Vazio

24 Já chega


Notas iniciais
Boa leitura!

Assim que Eren e Marco acabaram de conversar, ainda faltavam dez minutos de intervalo. Sem pressa, os dois foram andando até a sala, conversando sobre qualquer coisa que viera à mente. Os corredores já estavam ficando quase desertos, então foi fácil identificar Armin e Jean parados ao lado da porta da sala, ambos arfando. Eren percebeu Marco ranger os dentes.

— Vocês estão bem? — perguntou Eren, assim que se aproximou.

Armin foi o primeiro a se virar, com os olhos arregalados, focando primeiro em Eren, depois em Marco. Assim que seus olhos se encontraram com os de Marco, Armin corou de leve e desviou os olhos para o chão. Jean apenas permanecia imóvel olhando para Marco, pálido como se visse um fantasma. Os batimentos cardíacos de Marco aceleraram.

— Eren, vem cá comigo um instante... — chamou Armin, indo para o outro lado do corredor.

Não! — Jean deu dois passos rápidos e agarrou o braço de Armin, que o olhou surpreso. Pelo amor de Deus, Armin, não me deixa aqui sozinho com Marco! Eu não sei o que fazer! — Fica aqui...

Armin o olhou como se dissesse “O que você está fazendo, seu idiota?!” e puxou seu braço da mão de Jean. Um arrepio desceu pela coluna de Jean. Quando se virou, viu um Eren puto da vida — só agora entendeu o que Marco estava falando, e estava considerando socar Jean ali mesmo — e um Marco prestes a se quebrar. Sua expressão era tão triste que parecia vazia. Ele não disse nada, só correu para dentro da sala.

— Jean, o que foi que você fez?! — exclamou Armin.

— E-eu não sei, eu só... Não queria ficar sozinho com Marco — Jean se embolava todo para explicar. Estava nervoso; não sabia se ia atrás de Marco ou se dava um espaço a ele.

Jean, seu...! — grunhiu Eren, avançando até Jean com um olhar quase assassino.

Jean ficou sem ação. Já tinha visto o sangue de Eren esquentar milhares de vezes, mas aquela era a primeira vez que ele avançava em sua direção.

— Eren, calma! — Armin se apressou e pôs-se entre os dois, pois sabia que ele não o machucaria.

De fato, Armin estava certo; Eren parou no mesmo segundo e recuou, olhando para os dois com desprezo.

— Armin... — murmurou Eren. — Eu nunca pensei que você...

— Eren, você entendeu tudo errado! — Armin gesticulava fervorosamente, quase entrando em pânico. — Eu e Jean nunca...

— Armin! — Jean o censurou. — Fale baixo...!

— Sinceramente, eu não sei mais o que pensar de vocês dois — Eren praticamente cuspiu as palavras, dando um olhar mortal para Jean, que engoliu em seco, e um de pura decepção para Armin, que ficou completamente desesperado.

Eren — Armin o chamou, com a voz mais séria que pôde. — Eu e Jean escutamos tudo.

Eren arregalou os olhos e os olhou mais descrente do que já estava. Jean ficou rubro, sem acreditar que Armin estava entregando o jogo.

Armin...! — era tudo que Jean conseguia falar.

Armin levantou a mão para ele, sem tirar os olhos determinados de Eren.

— Nós escutamos a história toda — complementou Armin.

— Se sua intenção era me deixar mais puto... — Eren rosnava com os dentes cerrados. — Parabéns, você conseguiu.

— Caralho, Jäeger, só cala a boca e escuta! — murmurou Jean.

Eren o fuzilou e avançou dois passos, sendo impedido de novo por Armin, que agora colocava uma mão no peito de Eren.

— Eren, não tem absolutamente nada acontecendo entre a gente — Armin falou de uma vez.

Ah tá...! — grunhiu Eren, com sarcasmo. Num movimento brusco, tirou a mão de Armin de seu peito. — Conta outra! Eu acabei de ver vocês dois...! — Eren balançou a cabeça. — E pensar que vocês sabiam sobre como Marco se sentia...

Jean não aguentou mais aquela pressão e acabou entrando em seu estado “Foda-se”.

E daí que eu sabia?! — gritou para Eren. — Eu não sou obrigado a corresponder, não sou um viadinho ridículo como você!

Armin ficou boquiaberto. Estava tentando conciliar a situação até agora, mas depois daquilo... Era impossível. Não pode sequer se mover, tão incrédulo que estava. Já Eren... Ele sabia exatamente o que fazer.

Eren praticamente voou para cima de Jean, puxando-o pela gola e prensando-o na parede lateral do corredor. Aquilo foi um susto para Jean, que acreditava estar totalmente ferrado.

Repete isso! — Eren gritava no rosto de Jean, quase o enforcando. — Repete isso na minha cara, seu idiota de merda!

O que está acontecendo aqui?! — gritou o professor de Matemática, Joshua Vanns, assim que viu a cena.

Eren soltou Jean na mesma hora, mesmo que da forma mais violenta possível. Jean cambaleou para o lado, mas logo conseguiu se equilibrar. Ambos os garotos olhavam para o chão, com medo de encarar o professor. Eren ainda fervia de raiva — pensava numa forma de Jean engolir aquelas palavras —, enquanto Jean tentava encobrir a culpa com a raiva que sentia de Eren. Mas sabia que a culpa era dele, por ter sido grosseiro sem motivo algum.

— Professor, eu juro que... — Armin tentou explicar, mas Vanns-sensei apenas levantou a mão para ele, sinalizando que devia ficar calado, e quem deveria explicar eram Eren e Jean.

Eren permaneceu calado, pois sabia que, se abrisse a boca agora, só iria piorar a situação. Já Jean, não aguentou e foi consumido pelo sentimento de culpa.

— Era só uma brincadeira, Sensei. — Jean ainda estava com o rosto voltado para o chão. — Não foi nada de mais.

Eren o olhou com surpresa; aquela era a última coisa que esperava de Jean. Mas não se deixou enganar e voltou à expressão enfezada. Não pense que só porque você não foi um filho da puta agora que eu vou esquecer que você foi um filho da puta antes, pensou Eren.

Vanns-sensei apenas grunhiu em desaprovação e balançou a cabeça.

— Essas brincadeiras agressivas de vocês são terrivelmente imaturas — censurou o professor. — Vocês não têm mais onze anos de idade.

— E nós sentimos muito, Vanns-sensei — Armin apressou-se em dizer.

Outro olhar de reprovação do professor e Vanns entrou na sala.

Entrem vocês também — mandou o professor.

Eren deu um último olhar de desprezo para Jean e foi até a porta. Armin o segurou pelo braço mais uma vez.

— Eren, por favor, deixe-me explicar tudo depois... — implorou Armin.

— Acho melhor você explicar mesmo — disse Eren, sem nem se dar ao trabalho de olhá-lo nos olhos, e entrou na sala, soltando-se do aperto de Armin.

Assim que Eren se foi, Armin virou-se para Jean e franziu o cenho para ele.

Por que fez isso?! — cochichou Armin. — Agora, vai ser muito mais difícil de fazer Eren nos escutar!

— Tsc... — Jean virou o rosto, evitando o olhar acusatório de Armin. — E quem precisa da ajuda de um idiota como ele? —murmurou Jean, antes de entrar na sala.

Armin suspirou profundamente. O que é que eu vou fazer agora...?

— O que você quer agora? — Levi já entrou na sala de Erwin perguntando, mais uma vez sem bater na porta.

Erwin parou de escrever nos documentos que estava analisando para olhar para Levi e dar um sorriso discreto, mas que não passou despercebido por Levi.

— Incrível como você ainda se sente completamente confortável com essa sala — comentou Erwin, como quem não quer nada.

Mas Levi já conhecia seu jogo.

— Já perdi a conta de quantas vezes fui chamado aqui por causa de reclamações da direção. — Levi deu de ombros. — Uma hora você, se acostuma.

Ah... Só por isso? — O tom de Erwin mudou completamente.

Levi, instintivamente, recuou um passo, o que surpreendeu Erwin. Levi nunca recua. Para disfarçar o movimento, Levi terminou de andar para trás e encostou-se à parede, cruzando os braços.

— Não me lembro de mais nada em particular — Levi encarava Erwin com um olhar felino, como se dissesse para que não se aproximasse.

Erwin não era idiota; percebeu que Levi não estava nem um pouco a fim de brincadeiras, então partiu logo para o que interessava.

— Chamei você aqui para te dar as informações de seu novo caso.

— Mesmo sabendo que nós ainda estamos trabalhando com o caso do depósito?

— Bem, e o que espera que eu diga aos superiores?

Levi permaneceu calado.

— Já que entende a situação na qual se encontra, trate de trabalhar dobrado — instruiu Erwin, entregando um envelope branco para Levi. — Aí estão todas as informações que precisa saber.

Levi estalou a língua e foi até Erwin pegar o pacote estendido. Decidiu por abri-lo ali mesmo.

Mas que...? — balbuciou Levi.

Quando levantou a vista para Erwin, ele estava sorrindo presunçosamente, o que deixou Levi ainda mais mal-humorado. O “novo” caso para a Equipe de Casos Especiais era a apreensão de Kitts Woerman, suspeito de vender drogas em nome da Yakuza. Levi apenas arqueou as sobrancelhas.

— Sério isso?

— Não podia ser mais sério — respondeu Erwin, ainda sorrindo.

Tsc, você não consegue ser mais desnecessário do que já é...

— Deveria estar me agradecendo por ter conseguido aliar o seu caso atual com um suposto caso novo! — disse Erwin, enquanto ria. — Mas esse seu jeito ranzinza também é um charme.

Erwin — Levi o repreendeu.

— Levi, não precisa ser tão tenso — Erwin falava com a voz morna. — Não é como se alguém fosse nos escutar.

— Meu problema não é com alguém escutando nossa conversa — Levi não tinha amansado nem um pouco, o que pegou Erwin de surpresa. — Meu problema é com você tendo a impressão errada da situação.

Erwin ficou sem reação. Olhava para Levi como que tinha visto uma assombração. Levi apenas suspirou e apertou a ponte do nariz.

— Erwin, eu te admiro muito... — começou a se explicar, mas foi cortado pelo chefe.

— Lembre-se de constar as atividades já feitas pela sua equipe para encontrar Kitts, tomando o cuidado de apenas trocar as datas e os horários — Erwin tinha voltado completamente à postura de superior, ignorando-o e assinando os papéis em sua mesa.

Levi não sabia se aquilo era bom ou ruim, mas decidiu que era a melhor opção. Isso me poupa de dar uma desculpa desnecessária, concluiu.

— Eu o farei.

Sem cumprimento algum, Levi se virou e partiu, sem perceber que a todo o momento Erwin o acompanhou com os olhos.

O resto das aulas passou arrastando-se em cada segundo para Eren. Perguntava-se o que tinha feito de ruim para que tudo na sua vida estivesse dando errado daquele jeito, de uma vez só. Talvez seja uma punição divina por ter transado com um homem, concluiu o garoto.

Ao se lembrar de Levi, sentiu um forte aperto no peito. Até conversar com Marco, não tinha parado para pensar em como Levi se sentia em relação a ele, só pensava em como poderia tomá-lo por completo. Eren se sentiu mal pelo pensamento egoísta, e começou a reconsiderar se faria o que a mulher bêbada tinha lhe dito ou não. Pode ser uma armadilha dela também, considerou. Afinal de contas, que motivos ela tem para querer me ajudar...?

Não dava; pensar naquilo estava o enlouquecendo. Não conseguiu prestar atenção em nada do que foi dado hoje no colégio: podia-se considerar um dia perdido. Não demorou muito para que Armin aparecesse arrastando Jean assim que o sinal do intervalo do almoço tocou. Eren estava num nível de aborrecimento que, mesmo não querendo escutar mais nada, não conseguiu juntar forças para levantar da cadeira.

— Eren, só me escuta... Ok? — Armin pediu, medindo as palavras para que não aborrecesse o amigo de maneira alguma.

Hm... — grunhiu Eren, deitando o tronco com cima de sua mesa.

Armin olhou para Jean, que ainda fazia uma careta de desgosto, e suspirou profundamente.

— Foi um acidente termos ouvido sua conversa com Marco — Armin falou tudo de uma vez, quase atropelando uma palavra na outra. Eren apenas arqueou uma sobrancelha. — Você saiu antes que Jean terminasse de abrir o bilhete, então nós não pudemos te contar... Reconhecemos a letra de Marco assim que vimos, e... Bem, tem que admitir que Marco te chamando daquela formai para o ginásio... Era meio estranho.

— Vocês não tinham nada com isso — murmurou Eren.

— Eu sei! Mas... — Armin tentava achar as palavras para poder explicar. — Jean achou que vocês pudessem ter uma briga...

— Isso é ridículo, Marco é uma das pessoas mais pacíficas do grupo — Eren retrucou, fazendo Armin passar uma mão pelos cabelos loiros.

— É, só que aquele bastardo estava agindo estranho e...

Ah, por que será? — Eren o interrompeu fazendo uma pergunta retórica.

Os olhos dos dois faiscavam de irritação.

— Eu não sabia dos sentimentos de Marco! — exclamou Jean, mas repensou nas suas palavras logo em seguida. — Eu não tinha certeza...

— Nossa, bem melhor agora... — murmurou Eren, sarcástico.

— Ei, vocês dois — Armin interrompeu antes que ficasse mais sério de novo. — Foco no que interessa.

Eren e Jean voltaram a evitar contato visual.

— Eren, o que importa é que nós não pretendíamos escutar aquela conversa... Muito menos sabíamos que Marco gos...

Nem fala isso alto — murmurou Jean, ainda olhando para outro lado.

Eren se preparou para dar uma respostada, mas Armin foi mais rápido e se agachou na sua frente, deixando os rostos dos dois no mesmo nível.

— Eren, por favor, acredite em mim — pediu Armin, com olhos suplicantes. — Nós nunca iríamos querer magoar Marco dessa forma...

Eren apenas olhou para Jean, e aquilo bastou para que Armin entendesse.

— Nem mesmo Jean — confirmou Armin. Jean tornou a olhá-los quando escutou seu nome. Ele está apenas surpreso por descobrir que seu melhor amigo... quer ser mais que isso, e tem medo de perder até mesmo sua amizade.

Eren olhou para Jean, tentando decifrar sua reação e confirmar as palavras de Armin, e o viu desviar o olhar para baixo, mas sem esconder o rosto. Foi então que Eren compreendeu como Jean se sentia. Deu um suspiro e encostou-se às costas da cadeira de novo, cruzando os braços.

— Eu entendo seu lado, Cara de Cavalo... — Escutar seu apelido foi um choque para Jean. —... Mas o que está fazendo também é sacanagem com Marco.

Jean passou uma mão pelos cabelos e puxou uma cadeira para se sentar.

— Sei disso... — admitiu com um suspiro. — Eu só... Eu não sei...

— Se você ouviu a conversa, sabe que Marco só precisa ouvir uma resposta sua. — Eren olhou Jean com expectativa, fazendo com que Jean se sentisse mais pressionado ainda. — Se a sua resposta for não, ele estará disposto a abrir mão de...

É esse o problema...! — murmurou Jean, com as duas mãos cobrindo a cabeça. — O quanto ele estará disposto a abrir mão?

— Hã? — Eren achava aquela desculpa bem vagabunda. — Acha que Marco vai continuar dando em cima de você...?

— Claro que não, idiota — Jean olhou diretamente nos olhos de Eren. Só aí percebeu o quão tenso Jean estava. — Eu acho que ele irá abrir mão de tudo.

— Acha que ele nunca mais irá falar com você? — Armin tentou esclarecer. Jean não respondeu, apenas abaixou a cabeça. — Jean, se vocês realmente são tão amigos...

— Armin, você não sabe o quão doloroso é levar um fora de um amigo — murmurou Jean, balançando a cabeça. Armin pensou em retrucar alguma coisa, mas se calou. — Só de levar os foras de Mikasa eu já me sinto péssimo...

— Caralho, você realmente está a fim de Mikasa?! — Aquilo tinha sido a descoberta do século para Eren.

— Cara, você é muito retardado... — Jean balançou a cabeça.

— Por que nunca me falou?! — indagou Eren, indignado. —Eu poderia...

— Você não poderia nada — protestou Jean. — Mikasa é louca por você.

— Por que todo mundo confunde as coisas? Eu e Mikasa só somos amigos de infância, não tem nada de mais.

— Isso é o que você pensa...

— Ok, estamos desviando um pouco do objetivo — Armin se apressou para dizer. — Jean, você precisa dar uma resposta a Marco.

Mas...

— Sem mais, sem menos — Armin o repreendeu.

Jean deu mais um longo suspiro e se levantou da cadeira.

— Eu vou falar com ele... — disse olhando pela janela. —... Depois. — E sentou-se de novo.

— Jean! — protestou Armin.

— Larga de ser covarde — retrucou Eren.

— Não é covardia, é estratégia...! — Jean se justificou. — Foram... Muitas surpresas pra um dia só... Deixe-me terminar de absorver tudo.

Eren e Armin compreenderam que Jean precisava de um momento, então se calaram em respeito. Jean respirou fundo e se decidiu: falaria com ele depois do treino de baseball, já que, depois disso, não o veria mais naquele dia. Até lá, enrolaria o quando podia.

— E então, Eren... — Jean já tinha voltado ao normal, e tinha um sorriso de escárnio estampado em seu rosto. — Quer dizer que a sua bunda foi mesmo domada?

Eu vou quebrar a sua cara! — ameaçou Eren, passando um braço pelo pescoço do amigo, fingindo que ia enforcá-lo, enquanto Jean caía na risada.

Desta vez, Armin sorriu ao invés de separá-los. Sabia que aquela era a forma deles dois de se darem bem, e deixou a “agressão” continuar enquanto ria dos dois.

Levi dava passos rápidos e firmes, como se fosse atirar na primeira pessoa que cruzasse seu caminho. Claro que Levi não faria isso, mas os outros agentes preferiram não arriscar e abriram caminho para ele... Exceto uma certa quatro-olhos.

— Raviolle! — Hanji o cumprimentou assim que o viu. — Parece meio irritado, aconteceu alguma coisa?

—Nada que seja da sua conta — retrucou Levi, puxando-a pelo braço para um canto mais afastado da cafeteria da agência para sussurrar para ela: — Você colocou alguma ideia errada na cabeça de Erwin?

—Hã? Claro que não! — exclamou Hanji, surpresa. — Eu super aceitei a ideia de você saindo com aqu...

Hanji teve sua boca tapada por Levi antes que ela falasse mais alguma besteira em voz alta. Só de ouvirem “Levi” e “saindo” na mesma frase, os outros agentes discretamente olharam para os dois, querendo escutar mais.

Fala baixo, sua estúpida! — praguejou Levi. só então se lembrou que Hanji não havia escovado os dentes, e recolheu a mão no mesmo segundo, procurando um lugar para limpá-la.

— Hm, agora que você falou... — Hanji coçou o queixo. — Acho que falei algo como vocês dois formarem um casal muito bom para ele... Mas já faz uns dias. — Deu de ombros.

— Tsc... Esse bastardo...

— Aconteceu alguma coisa?

— Acho que ele está querendo voltar.

Hanji se limitou a conter um sorriso zombeteiro, fazendo uma careta terrível. Levi primeiro recuou o tronco, como se ela tivesse uma doença contagiante, depois entendeu que ela estava se segurando para não soltar alguma besteira.

— O que foi?

Eu te diseee...! — Ela cantarolou. Levi apenas revirou os olhos. — Disse que ele ainda estava a fim de você!

— Nunca gosto quando você está certa, mas dessa vez eu consegui gostar menos. — Levi deu um longo suspiro. — Agora, além de ter que lidar com esse caso ridículo, vou ter que me preocupar com a droga do Erwin e... —Outro suspiro. — Eu queria ver o garoto...

Hanji se segurava para não sair por ai pulando e dando gritinhos. Levi realmente estava interessado naquele garoto, quem quer que seja ele.

— Sabe, eu acho uma pena... — Hanji começou a falar, mas foi interrompida.

— Provavelmente, eu não poderei ir amanhã.

— O-o quê?

— Se as coisas acontecerem da forma como eu acho que vão, será impossível sair para beber — explicou Levi, com uma cara e exausto.

— Bem... Como é trabalho, eu não posso reclamar — Hanji deu de ombros. — Mas tenta relaxar bem hoje, certo? Vai mais cedo pra casa, dá uma descansadinha...

Levi franziu as sobrancelhas.

— E pra que tudo isso?

— A-ah... Sabe o que é?... — Hanji passou a mão pela franja, empurrando-a para trás. — Eu acho que você está muito cansado, tem se esforçado demais nos últimos dias.

Sei... — Levi a olhou de cima a baixo, achando aquela atitude muito suspeita. — Bem, não importa, eu tenho que terminar de ver as informações do caso.

Sem nenhum cumprimento — como sempre —, Levi saiu da cafeteria e foi para sua sala, conversar com o resto da equipe. Hanji soltou a respiração que esteve prendendo por todo esse tempo, e depois deu um sorriso de orelha a orelha, digno do Gato Risonho.

— Será uma pena se você não sair amanhã, Levi... — Hanji falava sozinha, assustando os agentes que estavam em volta. — Mas o mais importante é que, hoje, você fique em casa...!

Depois que Jean e Eren se acertaram, o clima no grupo melhorou. Óbvio que Marco continuou ignorando Jean, mas não é como se Jean insistisse em ficar perto dele também. Bertolt percebeu, mesmo que estivesse um pouco mais afastado, que havia algo de estranho com Marco... E guardou aquela informação preciosa para mais tarde.

As aulas da tarde, diferente das da manhã, passaram voando. Armin percebeu que, à medida que ia ficando mais tarde, Eren ficava mais ansioso. Pensou em perguntar, mas chegou à conclusão de que devia ser nervosismo por voltar para casa e acabar brigando com sua mãe de novo.

Quando chegou a hora do treino, todos os garotos estavam se preparando psicologicamente para uma sequência de exercícios torturantes de Annie. Mas, para a surpresa de todos, ela tinha pegado muito mais leve naquele dia. Claro, ainda era um treino puxado, mas era na medida certa para não matar os garotos.

Mas, de todos, o que estava ficando mais para trás era Marco — o que era incomum, pois esse era o posto de Armin. Ainda estava tão abalado com tudo que aconteceu que não conseguia se concentrar em nada. Na verdade, sentia que poderia perder a cabeça só de olhar para Jean. Como Eren era um dos que mais tinham que treinar, já que ia ser o trunfo do time, Marco optou por não atrapalhá-lo, ficando um pouco mais afastado do grupo.

Quando estava indo para o bebedouro, deixou a garrafa de água cair no caminho. Antes que pudesse pensar em se abaixar, Bertolt já tinha se abaixado e pego a garrafa, a estendendo para Marco com um sorriso amigável.

— Acho que deixou cair.

— A-ah, obrigado... — Marco sorriu de volta e pegou a garrafa.

— Tenho notado que está meio afastado do grupo... — Comentou Bertolt, como quem não quer nada. Marco arqueou as sobrancelhas, surpreso por ter sido notado. — Está tudo bem com você?

— A-aham, está sim — Marco apressou-se em dizer. — Eu só... Tive uma discussão com Jean...

— Ah, entendo. — Bertolt assentiu com a cabeça. — Bem, se precisar de alguém para conversar...

— Não se preocupe, Eren já está me ajudando muito — Marco sorriu.

Ao escutar o nome de Eren, Bertolt teve vontade de fechar a cara por instinto, mas forçou-se a dar mais um sorriso amigável em resposta.

Claro que ele está.

Marco percebeu um pouco de ironia nas palavras de Bertolt, mas decidiu não falar nada.

— Então, eu preciso ir aqui... Treinar — Bertolt disse já indo para a quadra. — Mas já sabe, se precisar de alguma coisa...!

— Certo, obrigado! — respondeu Marco, se perguntando por que tanto ele quanto Reiner se afastaram do resto do grupo...

Enquanto isso, Eren treinava uma série de rebatimentos junto com Jean, que lançava as bolas. Annie estava ao seu lado, dando certa distância somente para não ser acertada. Os três foram interrompidos quando Connie se aproximou, segurando um taco.

— Ei, Annie! — Connie chamou. — Já podemos treinar o rebatimento também.

Annie olhou para o taco na mão de Connie, depois para o garoto, e se limitou a rir por dentro.

— Mas você não irá rebater — ela o informou, com a voz fria.

Connie arregalou os olhos, assim que conseguiu digerir aquela informação. Sentiu como se algo estivesse se quebrando dentro de si. Eren percebeu o estado do amigo, e logo correu para protestar.

— Mas Connie é um dos mais rápidos! — Eren gesticulava fervorosamente. — Se ele treinara a mira nas rebatidas...

— Não é só mira, Eren — Annie o cortou, impaciente. — Connie teria que melhorar a postura, a técnica, e também a força bruta. — Annie olhou Connie de cima a baixo e depois balançou a cabeça. — Com o físico atual, pode ter tudo o que eu disse antes, mas nunca vai mandar a bola além do Jardim.

— E você não pode treiná-lo?!

— Essa preparação deveria ser feita muito antes do Torneio — explicou Annie. — Eu não faço mágica.

— Mas...!

— Tudo bem, Eren — Connie pôs uma mão no ombro do amigo. — Eu já entendi... — Vou ficar no banco o jogo inteiro.

— Embora Eren esteja certo a respeito de uma coisa... — Annie se aproximou de Connie e o olhou bem nos olhos. — Você é rápido.

Tanto Connie quanto Eren a olharam confusos, pois aquilo não fazia sentido algum.

— Eu não deixaria esse fator passar, Connie. Estou pensando em colocar você como um dos Campistas.

Connie piscou algumas vezes, tentando acreditar naquilo. Logo em seguida, abriu um sorriso, com os olhos brilhantes.

— É sério?! Sério mesmo?! — exclamava Connie. Annie deu um sorriso singelo, e assentiu com a cabeça. — Isso! — gritou enquanto dava um soco no ar, em comemoração.

Eren segurou na cabeça de Connie e o balançou enquanto sorria junto com o amigo.

— Eu te disse que você tinha potencial!

Connie tirou a mão de Eren de sua cabeça e o olhou nos olhos, realmente agradecido.

— Valeu mesmo, Eren... E desculpa por... — Connie olhou para a ferida quase curada na boca do amigo, e para alguns hematomas em seus braços que apareciam devido à roupa sem mangas de educação física.

— Não esquenta, Connie. — Eren levantou seu antebraço e, com a outra mão, apontou para um hematoma que estava visível. — Eles precisam de muito mais do que só isso pra me derrubarem.

— Mas eles te derrubaram, Eren.

Você entendeu — disse, de forma ameaçadora, o que tirou mais uma série de risos de Connie. Eren não pôde evitar sorrir também.

— Acho ótimo que esteja satisfeito com a notícia, Connie — Annie interrompeu o momento. — Mas, se quiser mesmo o posto de Campista, saiba que você vai ter que ir a todos os treinos extras, sem exceção.

— Pode deixar! — disse Connie, sem nunca perder o sorriso de satisfação.

— E quanto a você, Jäeger... Eu não acabei com você ainda.

Eren revirou os olhos e a seguiu de volta para a Base 1.

O treino seguiu com um clima agradável — parte disso foi por causa de Connie, gabando-se que iria jogar com uma posição oficial. Somente quando todos se reuniram no vestiário, preparando-se para ir embora, foi que Jean tomou coragem para puxar Marco para um canto e acertar as coisas.

— Ei, Jean...! — Marco protestava. — Solte-me!

Jean o largou assim que chegou no canto mais afastado do vestiário, onde sabia que ninguém os escutaria se falassem baixo.

— Marco, a gente precisa conversar...

— Não tenho nada para falar com você — retrucou Marco, virando-se para ir até suas coisas e ir embora. Não sabia por quanto mais tempo iria suportar aquele aperto doloroso no peito.

Jean o pegou pelo braço de novo e o puxou, desta vez prensando-o contra o armário azul e segurando-o firme, para que não saísse. Marco primeiro se debateu, mas logo desistiu de resistir — Jean estava muito próximo dele, e isso estava o fazendo perder a cabeça. Quando finalmente levantou a cabeça para olhar para Jean, ele o encarava fixamente, com o rosto num misto de culpa e preocupação. Marco estava derrotado.

— Sim, Marco... — Jean falava baixinho, para não chamar mais atenção do que já tinha feito. —... Nós precisamos conversar.

— Jean e Marco estão conversando... — comentou Armin para Eren, do outro lado do vestiário. — Espero que dê tudo certo.

— Não se preocupe — Eren deu de ombros. — Marco é bem compreensivo, acho que ele vai entender perfeitamente bem o que o Cara de Cavalo que dizer.

— Sei disso, mas até mesmo a pessoa mais compreensiva tem seus limites.

— Hã?

Armin revirou os olhos.

— Estou dizendo que, talvez, Marco não seja capaz de relevar se Jean falar alguma besteira.

— Hm, pode ser... —murmurou Eren, sem prestar muita atenção.

— Eren? —Armin o chamou, aproximando-se para olhar bem para o amigo.

— O que foi?

— Você está bem? Esteve distraído e mal-humorado o dia todo.

Eren deu um sorriso discreto, balançando a cabeça.

— Pensei ter te contado a lista de coisas ruins que aconteceram...

— Bem... Eu só me lembro de ter escutado sobre seus pais hoje de manhã — disse Armin, confuso. — Aconteceu mais alguma coisa?

Eren respirou fundo. Terminou de guardar suas coisas na mochila e a pôs no ombro.

— Não, nada importante. — Eren ia dizendo enquanto ia para a saída do vestiário. — Só tenho um encontro com uma mulher bêbada hoje.

O quê? — Armin exclamou, deixando alguma de suas coisas caírem no banco.

— A gente se fala amanha, Armin! — despediu-se Eren, sem nem virar para trás, acenando de costas mesmo.

Armin estava com um mau pressentimento.

Quando Eren chegou em casa, o céu estava no crepúsculo: o vermelho-alaranjado dos últimos raios solares eram, aos poucos, engolidos pelo azul escuro da noite. Não era nem tão claro, nem tão escuro, mas mesmo assim era comum que sua mãe já ascendesse as luzes da casa, pois sempre se incomodava com aquela falsa claridade de início de noite. Desta vez, a casa estava toda apagada.

À medida que ia entrando, Eren acendia todos os interruptores em seu caminho, clareando a casa aos poucos. Não encontrou a mãe em lugar algum. Viu que a porta do quarto dos pais estava fechada, então concluiu que era melhor não invadir o espaço pessoal da mãe.

Exausto, jogou a mochila em qualquer canto do quarto e foi direto para o chuveiro, tomando um banho frio para tirar o cansaço de vez. Antes de sair do banheiro, deu uma escovada de dentes bem meia boca e foi trocar-se. Como não estava nem um pouco a fim de sair de casa e planejava ser breve, Eren simplesmente colocou uma camisa verde-escuro velha, um casaco moletom cinza e a calça jeans mais folgada e confortável que tinha — que, por sinal, estava rasgada devido ao uso em lugares diferentes. É, Eren estava impecável... se comparado a mendigos.

Com o cabelo ainda úmido, colocou o celular, a carteira e a chave de casa no bolso e desceu as escadas. Quando chegou perto da saída, viu sua mãe sair da cozinha, com um copo de água na mão. Ela o olhou de cima a baixo, mas não disse nada. Eren suspirou e começou a pensar em alguma coisa que fosse importante o suficiente para fazê-la deixar que saísse de casa mesmo de castigo.

— Mãe, eu posso...

— ela respondeu, num fio de voz.

Eren não esperava uma permissão tão fácil.

— Sério.

— Claro... — ela falava sem emoção nenhuma.

— Hm, valeu então... — Eren não sabia nem como reagir. Apenas viu sua mãe passar por ele e subir as escadas.

—... Você nunca me obedece mesmo.

Eren arregalou os olhos, ficando sem reação. Apenas viu sua mãe subir as escadas e voltar a se trancar em seu quarto. Deu um longo suspiro e levantou o capuz do casaco e saiu para a rua.

Assim que acabasse de resolver as coisas com aquela mulher, iria terminar tudo com Levi e ficaria com sua mãe. Somente a ideia de não ver Levi já o fazia perder o fôlego, mas não tinha outro jeito. Sua mãe estava passando um período bem difícil com seu pai, e ele não podia continuar mentindo para poder ir ver um cara que sequer pretendia ter um relacionamento sério.

Eu não quero ser como meu pai, que mente sempre que quer sair de casa, declarou Eren para si mesmo. Não era nenhum segredo que Grisha estava apenas enrolando Carla quando dizia que estava viajando a trabalho. Afinal de contas, que tipo de médico viajava para ficar fora por semanas, e numa frequência absurda? Não, Eren sabia muito bem que tipo de “trabalho” seu pai estava fazendo. Sentia como se houvesse pedras em seu coração.

Pegando a Linha 3 do metrô, deixou que sua mente vagasse enquanto o trem se dirigia ao outro lado da cidade, pensando nas possíveis formas de falar para Levi que ele não queria mais nada. Afinal de contas, somos dois homens, pensou Eren. Não é meio que errado nós ficarmos juntos...?

Seus pensamentos foram interrompidos quando uma voz no alto-falante anunciou a chegada da estação que Eren iria descer. Mentalmente, agradeceu a sorte de a mulher ter marcado justamente na estação de metrô mais próxima da casa de Levi. Eren ficou parado na porta da estação, procurando por alguma mulher que aparentasse estar o esperando. Instintivamente, seus olhos procuraram pela mulher mais bonita que estivesse ali, acreditando ser esse o tipo de mulher que Levi sairia.

— Por acaso, seu nome é Jäeger? — perguntou uma voz atrás de Eren, bem ao lado de sua orelha direita.

Eren deu um pulo e se virou, tomando um baita de um susto. Quando foi analisar o estranho que tinha sussurrado em seu ouvido, percebeu que era uma mulher por volta de 30 anos ou menos, com o cabelo bagunçado preso por um prendedor. Ela usava óculos de armação cinza-escura, e vestia um blazer marrom com uma camisa branca de botões e calça jeans clara justa. Ela só trazia consigo uma pasta preta pendurada em seu ombro por uma alça opcional, sem nenhuma outra bolsa, e sequer usava maquiagem. Ela não era incrivelmente bonita ou feminina, o que surpreendeu Eren.

— Na verdade, meu nome é Eren — explicou, ainda a analisando de cima a baixo. — Eren Jäeger.

— Oh, Eren... — Hanji o olhava com um sorriso de raposa no rosto. — É mais bonito do que eu esperava.

Eren arregalou os olhos e corou. Hanji riu da reação do garoto e foi até ele, passando um braço pelo seu ombro.

— Vamos nos dar bem a partir de agora, Eren! — exclamou, energética, e foi arrastando Eren pela rua.

— E-espera...! — Eren não estava entendendo o desenrolar das coisas, mas não conseguiu fazer a mulher parar. — Para onde estamos indo?

— Não importa, só vamos andar um pouco — disse a mulher, ainda o arrastando rua abaixo.

— Mas... — Eren ainda tinha as bochechas coradas. — Eu não sei seu nome, e não sei para onde voc...

— Oh, que rudeza, a minha! — Exclamou a mulher. Ela o soltou e ficou parada em sua frente, estendendo uma mão para ele. — Sou Hanji Zoë, é um prazer te conhecer.

Eren, ainda que hesitante, aceitou o aperto de mão, e Hanji sorriu para ele de orelha a orelha.

— Eren, pode me dar um instantinho?

— Claro... — Eren deu de ombros.

Hanji tirou da pasta preta seu telefone e nem se deu ao trabalho de andar para longe para que Eren não escutasse a conversa. Ela digitou um número com notória habilidade — deve ser um número muito discado por ela — e pôs o telefone na orelha. Não demorou muito para que a pessoa do outro lado atendesse.

Leviii! — Hanji, por algum motivo, imitava a voz de quando estava bêbada. Assim que escutou o nome de Levi, Eren enrijeceu. — Já que você não vai sair com a gente amanhã, por que não me encontra no bar da sua rua agora de noite?

De novo? — Eren pôde escutar a voz de Levi, mesmo que abafada e um pouco distante. — Você é o quê, uma alcóolatra?

— Não diga uma coisa dessas, que rude... Venha me encontrar logo!

Eu dispenso — resmungou Levi. Por algum motivo, Eren ficou muito satisfeito com aquilo. — Se está com sede, vá beber água. E vê se não me incomoda mais, estou com uma dor de cabeça terrível...

— Mas, Levi...

E então ele desligou. Eren estava se segurando para não dar um sorriso presunçoso.

— Bem, as coisas estão indo como o esperado — Hanji sorriu, mais animada do que antes. Aquilo não fazia sentido algum para Eren.

— Mas ele se recusou...!

— E eu já esperava por isso. — Hanji piscou para o garoto. — Conheço Levi por tempo o suficiente para saber como ele vai agir.

Eren não gostou nada daquilo. Sim, sabia que estava indo para a casa dele depois para terminar com ele, mas não queria ter esse sentimento de derrota que estava sentindo.

— Falando sobre Levi... — começou Hanji, enquanto se virava para seguir andando na rua. Mesmo a contragosto, Eren a seguiu. —... Como foi que vocês se conheceram?

— Por que não perguntou isso a ele? — Já que você se conhecem a tanto tempo e blá blá blá, retrucou Eren mentalmente.

— Porque ele é péssimo contando histórias — Hanji mentiu. Sabia que Levi nunca a contaria, e que se dissesse isso ao garoto, muito provavelmente ele também não abriria o bico.

Eren olhou enfezado para o chão, mas sem nunca parar de andar. Hanji percebeu que ele não estava com um humor muito bom, mas preferiu não perguntar nada... ainda.

— Nós nos esbarramos. — Eren deu de ombros.

— Sim, mas como vocês se esbarr...

— Não, nós literalmente nos esbarramos. — Eren colocou a mão nos bolsos. — Eu estava correndo pela rua por casa de... uma emergência... — Ela não precisa saber que foi por causa de uma briga, pensou. —... E aí eu acabei derrubando ele no chão, e ele sujou as mangas da camisa numa poça de água.

Eren foi interrompido por uma gargalhada contagiante de Hanji, que colocava uma das mãos por dentro dos óculos para cobrir os olhos que lacrimejavam.

Levi numa poça de água! — era tudo o que ela dizia.

— ... Por que isso é tão engraçado?

— Não sei se já notou... — disse Hanji, tentando recuperar o fôlego. — Mas Levi tem uma neura com limpeza que é quase insuportável!

— Ah sim, deu pra notar — Eren revirou os olhos. — Percebi quando fui na casa dele...

— Bem arrumadinha, né?

— Na verdade, não foi nem por isso... Ele me fez limpar a sala dele toda. — Eren deu de ombros.

Hanji olhou para Eren sem acreditar, depois começou a rir de novo.

Esse Levi...! — Ela suspirou, tentando parar de rir. — Sério que ele fez isso com você.

— Desde o chão até as janelas — disse enquanto assentia com a cabeça.

— E você ainda assim saiu com um cara desses...?

Eren foi pego de surpresa. Pela primeira vez, percebeu o quão absurdas foram as condições do encontro dele com Levi, e tentava descobrir no que diabos estava pensando quando quis sair com ele.

— Eu devo ser um idiota, não é...? — murmurou Eren, cabisbaixo.

Hanji deu um sorriso terno para o garoto, mesmo que ele não estivesse vendo. Gentilmente, pôs a mão nas costas de Eren e o afagou com delicadeza.

— Na verdade, eu acho que você foi incrível.

Eren levantou o olhar para Hanji, surpreso, com os olhos esperançosos. Hanji não pôde deixar de sorrir para ele. Acho que entendo o que Levi viu em você...

Agora que Eren tinha tirado os olhos do chão, percebeu que Hanji o conduziu até o beco largo onde ficava o prédio de Levi. Eren olhou confuso primeiro para o prédio, depois para Hanji, que sorria com o indicador na frente dos lábios pedindo silêncio, enquanto punha o telefone na orelha de noto.

Fase dois! — sussurrou Hanji.

Que merda, Hanji, eu falei pra você não ligar... — praguejou Levi, assim que atendeu.

— Aaah, mas eu tive que fazer isso...! — Hanji imitava a voz de bêbada de novo. — Eu encontrei um garoto muuuito bonitinho aqui, e pensei que você fosse gostar dele também.

Eren pegou-se rezando para que Levi recusasse.

Pare de falar merda e vá pra casa — mandou. — Eu tenho mais o que fazer.

Eren soltou o ar que nem sabia que estava segurando.

— Sério que não vai nem pensar na minha proposta? — Hanji olhou para Eren e deu um sorriso malicioso. — Mas ele tem até olhos verdes! Se não me engano, ele disse que o nome dele era algo como Eren... Eren Jäeger...

A ligação foi encerrada no mesmo segundo.

Eren olhou boquiaberto para Hanji, que sorria feliz da vida.

O que foi que você fez...? — balbuciou Eren. — Ele vai ficar uma fera quando...!

— Não se preocupe. — Hanji balançou a mão para Eren. — Eu também estou armada.

Eren arregalou os olhos mais ainda e deu um pulo para trás

O quê?!

— Não precisava ficar tão surpreso! — Hanji sorria amavelmente. — Além do mais, não é como se nós fossemos começar um tiroteio ou coisa do tipo. — Ela deu de ombros.

Eren não sabia se ela estava brincando ou não, mas preferiu por considerar aquilo uma brincadeira. Como um ruído bem baixo, ambos puderam escutar um burburinho de pessoas reclamando de alguma coisa, e o sorriso de Hanji cresceu mais ainda.

— Nossa, eu acho que esse é um novo recorde — comentou Hanji.

Tudo dentro da barriga de Eren se revirou. Não demorou muito para que Levi aparecesse na portaria, trajando apenas uma camisa branca e a calça cinza de moletom. Levi correu até eles e só diminuiu o ritmo quando ficou a dos braços de distância de Eren.

Levi estava com o cabelo todo bagunçado, e arfava um pouco por causa da súbita corrida — com o tempo que levou para chegar lá embaixo, devia ter pegado as escadas também. E então, seus olhos acinzentados, turvos, encontraram o esmeralda de Eren. Instantaneamente, Eren ficou tão ofegante quanto ele, deixando a boca entreaberta para poder respirar melhor.

Naquele momento, seu coração bateu mais forte.