrimas escorressem pelo rosto.
— Eren, eu sei que irá me odiar...
— Eu nunca faria isso! — apressou-se em dizer.
Carla fechou os olhos, sorriu e balançou a cabeça, repousando a mão no alto da cabeça de Eren.
— Filho... — Carla abriu os olhos e os fixou nos de Eren, que entrou em estado de alarme. —... Eu estou pensando em me separar de seu pai.
Eren arqueou as sobrancelhas em surpresa. Antes que pudesse parar, já estava com os olhos marejados, e com gotas de lágrimas prontas para cair. Pensava que já estava preparado para quando esse dia chegasse, mas estava enganado — foi tão doloroso de se escutar quanto sempre foi, para qualquer um. Carla gentilmente puxou a cabeça de Eren até seu ombro, e o deixou ali, voltando a alisar seu cabelo. Eren voltou a abraçá-la
— Eu não te odiaria por isso — murmurou Eren, com a voz abafada devido à sua posição. — Eu te apoio... Na verdade, acho que você deveria ter feito isso há muito tempo.
— Ah, Eren... — Carla deu um beijo terno no topo da cabeça de Eren. — Eu te amo, filho.
— Também te amo, mãe... muito.
Carla abriu um sorriso singelo, aceitando com todo o coração as palavras de Eren. Ela começou a cantar antigas cantigas de ninar enquanto continuava com o cafuné suave, e assim os dois adormeceram abraçados, um confortando o outro. Fazia muito tempo desde a última vez em que eles tinham um momento de mãe e filho... Aquela noite — de muitas formas diferentes — havia sido uma noite especial.
Aquela manhã foi mais corrida do que o normal. Como Eren dormiu com a mãe, ele não escutou seu despertador tocar, e acabou levantando bem em cima da hora. Com sorte, conseguiu correr para o quarto antes que Carla acordasse de verdade — ela levava alguns minutos em estado de sonolência até, de fato, despertar —, e tratou de trocar-se e pôr não só a camisa do uniforme como o casaco bege do colégio, para ter certeza de que ninguém veria as marcas em seus pulsos. Mas, só para ter certeza, colocou um par de munhequeiras na mochila.
Praticamente não comeu nada no café da manhã, mesmo com a insistência de Carla, e ainda assim chegou com alguns minutos de atraso. Talvez, se não fosse tão próximo dos funcionários do portão — já tinha perdido a conta de quantas vezes teve que esperar ali pelo segundo período —, Eren não conseguiria chegar na sala a tempo.
Claro que, assim que a primeira acabou, Armin foi o primeiro a correr até a mesa de Eren.
— Esqueceu que a gente não pode faltar nenhuma aula, se não nada de torneio? — disse Armin, sentando parcialmente na mesa de Eren.
— Ah, cara, eu tive uma noite muito confusa... — Eren passou as duas mãos pelos cabelos.
— Aparentemente, todos os seus dias têm sido assim — comentou Armin com um sorriso amigável.
— Não, Armin, acho que essa noite superou tudo...
— Olha, parece que alguém andou curtindo muito bem as suas noites — comentou Jean quando se aproximou, só escutando o final da conversa.
— Jean! — repreendeu-o Marco, mas ainda assim ria.
Eren olhou primeiro para Jean, depois para Marco, e então Jean de novo. Notou que, por algum motivo estranho, ambos estavam agindo normalmente um com o outro, e há quem diga que estavam mais próximos também. Eren franziu o cenho para os dois, que sentiram um calafrio percorrer a espinha.
— A-alguma coisa errada, Eren? — arriscou Marco.
— Eu é que pergunto — respondeu Eren, cruzando os braços. — Vocês não estavam dando um escândalo ontem?
— Não, esse era você — retrucou Jean. Marco arqueou uma sobrancelha para ele. — Que foi?
— Não se preocupe, Eren — Marco voltou a atenção para Eren. — Nós já nos resolvemos.
— Vocês... estão...? — Eren apontava para os dois, um pouco incrédulo.
— N-não! — Marco apressou-se em dizer, com as bochechas bastante coradas.
— Já te falei que eu não sou um vi... — Jean parou a frase assim que viu o olhar mortífero de Eren. — Um visionário nessa área.
— Isso sequer fez sentido — comentou Armin, segurando o riso.
— Vou fingir que não ouvi essa... — murmurou Eren.
— Por falar nesse assunto... — Marco se aproximou de Eren e pôs uma mão em seu ombro. — Muito obrigada por tudo que você fez por mim ontem.
Armin não deixou escapar a rápida franzida de cenho que Jean fez quando Marco tocou em Eren.
— Ele nem fez tanto assim — resmungou Jean.
— Ele me escutou e me apoiou, e isso já é bastante — respondeu Marco.
— Eu te escutei também...
— Se “escutar a conversa dos outros” estiver incluso nesse seu “escutar”, então é... — Eren riu e deu de ombros.
Jean estava com uma resposta na ponta da língua, mas não disse nada porque sentiu uma mão quente pousar em seu ombro.
— Na verdade, eu e Jean conversamos ontem depois do treino. — Marco sorriu para Jean, quando percebeu que ele o olhava com certa intensidade. Pensou que fosse por causa da proximidade o incomodando, então tirou a mão e deu um passo para trás.
Outro movimento que não passou despercebido por Armin.
— Ah, é verdade... — disse Armin, lembrando-se da cena. — Foi quando você disse que estava meio distraído, e que ia ter um encontro com uma mulher bêbada...
Eren arregalou os olhos para Armin, pois não queria que ele entrasse nesse assunto, e então lembrou que, de uma forma ou de outra, tanto Marco quanto Jean já sabiam que ele estava saindo com um homem.
— Pensei que você não gostasse de mulheres — disse Jean, com o cenho franzido. Eren deu um pequeno chute em sua canela, fazendo-o recuar um passo. — Ai! Por que fez isso?!
— Primeiro, não fale isso em voz alta — advertiu Eren, olhando em volta para ver se alguém tinha notado. — E segundo, eu já falei que não gosto de homens.
— Mas está saindo com um cara — constatou Jean, com certa ironia em sua voz. Eren ameaçou chutá-lo de novo, então recuou outro passo para ter certeza.
— Bem, não é nada sério — Armin fez questão de explicar antes que aquilo passasse de uma briguinha de chutes —, então vai ver Eren está só tentando descobrir se...
— Na verdade... — Eren o interrompeu. — É sério sim.
Tanto Marco quanto Armin arregalaram os olhos em surpresa. Como Jean não ligava muito, ele só continuou com a testa franzida.
—Como, quando e onde isso aconteceu? — perguntou Armin, descendo da mesa de Eren. — E por que não me contou na hora?!
— Porque eu estava... na casa dele — murmurou Eren com um sorriso bobo e o rosto muito avermelhado.
— Eu disse que alguém andou aproveitando bem a noite — murmurou Jean, abafando o riso.
— Eu não dormi com ele, se é o que está pensando — retrucou Eren. — Pelo menos, não como eu queria... — somente a lembrança de Levi o prendendo nas algemas já fez com que se arrepiasse.
— Mas mesmo assim, dormiu com ele? — perguntou Marco, animado.
— Não, eu dormi com minha mãe — Eren deu de ombros.
— Eca! — grunhiram os três em uníssono.
— Não, não dessa forma! — Eren apressou-se em explicar.
— Já era, já imaginei a cena — disse Jean, com o rosto torcido numa careta de nojo.
— Fala sério, é a minha mãe — dizia Eren, abismado.
— Sei lá, você dormiu com um cara...
— Não compare isso a dormir com a própria mãe — Eren o repreendeu.
Jean ia retrucar, mas mais uma vez parou por causa de Marco; ele o encarava com um pouco de desapontamento, o que fez Jean desistir desse assunto.
— Mas o que fez o “grande” Eren Jäeger voltar para o berço? — disse Jean, fazendo Eren revirar os olhos.
— Ignorando Jean — Armin pôs a mão no ombro de Eren e chamou sua atenção —, por que dormiu com sua mãe?
Eren deu mais um olhar mortal para Jean e suspirou.
— Lembra que eu disse que minha mãe estava bem chateada com as besteiras de meu pai? — Armin fez que sim com a cabeça, motivando-o a continuar. — Pois é, ontem de noite, quando eu cheguei em casa, ela estava chorando no quarto... Eu fui abraçá-la e, quando perguntei o que tinha acontecido, ela disse que queria... se separar de meu pai.
Jean xingou-se mentalmente por ter feito piadinha com aquilo.
— Cara... — era tudo que Armin conseguia dizer. Afinal de contas, como responder a uma situação daquelas? — Pensa que vai ser melhor pra eles...
— Não, eu sei disso — Eren dizia com veemência. — Sei disso, e ainda assim...
— Mas, espera — Marco o interrompeu. — Pensei que aquilo de seu pai sair de casa já era uma separação.
— Não, ele faz isso com frequência — dizia Eren, com desgosto. — Esse foi um dos principais motivos para que ela quisesse se separar dele.
— Ah, entendo... — murmurou Marco.
— Opa, Vanns-sensei chegou — anunciou Jean, já voltando para seu lugar.
— Ah, droga, detesto matemática... — murmurou Marco, arrastando-se para seu lugar.
Armin esperou os dois se afastarem para falar a sós com Eren.
— Olha, eu realmente sinto muito pelos seus pais...
— Não tem problema — Eren deu de ombros. — Já sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.
— Mas eu também estou orgulhoso de você! — Armin deu um soquinho no ombro de Eren, fazendo-o rir. — Conquistou mesmo o cara, não foi?
— Eu não diria conquistar... — disse Eren, com um sorriso bobo nos lábios.
— Depois eu quero ouvir essa história direito.
— Ah... — Eren passou a mão pela nuca, o que chamou a atenção de Eren. — Não sei se posso contar tudo...
— Por quê? — Armin cruzou os braços.
— É que teve umas partes... Tipo, não foi... Mas também não é como se... — Eren passou a mão pelo cabelo agora, tentando escolher as melhores palavras.
— Fala logo, Eren, Vanns-sensei vai reclamar com a gente!
Eren suspirou e decidiu contar de uma vez. Armin era seu melhor amigo, afinal de contas.
— É porque, até que a gente se acertasse, ele me fodeu de uma forma bem... agressiva...
— Como assim? — Armin estava começando a se preocupar.
Eren então estendeu o punho direito para Armin e, delicadamente, puxou as mangas da camisa e do casaco para expor a marca vermelho-arroxeada que envolvia seu pulso. Armin ficou sem reação, de boca aberta. Olhou do pulso para Eren, depois para o pulso de novo, e tudo o que conseguiu fazer foi arregalar os olhos mais ainda.
— Eu te contei que ele é policial? — perguntou Eren, com uma voz bem agradável para amenizar um pouco o terror estampado no rosto de Armin.
Acho que ele não vai gostar muito da história...
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