Vazio
8 Como esquecer o vazio em mim
Notas iniciais
Naquela noite, Eren teve sonhos estranhos. Sempre que fechava os olhos e entrava em estado de sonolência, imagens de um exército e uma cidade em caos o perturbavam até que ele acordasse, em pânico. A mesma cena se repetia sempre que tentava dormir.
Por causa disso, chegou ao colégio parecendo um zumbi. Eren não agia normal desde que terminou com Annie, e aquilo deixava Armin muito preocupado. E isso sem falar que ele ainda não se acertou com Mikasa, pensou o garoto loiro.
Já Mikasa, estava se corroendo por dentro. Ela queria muito falar com Eren e pedir desculpas, mas... Pedir desculpas pelo quê? Por se importar com ele? Não, ela não faria isso. Dessa vez, ela não iria ceder. Em vez disso, ela tentava se distrair com Sasha, Crista, Ymir e, ocasionalmente, com Annie também. Por elas serem amigas antes de Eren namorar Annie, Mikasa não sentia um desgosto profundo por ela. Na verdade, as duas até que se davam muito bem.
Eren sabia que não podia deixar aquela situação como estava por mais tempo, até porque Jean e os outros sentiam falta da amiga, e ele também — isso ele não podia negar. Então, Eren tinha tomado uma decisão: no intervalo do almoço, ele iria dar um jeito de fazer as pazes com Mikasa. Mas o seu plano foi por água abaixo quando Franz passou por Eren pelo corredor e chamou sua atenção.
— Eren! Os senpais do clube de baseball pediram para que a gente se reunisse hoje na hora do almoço! — disse enquanto andava em direção a Hannah, sua namorada inseparável.
— Ah, ótimo... — resmungou Eren. — Valeu, Franz!
Com isso, Eren teve que adiar o pedido de desculpas para depois da aula.
O clima na roda de meninos do time de baseball estava ficando cada vez mais tenso.
— Sinceramente, não podemos aceitar mais faltas nos treinos — disse Joseph Hensel, capitão do time de baseball.
— O Capitão está certo, a temporada de primavera já está quase chegando e nós não nos preparamos nem um pouco para o Torneio — reforçou Paul Brenner, braço direito de Hensel.
Todos os meninos ali presentes sentiram um forte sentimento de culpa, principalmente Eren — já que ele se tornou recordista em faltas depois de... De namorar Annie. Ele era um dos melhores rebatedores, sendo páreo apenas a Reiner e a seu senpai, Brenner. E ninguém podia dizer que Eren não merecia o posto de “trunfo”: mesmo não sendo o mais forte ou o mais habilidoso, sempre que o jogo fica apertado, sua perseverança e energia contagiante eram fundamentais para incentivar o time a manter o foco.
— Infelizmente, nós tivemos uma baixa de membros do 3° ano devido aos testes de aptidão para entrar na faculdade, então vamos precisar muito da contribuição de vocês do 2° ano — informou Hensel.
— Não se preocupa, Hensel-senpai, nós damos conta do recado — disse Connie, otimista como sempre.
— Ter confiança é bom, mas vocês estão ficando muito desleixados com esse excesso — repreendeu Hensel.
— Então, qual será o calendário de treinos? — quis saber Reiner.
Reiner era, na verdade, um dos meninos mais dedicados do time. Certamente não tinha o talento natural de Brenner ou a energia de Eren, mas a sua força era certamente inacreditável. E isso sem falar do seu amor pelo baseball. Todos os membros do time tinham grande confiança nele.
— Ah, isso eu deixei nas mãos da nossa “auxiliar”. — Hensel se levantou do banco em que estava sentado e foi até a porta do clube, colocando apenas a cabeça do lado de fora. — Annie? Pode vir aqui rapidinho?
Oh, droga, lamentou Eren. Esqueci que era ela quem auxiliava os treinos...
Annie entrou na sala do clube com a sua atitude fria e distante de sempre. Assim que os olhos de Eren cruzaram com os seus, ela fez questão de desviar e erguer a cabeça, como quem não liga para nada. Parece que eu terei alguns problemas com os treinos...
— E então? O que você programou para a gente? — perguntou Joseph.
Annie apresentou o calendário de treinos que já estava desenhado num quadro branco da sala do clube de baseball. Aliado à programação estavam algumas recomendações que o pai de Annie, ex-treinador do colégio, deixou para a equipe, como alguns exemplos de exercícios diários e dietas à base de proteínas.
— E esse será a nossa programação — concluiu Annie. Ela podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas quando se tratava de deveres, disciplina e organização, Annie era um ótimo exemplo a ser seguido. — Vale lembrar que todos os alunos do 2° ano terão treinos extras após os treinos normais durante as próximas duas semanas.
Naquele momento, Eren teve um mal pressentimento. Ele correu os olhos para o calendário de treinos para checar quais os dias que teria que ficar até tarde. Claro, teria treino amanhã. Claro, teria também treino extra. E, claro, ele não poderia ver Levi. Preciso dar um jeito de não ir, pensou Eren, já tentando bolar um plano. Mas como? Eu não posso mentir e dizer que tenho médico, ou simplesmente não aparecer...
— Bem, é isso aí, rapazes... — Hensel se levantou do banco no qual estava sentado e bateu as mãos, indicando o fim da reunião. — Vocês estão liberados. Não se esqueçam do treino amanhã!
Todos os meninos começaram a sair aos poucos da sala, mas Eren ficou sentado no banco. Ele precisava pensar em um jeito de não ir àquele treino, ou ao menos em uma forma de avisar a Levi que não iria vê-lo — Levi parecia ser o tipo de pessoa ocupada. Mas o que podia fazer? Eles não trocaram os números de celular ou qualquer outra coisa... Talvez eu passe lá hoje, pensou, mas logo descartou a ideia. Ele não podia simplesmente aparecer lá do nada.
Eren estava tão distraído em seus pensamentos que sequer ouvia Hensel o chamando. Ele só o notou quando Hensel colocou uma mão em seu ombro.
— Ei, Eren! — Hensel o chamava. — Você está bem?
— Ah... Estou sim, desculpe — Eren passou a mão pelo rosto, tentando se desligar de seus planos mirabolantes para ver Levi.
Hensel tirou a mão do ombro de Eren e o analisou bem. Armin estava certo, pensou o senpai. Eren está bem aéreo...
— Olha, eu fiquei sabendo do seu término com Annie. — Hensel optou por ser direto.
— Ah, foi? — disse Eren, desinteressado.
— Aham, os meninos me contaram. Então, se ficar perto dela for um problema para você... — Os olhos de Eren brilharam naquele momento. Por favor, diga que eu não preciso ir aos treinos adicionais! —... Eu posso deixar você de fora do Torneio de Primavera.
Eren precisou de alguns segundos para processar aquela informação. O quê...?!
— Dessa forma, você pode ser liberado dos treinos e não precisará vê-la quase todos os dias...
— Mas eu quero participar! — Eren o interrompeu sem perceber.
Hensel não ficou nem um pouco surpreso com aquela reação. Ele sabia o quanto Eren adorava jogar e o quanto ele fazia a diferença no time, mas estava realemente preocupado com o seu estado “aéreo”, o qual julgava ser culpa de Annie.
— Eu sei que quer, mas... — Hensel desviou o olhar, em busca de palavras para poder explicar a Eren a situação na qual ele estava.
Naquele momento, Eren já não pensava mais em ver Levi. Se tivesse que abrir mão daquele encontro amanhã, ele o faria. Afinal de contas, Levi era só um cara estranho que ele tinha acabado de acontecer, e esse era o Torneiro de Primavera, o maior torneio do ano. Sim, Eren podia fazer aquele sacrifício.
— Capitão, não se preocupe — Eren se apressou em dizer. — Meu término com Annie não significa nada.
Hensel arregalou os olhos. Aquilo, sim, era uma surpresa.
— Tem certeza? Não está meio aéreo por causa disso? — Hensel ainda não estava 100% convencido de que Eren conseguiria encontrar o foco necessário para ser usado como trunfo mais uma vez.
Aéreo? Eren estranhou o fato de que o capitão usou a mesma palavra que Armin. Eu devo estar realmente desligado, para até o capitão notar...
— Tenho, sim — respondeu Eren, com firmeza. — Eu ando meio... pensativo... — Ele passou a mão pela nuca. — Mas nada que eu não possa resolver antes que os treinos comecem.
Aquela foi uma resposta razoável para Hensel. Depois de considerar mais um pouco se devia ou não deixar Eren participar, ele acabou cedendo.
— Tem certeza de que Annie...
— Capitão — Eren o interrompeu de novo, dessa vez de propósito. — Se eu e Annie terminamos, significa que não há mais nada entre nós. Eu não vou perder o foco no jogo.
Hensel apenas suspirou, feliz em ver convicção nas palavras de Eren.
— Vou cobrar essa determinação, Jäeger — disse Hensel, bagunçando o cabelo de Eren com a mão.
Eren riu e tirou a mão do senpai, arrumando o cabelo despenteado.
— Pode deixar!
Segundos depois o sinal indicando o início das aulas vespertinas tocou. Eren saiu de lá tão rápido que nem notou uma Annie encostada na parede ao lado da porta, com uma lágrima descendo pelo rosto.
— Armin, você viu Mikasa? — disse Eren, catando as suas coisas o mais rápido possível, já que Mikasa não estava mais na sala.
— Mikasa? — Armin estava feliz em ver que Eren finalmente ia falar com ela. — Se não me engano, eu a vi saindo com as meninas...
— Por que tão rápido? — resmungava Eren, tentando enfiar mais um caderno em sua pasta já caótica. — O sinal acabou de bater!
— Se não me engano, elas estavam marcando de sair para comemorar o início dos treinos para a temporada de primavera do time de handball feminino.
Ah, é... Mikasa faz parte do time de handball. E não só fazia parte como também era a melhor jogadora; até mesmo garotas de outros clubes a consideravam extraordinária. E como não achar? Mikasa podia praticar qualquer esporte, já que tinha um corpo muito resistente e reflexos quase inumanos. A escolha por handball foi apenas porque todas as suas amigas iriam entrar para o time, e como ela não podia entrar para o time de baseball com os meninos...
Eren saiu a toda velocidade pelos corredores do colégio, esperando encontrar Mikasa. Para sua sorte, ela e as amigas estavam atravessando o portão principal quando Eren saiu do prédio.
— Mikasa! — Eren a chamou e ela se virou imediatamente.
Mikasa não quis demonstrar, mas estava muito feliz por Eren ter ido falar com ela. E pensar que eu estava quase cedendo hoje de manhã, pensava a garota, tentando esconder a felicidade.
— Meninas, podem esperar um pouco? — perguntou com os olhos brilhando.
— Tsc, quem diria não para um pedido desses? — brincou Ymir, passando a mão pela cabeça.
Mikasa sorriu e foi em direção a Eren. Os dois se encontraram mais ou menos no meio do pátio frontal, entre o prédio de salas e o portão principal, sendo que Eren se apoiava nos joelhos para pegar fôlego.
— Mikasa... Desculpa... — ele arfava.
Ela não aguentou; assim que ele se desculpou, Mikasa o puxou para um abraço. Eren não entendia muito bem o porquê de ela o abraçar, mas não negou o carinho.
— Nunca mais diga que algo que acontece com você não é da minha conta — disse, tentando ser autoritária como sempre, mas falhou.
— Mesmo quando realmente não é?
Mikasa congelou nos primeiros segundos, mas assim que processou o que Eren tinha dito, o soltou rapidamente.
— Como? — ela voltou ao seu tom usual.
Eren suspirou. Desde o início sabia que convencê-la a parar de tratá-lo como um irmão mais novo ou um filho seria complicado.
— Eu entendo que você...
— Então pediu desculpas pelo quê? — ela o cortou, não querendo ouvir nenhuma das baboseiras que ele tinha para dizer.
— Por ter sido grosso e gritado com você — respondeu de prontidão. Antigamente, Eren teria ficado nervoso para procurar uma resposta apropriada, mas depois de alguns anos, ele aprendeu a já ter algumas frases prontas na cabeça.
Mikasa considerou aquela uma resposta razoável, então relaxou um pouco. Mas ainda não ia desistir do seu ponto de vista.
— Por que não me deixa cuidar de você?
— Porque isso não tem mais cabimento.
Ouch. Por ele ter sido tão direto, Mikasa recuou um pouco.
— Mas nós sempre fomos assim... — ela murmurou.
— E é esse o problema — Eren ficou satisfeito por a conversa estar indo para onde ele queria. — Eu já sou um garoto de 16 anos. Logo, vou fazer 17. E ter uma garota tomando conta de mim como você o faz...
Eren fez uma pausa e deu de ombros. Mikasa sabia o que aquilo significava, mas não concordava. Ela só queria que ele não se metesse em confusão. Que meninos mais velhos não o espancassem, como no passado. Que ele não voltasse pra casa todo acabado, como no passado. Que ele não colocasse a vida em risco por coisas bobas, como no passado.
Como no passado...
— Eu preciso que você entenda que eu cresci. Que eu já sei me virar sozinho há muito tempo, e que você não precisa mais tomar conta de mim. — Eren fez uma pausa para analisar a reação de Mikasa, que não era lá das melhores, mas já esperava por aquilo também. Talvez eu deva usar um argumento mais efetivo...? — Como você planeja arranjar um namorado se vive grudada em mim?
Mikasa arregalou os olhos e o encarou incrédula. Ela não sabia dizer o quê, mas algo frio se espalhava pela sua barriga. Era um sentimento muito incômodo.
— Eu preciso ir com minhas amigas... — Mikasa murmurou sem olhá-lo.
— Mikasa, espera! — Ele tentou pará-la segurando seu braço, mas ela facilmente se livrou do aperto. — Mi...
Ela já estava longe, já estava indo embora. Eren soltou um suspiro longo. Bem, pelo menos foi melhor do que eu esperava, concluiu. Tendo terminado a conversa, foi andando para casa. E então, resumindo aquela manhã, Eren não tinha resolvido 100% as coisas com Mikasa e ainda tinha perdido a chance de ver Levi de novo. A única coisa que o confortava era que ele iria voltar a jogar no time de baseball... com Annie como auxiliar. Que maravilha.
A cada passo que dava, Eren sentia aquele vazio voltar a corroê-lo, espalhando-se em uma velocidade maior do que o normal. A sensação de “falta”, de “perda”, era insuportável. Ah, droga... Por que isso agora? Eren queria gritar bem alto, só para deixar a frustração sair junto com sua voz, mas não podia fazer isso no meio da rua. Ele tinha que arrumar um jeito melhor de liberar a raiva.
Foi então que o fliperama passou pela sua cabeça. Hannes já devia ter esquecido aquele incidente bobo — até porque eles já tinham se acertado — e os outros meninos não estavam por perto. Ou seja, ele podia jogar todos os jogos em “modo solo”. Certamente era mais divertido jogar em dupla, mas para extravasar a raiva... jogar sozinho era muito melhor.
Sendo assim, o garoto mudou seu caminho e seguiu rua abaixo em direção ao Hannes’. No meio do caminho, ele percebeu que aquela era a mesma rua onde tinha se esbarrado com Levi. Eren não pode deixar de sorrir quando olhou para o outro lado da rua e viu a lanchonete em que tinha trocado de camisa com ele. Será que Levi-san está...? Eren passou de andar e continuou encarando a faixada da lanchonete. Não, não, isso é impossível. Ele deu mais alguns passos e depois parou de novo. Foi aí que ele percebeu... que, naquele momento, o vazio não estava o incomodando.
No mesmo segundo, Eren se virou e atravessou a rua, correndo em direção à lanchonete. Não havia carros passando por ali, já que era uma rua pequena, então não teria problemas. Foi então que um vulto preto passou pela sua frente, fazendo-o parar de correr no mesmo segundo, o que o fez tombar para trás. Ouch...
— Mas que porra você pensa que está... — Eren conhecia aquela voz. Sim, sim, aquela era a voz que o deixava nervoso. Que o deixava ansioso. Que o fazia esquecer o vazio. — Pirralho?
Eren olhou para o lado e viu Levi montado em uma moto preta — uma puta moto preta — segurando o capacete debaixo do braço. Eren estava sem palavras. Até porque Levi não estava com aquela roupa social que o fazia parecer ainda mais velho; desta vez, estava trajando uma calça jeans e um casaco verde-musgo, que o deixavam mais jovem — a moto certamente ajudava. Aquilo tudo era muita informação para Eren, muita mesmo. E foi um susto ainda maior quando Levi passou uma das pernas por cima da moto e andou até ele. Eren ainda estava sentado no chão, então tudo o que o garoto fez foi observar Levi se aproximar e puxá-lo para cima pela gola da camisa.
— Você quer morrer tanto assim? — Levi sussurrou de forma ameaçadora para Eren, que não prestava atenção. Tudo o que ele pensava naquele momento era no quão próximo os seus rostos estavam. — Pois então trate de fazer isso por si só, não envolva outras pessoas na sua merda.
Tento dito isso, Levi o soltou, fazendo-o cambalear para trás, e andou até a sua moto. Eren só voltou a reagir quando percebeu que Levi estava indo embora.
— Levi-san, espera! — disse correndo até ele. Levi estava prestes a colocar o capacete quando Eren o alcançou.
— O que foi?
— Ah... — Eren não sabia exatamente o que responder. Na verdade, ele sabia, era só o seu cérebro que tinha dado branco. — Eu... Eu não...
— Seja breve, pirralho — Levi o cortou, impaciente. — Eu não estou num bom dia e nem num bom humor.
Olhando bem, Eren pode perceber que o canto da sua sobrancelha direita estava levemente ferido. Ele quis se aproximar e olhar melhor para ver se estava muito ruim, ou se tinha se machucado em outro lugar, mas claro que não o fez. Primeiro, porque aquilo seria muito estranho, e segundo, porque aquilo era inaceitável para Eren. Ambos somos homens, no que eu estou pensando...
— Que coincidência, meu dia também não está um mar de rosas... — disse Eren, desviando o olhar e passando a mão pela nuca. Levi aproveitou aquela oportunidade para checar se Eren havia se machucado ou se ele apresentava marcas de alguma “tendência suicida” em seus pulsos, mas não achou nada.
— E por isso tentou se jogar na frente da minha moto? — preguntou Levi, testando o garoto. Eren se assustou com a pergunta, percebendo que Levi teve uma impressão errada da situação.
— Não! — Eren se apressou em dizer. — Eu não queria me matar!
— Ah... — Levi deu-lhe um olhar afiado, fazendo Eren corar. Acho que eu nunca vou cansar disso. — Então por que se jogou?
— Eu não me joguei — Eren fez questão de enfatizar as palavras. — Eu só estava indo para a lancho... — O garoto se interrompeu quando percebeu o que estava falando para Levi. Não! Não era para ele saber que eu queria vê-lo!
Mas Levi não era idiota; ele percebeu que Eren estava falando da lanchonete que ele o levou. Levi estava sorrindo por dentro; aquilo não devia ser uma coincidência, então ele decidiu provocar o garoto um pouco.
— O que tinha que fazer de tão urgente na lanchonete que eu te levei? — perguntou Levi, convencido.
Eren não conseguiu controlar o rubor, e teve que cobrir o rosto com a mão até que se acalmasse um pouco e pensasse numa boa desculpa. Não demorou muito para que Eren se controlasse, deixando apenas um tom rosado nas bochechas.
— Eu estava com muita fome.
— Com fome? — perguntou Levi, achando aquilo muito divertido.
— Isso, com fome. Algum problema?
O cabelo de Eren não era muito curto, mas ainda assim dava para ver um pedaço da sua orelha. Dava para notar que elas não deveriam estar tão vermelhas. Ah, pirralho... Com quem você acha que está lidando?
— Posso te garantir, se aquela pressa toda era para comer, então eu não sou a pessoa com problemas aqui.
Naquele momento, Eren não sabia se detestava o dia em que eles se conheceram ou se ficava feliz por Levi conseguir perceber todos os sinais que seu corpo lhe dava. A única coisa que ele sabia naquele momento era que a sua mão era um excelente escudo anti-Levi para seu rosto, e o cobriu mais uma vez.
— Eu queria te ver — disse Eren, desistindo de mentir. Aquela resposta pegou Levi de jeito. — Esperava te encontrar na lanchonete...
— Se quer me ver, então por que está cobrindo o rosto?
Escutar aquilo foi como levar um choque. Eren sentia todos os pelos de seu corpo se arrepiarem, e se perguntava o porquê daquela reação. Mas logo a sua mente foi dominada pela voz grave e serena de Levi. Sem perceber, Eren já estava abaixando a mão e virando o rosto para encará-lo.
— Pensei que tinha dito para ir me ver amanhã — complementou Levi.
— Eu não vou ir — respondeu Eren imediatamente.
Sua mente estava tão no automático que não percebeu que a sua resposta foi ambígua, o que fez Levi ficar meio chocado. Ver que ele também conseguia mexer com Levi fez o garoto ficar muito satisfeito — e confiante também.
— Fiquei sabendo hoje que amanhã o time de baseball terá treinos extra à tarde, então não poderei ir.
Levi deu uma pequena risada.
— Mas é um pirralho mesmo... — murmurou.
— Eu ouvi isso — retrucou Eren.
— Se eu falei, então era para escutar — devolveu Levi. Levaria anos para que Eren chegasse ao seu nível.
Os dois ficaram se encarando completamente calados, sem saber o que fazer. Por fim, Levi quebrou o silêncio dando um suspiro.
— Você disse que estava tendo um dia ruim, certo?
Eren fez que sim com a cabeça, os olhos brilhando na expectativa. Isso até que é... bonitinho?
— Quer desestressar?
O garoto piscou os olhos algumas fezes, se perguntando se aquilo tudo era um sonho. Quando finalmente se convenceu de que era real, Eren abriu um sorriso radiante e correu até a moto de Levi, que o fez parar de correr batendo o capacete em sua barriga. Eren estava prestes a reclamar quando Levi informou:
— Eu só tenho um capacete, e crianças têm prioridade.
— Não tinha um jeito melhor de me entregar essa porcaria?
— Eu também não queria que se aproximasse muito, você é barulhento demais.
Eren fez uma carranca e colocou o capacete, o que fez Levi dar um pequeno sorriso torto sem que o garoto notasse.
— Para o seu azar, eu vou sentar na sua garupa e ficar muito perto — resmungou Eren.
Levi arregalou os olhos para o menino — certamente, não esperava que um fedelho fosse tão ousado — enquanto Eren se encolhia de vergonha, só percebendo o duplo sentido depois. Sorte a minha que eu já estou com o capacete... Foi então que ele notou que o capacete tinha um cheiro muito bom. Era uma mistura de sabonete com perfume masculino e... Levi.
Enquanto Eren se perdia no cheiro de Levi, este pegou o celular do bolso da calça e chamou o primeiro número da discagem rápida.
— Erwin, eu já acabei com o problema em Trost... Não, claro que não... Você está duvidando de mim?... — Levi estava sério ao telefone, e Eren aproveitou aquele momento para olhá-lo bem. Aquele era exatamente o tipo de pessoa que Eren admirava: firme, seguro, calmo e... Bonito... — Sim, e é esse o problema... Sim, eu sei... Isso não será necessário... Não, eu não irei hoje... Porque... — Levi olhou para Eren, que tratou de olhar para outro lugar no mesmo instante. —... Eu estou com uma puta dor de cabeça.
Eren fez uma expressão confusa, o que divertiu Levi.
— Eu vou descansar, não se preocupe... Até. — E desligou o celular.
— Eu estou te causando problemas? — perguntou Eren, meio inseguro.
— Está me tirando de um.
Aquela resposta era tudo que Eren precisava para subir na moto.
— Ei, cuidado onde pisa! — protestou Levi. — Essa moto é...
Levi perdeu a fala quando Eren terminou de montar na garupa, com as pernas o cercando. Eren não abraçaria Levi — não mesmo! —, então segurou nos apoios que ficavam na lateram da garupa. Só que aquilo fazia seu quadril escorregar ainda mais para frente, o que Levi com certeza percebeu. Naquele momento, tudo o que ele pensava era no que faria se fosse ele naquela garupa, envolvendo Eren com as pernas...
Ah, foda-se, disse a si mesmo quando pensou em repreender-se pelo pensamento indecente. Não será a primeira vez que eu faço algo de errado na vida.
— E então... — Levi deu a partida na moto, deixando o motor roncar —... Aonde quer ir?
Eren não precisou pensar muito; já tinha um lugar em mente.
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