Vazio

31 Confiança


Tinha acabado de bater o sinal indicando o intervalo do almoço. Armin, Jean, Marco, Annie e as meninas se juntaram para falar do pequeno incidente com Vanns-sensei, mas não havia o que falar... Havia apenas um mal pressentimento coletivo.

— Isso vai acabar mal — comentou Armin, mordendo a unha do polegar direito.

— Não acredito que os três foram suspensos por aquilo... — murmurou Jean, sentindo-se culpado.

— De quem foi essa ideia estúpida? — perguntou Annie, ríspida como sempre.

— Aposto que foi Jean — declarou Ymir, revirando os olhos.

— Eu não disse “jogue o pão para o Jäeger” — defendeu-se Jean —, só disse para Connie e Sasha darem um susto nele quando forem entregar o pão.

— Parabéns, conseguiram dar um susto tanto nele quanto no Vanns-sensei — retrucou Ymir.

— Ymir... — Crista puxou a manga da camisa da amiga. — Não adianta ficar assim, não vai ajudar em nada.

— Mas graças a essa porcaria de ideia, Sasha corre o risco de ficar fora do Torneio de handball — reclamou Ymir.

— Puta que pariu, Connie e Eren também... — murmurou Annie, apertando a ponte do nariz.

— Se eu estivesse lá na hora, com certeza... — começou Mikasa, mas foi interrompida por Ymir.

— Faria o quê? Pularia na frente de Eren e o protegeria como sempre? — retrucou Ymir, ainda estressada.

— Na verdade, é exatamente isso — Mikasa retrucou de volta.

— Ei, vocês duas... — Marco percebeu a tensão entre Mikasa e Ymir, e tentou suavizar um pouco o clima. — Vocês estão de cabeça quente, é melhor...

— Você fica aí, filhotinho — disse Ymir.

Marco arregalou os olhos e deu um passo para trás. Pelo visto, Ymir estava estressada com outras coisas também, e estava descontando tudo agora. Aquela reação explosiva dela não foi muita surpresa para Marco, mas o puxão que Jean deu para tomar a sua frente foi.

— TPM não é desculpa para dar coices de graça, Ymir — rosnou Jean.

— Olha só quem está falando de coices! — zombou Ymir.

— Ymir, já chega! — gritou Crista, para surpresa de todos. — Sério, o que deu em você hoje?

Ymir pensou em responder, mas preferiu calar-se. Só então percebeu a besteira que estava fazendo, e não queria decepcionar Crista de forma alguma.

— Reclamar uns com os outros não vai ajudar de nada — Armin quebrou o silêncio. — Precisamos pensar numa forma de convencer Shadis-sensei a permitir que Eren, Connie e Sasha participem do tornei, mesmo com essas faltas.

— Então a suspensão daqueles dois cabeças-de-vento é verdade... — comentou Reiner, se aproximando do grupo.

Todos ficaram bastante chocados em ver Reiner, que andava afastado, falando com o grupo novamente.

— Fala como se se importasse — murmurou Jean, cruzando os braços.

— E eu me importo — declarou Reiner. — Afinal de contas, eles são meus amigos, e meus companheiros de time.

— Você diz isso agora — Armin falava com suspeita —, mas anda tratando Eren como um ninguém.

— Isso era coisa de Bertolt — resmungou Reiner, parecendo ressentido. — Ele andou fazendo minha cabeça esses dias com os problemas dele... Mas pra mim já deu. Sinto muito por ter agido daquela forma.

— Onde está Bert? — Annie perguntou, deixando escapar um pouco de preocupação no seu tom de voz.

— Sei lá, nós não nos falamos desde ontem — Reiner deu de ombros.

Annie suspirou profundamente e saiu correndo corredor afora.

— Espero que vocês não guardem ressentimento... e essas coisas — murmurou Reiner, um pouco envergonhado.

— Não se preocupe, a gente entende — Armin o confortou.

— Parcialmente — resmungou Mikasa, de braços cruzados.

Reiner sabia que Mikasa seria a mais difícil de convencer, então já esperava por essa recepção fria.

— Eu sei que... — Reiner começou a justificar-se, mas foi cortado por Mikasa.

— Deixe para resolver isso depois, temos um problema maior agora.

— Verdade — Marco pronunciou-se, saindo de trás de Jean —, convencer Shadis-sensei não vai ser a coisa mais fácil do mundo...

— Eu discordo — disse Reiner, confiante.

— E o que pretende fazer? — disse Ymir, cruzando os braços. — Ameaçá-lo com seu par de músculos?

— Na verdade, pensei em intimidá-lo com o cérebro — respondeu Reiner, com um sorriso triunfante.

— Não entendi — disse Crista, colocando o cabelo atrás da orelha. — O que está pensando em fazer?

Reiner não conseguiu controlar o rubor em suas bochechas. Crista, desde que Reiner a viu pela primeira vez, tinha sido o sonho dele. Bastava que ela o olhasse que seu coração batia mais forte. E Ymir estava perfeitamente ciente disso; assim que notou a troca de olhares dos dois, fez questão de marcar sua presença ao lado da garota e fuzilá-lo com o olhar... Mas ele estava ocupado olhando para outra coisa.

— Reiner? — Armin o chamou, querendo saber do resto da explicação.

Meio constrangido, Reiner pôs a mão na boca e pigarreou, desviando o olhar para outro lado.

— Meu plano é simples — explicou. — Querendo ou não, temos aqui o grupo de alguns dos melhores alunos do segundo ano. Nós podemos fazer uma chantagem com isso, mesmo que seja um golpe baixo.

— Como exatamente faríamos a chantagem? — perguntou Mikasa, amansando um pouco.

— Greve de estudos? — brincou Jean.

— Algo do tipo — admitiu Reiner, dando de ombros.

— Greve? — Marco arregalou os olhos. — Mas isso é...

— Possível — concluiu Armin. — Falando da maneira correta, talvez possamos usar isso a nosso favor... Embora seja um plano arriscado.

— Não que a gente tenha um leque de opções — afirmou Ymir. — Mas, ainda assim, eu não acho que vá dar certo...

— Por quê, não confia em mim? — Reiner a olhou de uma forma um tanto intimidante fazendo-a recuar um passo.

— Eu... — Um calafrio desceu pelas costas de Ymir, que teve que cerrar os pulsos para não demonstrar inferioridade e manter-se firme. — Eu confio em você.

Reiner sorriu triunfante, olhando-a de cima. Armin analisou bem a atitude de Reiner, e a súbita quietude de Ymir, que há pouco estava bastante explosiva. De alguma forma, Reiner a dominou.

— Bem, então vamos — anunciou Marco, animado com a ideia recém-aceita.

— Tem mais uma coisa — Reiner o parou, pondo uma mão em seu ombro. — Um detalhe que, talvez, fará a diferença.

— E o que seria? — perguntou Armin, incomodado com o desenvolvimento daquele plano incerto.

— Com certeza, os senpais do terceiro ano ajudariam bastante — explicou Reiner —, pois eles têm uma boa reputação com os professores.

— Isso é verdade — confirmou Jean —, eles podem não ser os alunos ideais, mas conseguiram estabelecer um bom relacionamento com os professores.

— O mesmo com as senpais do baseball — acrescentou Mikasa. — Elas podem ajudar a salvar a pele de Sasha.

— Eu vou chamá-las — anunciou Crista, já se virando para correr.

Ymir deu um passo em direção a ela, mas impediu-se de completar o ato. Sua importância para fazer a pressão emocional com os professores junto com os garotos, como líder do time de handball feminino, era demasiada para simplesmente ser ignorada. Só que algo em seu estômago revirava-se, e o seu histórico com seus instintos e pressentimentos fazia com que cresse que aquele era um bom momento para retirar-se e pensar antes de agir... Tinha algo de errado com aquele plano, ela só não sabia dizer o quê.

— Marco, você pode ir chamar os senpais também? — perguntou Reiner. — Se não me engano, eles ficam lá no pátio principal, perto da cantina.

— Ah, claro! — respondeu de prontidão.

— Encontre-nos na sala do diretor — informou Jean —, tente ir o mais rápido possível.

— Pode deixar. — Marco sorriu para Jean e correu na mesma direção que Crista, sumindo num piscar de olhos.

— Bem... Vamos então? — sugeriu Reiner.

A primeira a se mover foi Ymir — queria acabar de uma vez aquela confusão toda. Mikasa e Jean logo a seguiram, e não perceberam quando Armin segurou a camisa de Reiner, fazendo-o parar por um instante e olhar para baixo com o cenho franzido. Deparou-se com um par de olhos azul-celeste suplicantes e temerosos, com um receio contido.

— Eu quero muito acreditar que você quer estar com a gente — disse Armin, alto o suficiente para que apenas Reiner o escutasse. — E eu quero muito acreditar que toda aquela tensão com Eren foi fruto de um mal-entendido de Bertolt...

— Não acho que seja — segredou-lhe Reiner. — Bert é gentil e calmo na maior parte do tempo, deve ter acontecido algo bem sério para que ele agisse assim.

— Espera... — Armin o soltou e tomou distância. —Você não sabe por que ele tem tanta raiva de Eren?

— Ele não me disse, nem eu perguntei. — Deu de ombros.

— Por que você começaria a tratar mal alguém por um motivo que você sequer conhece? — Armin perguntou calmamente, tentando conter sua indignação.

— Não vou mentir, no começo eu estava com um pouco de raiva de Eren pelo que ele fez com Annie — explicou, cruzando os braços. Até então, aquela era uma justificativa válida para Armin. — Só que, um pouco depois do término dos dois, Bert me pediu para tomar um pouco de distância de Eren, pois o Jäeger tinha feito algo de ruim para ele...

— E você não perguntou o que foi? — Armin o cortou.

— Você não conhece Bertolt como eu conheço — explicou Reiner. — Ele detesta sentir-se pressionado, então eu sempre deixo que ele me conte as coisas quando estiver confortável.

— E não te contou isso até hoje? — Armin arqueou uma sobrancelha.

— Por isso brigamos — concluiu Reiner.

Ambos se encararam em silêncio por alguns segundos. Reiner não parecia estar mentindo, e aquela história era bastante convincente. Armin sempre fizera de tudo por Eren e Mikasa, desde apoiá-los em planos insanos a entrar numa discussão por eles — podia não ser bom com socos, mas era um

ás com palavras. Caso estivesse no mesmo lugar que Reiner, seria capaz de fazer o mesmo.

— Você pode não acreditar em mim — Reiner falava olhando-o diretamente nos olhos, o que deixava cada palavra mais intensa —, mas eu realmente estou aqui para ajudar meus amigos, e também sinto muito pela forma que agi. Bertolt uma hora ou outra vai perceber que estava fazendo besteira também, e eu converso com ele para convencê-lo a voltar.

Armin suspirou e relaxou um pouco. Tudo estava acontecendo de uma vez só, e não sabia o que fazer naquele momento. Por mais arriscado que fosse, Armin assentiu com a cabeça, concordando com a história de Reiner e aceitando seu pedido de desculpas.

— Vamos, temos que resolver esse problema da suspensão primeiro — disse Armin, virando-se para o grupo à frente e andando até eles.

Reiner sorriu e logo pôs-se a andar ao lado de Armin, sussurrando-lhe baixinho em seu ouvido.

— Obrigado por confiar em mim.

— Nem fodendo — disse Eren, cruzando os braços.

A teimosia do garoto fez Levi sorrir de orelha a orelha. Afinal de contas, não seria divertido se Eren não recusasse primeiro.

— E por que não? — perguntou Levi, com uma voz manhosa e um olhar sedutor.

— Primeiro, porque eu ainda estou puto por você ter se recusado a transar comigo por um motivo tão ridículo — resmungou Eren, fazendo Levi arquear as sobrancelhas. — Segundo, porque eu tenho medo do que você vai fazer comigo com esse pano e essa pomada, e terceiro... — Eren tratou de apressar-se quando Levi abriu a boca para falar. —... porque eu não sou seu escravo sexual para você me mandar tirar a roupa e fazer tudo o que disser.

— Já acabou? — O sorriso de Levi era terrivelmente encantador, mesmo com aquele ar de perigoso... Eren não conseguiu pensar em uma resposta rápida. — Já que me deu três motivos para não fazer o que digo, vou te dar quatro para que o faça.

Eren arqueou as sobrancelhas, mas não disse nada. Esperou para ver se ele realmente seria capaz de convencê-lo a fazer algo tão imprudente. Sentiu-

se pior ainda quando, lá do fundo, escutou uma voz em sua mente suplicando para que Levi conseguisse.

— Primeiro — Levi deu um passo em direção ao garoto —, acho que pensar nos prováveis problemas que eu poderia ter com meu pênis se transasse com você, como alguma infecção, não é um motivo ridículo. — Aquilo pegou Eren de jeito. Realmente, não tinha parado para pensar nisso, e culpou-se um pouco por ter sido tão negligente com a saúde do parceiro. — Segundo, minhas intenções com o tubo são as mais puras possíveis, e o pano é uma... — Levi deu mais dois passos em direção a Eren, que recuou um pouco —... Precaução. — Eren engoliu em seco, e foi mais audível do que esperava, o que fez os olhos de Levi, felinos, brilharem. — Terceiro, você deveria escutar os mais velhos, pirralho. Não esqueça que eu sou mais experiente que você, e garanto que não irá se decepcionar.

O coração de Eren estava batendo mais forte com a ansiedade. As palavras de Levi faziam sentido... Ou, ao menos, sentia-se tão inebriado com a sedução do namorado que tudo que ele falasse pareceria correto. Não, aquilo era errado. Eren teve a sensação de estar no lugar de um roedor hipnotizado por uma cobra, sedutoramente atraído pelos olhos de Levi. A respiração lhe faltava cada vez mais à medida que Levi se aproximava.

E ele não era o único a reagir à proximidade; não era difícil perceber que os músculos de Levi se contraíam ao conter-se, evitando ao máximo não puxar o garoto para si e fazê-lo seu. Parou apenas quando restavam poucos centímetros entre os dois, quando sentiu a respiração irregular de Eren, quando viu a pupila do garoto dilatar-se aos poucos... Parou apenas quando percebeu que o garoto o queria mais próximo do que nunca.

— Quer saber o quarto motivo? — Levi sussurrou, deixando a voz mais rouca que o normal.

— Quero — respondeu Eren de imediato, não suportando a ansiedade.

— Precisa mesmo de mais um motivo? — brincou Levi, mexendo com o orgulho do garoto...

... Que caiu certinho em seu jogo.

— Preciso — respondeu Eren, convicto, mas ainda louco de desejo.

Levi o olhou presunçosamente e recuou um passo. Antes que Eren percebesse, já estava inclinando-se para frente, em busca de seu toque... Levi o tinha em seu domínio. Sabia disso, só não iria admitir, não iria entregar-se tão facilmente. Afinal de contas, era Eren Jäeger.

— Sendo assim... — murmurou Levi, sentando-se no sofá fogosamente apoiando ambos os braços em cima do encosto e deixando as pernas levemente abertas ao invés de cruzá-las como sempre. Deixou que o pano e a pomada caíssem de suas mãos; iria usá-las em breve. — O quarto motivo para você fazer o que eu peço é que você está louco para ser tocado por mim...

Aquele motivo era terrível. Eren nunca daria o braço a torcer por aquilo, nunca cederia. Mesmo sabendo que realmente ansiava pelo seu toque. Mesmo sabendo que aqueles braços abertos, deixando todo o tronco de Levi vulnerável, era muito convidativo. Mesmo sendo Eren...

—... E eu estou louco para matar a saudade de seu corpo, pois a saudade de conversar com você eu já matei — completou Levi, com mais do que apenas desejo em seus olhos... Eren via necessidade, da mesma forma que ele mesmo. Mas não podia, não iria ceder. Ele era...

... E importava quem ele era?

Marco já tinha rodado todo o pátio, mas não chegou nem perto de encontrar os senpais. Não via sinal de nenhum deles, já que eles andavam sempre em grupo. Decidiu por fim ir até o corredor do terceiro ano; era o segundo local mais provável para encontrá-los. Marco então subiu as escadas centrais o mais rápido que pôde; como esperado, as salas do terceiro ano ficavam no terceiro andar. Como estava correndo a um tempo, sua respiração estava cada vez mais comprometida, e as batidas do coração perdiam o controle, acelerando mais do que deveriam.

Estava tão focado em manter seu ritmo que nem percebeu quando outra pessoa surgiu descendo da escada, exatamente do mesmo lado que ele. Ambos acabaram se esbarrando feio, e Marco teria uma queda séria... se a outra pessoa não tivesse o segurado pelos braços e o puxado de volta num aperto firme. Marco piscou um pouco, tentando acalmar ritmo cardíaco e controlar a adrenalina em seu sangue devido ao susto da quase queda.

— Marco, você está bem...?

Ele reconhecia aquela voz. Na verdade, reconheceu-a de imediato. Só não esperava escutá-la tão cedo...

— Bertolt? — murmurou Marco, ainda ofegante.

Bertolt deu um singelo sorriso para Marco e, assim que teve certeza do recém-restaurado equilíbrio do amigo, retirou as mãos de Marco, que cruzou os braços num quase abraço. Evidentemente, o toque de Bertolt o afetava.

— Desculpe por ter me esbarrado e... enfim... — Marco respirava com dificuldade.

— Não tem problema, estava mais preocupado com você caindo da escada. — Bertolt deu de ombros.

— Ah sim, e obrigado por isso também.

— Relaxe, eu nunca te deixaria cair. — Bertolt deu um singelo sorriso, com traços de tristeza que não podiam ser apagados. Aquilo deu um aperto no peito de Marco.

— Bertolt, está tudo bem?

— Está sim... — Bertolt suspirou. — Por quê?

— Você parece abalado, sei lá. — Marco deu de ombros. — E Reiner disse que vocês tinham brigado...

Marco notou Bertolt enrijecer assim que escutou o nome do amigo. Bingo, disse mentalmente. Bertolt suspirou e virou-se de lado, deixando que as costas apoiassem no corrimão de concreto.

— Então Reiner disse isso? — murmurou Bertolt, amuado. — Sinceramente, que otário...

Marco franziu o cenho e deu para trás, quase caindo escada abaixo novamente. Da forma que Reiner havia contado, parecia que Bertolt estava sendo o “otário” da história, mas agora, vendo-o pessoalmente, passou a ter a impressão contrária.

— O que aconteceu com vocês dois? — perguntou Marco, tomando cuidado com as palavras para não forçar muito a barra.

Mas, aparentemente, não deu certo. Bertolt o encarou com desgosto e rancor, como um animal que fora ferido, e aquilo fez o coração de Marco apertar mais uma vez.

— Vai me dizer que você está preocupado comigo? — Bertolt bufou, em desprezo. — Não me faça rir, você é amigo do Jäeger.

— E o que isso tem a ver? — retrucou agitado, um pouco ressentido pela forma fria como ele o tratara.

— Tem tudo a ver — murmurou Bertolt, desviando os olhos para o chão. — Só de pensar que você anda com ele...

— E que droga foi que Eren fez a você para que ficasse dessa forma? — Marco levantou o tom de voz. Não suportava quando falavam mal de seus amigos, principalmente de um que o ajudara tanto quando precisou desabafar. — Eren nunca faria...

— Ele tirou tudo de mim! — desabafou Bertolt, finalmente olhando-o nos olhos. Marco sentiu-se quase violado, tamanha a intensidade daquele par de olhos negros. — Ele tirou tudo que importava para mim... inclusive meu melhor amigo.

— Eren não fez nada para que Reiner deixasse o seu lado — defendeu Marco.

— Duvido. — Bertolt revirou os olhos. — Depois de tudo que ele já fez, eu realmente duvido.

— Que porra, Bertolt, o que Eren fez a você? — Em um momento raro, Marco perdeu a calma e deixou que mais xingamentos escapassem que o normal.

Bertolt balançou a cabeça e voltou a encarar o chão, com um sorriso amarelo nos lábios.

— Não quero falar sobre isso — resmungou. — É humilhante.

Para Marco, aquilo não passava de um mal entendido. Sabia perfeitamente bem o quão “desligado” Eren podia ser, e tinha quase a certeza de que fez alguma burrada sem querer e nem notou que tinha magoado Bertolt daquela forma. Para o bem do grupo, Marco sentiu-se na responsabilidade de resolver aquilo de alguma forma. Afinal de contas, Eren tinha o ajudado com seu problema com Jean, então era mais do que justo que ele fizesse algo com Bertolt também.

Com delicadeza, Marco se aproximou de Bertolt devagarinho e colocou uma mão gentilmente sobre o braço de Bertolt. Sentiu os músculos do braço se enrijecerem ao seu toque, mas logo relaxaram. Bertolt olhou confuso, primeiro para a mão que o afagava com carinho, depois para Marco, que o olhava com ternura. Bertolt não o afastou, nem reagiu de forma alguma, então Marco deixou seu braço correr até o topo do ombro de Bertolt, onde deu um leve aperto.

— Não sei o que aconteceu entre você e Eren — Marco explicou-se, com uma voz suave —, mas eu acredito que tenha sido um mal entendido. — Bertolt ainda estava sem ação, apenas o olhava com o cenho franzido. — Eu quero te ajudar, e também não quero te deixar só.

— Antes só do que mal acompanhado — resmungou Bertolt.

— Acha que eu sou má companhia? — perguntou Marco, sorrindo. Mais uma vez, tinha tirado as palavras de Bertolt. — Ninguém é uma ilha, Bertolt, você não pode ficar só.

— Não quero te incomodar, muito menos te tirar de perto de seus amigos — Bertolt fez questão de demonstrar todo seu desprezo na última palavra. — Afinal de contas, Reiner estava reclamando da mesma coisa.

Sem se preocupar com delicadeza, Bertolt balançou o ombro, retirando a mão de Marco, e o contornou para que continuasse a descer a escada. Marco precisava encontrar uma forma de pará-lo rápido, antes que perdesse essa oportunidade de salvá-lo de um provável isolamento.

— Bertolt — Marco o chamou, fazendo-o parar no penúltimo degrau, mas ainda não olhara para Marco. — Soube que você é bom em química...

Aquilo tinha sido uma surpresa e tanto para Bertolt, que fez questão de encará-lo e mostrar toda sua confusão através do olhar.

— Eu estou meio ferrado na matéria... Você poderia me ajudar?

— Por que não pede ajuda a Jean?

— Jean está... ocupado demais com os próprios estudos dele. — Marco deu de ombros. — Se você estiver livre, eu agradeceria muito.

— Está fazendo isso só porque quer que eu fale com você — desdenhou.

— Isso, e porque eu realmente estou indo mal nessa matéria — segredou-lhe Marco, sorrindo. — Por favor... Não é uma ideia ruim.

Bertolt suspirou e balançou a cabeça, sem acreditar no que estava para fazer.

— Na sua casa ou na minha? — perguntou Bertolt, com a vista abaixada.

Nesse momento, os olhos de Marco brilharam.

— E então, o que vai fazer? — Levi o provocou, tentando esconder a sua própria ansiedade por ter o garoto junto a si.

Eren decidiu não ligar para mais nada. Ignorou seu orgulho, suas inseguranças, sua voz mental que dizia para não ceder. Nada daquilo importava, não depois que escutou Levi declarar que também sentia falta dele... Era recíproco.

Como um felino, Eren andou devagar até Levi e, ousadamente, cercou o namorado com os joelhos no sofá, um de cada lado do quadril de Levi, e então sentou-se em seu colo, mas sem nunca tocá-lo onde estava desnudo, diretamente em sua pele. Quando o olhou nos olhos, sentiu como se pudesse tocá-lo apenas com isso. Era tão intenso e excitante que quase o deixava sem fôlego... Apenas com o olhar.

Eren subiu ambas as mãos para o zíper do casaco, e o desceu bem devagar, sendo acompanhado a todo instante pelos olhos de Levi.Terminou de tirar o casaco e o jogou no chão. Estava apenas com a camisa do uniforme, seus olhos nos dele e os dele nos seus. Sem nunca se tocarem. Eren mordeu o lábio inferior, segurando-se para não beijá-lo no mesmo instante — a tensão sexual naquele momento era enlouquecedora. Levi ficou parado, com todos os músculos tensionados; somente os olhos se moviam varrendo o corpo de Eren, e ocasionalmente passavam pelos esmeraldas ardentes e ansiosos dos olhos do garoto, que o entregavam por completo. Levi não sabia por quanto mais seria capaz de segurar-se...

Eren, por si só, era seu afrodisíaco.

Lentamente — sempre lentamente —, Eren subiu as mãos para o primeiro botão da camisa, desabotoando nua velocidade torturadora. Deixou que suas mãos afastassem um pouco a borda de cada lado, dando visibilidade da sua clavícula. Somente quando escutou um gemido contido, rouco e carnal, vindo de Levi foi que continuou. Botão por botão, sempre deixando a fresta da camisa cada vez maior, expondo seu corpo aos poucos. Quando finalmente chegou ao último botão, Levi já estava perdido em desejo, ansiava por aquele garoto mais que tudo, mas Eren não sucumbiu. Pondo os braços para trás, deixou que a camisa deslizasse e caísse no chão, finalmente deixando seu tronco completamente exposto — sentia-se exposto.

Levi deixou que suas mãos corressem para a cintura do garoto, mas foi impedido no meio do caminho, tendo seus pulsos restringidos por Eren. Ele inclinou o corpo para frente, tendo o cuidado de não deixar que mais de seus corpos se tocassem, e sussurrou com a voz morna no ouvido de Levi:

— Eu não farei o que você manda, na maioria das vezes... — Fez uma pausa para deixar seu rosto de frente ao de Levi, seus narizes quase se tocando. — Eu faço o que eu quero.

— Claro que faz — respondeu Levi, com um sorriso encantador. — Qual seria a graça de domar um animal já adestrado?

E, assim, o limite de ambos estourou.