Vastalto - O Cachecol e o Dragão
2 Capítulo 1 - "Capaz" (Fragmento Um)
Notas iniciais
Fragmento Um
O vento ficou mais pesado. Seus olhos azuis ainda brilhavam sob a luz e seu cabelo amarelado, espetado e duro, nem sequer reagia à velocidade. Seu cachecol, vermelho-vivo e vermelho-claro, dançava com o vento. Ela sentia a brisa quente e aconchegante se transformar em um ar gélido e desconfortável.
— Ai... — seu sorriso se desfez. — Para onde estamos indo, Bástilo? — perguntou Raja, desanimada. — Ficou tão frio de repente.
Bástilo, o gigantesco dragão-cobra azul, fechava os olhos e desacelerava, sem parar. — Boa pergunta, Raja... eu também não sei. – baforejava. — É assim... Nós apenas vamos. ― terminava a frase como se não quisesse mais assunto.
Avistavam, a mais ou menos 100 metros, um amontoado de névoa. Era, provavelmente, mais uma ilha flutuante. O enorme dragão voador adentrava a fumaça branca e sentia o frio congelante em suas escamas. Ele pousava às cegas no meio da névoa. A única coisa capaz de se ouvir era o vento, cantando, grave, que se faz num inverno rigoroso.
Raja pulou de cima de Bástilo, caiu firme no chão escorregadio feito gelo.
— Onde estamos? — perguntou.
— Eu não sei. Nunca vim aqui antes. — levantava a sobrancelha. — Ao menos eu acho… — disse enquanto diminuía de tamanho e se enrolava no pulso de Raja. A garota olhou para o dragão, desacreditada com sua imprudência, e começou a andar, tendo cuidado a cada passo que dava. Tinha medo de, talvez, pisar em alguém ou em algum espinho venenoso desconhecido.
Principalmente porque em Venépole, sua casa, não nevava. Mas já tinha passado muito tempo em bibliotecas, lendo sobre o mundo exterior e seus climas estranhos. O vento gelado ficava cada vez mais forte, vindo de encontro a seu peito. Sentiu seu corpo tremer de frio e os seus músculos encolher.
— Como é que você me traz para um lugar assim? Tão, assim? – sussurrou para o dragão, com a voz trêmula, indignada. ― Bom, ao menos parece ser mais interessante desta vez.
Bástilo não disse uma palavra, misterioso. Apenas rugiu em silêncio sorrindo. De longe, Raja e o dragão conseguiam observar a silhueta de algo parecido com o tronco de uma árvore. Sem muito esforço, a menina andou até perto dela.
Ao olhar para cima, a única coisa capaz de ser vista era o céu. Branco. Morto.
— O que será que aconteceu com essa ilha, Bástilo? – sussurrou assustada. A ideia de estar em uma ilha de histórias não mais a agradava tanto.
— Não sei, Raja… — respondeu enquanto esticava o pescoço e tentava entender o que via. — Mas tem algo escrito na árvore. Veja.
Ela se aproximava, tentando enxergar.
— Está um pouco sujo, mas… — passou a mão no tronco da árvore, limpando o excesso de neve acumulado nela.
Ao ver o que tinha ali, Bástilo cerrou os olhos, um pouco entristecido e a garota encarou a árvore com temor. Estava ali, em volta de um coração quase que perfeitamente desenhado, escrito: “Merman & Jude”. Alguém, provavelmente há muito tempo, desejou marcar e gravar o amor que sentia por outra pessoa naquela árvore.
Não sabia o que tinha acontecido ali, mas não estava feliz em ver algo tão lindo escondido. Havia amor naquela árvore, amor naquele lugar. E tudo estava soterrado em neve. Olhou com tristeza para a madeira.
— Eu sinto muito. — murmurou.
A menina se afastou da árvore e continuou a andar, sem muito esforço. Tentava encontrar algum lugar para ficar, alguém para falar, algo para descobrir. Estava triste, sim, mas curiosa. Bástilo subiu até o seu ombro e falou bem no canto de seu ouvido:
— Já reparou que você não está mais com frio? — sorriu. — Já se perguntou o motivo?
Foi quando ela percebeu que o cachecol que sua mãe lhe dera brilhava, dourado. Exalava poder. Gerava calor para a menina.
— Eita… — Raja olhava o cachecol, sorrindo feito boba. Ajeitou-o no pescoço, sorriu de leve. — Mesmo depois de anos, minha mãe ainda cuida de mim, Bástilo. — mesmo que a mulher não pudesse mais estar ali para ver a pessoa que se tornara, a menina sabia que sua mãe gostaria dela. Só de sentir o cachecol abraçá-la.
Continuava a andar por entre a névoa densa com um sorriso besta no rosto. Até que esta acabou ficando um pouco mais rala. O dragão e a garota já conseguiam avistar e ouvir algumas coisas, de longe. Seus passos estavam pesados, por causa da neve grossa e escorregadia. Mas de repente, pisou em algo sólido. Algo… metálico.
O olhar intrigante da garota encontrava o olhar vazio de Bástilo, o preenchendo. Estava transbordando de suspense. Ele quase sorriu, mas naquele momento apenas se entreolharam, com medo, e curiosos. Caminhando um pouco mais, mais de perto, conseguiram ver.
Era uma espécie de cidade, algo assim. Não dava para saber a sua verdadeira cor, estava tudo soterrado em neve. Mas eram como casas, pequenas, idênticas a iglus, com mais algumas janelas e uma chaminé. Havia mais de cem casas desse tipo, em uma enorme e larga rua metálica. Boquiaberta, Raja foi aproximando-se de uma dessas construções, tentava olhar o que havia dentro pela janela, mas a neve impregnada em tudo atrapalhava um pouco a visão.
Usou a ponta do cachecol para limpar a janela, viu apenas um amontado de móveis e coisas que existem dentro de qualquer moradia.
— Chato. — disse ela.
Antes que pudesse comentar mais qualquer coisa, sentiu uma mordida na perna.
— O que foi isso?! — perguntou assustada, com os olhos arregalados, e batia na própria perna com a mão. — me mordeu, Bástilo?
― Te morder? Não, eu tenho mais o que fazer do que morder a sua perna. ― baforejou irritado.
― Ok, então. Outra coisa me mordeu.
Olhou para trás, enquanto esfregava os dedos, e viu apenas um amontoado de pontinhos dourados vindo em sua direção, no horizonte. Raja olhou para sua própria perna e para os pontinhos dourados novamente. Era como uma avalanche brilhante vindo em sua direção. Seu coração começou a querer tocar bateria.
— Ai, meu mundo...! — largou um grito, enquanto arrancava desesperada para a porta da casa, tentando entrar. Puxou e empurrou a maçaneta da porta, mas percebeu que estava trancada e a única opção que sobrava era correr até o final da rua de metal.
— Corre, Raja! – gritou o bicho, que se apertava mais forte no pulso dela. Ela arrancou mais uma vez e correu o mais rápido possível. No meio do caminho, chegou a olhar para trás, curiosa para entender o que era aquilo. O enxame de coisinhas douradas se aproximava cada vez mais e Raja sentia medo. Era medo correndo pelas suas veias, isso a fazia correr mais rápido.
Mais do que nunca.
Faziam-se sons de dentes se chocando o tempo todo. Estavam loucos de fome. Afinal, não deve ser sempre que eles recebem uma visita naquela ilha. Mais ainda de uma criatura tão estranha e fantasiosa como um dragão. Talvez estivessem até se perguntando como deve ser o gosto daquele ser tão mitológico.
— Crack! — o estalo de gelo se quebrando.
A garota achava que estava pisando em metal, mas de repente, sua certeza era dubitável. O gelo sobre o qual estava correndo se quebrou e Raja afundava dentro da água mais gelada que já poderia ter sentido. Mas apenas poderia, mesmo. O cachecol a mantinha aquecida e saudável. Mas a garota não estava se sentindo bem. Fechou os olhos. Seu corpo afundou na água feito uma bigorna ao cair em ar livre e sua vontade de tentar viver cessava. Ela se deixava levar pela escuridão atormentadora que se encontrava lá embaixo, no fundo da água. Feito uma pena. Descendo. Devagar.
— Raja! — chamava Bástilo, no pé de seu ouvido. — Raja! — finalmente, abria os
olhos — Você por acaso é idiota?! — suas fitas brilhantes apontava para o cachecol. — Use-o, imbecil! Não é sua hora de morrer ainda!
Fechava com força os olhos, determinada.
— Se concentre, garota! Feche os olhos e se concentre! Queira subir até a superfície! Estique esse cachecol idiota até lá em cima! — O cachecol brilhava e mudava de cor, agora violeta. Começava a se comportar sozinho, levitando pela água, se debatendo de tanto poder.
— Afinal, você sabe como ele funciona, você é filha de Mártia. Você sabe do que ele é capaz, não é?!
Vindo de baixo d’água, surgia a ponta do cachecol, para fora. Brilhava tanto, tinha tanto poder, que parecia estar vivo. Movimentava-se extremamente rápido, feito uma cobra, à procura de algo para se agarrar. Submersos, os olhos de Raja estavam brilhando, e Bástilo sorria feito uma criança ao ganhar um presente novo.
— Sim, Raja! Sinta o que sua mãe lhe deu! Quanto poder tem! Você não vai morrer agora!
O cachecol parecia ter se agarrado a algo, lá em cima. Raja pensava em subir, aquele artefato de algodão estiloso e graciosamente macio puxava a garota para a superfície em uma velocidade tremenda.
— Tchaf! — pulava para fora d’água. Enquanto uma ponta do pano estava enroscada numa chaminé de uma casa, a outra estava livre, no ar, dançando em volta da garota, apenas esperando novas ordens. Em um piscar de olhos, a primeira ponta largava a chaminé, e a outra agarrava-se na maçaneta da única construção que parecia diferente naquela rua — uma espécie de prédio, enorme e largo. Raja fez com que o cachecol a puxasse até a maçaneta de seu portão e caiu firme no chão.
Os pontos dourados luminosos e barulhentos estavam mais perto do que nunca. Eram muitos. Circulares, do tamanho de uma mão aberta, com dentes do tamanho de uma mão fechada, mordiam o ar,enquanto voavam na direção de Raja e de Bástilo, ferozes.
— É... acho bom você abrir logo essa porta, Raja, ou vamos ser devorados! – alertou o dragão, redirecionando a atenção da garota para o prédio. O que acontecia era que a porta estava cheia de neve, o que bloqueava o funcionamento de sua abertura. Desesperada, começou a tentar tirar a neve acumulada com as mãos, mas a quantidade era muito grande para que conseguisse a tempo. Bástilo olhava para ela desacreditado.
— É sério? – perguntou ele.
A garota parou de fazer o que estava fazendo e se irritou.
— É sério o quê, Bástilo? Para de fazer charada e me ajuda! – agachava, continuou a tirar a neve com as mãos.
— Você sabe muito bem que eu só consigo ficar enorme quando estou no céu! Pequeno, eu sou quase inútil. — se irritou junto com ela, mas logo se acalmou, recobrando a paciência. — Você pode usar o cachecol, Raja... Ele é rápido.
Ela parou de usar as mãos e se levantou. Percebeu que estava falando algo óbvio, mas não quis admitir. Seu orgulho por querer estar certa era, obviamente, um dos seus maiores defeitos.
— Eu já ia fazer isso. Só que não quero gastar o poder do cachecol só por isso. Além de que...
— Anda logo, Raja! Não temos tempo pra isso! – Bástilo interrompeu.
O cachecol de Raja rapidamente fazia todo o trabalho. Com um pouco de esforço da menina, as duas pontas dele passaram a se movimentar feito dois tentáculos loucos, numa velocidade exorbitantemente estúpida. A neve acumulada na porta desaparecia em questão de segundos. Bástilo cresceu um pouco de tamanho, pulando para fora do ombro dela. O dragão pediu para que a garota se afastasse e usou sua cauda para bater na porta com muita força. Em instantes, subiu no ombro de Raja de novo, pequeno. A porta estava aberta.
Entraram no prédio correndo e ela fechou a porta com força, cansada. Pelo lado de dentro, empurrava a porta com suas costas. Estava exausta. Dava para ouvir os bichos do lado de fora, mordendo o ar e procurando carne fresca. A garota caiu sentada no chão.
Bástilo olhou para Raja.
Raja olhou para Bástilo.
Os dois riram por longos trinta segundos. Os olhos da garota estavam cansados, mas o que estava vivendo ali era novo e surpreendentemente assustador. Tão assustador que, estranhamente, sua vontade de rir era maior do que o medo de morrer. Porém, os dois pararam de rir na mesma hora, ao se depararem com o que estava ali, em sua frente.
— Que lugar é esse, Bástilo? — Raja perguntou, com os olhos arregalados.
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