Vampires Will Always Hurt You
2 I Miss You More Than I Did Yesterday
Notas iniciais
A luz que penetrava pela janela não lembrava em momento algum a do sol. Compreensível visto que estavam no inverno. Gerard terminou de ajeitar a clégima na camisa perfeitamente preta de mangas longas, e passou os dedos pelos cabelos pretos e lisos observando que debaixo dos olhos verdes, bolsas arroxeadas formavam-se, destacando-se no rosto empalidecido pela perda constante de uma quantidade razoável de sangue. Soltou um logo suspiro olhando para o relógio que marcava cinco horas e cinqüenta e três minutos. Faltava muito para anoitecer, e era justamente isso que o enlouquecia. Não era a dor nas marcas mais recentes em seu pescoço, as tonturas que começara a sentir há algum tempo, e nem as fraquezas – estava alimentando-se bem, sabia disso – que o incomodava. Mas parecia que o dia demorava a passar, que as horas arrastavam-se preguiçosamente até que ele não conseguisse mais suportar e rezasse o rosário, várias vezes seguidas, para ver se o tempo passava. E quando a noite finalmente chegava e ele fazia a última celebração, queria que ainda fosse dia.
Estava ficando louco. Ainda era dia.
Soltou um suspiro irritado, saindo do quarto e descendo as escadas apressado. Não que estivesse atrasado, colocar a batina para ele era tarefa simples, mas a raiva e a confusão o deixavam assim. Parou à porta da sacristia, recompondo-se. Sorriso perfeito estampado no rosto, abriu a porta deparando-se com quatro pequenos meninos já paramentados: seus coroinhas. Uma senhora idosa acendia a segunda vela de um pequeno minorá sobre uma mesa.
-Bom dia, Pe. Way! –exclamou ela com um sorriso maternal, que ele correspondeu a contragosto. Ainda era dia.
-Bom dia, Sra. Waters, como está hoje? –perguntou abrindo o armário e pegando respeitosamente os paramentos. Não estava prestando a menor atenção ao que ela dizia, respondendo ocasionalmente um “sim”, “claro”, “com toda razão, Sra. Waters” ocasionalmente, entre uma pausa e outra. Terminou de colocar os paramentos assim que a velhinha deixou a apertada sala da sacristia. Os quatro barulhentos coroinhas estavam animados, era o que pareceu. Pobres crianças, acordando tão cedo em pleno domingo, pensou. Acompanhado das crianças, foi para a porta da igreja, fazendo todo o ritual de entrada enquanto um coral impecável cantarolava feliz o rito inicial. Alguma coisa misturada com “aleluia” “oh senhor” e “graças pela manhã tão linda”. De fato ergueu a cabeça olhando por um dos vitrais da catedral, procurando onde estava a droga da bela manhã de qual a música falava. Ainda era dia.
Subiu o degrau de mármore do altar, encarando a assembléia com um falso sorriso sereno. Podia distinguir na primeira fila da catedral lotada a Sra. Waters e Marie ao seu lado, ambas agarradas aos folhetos da missa. Gerard ergueu a mão direita, fazendo o conhecido sinal da cruz:
-In nomini Patri, et Filii, et Spiritus Sancti... –começou suavemente enxergando a luz da manhã cinzenta pelas portas abertas ao fundo da catedral.
Ainda era dia. Mas que inferno!
Mas a noite sempre chega, e para Mikey chegou mais rápido do que ele poderia querer. Era hora de começar o real trabalho, o que significava, naquele dia, que deveria partir da última missa direto para casa.
A chave girou e em seguida a fechadura foi aberta. Entrou na pequena casa e preparava-se para apoiar o casaco em uma cadeira próxima à porta, quando o ambiente lhe informou: não estava sozinho. Pisando o mais leve que pode, dirigiu-se até seu quarto. Sim, não estava só. Havia uma figura pálida, vestindo uma calça negra e camisa branca — ambas um tanto velhas -, deitada sobre a cama de lençóis alvos. Folheava O Grande Livro – A Bíblia – distraidamente, parecendo não notar que já não estava apenas ele ali.
- Leitura batida esta – falou de repente – Um enredo simples amarrado com uma infinita sucessão de clichês... – sorriu sarcasticamente e jogou o livro em cima do criado mudo, o lugar onde sempre estivera – Precisa melhorar um pouco seu gosto literário, Michael... – e olhou para ele, o sorriso se tornando ainda mais sarcástico e divertido – Brincadeirinha. –Acrescentou para amenizar a expressão fria de Mikey.
- Já disse que não me agrada vê-lo entrar assim em minha casa.
- Desculpe-me — mas estava pouco se importando, Mikey sentiu.
O ambiente ficou silencioso enquanto o caça-vampiros retirava as botas de couro grosso.
- Vim porque você me pediu... não se esqueça – Frank voltou ao assunto como se ainda estivessem debatendo sobre ele. Era verdade, Mikey marcava reuniões assim para poder coletar informações sobre os malditos da noite, estes que Frank conhecia muito bem.
- Eu sei... Mas, antes... — manteve o olhar fixo no rosto lívido, quase transparente de Frank. Parecia mais sobrenatural assim, não havia muitos traços humanos. Então, desviando o olhar, foi até o armário e retirou de lá uma caixa. Quando o pequeno caixote foi tocado pareceu ganhar vida, e tremeu furiosamente, gemendo em desespero. – Apanhei ontem, quando cheguei.
Frank viu ratos mexendo-se desesperadamente, tentando escapar daquele ambiente claustrofóbico. Morrendo de sede, apanhou imediatamente um ser de pêlos grossos e marrons. Apertou-o com tanta força, que pode sentir quebrar os ossos da pequena e frágil criaturinha. Mikey observou enquanto ele rasgava a garganta do primeiro rato, sugando-lhe o sangue com ferocidade. Rapidamente fora pro segundo, e então terceiro. Acompanhou aquela cena durante todo o tempo sem retirar seus olhos de cima dela.
Aquele tipo de espetáculo não agradava sua visão — sentia engulhos em ver o vampiro destroçando suas pequenas vítimas – mas algo acontecia quando Frank bebia aquele líquido rubro. Seu rosto tornava-se menos opaco, os olhos ganhavam brilho, os traços se acentuavam. Gostava de admirar aquela mutação. Fazia com que o vampiro ficasse ainda mais atraente do que já era.
Depois de limpar com a manga da camisa os vestígios de sangue da boca, Frank pareceu mais satisfeito, e até sua expressão dura se suavizou.
- Hum, antes que esqueça... – Frank apontou para a escrivaninha perto da janela, aonde havia algo embrulhado em um pano de prato xadrez – Sua amada também cuidou de sua alimentação.
Mikey tossiu um pouco nervoso e levantou-se pegando o embrulho em seguida.
- Nada de mais – Frank continuou, as mãos entrelaçadas por cima da barriga, um tom de voz suave – Carne, batatas, arroz... – enumerou com a ajuda dos dedos, e indicando uma leve expressão de nojo – O mais saboroso é o que vem junto, não é?
O rapaz sabia do que ele estava falando. Pelo amassado do papel, parecia que o bilhete que estava na mesa já havia sido violado. Sentiu que a garganta ficara seca e que seu rosto começava a ganhar um tom róseo. A letra bem definida e elegante demonstrava que, claramente, uma mão feminina e jovem rabiscara aquelas palavras.
“Querido Mikey,
Odeio chegar a sua casa e não te encontrar, principalmente tão tarde da noite. Sabe o quanto me preocupo com você, e que se algo te acontecer, ou a Gerard, não suportaria tal dor. Sinto que não está se alimentando direito e dormindo pouco. Cuide melhor de sua saúde. Deixo um pouco de comida, caso chegue da Igreja com fome.
Com Amor, Marie”.
Frank dublava comicamente cada palavra que estava na carta. Depois parou e riu baixo durante alguns instantes.
- Que gracinha, Michael – levantou-se da cama rapidamente e se pôs ao lado de Mikey em uma velocidade impressionante – a namoradinha preocupada com sua saúde...
- Marie é uma amiga. Cresceu comigo e com Gerard. Ela e sua mãe sempre nos deram apóio quando ficamos órfãos. – explicou ligeiramente, como se precisasse dizer aquilo,mesmo sem entender bem o porquê de tal necessidade.
- Eu sei, eu sei... Já me explicou sobre tal donzela. Inclusive já a visitei algumas vezes, de longe. Belíssima garota! Cabelos lisos e dourados! Tão longos que batem em sua cintura fina e delicada... – fingiu um suspiro.
Mikey lhe fitou com os olhos muito desconfiados. Não gostou da maneira como ele a descreveu. Pareceu vislumbrar um reflexo vermelho dentro de sua íris.
- Como é, Mikey? Está receoso por ela? – Frank leu sua mente, obviamente. Podia fazer isso, Mikey sabia, mas, naturalmente, esquecia-se. –. Sabe que não a machucaria. Me conhece.
- Não, não o conheço. – afirmou – não nos conhecemos a tempo o suficiente para que possa confiar em uma criatura como você – soou frio e letal, até mesmo ele se assustou com as palavras tão rudes que saíram naturalmente de sua boca.
Frank abriu um largo sorriso. Depois o desmanchou aos poucos e disse sério.
- Mortais... Tão estranhos. Às vezes penso que “criaturas como eu” têm maior capacidade de amar que vocês. Não esperamos tanto tempo para revelarmos o que queremos. – penetrou muito fundo nos olhos do rapaz – Nossa imortalidade faz com que sejamos assim. Se simplesmente vivermos a vida, deixando as coisas passarem, ela se tornará insuportavelmente chata. Vocês deveriam arriscar mais. – ele sorriu sarcasticamente, amenizando a seriedade – Afinal, vocês não viverão para sempre, como nós.
Michael ficou aturdido e confuso com aquela face que Frank havia apresentado. Como se uma luz tivesse se acendido em meio a uma escuridão, lhe veio à cabeça uma questão importante, mas que nunca lhe ocorrerá perguntar.
- Frank, por qual motivo não bebe o sangue de humanos? – foi direto.
Frank pareceu se assustar. Seus olhos se arregalaram por alguns segundos. Seu rosto perdeu o sarcasmo ou seriedade, parecia ter algo de muito humano em sua expressão, algo como... Tristeza.
- Porque, — foi somente depois de alguns minutos que começou a responder – da última vez que senti o gosto de sangue humano, matei uma parte de mim.
Foram milhões de lâmpadas se acendendo na cabeça do rapaz. Quis perguntar sobre o que aquilo significava, o que ele queria dizer, mas não o fez. Parecia que desrespeitaria alguma coisa, de alguma forma. Mesmo sabendo que talvez Frank respondesse o que ele assim desejasse, não ousou perguntar.
O olhar de Frank pareceu se fixar em algum ponto muito distante dali. Seu corpo estava na frente de Mikey, mas ao mesmo tempo sua alma vagava em algum lugar repleto de lembranças dolorosas. Havia uma pequena poça de lágrimas presas aos dois olhos.
O garoto virou o rosto. Recusava-se a ver um ser tão poderoso e de natureza cruel chorar. Chorar é para os humanos e seus bobos sentimentos. Lágrimas devem rolar sobre os rostos dos mortais, assim como as que começaram a escorrer no rosto de Michael. Encostou os dedos sobre o liquido quente que caía de seus olhos. Lágrimas? Estava chorando? Mas por quê? O que continha na tristeza de Frank com o poder de quebrar algo dentro do coração alheio?
Frank foi quem interrompeu aquele momento melancólico, que levou muitos minutos em total silencio. Ergueu a cabeça de Mikey contemplando seus olhos. Sorriu.
- Esse seu olhar... Me responde perguntas que atormentam meu ser todas as vezes que o vejo.
Mikey foi capaz de formular milhares de interrogações sobre o que o vampiro falava, mas não foi capaz de dizer nada. E Frank responderia, como sempre. Mas ele não queria ouvir essas respostas. Não agora.
Fechou a última trava da catedral. Finalmente a missa da noite havia acabado, e Bert não havia aparecido. Talvez tivesse enjoado dele já. Ou tivesse desistido do trato e estava atrás de Mikey. Olhou ao redor, aflito. Pensou em abrir a porta e sair correndo atrás do irmão mais novo, mas o que pensaria a cidade se o padre saísse logo após a missa gritando pelo irmão desesperadamente, alegando que o vampiro que lhe visita todas as noites não deu as caras? É, era melhor confiar na proteção do Senhor por enquanto. Virou-se caminhando pelo corredorzinho que dava acesso à sacristia, segurando o candelabro com as velas acesas. Pousou-o sobre a mesa, guardando o missal no armário. Já havia tirado os paramentos, dobrando-os e pendurado no armário. Estava arrumando o pote com as hóstias não consagradas quando as velas se apagaram. Não precisou olhar para trás para saber o que estava acontecendo.
-Bert, acenda as velas. –ordenou sem se mexer.
-Você tentou me trancar para fora, e eu estou muito magoado, Pe. Way. –comentou fingindo tristeza, sem conseguir segurar um risinho no final da frase.
Gerard fechou a porta do armário fitando a figura sobrenatural na parede oposta, iluminado apenas por pedaços recortados de luz da lua que atravessavam o vitral.
-Vá embora, Bert. –ordenou. Estava fraco, cansado e dolorido. Passara o dia fazendo coisas bonitinhas para a população só para que o dia passasse rápido e anoitecesse, e agora, olhando para a expressão cheia de cinismo estampado na cara do vampiro à sua frente, tinha ímpetos de fazê-lo engolir seu exemplar da Bíblia Sagrada. Começou a mexer-se na direção do candelabro, mas Bert moveu-se para sua frente. Havia esquecido como o vampiro era rápido. Ficou parado, deixando que Bert se aproximasse confiante. Deixou que ele estendesse a mão e tocasse seu rosto, e quando isso aconteceu, mesmo com a vontade quase incontrolável de permitir que ele seguisse em frente, virou-se correndo na direção do corredor para a casa paroquial. Talvez se ficasse trancado aquela noite, não pecasse.
Não sabia por que corria. Era inútil. Sentiu as mãos frias o prensarem grosseiramente contra a parede de pedras, segurando seus pulsos firmemente acima de sua cabeça. Estava encostado de frente para a parede e, colado em seu corpo, estava Bert, lábios mordiscando sua orelha:
-Gerard, Gerard... Já esqueceu do seu irmãozinho?
-Não enche, Bert! – tentou soltar, querendo parecer mais bravo do que realmente estava. Foi violentamente virando de frente e em seguida a boca de Bert já pressionavam a sua que estava cerrada. Tentou escapar daquele desejo terrível virando o rosto para os dois lados. Bert o encarou com uma expressão um tanto irritada, mas amando a brincadeira. Abriu a mandíbula e mordeu a tenra carne daqueles lábios.
- Ai. – gemeu de dor, abrindo espaço o suficiente para que o vampiro pudesse penetrar com sua língua. Um filete de sangue escorreu pelo queixo do padre, que cedera totalmente ao pecado, relaxando o corpo. Bert permitiu que ele tivesse os braços soltos e as mãos do clérigo buscaram imediatamente tatear as costas do vampiro em desespero.
- Tão sujo... Tão sujo... – Bert sussurrou malicioso enquanto uma das mãos apalpava o que havia entre as pernas do padre, fazendo com que o corpo do mesmo se arrepiasse de prazer.
A cabeça do religioso pendeu para trás e seus olhos reviraram nas órbitas quando seu pescoço foi novamente imaculado por aqueles caninos afiados. Percebeu com horror que um dos garotos coroinhas estava ali, parado no fim do corredor. Os olhos do moleque se arregalavam chocados com aquela cena. Os lábios machucados de Gerard se mexeram, mas não emitiram nenhum som. Seu cérebro pareceu não raciocinar.
Não podia avisar Bert o que estava acontecendo. Com certeza despejaria toda sua fúria em cima do garoto. Mas não podia deixar que o menino saísse dali para contar o que viu para os pais.
O que a comunidade faria ao vê-lo assim? Perguntou-se em silêncio.
Talvez pudesse inventar um desculpa... Afinal aquele é um ser maligno, do demônio, e ele o estava atacando! Ninguém desconfiaria...
Mas e o que fariam à Bert? A população se livraria daquela desgraça para sempre? Nunca mais precisaria vê-lo e nem cederia mais as suas chantagens? Ele seria queimado vivo na praça? Os membros seriam mutilados? Não existiria mais? Aquilo lhe incomodou de uma maneira estranha.
Gerard não teve muito tempo para pensar. Enquanto sentia o êxtase causado pela mordida e o estimulo em seu órgão aumentarem, não lhe vinha um único pensamento em sua mente perturbada.
Tomou então a alternativa que seguiria. Sem ter tanta certeza do que estava fazendo, com um ultimo esforço empurrou o rosto do perigoso amante.
- O... garoto... – entregou ofegante.
Bert olhou imediatamente para a pequena criatura parada perto a porta — não devia ter mais de onze anos — e em seguida voltou a encarar o padre, como se esperasse por alguma ordem.
- P-pegue-o... – disse praticamente desmaiando.
E antes que pudesse se dar conta, Bert já correra em direção à criança, rasgando sua garganta de forma violenta e rápida.
Gerard viu o sangue espirrar nas paredes daquele recinto sagrado. Uma dor pareceu querer lhe perfurar o crânio e de repente tudo ficou negro.
Fale com o autor