Vastalto - O Cachecol e o Dragão
3 Capítulo 1 - "Capaz" (Fragmento Dois)
Notas iniciais
Fragmento Dois
Raja, durante seus últimos anos com Fex, aprendeu a ser mais quieta e reservada. Até mesmo egoísta, de certa forma. Porém, seus últimos dias estavam sendo claramente transformadores. Ria mais do que deveria e esquentava-se com o que deveria deixá-la fria. Sentia-se no pique de sua vida. Nos anos de ouro. Vivia algo que nunca havia experimentado antes e ela adorava a sensação de não saber o que fazer em situações novas. Não apenas isso, mas aquela garota não sabia ainda o motivo pelo qual subia num dragão e viajava pelo mundo sem destino final. Nem sequer se perguntava isso. Sequer sabia quem era Bástilo de verdade.
Bástilo tentava estar sempre à frente de todas as situações, mas seu medo de sofrer novamente era enorme. Não queria se arriscar em aventuras pelo mundo com Raja, como ele tinha se arriscado anos atrás com outra pessoa. Entretanto, a vivacidade e a curiosidade dela para com o mundo eram contagiantes, e mais ainda, o deixavam elétrico. Seu corpo e sua mente esqueciam o passado por um tempo, para viver o presente. E o dragão estava mais imprudente do que nunca.
— Que lugar é esse, Bástilo? — Raja perguntou, com os olhos arregalados.
Seu amigo cresceu de tamanho, devagar, e levantou sua coluna. Estava sempre usando suas fitinhas na bochecha como mãos e braços. Em terra firme, ele não conseguia crescer o suficiente para carregar alguém em suas costas, então ficava, no máximo, na cintura da garota, quase como um cachorro grande sem pernas.
— Eu não sei… Mas me parece uma biblioteca. Abandonada – respondeu ele, enquanto se esgueirava rapidamente por entre algumas prateleiras, observando o local.
O lugar estava decadente. Teias de aranha espalhadas em todo canto da suposta biblioteca, e diversas e diversas prateleiras mal acabadas. Algumas estavam vazias, outras não. Todas velhas e fedidas, com odor de livros antigos. No chão, havia sangue velho esparramado, e tinha também muitos arranhões pelo chão e móveis.
De dentro da biblioteca, ouviam-se apenas o vento forte, entranhando-se pelas minúsculas aberturas do local, e as mordidas no ar das criaturas lá de fora. Raja e Bástilo estavam apreensivos com todo aquele barulho. Pensavam no pior. Tinham medo de que derrubassem a porta.
Ela olhava para o cenário assustador à sua volta.
— Eu estava pensando… — Colocou a mão no queixo. — O tempo pode até ter soterrado tudo lá fora, mas por que aqui dentro está tudo destruído e arranhado?
O cachecol dançava atrás de Raja, enquanto Bástilo procurava concordar.
— Verdade. — balançava suas fitas a medida que falava. — O sangue no chão pode até ter sido causado pelas coisas lá fora. — Fitava os arranhões. — Mas elas não causariam tanta destruição assim. Elas nem têm unhas... — respondeu e se arrastava feito cobra, procurando algum livro para ler.
Raja decidiu explorar um pouco mais a biblioteca. Queria saber se conseguia achar algum sobrevivente ou qualquer coisa que os ajudasse a fugir dali. Fugir seria ótimo. Com aqueles monstrinhos do lado de fora, a situação estava crítica. Observando melhor, percebeu que a biblioteca parecia ser bem maior por dentro. Era larga e espaçosa. Ela vagueava por lá e percebia, também, que existiam diversas portas e entradas para cômodos muito escuros. Algumas destas davam em escadas que subiam, outras, que desciam, e em outras não era possível ver nada além do preto.
Bástilo foi direto para a prateleira que guardava mais livros. Sua vontade de aprender mais sobre a cultura daquele povo era grande. Ele queria saber, principalmente, como era aquela cidade antes de toda aquela neve. Será que as criaturas engoliram toda a civilização?, se perguntou, enquanto abria os livros e folheava-os lentamente, lendo algumas páginas por alto, até que uma das capas dos livros que pegou chamou a atenção.
Raja gritava e acenava para Bástilo, de longe.
— Ei, eu vou entrar aqui, nessa… — apontava para uma entrada — ...nessa coisa... e ver o que tem! — Não estava com medo. Estranhamente, queria saber o que tinha ali. Havia várias outras entradas que davam para lugares mais claros. A garota estava curiosa para saber o que tinha dentro daquele cômodo tão escuro. Se é diferente, provavelmente tem algo de útil dentro, pensou. Foi até a beirada da entrada e colocou apenas a cabeça para dentro. Olhava para os dois lados e não conseguia enxergar absolutamente nada. Escuro. Era tudo que via..
A cabeça dela começava a pensar feito uma máquina. Queria procurar uma tocha ou uma lanterna. Sabia que não iria achar nada do tipo ali dentro. Finalmente se lembrou de que o cachecol gerava calor. Imaginou que poderia criar uma tocha com ele. Tirou a cabeça dali e voltou para o salão principal, onde Bástilo estava. Corria pela biblioteca, procurando algum tipo de graveto para usar. No canto, viu um amontoado de pedaços de madeira e logo achou um graveto, jogado no chão. Provavelmente eram das prateleiras desgastadas e arrebentadas.
— Isso deve servir – falou consigo mesma. Fechou os olhos. — Certo, agora eu só preciso fazer o cachecol agarrar o gravetinho… — Quando percebeu, o cachecol já tinha feito isso. Estava todo enrolado nele, levitando, em frente aos seus olhos. Raja fechou-os e imaginava todo e qualquer tipo de coisa quente. Verão. Fogueira. Incêndios. Sol. Fogão. Explosões.
Ao abrir os olhos de novo, o graveto não estava mais lá, apenas as suas cinzas. Raja olhava surpresa para o cachecol que levitava segurando o vazio.
— É. Acho que exagerei na imaginação… — concluiu e decidiu tentar de novo com outro graveto. Imaginou-o sendo agarrado. O cachecol se enrolou nele. Pensava em uma coisa quente: uma simples tocha. E ali estava, assim que abriu os olhos de novo. O cachecol esquentava o graveto o suficiente apenas para ser uma tocha.
A menina se divertia manipulando o cachecol. Ela não sabia exatamente que habilidades aquele tecido tão confortável e quentinho tinha, mas cada vez que ela conseguia fazê-lo levitar e realizar realmente, alguma coisa, lhe dava um gostinho de satisfação.
Ela disparava e entrava na escuridão, agora com uma tocha enrolada em seu cachecol.
“Por que o Aquecedor da Ilha de Nápagos nunca deve ser desligado”
Era o título do livro que Bástilo segurava. Começou a ler algumas coisas nele. Nas primeiras páginas, havia muito sobre aquela suposta biblioteca.
“O Aquecedor da cidade mantém-nos vivos. Saiba aqui, lendo este livro, o porquê ele nunca ser desligado. Saiba também como ele funciona e como operá-lo em casos de emergência.
Para os cidadãos que não têm conhecimento, no subterrâneo da Biblio-Prefeitura há uma máquina geradora de calor. Ela suga a neve de toda a cidade para dentro dela mesma. Em seguida, toda a neve é redirecionada para o incinerador. Caso o Aquecedor seja desligado, quebre ou pare de funcionar, a probabilidade de nossa ilha ficar soterrada em neve é grande.
Lembre-se:
Proteger o Aquecedor da cidade é proteger a nossa casa.”
— Raja! A cidade tem um tal de aquecedor! — Ele olhava para a porta onde Raja tinha entrado e gritava pra ela. — Foi desligado! É por isso que lá fora está tudo coberto de neve! Alguém desligou o Aquecedor!
Procurava outros livros para ler, afobado. Lá no escuro, ela tentava enxergar algo.
— Sério? — ela respondeu em voz alta, de longe. — E por que alguém desligaria isso? – perguntou enquanto se aprofundava na escuridão com a tocha acesa.
— Eu não sei… Realmente não faz sentido. Aqui diz que o Aquecedor da Ilha de Nápagos deve ser protegido “a qualquer custo”… – falava o dragão, confuso. – Seja lá quem tenha desligado isso… Não queria o bem.
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