– Antes de começarmos, eu quero te apresentar às regras. — Disse Luna.

– Regras...? Acho que todo jogo possui, então... Vá em frente.

– Primeiramente, eu não poderei te ajudar a descobrir quem é o assassino. Você poderá me perguntar qualquer coisa, desde que não seja algo que leve à identidade do criminoso. O raciocínio será seu.

Maxwell cruzou os braços.

– De acordo.

– A segunda regra: O assassino é a mesma pessoa em todos os Fragmentos. Você não poderá culpar mais de um suspeito.

– Sim, acho que já tinha percebido isso.

– Bom. E a última regra... Eu não tenho muito tempo. Portanto, lhe darei oprazo de trinta minutos para solucionar o caso.

Aquela era a única regra que incomodava Maxwell.

– Meia hora... É tudo que tenho?

– Sim. Eu não poderei ficar aqui por muito tempo, então você terá que raciocinar de forma rápida.

– ...Ok. Eu farei o meu melhor.

– Então... Já pode começar.

Maxwell colocou as mãos nos bolsos de sua calça.

– A primeira coisa que me chamou a atenção foi quando matei Yuka na primeira memória. Eu a matei porque desconfiei que ela tinha tentado me envenenar. Mas na terceira lembrança, Manami descartou essa hipótese, dizendo que os bolinhos de Yuka estavam com gosto estranho devido ao fato dela não ter dominado o preparo ainda...

Maxwell baixou a cabeça.

– Droga... Então eu a matei sem motivo...? Me perdoe, Yuka...

Luna estalou os dedos.

– Não se deixe levar pelas emoções, Maxwell. Nesse mundo Yuka está viva, e você ainda pode salvá-la!

– Tem razão! — Disse Maxwell se animando novamente — Eu vou salvar meus amigos dessa vez! Vejamos...

Maxwell continuou se lembrando.

– No segundo e no terceiro Fragmento, Takigawa foi encontrado morto no beco. No segundo Fragmento eu fiquei como suspeito, e acabei sendo morto. Mais tarde, Satomi confirmou que a morte de Takigawa havia ocorrido mais de vinte e quatro horas antes de eu encontrá-lo.

– Exato. — Disse Luna colocando o dedo indicador em seu queixo.

– Eu com certeza não o matei... Mesmo que não me lembre o que fazia no dia anterior, eu não teria motivo algum para matá-lo.

– Como pode ter certeza? — Perguntou Luna.

– Simples. Takigawa era um poderoso aliado. Desde que o vi pela primeira vez, e ele me revelou ser comentarista do torneio Variable Geo, eu sabia que poderia ganhar informações valiosas com ele.

Maxwell falou em tom sério e alto.

– Em outras palavras, meu raciocínio é o seguinte: A pessoa que matou Takigawa queria impedi-lo de me contar alguma coisa!

Luna sorriu.

– Impressionante. Você começou muito bem, Maxwell.

Maxwell sorriu de volta.

– Isso é só o começo... Tem muita coisa que eu quero descobrir... O tempo é curto, então deixe-me continuar.

Maxwell continuou a trazer aquelas lembranças de volta.

– Tem algo me incomodando no terceiro fragmento...

– O que seria? — Perguntou Luna, mexendo em seu cabelo.

– Quando mandei Satomi verificar Chiho e Manami no restaurante enquanto Yuka e eu analisávamos o corpo de Takigawa. Eu poderia suspeitar de que alguma de minhas amigas fosse a assassina, mas...

Maxwell cobriu o rosto.

– Quando chegamos lá, estavam todas mortas! E tem algo mais estranho ainda: Quando Yuka me atacou, eu fiquei inconsciente, e fui levado para a delegacia... Naquele tempo, ela também foi assassinada!

Luna encarou Maxwell.

– Você analisa as coisas de forma superficial, não é?

– C... Como assim? — Perguntou Maxwell confuso.

– Tente enxergar essa situação de outra forma. Do ponto de vista do assassino. Como ele faria para matar as três garotas, se esconder, e depois matar Yuka enquanto você estava inconsciente. O que você pode tirar disso?

Maxwell pensou.

– Bem... Talvez Manami e Chiho já estavam mortas quando Satomi chegou no restaurante... Em seguida, o assassino a matou e levou seu corpo para a dispensa. Depois, se escondeu enquanto eu conversava com Yuka, para matá-la em seguida, enquanto eu estava apagado.

– Está melhorando... — Disse Luna sorrindo.

– Mas... — Disse Maxwell baixando a cabeça — Tem outra probabilidade...

Luna ficou curiosa.

– Qual é?

– Yuka estava totalmente fora de si naquela hora. Talvez ela me atacou, depois não aguentou a situação que estava presenciando, e cometeu suicídio.

– Hum... Infelizmente não posso te ajudar quanto a isso. Mas tem algo que posso te dizer.

– O que é?

– Há mais uma forma de olhar para esse caso. Maxwell, tente pensar nesse cenário como um assassinato, e não como suicídio. Se Yuka se matou ou não, não mudará o fato de que um crime ocorreu nesse restaurante. Foram três mortes.

Luna tinha razão. O suicídio de Yuka não era relativo para o que havia acontecido antes. O objetivo de Maxwell era encontrar o assassino.

– Outra forma de olhar esse caso...? Eu preciso pensar no assassino... Como ele fez tudo isso...?

Até que Maxwell fez uma expressão de surpresa.

– A não ser que... Não houveram quatro mortes nesse restaurante, e sim... Três!

– Hum... Estou empolgada. No que você pensou?

– Você sabe... É uma hipótese meio vaga, mas... Talvez nem todas estavam mortas naquele restaurante. É possível que alguém forjou sua morte. Naquele momento, Yuka e eu estávamos tão assustados que não poderíamos distinguir se alguém estava vivo ou morto!

– Exato! — Disse Luna — É uma probabilidade.

Maxwell baixou a cabeça e começou a falar num tom sério.

– Droga... Mas se isso for verdade... Eu tenho que desconfiar de uma de minhas amigas...

– Acalme-se, Maxwell! — Disse Luna, numa voz alta — Eu já lhe disse para não se entregar às suas emoções! Continue refletindo.

Maxwell respirou fundo.

– Ok... Eu quero continuar a investigação!

– Tem mais algo te incomodando? — Perguntou Luna.

– Sim... Aquela menina, Yuu Asuka, morreu no meu apartamento, quando só eu e ela estávamos lá.

Luna riu.

– Confesso que até essa me deixou confusa. Mas vá em frente.

Maxwell colocou as mãos em seus bolsos.

– Naquele dia... Ou melhor, naquele Fragmento, ela se ofereceu para vir até meu apartamento e me ajudar com o caso do Cruzeiro. Eu havia contado apenas para minhas amigas, e pedi para que não contassem a ninguém.

– Então... Qual o seu raciocínio?

Maxwell refletiu por alguns segundos.

– Temos três probabilidades. A primeira é a de que a própria Yuu contou para alguém, que a seguiu até Tóquio, e a matou durante a noite.

– É válido. — Disse Luna — Qual a segunda?

– Hum... A segunda é a de que alguma das minhas amigas acidentalmente contou para alguém.

– Acidentalmente? Por que você diz isso?

– Porque eu não posso acusá-las por enquanto... Mas essa é a terceira hipótese... De fato, foi uma delas.

Luna encarou Maxwell.

– Acho que você colocou todas as probabilidades possíveis nesse caso.

– Eu não consigo pensar em alguma outra... De fato houve um assassinato no meu apartamento, e não fui eu.

Maxwell olhou para Luna.

– Tem outra coisa me incomodando nesse mesmo Fragmento. A ligação telefônica.

– Ah, sim... Você teria ligado para Yuka e a atraído para a floresta. Correto?

– Sim. Mas não fui eu quem fez isso. Alguém se passou por mim... E eu ainda não sei quem é.

– Você estava mesmo na floresta, não estava?

– Sim, eu queria esfriar a cabeça... Havia sido uma terrível manhã. Mas não fiz nenhuma ligação. Em outras palavras, o assassino sabia que eu estava na floresta, se passou por mim, e atraiu meus amigos para lá.

Luna sorriu novamente.

– Maxwell, estou gostando muito de você.

– Obrigado... — Respondeu Maxwell, com um leve sorriso — Mas o mais estranho é o que acontece depois...

– Sim... Takamura, Satomi e você foram mortos por um atirador.

– Eu não faço a menor ideia de quem seja esse atirador. Mas algo ocorreu de forma diferente dessa vez.

Luna se interessou.

– Hum... Me diga o que é.

– Até então, todos foram mortos com armas brancas. Takigawa, todas as minhas amigas, e a Yuu... Em todos os casos, a morte ocorreu devido a um corte ou a uma espécie de facada. Por que nesse caso foi com uma arma?

Maxwell pensou.

– É fato de que matar tanta gente é mais fácil com uma arma de fogo. Porém... Eu não sei qual o motivo exato, mas... Acho que havia mais de um atirador naquela floresta. Não parece trabalho de uma única pessoa.

Luna fechou os olhos.

– Teoria válida. Não é difícil mais de uma pessoa se esconder em uma grande floresta escura.

– Além do mais... O local onde Takamura foi morto, e em seguida Satomi eram um pouco distantes, e as mortes ocorreram num período pequeno de tempo. A menos que o assassino correu toda a floresta junto com Yuka, e depois atirou em Satomi, a teoria de que havia mais de um assassino aumenta.

– Gostei. Você está raciocinando muito bem, Maxwell.

Maxwell pensou um pouco.

– Se esse é o caso, então poderia haver um grupo de criminosos, e não uma única pessoa.

– Hum... Acho que você pode melhorar esse pensamento.

– Como assim? — Perguntou Maxwell.

– Desculpe, mas não posso dar dicas. Tente refletir um pouco.

Maxwell cruzou os braços, baixou a cabeça e começou a pensar.

– A única hipótese que posso pensar... É a de que os criminosos da floresta estavam trabalhando com alguém. — Disse Maxwell.

– Como assim...? — Perguntou Luna.

– Naquela tarde eu havia feito um piquenique com minhas amigas, e revelei que Yuu viria para meu apartamento. No entanto, a menos que elas tivessem contado para alguém, só elas sabiam. Isso me leva a crer que... De fato, uma delas estava envolvida.

– Você está começando a desconfiar de suas amigas... Se sente bem fazendo isso? — Perguntou Luna, de olhos fechados.

Maxwell fez uma expressão de tristeza.

– Claro que não. Mas você mesma disse que eu não deveria me render as minhas emoções.

– Sim, eu disse...

– Mas ainda tem algo que preciso descobrir...

– E o que seria?

– Se uma de minhas amigas contou, ou estava trabalhando com alguém... Preciso saber quem era!

Luna ficou surpresa.

– Bem... Você terá que estudar novamente os Fragmentos. Mas dessa vez, focando nas suas amigas. Tentando encontrar uma forma de encaixar alguma delas como a culpada.

– Isso não vai ser muito fácil...

Naquele instante, Maxwell e Luna escutaram o que parecia ser um carro se aproximando do ginásio. Mas era muito barulhento para ser um simples carro.

– Heim?! O que é isso? — Perguntou Maxwell.

– Hum... Parece que chegaram mais cedo do que eu pensava. — Disse Luna, calmamente.

Maxwell levou um choque.

– Você... Você me atraiu para alguma armadilha?!

Luna não respondeu. Apenas baixou sua cabeça e mexeu em seus cabelos.

Alguns segundos depois, a porta do ginásio se abriu com violência. Três homens, vestidos com terno preto, gravata, e óculos escuros entraram. Pareciam seguranças ou algo do tipo. Lentamente, se aproximaram de Maxwell e Luna.

– Quem são vocês?! — Gritou Maxwell.

O homem que estava mais a frente fez sinal para os dois que estavam atrás dele. Os dois foram na direção de Maxwell.

– Afastem-se!

Maxwell tentou puxar seu revólver, mas percebeu que todos os seguranças estavam armados. Era besteira tentar atacá-los, e ele não tinha para onde fugir. Estava preso.

– Você sabia, não é? — Perguntou Maxwell, para Luna — Você me atraiu para cá!

– Estou decepcionada, Maxwell... Pensei que você era bem melhor em investigações.

Os dois seguranças que estavam mais a frente pegaram Maxwell pelos braços. O terceiro segurança se aproximou, e com uma arma de choque, atingiu o peito de Maxwell, fazendo-o desmaiar.

– Vamos embora. — Disse Luna.

Luna se virou, quando um dos seguranças encostou em seu ombro.

– Você não devia ter ido tão longe do laboratório. Sabe que é perigoso ficar exposta.

– Tudo bem... Eu peguei o detetive, não peguei? Essa era minha missão. — Respondeu Luna.

Luna se virou para Maxwell, que estava inconsciente, sendo levado pelos dois seguranças.

– Esse homem é inteligente. Cedo ou tarde ele descobriria tudo. O que faremos com ele?

– Ele pode ser a armadilha perfeita para pegarmos o DNA da lutadora lendária. Agora que ele ficou próximo a ela, podemos usá-lo como isca.

– Tomem cuidado com ele... Faltou pouco para descobrir quem é a nossa assassina.

– Não se preocupe. Mesmo que ele descubra, não poderá contar para ninguém.

Luna riu.

– Então vamos.

Luna se aproximou de Maxwell e colocou a mão em sua cabeça.

– Gostei de brincar com você, Maxwell.