Vazio
7 Mais uma manhã - EXTRA
Notas iniciais
Sete horas da manhã e Levi já estava pronto para sair, terminando apenas de escovar os dentes. Acordar cedo nunca foi um problema para ele; na verdade, desde adolescente, Levi tinha problemas para dormir — já chegaram a dizer que era por isso que ele era tão baixinho —, sendo o seu recorde 4 horas seguidas de sono.
Depois de terminar de se arrumar — e arrumar a casa —, Levi pegou a sua pasta preta e saiu, trajando uma calça jeans escura, uma blusa branca lisa e um casaco verde-musgo de zíper, com o símbolo do Survey Corps gravado nas costas — aquela era sua marca predileta. De fato, a pasta preta parecia um item deslocado naquela combinação.
Levi estava tão distraído pensando nos problemas que tinha para resolver naquele dia que mal notou Hanji Zoë, inspetora-chefe do quarto esquadrão da polícia civil, encostada no muro logo em frente à portaria do prédio. Talvez ela tenha passado despercebida porque não estava trajando o uniforme, e sim roupas normais: calça jeans clara, camisa cinza de flanela com alguma frase escrita, jaqueta jeans, boné de baseball e mochila.
— Sabemos que os Yakuza cometem vários tipos de crimes... — a voz de Hanji fez Levi tomar um pequeno susto, embora tivesse sido imperceptível. —... Mas é a primeira vez que vejo um caso de assédio a menores.
Levi deu mais um de seus olhares mortais a Hanji, que apenas sorriu e caminhou até ele.
— Pare de falar merda, Hanji — reclamou Levi.
— Não se preocupe, você sabe que eu sou boa em guardar segredos. — A mulher chegou perto o suficiente para passar o braço por cima do ombro de Levi e cochichou no ouvido dele. — Agora me diga, o que aquele garoto estava fazendo no seu apartamento?
— Sai de perto, quatro-olhos — resmungou Levi enquanto empurrava a mulher, que ria alto. — Quem eu deixo ou não entrar no meu apartamento não é da sua conta.
— Aaah, mas não é estranho? — Hanji continuou falando, ignorando completamente a grosseria usual de Levi. — Você sequer deixa os seus colegas entrarem quando estão fardados...
Levi já estava no seu limite. Ele não podia deixar que ninguém soubesse sobre Eren, pois seria um caos. E, do jeito que Hanji estava sendo insistente... Provavelmente, ele ia acabar deixando alguma coisa vazar, como “Ele só veio devolver a camisa que emprestei pra ele” ou “Eu o chamei para limpar meu apartamento porque ele parecia muito bom nisso”... Essas coisas com provável duplo sentido.
— Hanji, pare de idiotice e faça o que você veio fazer.
— Uui, parece que alguém se irritou.
Hanji deu um sorrisinho afetado para Levi, que se limitou a levantar uma sobrancelha. A mulher sabia que aquele era o jeito de Levi de reagir às coisas, então provocá-lo nunca perdia a graça. Mas o humor de Hanji mudou drasticamente quando ela tirou a mochila dos ombros e a atirou para Levi, assumindo uma postura séria.
— Lembre-se de não cometer erros, Rivaille.
— Tsc, você fala como se eu alguma vez tivesse cometido algum — respondeu Levi, colocando a mochila no ombro. — Trate de entregar isso a Erwin sem meter o nariz onde não deve — ele estendeu a pasta preta a Hanji, que a pegou na mesma hora.
— Você fala como se eu já tivesse feito isso antes... — ela brincou.
— É exatamente esse o problema.
Tendo entregue a pasta, Levi virou-se e seguiu em direção à saída do beco, onde se perdeu em meio à multidão.
— Ah, Levi... — suspirou Hanji. — Se você não fosse tão frio...
A rua estava especialmente agitada naquele dia, para a infelicidade de Levi. Ele detestava ter que andar em meio a tanta gente, com uma quantidade absurda de corpos se esbarrando uns nos outros, inclusive nele. Era como se aquilo o deixasse mais sujo.
Por sorte, Levi conseguiu chegar ao seu destino, um depósito, antes que o fluxo de pessoas aumentasse devido ao início do horário comercial. Não que o depósito fosse mais limpo; a maior parte daquela estrutura ou estava enferrujada ou precisava imediatamente de uma nova camada de reboco. Repulsivo, pensava Levi sempre que entrava. Mas fazer o quê, eram ossos do ofício.
— Rivaille-san, chegou cedo hoje — comentou Dita Ness, dono do depósito, que estava sentado em cima de uma caixa de madeira enquanto arrumava peças de carro em uma estante.
Levi apenas passou por ele e fez um rápido cumprimento com a cabeça, procurando ser o mais breve possível. Dita era um ex-mecânico que já tinha sido preso, acusado de realizar comércio ilegal de peças roubadas. Levi muitas vezes se perguntava como deve ter sido a sua vida na cadeia, já que ele era uma pessoa extremamente agradável e não parecia ser nem um pouco perigoso. Talvez seja por que ele só ficou preso por duas semanas... Bem, sorte a dele por terem “reconsiderado” o julgamento.
Depois de ser liberto, Dita transformou a sua oficina em um depósito, e desde então tem feito trabalhos de diversos tipos... inclusive o de mecânico de Levi.
— Vai precisar da sua belezinha hoje? — perguntou Dita assim que terminou de organizar a prateleira, com os olhos cintilando.
— Vou sim — confirmou Levi. — E do pedido da semana passada também.
— Tudo bem, eu vou trazê-la pra cá — disse Dita, reforçando o nó da bandana branca que sempre usava amarrada na cabeça. — O pedido você pode pegar com Luke lá atrás — Dita apontou para uma ala no extremo sul, separada do resto do depósito por um muro com uma porta com os dizeres “Acesso Restrito”.
Levi acenou com a cabeça e se dirigiu para o local indicado. Mesmo sabendo que a negociação com o “cabeça” da região de Trost não seria uma tarefa fácil, ele não estava nem um pouco nervoso; fazia tempo que alguma coisa o assustasse. Na verdade, fazia tempo desde que alguma coisa realmente o interessasse. Foi então que ele se lembrou de um par de olhos verdes, tão inocentes quanto os de um... pirralho.
— Rivaille-san, já está aqui? — perguntou Luke Siss, assistente de Dita, assim que saiu da porta do extremo sul. — Veio buscar a encomenda?
Levi se limitou a apenas assentir com a cabeça.
— Por favor, espere só um pouco. — Luke fez um rápido cumprimento com a cabeça e voltou para dentro da área restrita.
Levi aproveitou aquele momento para respirar fundo; ultimamente, seus “trabalhos” têm ficado extremamente exaustivos e estressantes. Fazia tempo desde que Levi tinha tirado uma folga — até porque, no ramo dele, não existiam “folgas”. Ele sequer lembrava da última vez que tirou um dia apenas para relaxar.
— Pronto, aqui está — disse Luke carregando um saco de pano não muito grande, cheio de objetos de aparência cilíndrica.
Levi pegou o saco e o guardou na mochila que Hanji tinha lhe dado mais cedo. Pronto, todo o material está completo. Levi deu um curto agradecimento a Luke e voltou para a ala norte do depósito. Assim que voltou, pôde ver Dita polindo animadamente uma moto Honda CB900F Hornet preta, com um capacete igualmente preto debaixo do braço. Apesar de ser uma moto naked, ela tinha o motor de uma superdesportiva, o que a fazia ser muito mais rápida do que as motos comuns da cidade. E Levi a amava por isso.
— Ah, ela está impecável como sempre — disse Dita, terminando de limpá-la, pois sabia que Levi o esganaria se visse uma manchinha sequer na sua moto favorita. — Precisa de mais alguma coisa?
— Não, só isso já está bom.
— Sendo assim... — Dita entregou a Levi o capacete e as chaves da Honda. — Até de noite, Rivaille-san.
Levi assentiu e colocou o capacete. Mal subiu na moto, já estava dando a partida e girando o acelerador, fazendo o motor potente rugir. Levi não gostava muito de barulho — afinal de contas, é poluição sonora —, mas aquele ronco da moto... era música para os seus ouvidos.
Assim que acelerou em direção à rua, Levi imaginou como será que Eren reagiria a uma volta na sua moto...
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