Vazio

20 Mais depósitos


Notas iniciais
Boa leitura!

Armin acabou levando Eren para a enfermaria. Como a enfermeira estava em horário de almoço, ele mesmo cuidou das feridas de Eren, deixando um saco de gelo em cima do abdômen do amigo, que era o que mais doía. Assistindo a tudo estava Mikasa, encostada na parede do lado da porta. O silêncio daquela sala era sufocante.

— Diga alguma coisa — pediu Eren, olhando Mikasa diretamente nos olhos.

Armin desejava não estar ali, mas continuou com os curativos de Eren.

— Não tenho nada a dizer — declarou Mikasa, mais fria do que nunca.

Eren rangeu os dentes; não havia nada pior no mundo para ele do que essa “falsa compreensão”.

— Para de enrolar, Mikasa!

E o que quer que eu diga? — respondeu a garota, num tom de voz baixo e grave. Eren engoliu em seco, arrependendo-se por tê-la pressionado. — Que você foi estúpido e inconsequente? Que você poderia ter saído gravemente ferido? Que você realmente não tem a capacidade de se virar sozinho?!

— Mas não fui eu que...! — Eren tentou se justificar, mas acabou sendo cortado pelo grito de Mikasa.

Não importa, Eren! — Mikasa se desencostou da parede e foi andando até a maca onde Eren estava sentado. — Eu tinha razão! Eu não posso te deixar!

Pare com essa sua mania estúpida de querer cuidar de mim! — gritou Eren, bem na cara de Mikasa.

A garota arregalou os olhos e recuou um passo, colocando a mão sobre a boca. Naquele momento, Eren sabia que tinha feito uma grande cagada. Estava dividido: parte dele queria desmentir e simplesmente deixá-la brigar com ele, mas parte dele também queria aproveitar aquele momento já cagado e falar de uma vez o que pensava.

Não foi difícil decidir o que iria fazer.

— Mikasa, escuta aqui... — começou dizendo.

Armin olhou de Mikasa para Eren, depois para Mikasa de novo. Ela parecia acuada, algo muito raro de se ver. Isso não vai acabar bem...

Eren — chamou Armin.

— Calma, Armin, eu preciso falar isso — respondeu Eren, sem nem mesmo olhá-lo. — Mikasa... Eu te amo.

A Sexta Avenida estava um caos. Uma das três faixas estava interditada devido à polícia, ambulâncias e corpo de bombeiros, graças a um incêndio que destruiu um prédio antigo de três andares. Olhando mais de perto, podia-se notar a silhueta de um dragão pichada na entrada do prédio: Yakuza.

Com alguma dificuldade, Levi conseguiu estacionar a moto próxima ao local do incêndio, onde pôde avistar a sua equipe trabalhando, juntamente com Nile e seus homens. Levi revirou os olhos; não estava nem um pouco a fim de ter que lidar com a arrogância de Nile agora, principalmente porque teria que fazer isso com outras pessoas pelo resto do dia.

Levi soltou um suspiro e checou o celular: nada. Tinha para si que Eren estava realmente interessado — principalmente por causa daquela despedida — e que acabaria ligando desesperado, como um cachorrinho. Mas, não... Nenhum sinal de vida. Será que fui muito grosso?, pensou Levi, recapitulando o seu final de semana com Eren.

Levi-san... Mais...!

— Levi Heichou! — gritou Petra, assim que identificou o chefe na multidão.

Levi piscou algumas vezes, tentando desprender-se da tentação na voz de Eren em sua cabeça. Devo estar ficando doente...

Falando no diabo... — murmurou Nile quando Levi se aproximou.

Levi não gastou saliva com aquela provocação barata, apenas ficou de costas para Nile e seus agentes enquanto conversava com a sua própria equipe.

— Você estava certo como sempre, Heichou — elogiou Oluo. — A Yakuza realmente...

Oluo calou-se assim que Levi o fuzilou com os olhos, como se dissesse “Não fale sobre isso em público”. Eld discretamente sinalizou um local mais afastado de Nile e os outros para passar as informações. Nile, obviamente, não perdia um movimento do Heichou.

— O incêndio começou por volta das cinco e quarenta, mesmo horário do crime no depósito a quatro quarteirões daqui.

— Então esse era o holofote do depósito... — murmurou Levi. — Mais dois crimes aconteceram, um é o objetivo real e o outro é mais um crime-holofote para distrair a atenção dos policiais.

— Heichou? — disse Eld, com a testa franzida, sinalizando que não entendia do que o chefe estava falando.

— Essa não foi uma operação simples de apenas um alvo, a marca d’água é a prova — informou Levi, cruzando os braços. — O problema é que eu não sei qual era a segunda etapa do plano.

— Pensei que você tinha acesso a todas as informações deles — disse Eld, surpreso.

— Se eu soubesse de todas, não existiria mais Yakuza. — explicou. — É muito arriscado contar o plano completo para todos os membros, então somente alguns poucos ficam sabendo de todas as etapas.

— E por que você não é um deles? — perguntou Eld, sinceramente surpreso. — Tenho certeza de que é o melhor em...

— Não é questão de ser melhor ou pior em algo. — Levi negou com a cabeça. — Os que estão por trás das operações são os que têm as melhores ligações externas, pessoas influentes. E, além do mais, eu não cumpri com uma obrigação fundamental seis anos atrás... Eles não confiam em mim — murmurou Levi, mas para si mesmo do que para Eld.

— Heichou, perdoe-me a intrusão, mas... — Levi olhou diretamente nos olhos de Eld, deixando-o mais nervoso. —... O que era essa obrigação?

Levi não respondeu nada, ficou apenas encarando-o, sem expressão nenhuma. Eld suou frio, acreditando ter feito uma pergunta ousada demais.

— Precisa de mais alguma coisa, Heichou? — Eld tentou mudar de assunto.

— Quero que você descubra qual o outro grande crime que ocorreu nas proximidades — ordenou Levi. — Eles não podem ter ido muito longe, já que a marca d’água some em menos de uma hora.

— Esse crime de maior visibilidade será o holofote?

— Exato — Levi pegou o celular e selecionou o segundo número da discagem rápida. — Vocês precisam encontrar o crime real o mais rápido possível. Deixe os dois holofotes para Nile se divertir um pouco, mas seja discreto e finjam que também estão trabalhando no caso.

— Pode deixar, Heichou — Eld fez um rápido comprimento e se dirigiu até onde o resto da equipe estava, para explicar os próximos passos.

Nile continuou encarando Levi com seu olhar carrancudo, pressentindo que ele estava aprontando alguma coisa. Levi se limitou a colocar o telefone na orelha e dar as costas para Nile, ignorando-o pela segunda vez.

Vejam só quem ligou! — cantarolou Hanji, assim que atendeu.

— Pule o papo furado e passe logo para a parte em que você faz o que eu peço.

Apressadinho, esse menino Levi... — suspirou Hanji. — Diz aí, o que é tão urgente a ponto de você pedir minha ajuda?

— Preciso que você me cubra nesse caso com a AFI — disse Levi, como se fosse algo simples.

Espera aí — disse Hanji, surpresa com o pedido absurdo. — Você quer que eu abandone o meu caso, deixando a minha equipe na mão, só porque você não consegue lidar com um mauricinho da capital? — Hanji estava sendo, claramente, sarcástica. — Eu não acredito nisso...!

— Preciso que você faça com que o imbecil da capital não perceba que eu não estarei agindo em conjunto com a equipe porque tenho trabalho extra nas minhas costas que não pode sequer chegar aos ouvidos dos nossos superiores — Levi devolveu com o mesmo sarcasmo. — Melhor agora?

Levi, por mais que eu queira ajudar...

— Qual é o seu caso atual?

Você não consegue nem lidar com o seu caso e quer saber qual o meu?

— Anda logo — murmurou Levi, revirando os olhos.

Quero que fique registrado que isso é extremamente antiprofissional e antiético — anunciou Hanji. — Meu caso envolve o desvio de verba do deputado Lobov, precisamos de mais provas.

— Se eu te disser que consigo uma ou duas provas, você manda uns dois agentes seus para um local que eu quero?

Ah... — Hanji suspirou do outro lado da linha. — Você vai ficar me devendo uma.

— Claro que não, vou te pagar com as provas contra Lobov.

Não, esse é o pagamento por tomar dois dos meus oficiais. Vai ficar me devendo pela minha boa vontade.

— Você é uma aproveitadora mesmo... — murmurou Levi, divertindo-se com o jeito de Hanji.

Sem desculpas, eu quero sair para beber hoje à noite!

— Por que tudo com você envolve bebida?

Pare de reclamar, você nunca fica bêbado mesmo! — protestou Hanji. — Temos um acordo?

Levi arfou e passou a mão livre pelos cabelos.

— Nove e meia, no bar da minha esquina.

Sempre bom fazer negócios com você! — e então desligou.

Levi encarou o celular com um discreto sorriso torto. Guardou o objeto no bolso e se dirigiu à sua moto, mas não deu nem três passos até que o aparelho tocasse de novo.

Rivaille-san — dizia uma voz masculina do outro lado da linha. — O Chefe quer saber se andou falando com Kitts Woerman ultimamente.

— Gustav... — Levi apertou a ponte do nariz; não esperava que entrassem em contato tão cedo. — Aconteceu alguma coisa com Kitts?

Responda a pergunta primeiro — pressionou Gustav, exigente.

Levi estalou a língua. Certamente tinha acontecido algo com Kitts no meio tempo em que saiu das docas e veio para a Sexta Avenida, e corria o risco de ser considerado culpado.

— Fui conferir algumas coisas do Plano Teia com ele essa manhã — respondeu Levi, por fim. Suas mãos estavam atadas. — Aconteceu alguma coisa?

Kitts foi visto correndo da Doca 13 gritando que seria assassinado — informou Gustav. Levi ficou paralisado, suando frio. — Não foi visto desde então. Sabe de alguma coisa?

— Eren... — Mikasa estava sem reação. — O que...

— Você é uma das amigas que eu mais amo — complementou Eren. Por algum motivo, Mikasa sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo. — E eu entendo que você também se importa muito comigo. Mas... Assim não dá...!

— Por acaso, eu sou... — Mikasa ainda estava estupefata. —... um incômodo para você?

— Não, não é isso... — Eren cobriu o rosto com as duas mãos. — Eu só quero um pouco de liberdade!

— Hã?

Eren ergueu o rosto, deixando a coluna ereta, e a olhou nos olhos.

— Nenhuma das minhas namoradas conseguiu ser tão superprotetora como você. Na verdade, acho que nem minha mãe consegue ser tão superprotetora quanto você.

— Mas, você precisa...

— Eu preciso me meter em confusão — disse Eren, num desabafo. — Eu sou um garoto, não tem como evitar isso.

Mikasa aproximou-se de Eren e pôs a mão delicadamente na bochecha direita, levemente avermelhada por causa do soco.

— Mas se algo acontecer com você...

Mikasa — Eren a chamou, fazendo-a olhar em seus olhos, enquanto cobria a mão dela com a sua. — Não é como se eu fosse morrer por causa de um ou dois murros.

A garota gentilmente envolveu Eren em seus braços, num gesto de acolhimento. Eren retribuiu o carinho, pondo as duas mãos nas costas da amiga.

— Entende que não precisa me proteger?

Não, eu não entendo...! — retrucou Mikasa. — Mas... Eu entendo que você precisa disso...

— Obrigado.

Dando um último aperto, Eren a soltou. Mikasa logo retirou seus braços, mesmo que não quisesse.

— Ainda assim, pode me chamar quando precisar. Sabe disso, não sabe?

— Claro que sim — disse Eren, sorrindo. — Agora volte para a aula, Armin pode cuidar do resto.

Mikasa assentiu e se virou para ir embora. Mas, ao chegar à soleira da porta, parou.

— Eren...

— O que foi?

— Eu também te amo.

— Sei disso — respondeu o garoto, presunçoso.

Mikasa deu um último sorriso, este meio sofrido, e saiu corredor afora.

Armin olhou para Eren com olhos arregalados, provocando uma boa risada no garoto moreno.

Uau... — disse Armin, rindo também. — O que foi isso...?

Não demorou muito para que Levi fosse contatado por um homem de voz grossa, declarando ser um White Snake. Aparentemente, eles descobriram que Kitts estava por trás do ataque ao depósito — os homens que invadiram o local eram subordinados de Kitts, Levi sabia disso — e estavam desejando revanche: tinham sequestrado Kitts para usá-lo como refém.

A primeira exigência do homem foi a devolução da caixa de aço. Aquilo pegou Levi de surpresa; não sabia que algo havia sido roubada do depósito. Isso explicava a bagunça que o local estava. Mas... O que a Yakuza iria querer roubar da White Snake?, perguntava-se Levi, tentando adivinhar aquela informação, mas não conseguiu pensar em nada.

A segunda exigência tratava de algo bem mais cruel: oito membros da Yakuza para serem executados, assim como as vítimas no depósito da White Snake. Os oito homens deveriam estar desarmados e algemados, para que não houvesse resistência.

A última foi a mais absurda de todas: queriam que Levi deixasse ser marcado como gado, a ferro quente nas costas, com o símbolo da White Snake — uma cobra em forma de “S” trocando de pele. Levi não pode evitar sorrir quando escutou aquilo, mas fingiu concordar com as exigências.

O endereço dado pelo homem levava a um terreno abandonado a extremo sul da cidade, na região mais afastada da área Maria. Levi mal podia esperar chegar lá...

— Tanto talento com mulheres, e você namorando um cara... — comentou Armin, sorrindo, enquanto passava uma pomada na ferida na boca de Eren.

Ai! — gritou Eren, em protesto pela dor causada pela pomada. — Isso arde, caramba!

— Mas é necessário — disse Armin, segurando o rosto de Eren pelo maxilar com uma das mãos enquanto, com a outra, terminava de espalhar a pomada.

— Não fale sobre isso no colégio, alguém pode escutar!

— Deixe de bobagem, estamos perdendo a primeira aula — disse Armin, dando de ombros. — Não tem ninguém aqui.

Eren ficou um tempo em silêncio, até que suspirou.

— Nós não estamos namorando — anunciou, olhando para a janela a seu lado.

Armin tinha acabado de passar a pomada, então o soltou e o encarou confuso.

— Mas vocês não...? — Armin gesticulou algo parecido com uma pessoa em cima da outra.

— Sim, nós dormimos juntos — Eren deu um sorriso para a encenação do amigo. — Ainda assim, ele... não quer namorar... — Eren deu de ombros, meio cabisbaixo.

Armin começou a mexer em suas mãos, coisa que sempre fazia quando estava nervoso ou pensativo.

— Ah, vai ver é só porque vocês estão no início. — Armin balançou uma das mãos, como se dissesse “não se preocupa com isso”. — Não se esqueça de que o conheceu há... o quê? Cinco dias?

— É, por aí — Eren sorriu para a tentativa de Armin de animá-lo.

— E ele te deu o número dele?

— Bem... Eu já tinha, então...

— Ah, isso é melhor ainda — disse Armin, sentando-se na maca ao lado de Eren. — E ele te falou alguma coisa? Pediu para que ligasse?

— Falou que eu podia ligar caso quisesse... — Eren ficou rosado tanto nas bochechas quanto no topo das orelhas. — Você sabe...

— Ah, entendo — disse Armin, rindo. — Esse cara tem um apetite insaciável, hein?

— Ah, você não tem ideia! — disse Eren, com um sorriso de orelha a orelha ao se lembrar de seu final de semana. — Ele é... incansável...

Armin olhou com carinho para Eren, que sorria como um bobo.

— Acho que nunca vi você assim — comentou Armin.

— Assim como?

— Tão afetado por alguém.

Eren não tinha percebido antes; Armin tinha razão. Ninguém nunca tinha o feito ficar assim, tão...

— Espero que dure bastante dessa vez.

— O relacionamento?

— Também — Armin riu —, mas estava me referindo a esse seu “estado inicial”, em que consegue diminuir aquela sensação estranha que você tem quando está sozinho.

— Hm... Está falando do “vazio”?

— É isso mesmo.

— Ah... — Eren passou uma mão pela nuca. — Também me pergunto quanto tempo vai durar dessa vez.

Levi estava parado em frente a um galpão velho e abandonado, que parecia ser a ruína de algo maior. Levi torceu o nariz só de pensar quanta imundice encontraria lá dentro, e fez uma nota mental de não encostar em nada.

Fazendo uma última checagem em suas três armas, Levi caminhou calmamente até o portão do depósito. Vendo que a tranca estava completamente enferrujada e salobra, Levi tirou um pequeno lenço do bolso da camisa e o usou para segurar a “alavanca” enferrujada e destrancar o portão. Terminado o serviço, jogou o paninho em qualquer lugar e de um chute no portão, fazendo-o abrir para dentro.

O estrondo do portão batendo na parede fez com que todos os homens do lado de dentro do depósito saltassem de susto, virando-se imediatamente para Levi, que entrava no local como se estivesse entrando em casa, bem tranquilo. A cada passo que dava, podia ver mais armas sendo apontadas em sua direção, que iam desde revólveres até facas e pés-de-cabra. Mas ele não se importou nem um pouco; caminhou em linha reta, até onde Kitts estava, amarrado a uma cadeira de madeira.

— É muita coragem vir aqui sem as coisas que eu pedi tão gentilmente... — De uma área pouco iluminada, um homem apareceu segurando uma vara de ferro com a ponta incandescente. Ele era alto, de cabelos castanhos um pouco compridos demais e porte físico invejável. — Acha que só a marca vai pagar o preço por terem mexido com a White Snake?

Levi permaneceu calado, olhando-o com uma expressão de desprezo e tédio. Aquilo deixou o homem mais irritado ainda.

Vamos ver se o seu corpo vale tanto assim! — disse o homem de forma quase que animalesca, avançando em direção a Levi.

E eu tenho cara de puta para vender meu corpo? — retrucou, sacando as duas armas que ficavam nas laterais de seu quadril.

O homem parou de correr no mesmo segundo e recuou, gritando o comando de abrir fogo.

Levi, que tinha um reflexo insuperável, virou-se antes que o sinal para atirar fosse dado e puxou o gatilho, mirando bem nos homens que também estavam com revólveres — tinha memorizado quais deles estavam com cada arma quando analisou o depósito. Um dos atiradores foi atingido bem no meio da testa. Outro, mais ágil, conseguiu pegar um tiro de raspão na perna esquerda de Levi, mas logo teve o seu peito atingido. O terceiro quase acerta Kitts, tamanha a falta de precisão de sua mira. Este foi atingido no olho. Livrando-se dos três atiradores, só precisava cuidar de mais outros seis homens, contando com o da vara de ferro, o suposto líder.

A velocidade com que Levi eliminou três homens assustou até mesmo o líder, que recuou mais um passo.

O-o que pensam que estão fazendo?! — gritou. — Matem logo esse bastardo!

Os primeiros a avançarem foram os que tinham um facão e outro com duas facas. Devido à proximidade, Levi não precisou atirar; com o cano da arma esquerda, bateu com força na lâmina do facão, fazendo o homem cambalear, e com a direita, o acertou em cheio no nariz, nocauteando-o. Sentiu que o próximo se aproximava pelas suas costas, então se abaixou e, com a perna direita esticada, girou o corpo e deu uma bela rasteira no oponente. Deu um tiro no plexo do homem deitado e estava finalizado.

Sem esperar Levi se levantar, o próximo a atacar apostou toda sua força em uma pancada direta com um pé-de-cabra, planejando acertá-lo no topo da cabeça. Mas Levi o viu se aproximar pela visão periférica, e fez um rolamento para o lado mais próximo do líder com a vara de ferro incandescente. O homem com o pé-de-cabra tentou outra investida quando o líder avançou pelas costas de Levi, planejando perfurá-lo com o ferro quente. Mas Levi já tinha previsto aquele movimento também.

Soltando a arma da mão direita, Levi girou para ficar de frente para o líder e segurar no cabo da vara de ferro. Girando mais uma vez, fez com que o golpe passasse por ele e atravessasse em cheio o abdômen do homem com o pé-de-cabra, que teve seu urro de dor abafado pelo sangue que subia pela sua garganta. Levi o chutou para longe com a vara de ferro ainda atravessada por sua barriga — até porque não queria que o homem vomitasse sangue em suas calças —, e usou a arma da mão esquerda para finalizar os outros dois que sobravam. Daqueles, Levi teve pena; eles já estavam se borrando de medo antes mesmo de avançarem contra ele.

Indignado pela derrota humilhante, o líder — o último que restou — fechou a mão em punho e desceu um murro por detrás de Levi, que não conseguiu se esquivar a tempo e levou o golpe na omoplata direita, caindo no chão.

Você vai pagar por isso! — gritou o homem, bêbado de raiva.

Levi girou e tentou colocar-se de pé o mais rápido possível, mas o homem não deixava a desejar no quesito velocidade; num piscar de olhos, já estava em frente a Levi, descendo-lhe mais um soco. Só que dessa vez Levi pôde se defender, colocando a ponta do cano da arma no caminho da trajetória do punho do homem. Dois dedos foram quebrados, deixando uma fratura exposta.

A dor que sentia na mão era além de qualquer coisa que já tinha experimentado antes; o homem teve que recolher a mão ao peito e recuou, fugindo de Levi. Aquele era o momento perfeito para acabar com aquela história: Levi mirou bem na nuca do homem e puxou o gatilho.

Mas nada aconteceu.

Justamente naquele momento, tinha ficado sem munição. O homem percebeu que Levi não podia mais atirar e deu uma gargalhada, num misto de grunhido de dor e ódio, e pegou a arma que Levi tinha dispensado para acertar o cara com o pé-de-cabra.

Agora você tá fodido! — gritou o homem, apontando a arma para Levi.

Embora a mão tremesse na hora de mirar, o olhar que ele dava para Levi era certeiro, focado. Ódio era derramado junto com as lágrimas de dor pela mão com a fratura exposta, e no peito ardia a vontade de vingar seus companheiros. Sentia o formigamento dos dedos quase partidos se espalhando por todo o braço, atingindo o tórax e todos os órgãos ali alojados, principalmente os pulmões — sua respiração era rápida e entrecortada. Foi nesse estado, nessa situação, que viu surgir dos lábios de Levi um sorriso de triunfo.

Muito lento — foi a última coisa que ouviu.

Numa velocidade quase super-humana, Levi atirou o revólver descarregado na cabeça do homem, que caiu para trás. Aproveitou aquele momento para sacar do cós na parte de trás de sua calça o terceiro revólver. Não fez cerimônia, também não disse mais nada; apenas atirou três vezes para certificar-se de que o havia matado. Com desgosto, constatou que havia sido derramado sangue em suas mãos, manchando também a barra da manga de sua camisa.

Mãos sujas de sangue... Que irônico.

Kitts assistia a tudo estupefato; não ousou mover um músculo durante a luta inteira. Na verdade, se perguntava se seria capaz de mover-se quando fosse liberto...

E então, Kitts... — disse Levi, andando até o homem amarrado na cadeira. Kitts estava pálido de medo. — Por quanto tempo planeja ficar aí?

Finalmente o último sinal tinha tocado, finalizando as aulas da tarde. Normalmente, Mikasa iria para casa de Eren enquanto seus pais ainda estivessem viajando, mas decidiu abrir uma exceção. Não é que estivesse magoada nem nada do tipo, só se sentia... estranha. Era fato que estava mais “amolecida” nesses últimos dias, e queria logo entender o motivo daquilo.

Já Eren, mal podia esperar voltar para casa. Desde pequeno, sempre foi muito ligado ao pai, e o considerava quase que um herói, até mesmo quando cresceu. Seu pai era um ídolo. Uma pena que, com o tempo, ele foi se enchendo cada vez mais de trabalho e foi passando mais tempo fora, em viagens, do que em casa, com a família. Aquele era um dos poucos momentos que tinha com ele, então Eren queria aproveitar cada segundo.

Mesmo com o incômodo da dor no abdômen, fez questão de correr para casa. Entrou pela porta quase voando, mas com cuidado para não a bater — sua mãe ficava uma fera quando o fazia!

Eu não entendo...! — dizia a voz de Carla, parecendo preocupada.

Provavelmente, ela estava conversando em outro cômodo da casa, mas podia ser ouvida da entrada. Eren estranhou aquele tom de preocupação da mãe e decidiu bisbilhotar, andando com cuidado até que identificasse em que cômodo ela estava.

Você passa tanto tempo fora, e quando volta... — Carla estava com a voz abalada, como se fosse chorar a qualquer segundo.

Eren foi se aproximando da cozinha, e foi aí que pode escutar a voz da outra pessoa: seu pai.

Carla, eu preciso que você entenda que há vidas em perigo...

— A integridade da sua família também, Grisha! — retrucou Carla. Aquelas palavras fizeram seu coração apertar. — Eren está crescendo sem a presença de um pai! Ele já está quase um homem!

— Carla, por favor, não exagere...

— Exagerar?! Pois saiba que seu filho não é mais virgem!

Eren cobriu o rosto com as duas mãos. Mesmo sendo seus pais, estava morto de vergonha.

Bem... Era de se esperar, ele já está na idade.

— Grisha! — suplicou Carla. — Você está mesmo indo embora?!

Aquele foi o limite para Eren. Num pulo, saiu de trás da parede e ficou parado na porta da cozinha. Seu pai, que realmente estava pronto para sair, de mala e tudo, se surpreendeu com a aparição do filho. Mais ao fundo, Eren viu sua mão apoiada na mesa da cozinha, enquanto usava uma das mãos para enxugar as poucas lágrimas que caiam.

— Você já está indo embora? — perguntou Eren, num fio de voz.

— Eren, meu filho... — Grisha levantou um pouco o óculos e massageou a ponte do nariz. — Não é bem o que você está pensando...

— Parece ser exatamente o que eu estou pensando — devolveu Eren, tomando uma postura mais agressiva.

Grisha e Eren ficaram se encarando por um tempo que poderiam ser segundos, minutos ou horas; para eles, era como se estivessem conversando por dias, e mesmo assim não conseguiam se entender.

O diálogo mudo foi interrompido por Carla, que notou a vermelhidão no lado direito do rosto de Eren e a ferida em sua boca também.

— Eren, o que foi isso?

Carla foi quase correndo até o filho, passando por Grisha sem nem tocar-lhe. Segurou o rosto de Eren com as duas mãos e começou a examiná-lo, procurando por mais feridas.

— Para, mãe! — protestou Eren, afastando-a com um empurrãozinho de leve.

Só que suas mangas estavam dobradas até o cotovelo, deixando visível hematomas azulados nos dois antebraços de Eren. Carla arregalou os olhos e cobriu a boca entreaberta com uma das mãos, se afastando.

Eren Jäeger, o que foi isso? — perguntou, num misto de raiva e surpresa.

Eren olhou fundo nos olhos aterrorizados da mãe e decidiu contar a verdade. Passou os últimos dias a enrolando por causa de Levi... Mesmo que soubesse que fosse acabar com um castigo ainda pior, não queria ter que contar mais uma mentira — não queria agir como seu pai estava agindo agora.

— Eu me meti numa briga.

— Eu sabia...! — preguejou Carla. —Com quem? Quem foram os moleques?

— Foram uns meninos que vendiam drogas perto do meu colégio.

Todo o sangue que havia no rosto de Carla foi drenado. Ela esperava tudo — tudo —, menos ter que escutar que seu filho estava metido com drogas. E ainda por cima, havia sido espancado! Não, aquilo era demais para um dia só. As lágrimas começaram a rolar pelo rosto de Carla, mas ela permaneceu imóvel encarando Eren.

— Drogas? — quem falava agora era seu pai. — Você está metido em drogas?!

Não! — gritou Eren. — Eu não estou metido em drogas! É só que meu amigo quis comprar...

Quem é esse amigo?! — Carla foi até Eren de novo e o segurou pelos ombros, dando-lhe rápidas sacudidas. — Quem é esse bastardo?!

— Mãe, se acalma!

Eu não vou ficar calma! — gritou Carla, chorando mais ainda. — Meu filho está andando com traficantes...!

— Mãe... — Eren se segurou nos braços dela. — Mãe, você está entendendo tudo errado, deixe-me explicar...

Não, não... — murmurava Carla, balançando a cabeça e se afastando de Eren. — Você não pode...

— Eren — Grisha chamou sua atenção. — Você já está bem grandinho...

— Eu sei, pai, eu não devo usar drogas — Eren revirou os olhos. — Se vocês só me deixassem explicar...!

— Não, meu filho não é isso.

Aquela não era a resposta esperada por Eren. Com muito pesar, Grisha retirou o óculos, pendurando-o no bolso da camisa, e puxou uma chave dourada do bolso.

— Preciso te mostrar uma coisa, um... segredo de família. — Grisha fez uma pausa para respirar fundo. — Acho que já está na hora de você saber.

—... Grisha? — chamou Carla, mas ele não lhe deu ouvidos.

— Está guardado em um cofre antigo, é quase um baú... Ele fica na minha clínica onde mais ninguém pode entrar.

— Grisha, do que você está falando...? — perguntou Carla, mas foi ignorada de novo.

Eren sentiu um calafrio descer pela sua espinha. Algo ali não estava certo, disso podia ter certeza. Quase que em câmera lenta, viu seu pai andar até ele, com a expressão vazia, e deixar a chave dourada nas mãos do garoto.

Cuide bem dela — segredou-lhe antes de deixar a cozinha. Só não sabia se Grisha estava falando da chave ou...

Grisha! — chamou Carla, mas já era tarde; seu marido já havia deixado a casa.

Carla tapou a boca com as duas mãos, tentando abafar seus soluços.

Por favor, não me deixe de novo...!

Levi estava exausto. Estava começando a duvidar se era um policial, um mafioso ou um motoboy: esteve dirigindo quase o dia inteiro, de uma ponta a outra da cidade. E isso sem contar com o “resgate” de última hora de Kitts, que também o desgastou bastante. Para poder voltar logo para casa e tomar um banho demorado, tinha que passar na AIS e terminar os relatórios de hoje — ou melhor, conferir os relatórios feitos por Eld.

Quando chegou em sua sala, não viu ninguém. Aparentemente, o trabalho já havia sido feito, e uma pilha de papéis foi colocada em cima de sua mesa. Levi gemeu de cansaço quando imaginou ter que conferir todos aqueles papéis... Não, não faria isso agora. O banho era prioridade, até porque ninguém merece ter que trabalhar com a camisa suja de sangue de outra pessoa — que, por sinal, ele mesmo tinha matado algumas horas atrás.

Juntou tudo que precisava e saiu da sala, indo para a porta vizinha à sua.

— Nossa, você está um caos — constatou Hanji assim que viu Levi entrar.

— Já esperava por isso — disse Levi, encostando-se na porta aberta. — Escolhi o bar da minha esquina justamente para poder tomar banho antes de sair.

— Nossa, que homem prático... — brincou Hanji, fazendo Levi revirar os olhos. — Vem cá, isso na sua camisa é sangue?

— Não se preocupe, não é meu.

— Levi, você é realmente... — Hanji balançou a cabeça, sorrindo. — Espera só um segundo que eu estou terminando de salvar um arquivo.

Levi permaneceu em silêncio até que Hanji acabasse o trabalho. Assim que terminou de desligar o computador, foi saltitando em direção ao baixinho.

— Vamos logo! Tenho muita coisa pra falar contigo — Hanji pegou metade da pilha de Levi, deu uma piscadela, e voltou a saltitar, em direção ao elevador.

Eu mereço... — murmurou Levi, carrancudo por fora, mas por dentro sentia-se feliz em ter uma boa amiga como Hanji.