Vampires Will Always Hurt You
3 It's Hard To Say
Ainda na mesma noite fria – como todas as outras tinham estado por pelo menos um mês agora – ninguém desconfiava o que acontecia em uma casa razoavelmente grande próxima à Catedral. Tinha as paredes pintadas em um tom claro de marrom, um grande jardim com roseiras e portões cheios de adornos. Em sua lateral uma grande varanda saía para a rua fazendo uma pequena cobertura sobre a calçada.
Um senhor de bem caminhava com sua senhora, voltando da missa. A bengala em mãos, embalado em uma conversa animada sobre alguma coisa agradável, quando, algo caiu em sua cabeça. Havia acabado de sair da missa, não deveria xingar mas, os modos do rapaz sentado à varanda daquela casa não eram os melhores. Os pés balançavam pra frente e pra trás enquanto segurava um pedaço de queijo (queijo?) na mão.
-Hey! – gritou para o rapaz, que acenou sorrindo.
-Não se preocupe, senhor! É Parmesão! – respondeu abrindo um sorriso ainda mais largo. Não sabia o porquê, mas achava melhor não discutir com aquele maluco. Apertando o passo o senhor católico desapareceu com sua esposa.
-O que você está fazendo Branden? –perguntou o outro rapaz debruçando-se na varanda onde o vampiro estava, o pedaço de parmesão ainda seguro nas mãos.
- Estava arremessando pedaços de queijo! Acertei um cara. –respondeu, um sorriso insano em seu rosto. O outro vampiro também sorriu, limpando o resto de sangue na boca com a manga da blusa. A casa em que se encontravam não os tinha como proprietários. O queijo que era cortado por dedos ágeis e jogado aos ares também não havia sido comprado por eles. Mas os donos, da casa e do queijo, já não estavam mais vivos para aproveitarem o que tinham. Duas mulheres, mãe e filha, encontravam-se largadas desrespeitosamente sobre o tapete caro da sala.
-Ainda vai procurar mais comida, Jepha? –perguntou Branden jogando o resto todo do queijo na rua, errando por pouco duas garotas que também voltavam da missa.
-Talvez. Mas por diversão, eu não estou mais com fome. –disse pulando da varanda para a rua deserta. Branden fez o mesmo, caindo ao lado dele.
-Eu estou entediado, de verdade. –comentou quando começaram a andar. –Podemos pegar alguns caras, pra variar?
Jepha sorriu sem o olhar. Sabia o que Branden queria dizer. Fazia algum tempo que só matavam mulheres, escolhidas a dedo. Eram alvos fáceis de sedução, e alimentavam bem seus egos com elogios. Mas era simples. Conquistavam-se facilmente, morriam facilmente. Não tinham a complicação dos homens, sua incredulidade. E Jepha sabia que Branden gostava de desafios, tanto que por hoje saíram antes de Ray. Caçaram sem sua supervisão, o que o fazia acreditar que no momento Ray estava sentado confortavelmente em sua poltrona planejando como castiga-los, ou como destruí-los de vez. Nem ele nem Branden tinham medo, no entanto. Se Ray os matasse aquela noite, pelo menos teriam se divertido bastante.
-Jepha, que tal alguns bêbados? –exclamou Branden apontando dois rapazes entrando em uma rua, abraçados, um apoiando-se no outro. Jepha abriu um largo sorriso.
-Isso vai ser engraçado! – e partindo como sombras rápidas.
“Tanto tempo atrás” Frank pensou muitas vezes nessa mesma frase naquela noite,vagando sozinho pelo French Square, quando saiu da casa de Mikey. Muitos flashes bombardearam sua memória. Se fechasse os olhos poderia sentir o cheiro do passado lhe invadir as narinas: há bolo no forno. É dia da festa de despedida. O jovem Benjamin Iero voltará aos cuidados de seu tutor, Sr. Hitcher, depois de férias de verão com a família. Veja como é bem educado. E que inteligência impressionante! Reparem em sua beleza! Não é a toa que Giulia se gabe tanto por ser sua noiva!
Ah, Sr. e Sra. Iero estão tão radiantes.
E quem notaria em Frank os observando? Quem notaria sua total obsessão pelo irmão mais velho? Alguém se importa se o sonho dele também fosse estudar? Alguém notou o ódio que se desenvolvia em seu coração?
Mas a situação de Frank iria mudar naquela noite. Mas ninguém sabia, nem ele. Foi realmente sorte ter escolhido aquele bar para encher a cara e esquecer de tudo. Se não fosse por esse bar as coisas seriam diferentes. Pois não teria existido aquele homem sentado no balcão, os olhos o examinando minuciosamente. Havia algo de diferente naquele cara. Não era simplesmente pela sua palidez, ou a maneira peculiar como se movimentava. Ele era estranhamente... Envolvente.
Seu rosto redondo e o nariz largo denunciavam sua descendência latina. Os cabelos ruivos e grossos ficavam presos em um rabo de cavalo baixo. Não era bonito, mas uma magia desconhecida parecia lhe tomar conta. Sua voz fina e suave demais para um homem, exercer algum tipo de poder hipnótico. Foi só bem mais tarde que Frank descobriria que este poder realmente existia.
Aproximou-se discreto e puxou conversa. Do papo Frank pouco se lembra, estava bêbado demais.
Divagou um pouco sobre campos e colheitas e, inexplicavelmente, terminou com seu desabafo, seus complexos de “filho esquecido”.
A conversa deve ter sido muito chata e sem sentido, mas o cavalheiro parecia prestar muita atenção no que ele dizia. Ou talvez fosse só na artéria pulsante em seu pescoço.
Quando já estava muito tarde, Raymond – sim, era esse seu nome – convidou o jovem Iero para visitar sua casa na noite seguinte. Na verdade disso Frank não se lembra, mas quando chegou em casa, tropeçando, notou um pedaço de papel dentro do bolso do casaco. “Visite-me. R.”
Naquela época era muito mais impulsivo que hoje. Mesmo desconfiando de algo muito estranho naquela história, na noite seguinte, sua ambição o fez partir para o lugar que o endereço, também anotado no bilhete, lhe indicava.
Não precisou chegar muito perto para notar que a “casa” de Raymond era uma bela mansão.
A família Iero era de descendência muito humilde. Possuíam um pequeno pedaço de terra onde plantavam produtos para a própria subsistência. Nunca em sua vida, Frank tivera oportunidade de entrar – como convidado – em um lugar tão requintado.
Raymond o recebeu cordialmente. Sentaram-se na sala de visitas, onde uma escrava serviu vinho para ambos.
O anfitrião demonstrou-se interessado nos planos de Frank – todos não muito elaborados, que soavam mais como idéias soltas. “Estudar”, “Trabalhar”, “Enriquecer”. — e constantemente o interrompia para elogiá-lo pela inteligência. Dizia ter uma esperteza natural e um talento nato para a música e línguas. Frank sabia de tudo aquilo, mas com toda a valorização que davam ao irmão Ben acabara se esquecendo de suas próprias aptidões. E era tão bom ouvir a voz do reconhecimento alimentar seu ego.
Aquela conversa lhe fez um enorme bem. E saiu de lá com a alma leve e a promessa de voltar na noite seguinte.
E assim foi durante um mês, mais ou menos. Encontrava-se com Ray – ele exigiu ser chamado assim – e ficavam durante algum tempo discutindo sobre história, as viagens de Ray pelo mundo, artes e música. Constantemente Ray passava horas ensinando novas técnicas e melodias de piano para Frank
Foi com felicidade, mas não tanta surpresa, que o jovem foi indagado sobre se aceitaria tê-lo como tutor. Chegou em casa com um enorme sorriso. Não se importou se sua família não estava ligando. Pensou em Ben com um sorriso vencedor: teria um tutor muito melhor que o velhote Sr. Hitcher. Ray combinava experiência e vitalidade. E inevitavelmente, isso acabou suscitando algumas dúvidas na cabeça de Frank. Afinal como um homem pode ter tanta sabedoria sendo, aparentemente, tão jovem? E por que os encontros sempre precisavam ser noturnos? Onde ele ficava no resto da tarde?
Mas não demorou nem seis meses como aprendiz para que tudo lhe fosse respondido da maneira mais estranha que ele podia imaginar.
Naquela noite, ao chegar a Mansão Toro encontrou Ray acompanhado. Foi apresentado imediatamente. Robert, como Ray lhe informou, era um outro aprendiz, um pouco mais antigo que ele.
Frank foi cumprimentá-lo, mas Robert fitou sua mão estendida com um sorriso estranho. Era jovem, assim como ele, o cabelo ondulado batia nos ombros. O rosto era branco como o de seu tutor, mas possuía uma aparência doente que nada combinava com a serenidade de Ray. Parecia preocupado e o fascínio com que olhava a pele de Frank foi exagerado.
- Sim, eu sei – Ray disse para ele enquanto o afastava de Iero – Tão vivo... – Frank olhou confuso – Mas contenha-se.
Aquela noite ficaria ainda mais esquisita.
Após algumas horas percebera que Robert não conseguia parar quieto. Olhava ansioso para o campo pela janela da sala enquanto Frank e Ray jogavam xadrez.
- Não agüento mais! – vociferou de repente – Por que me faz passar por essa tortura?
- Entenda querido Bert – Ray disse sem tirar os olhos de cima do tabuleiro – Deve aprender a canalizar a sua fome...
- Para quê? – começou a perder o controle e agora Frank já não tinha mais concentração, estava ficando assustado – Estou a ponto de pular em cima desse seu novo brinquedinho!
Uma coisa gelada pareceu estacionar no estômago de Frank, que procurou os olhos de Ray para que se tranqüilizar. Ray sorriu doce como se dissesse que tudo estava bem, mesmo que sua boca não se mexesse.
- Agarre-o. – então disse.
Foi rápido e confuso. No segundo seguinte, Iero sentiu que algo o havia atingido derrubando-o no chão, junto com o tabuleiro e as peças. Percebeu aterrorizado que Robert deitara-se em cima dele. Sentiu uma dor lancinante quando o outro lhe cravou os dentes no pescoço.
Tentou lutar inutilmente, mas Bert o segurou firme. Se não estivesse vendo aquilo acontecer juraria que ele não teria tal força.
Uma nova onda de dor lhe atingiu, Raymond se juntara a Robert, e agora sugava o sangue de Frank por uma fenda no pulso.
Estava prestes a perder os sentidos. O corpo já não doía mais, estava todo anestesiado. E quando pensou que enfim estivesse acabando, que estava morrendo, sentiu algo pressionando seus lábios. Antes que pudesse entender o que acontecia sua boca já estava sugando levemente, como em um beijo, e um líquido salgado jorrava para seu interior.
- Beba querido, – era aquela voz suave novamente – Sinta.
Seus olhos se abriram devagar. Ray fitava seu rosto, o mesmo sorriso nos lábios. Apertava o próprio pulso aberto na boca de Frank.
Aquele prazer que sentia era maior do que qualquer outro, ao mesmo tempo em que seu corpo encontrava-se ainda mais mole, desfalecendo. Apenas um pensamento vinha em sua cabeça obsessivamente, sem que o pudesse evitar. “Não posso morrer agora... Ainda não sou melhor que Ben.”
- Mas será. – Ray respondeu a voz de sua cabeça.
Ainda hoje quando força-se a lembrar de tudo não consegue compreender como adaptara se àquilo tão facilmente. Parecia nascido para ser vampiro.
Sua ambição e frieza triplicaram de maneira absurda. Matava diariamente pessoas no calar da noite para poder sentir o gosto de seu sangue. Os sacrifícios que aquela vida impunha não eram nada comparados à necessidade de sentir o coração humano bater furiosamente quando cravava seus dentes e ir diminuindo o ritmo aos poucos, até parar. Raymond foi o melhor tutor que poderia ter. Ensinou muito sobre aquele estilo de existência. Tornara-se companheiro nas caçadas de Bert – já que Ray parecia nunca sair para matar, apesar de estar sempre alimentado. Havia entendido logo no começo que não gostava de Bert, eram infinitamente diferentes, e que, evidentemente, ele também não apreciava a companhia de Frank.
Aos poucos sua família começou a notar que os hábitos do filho mais novo tornavam-se estranhos. Começou a exigir poder dormir no porão, local que mantinha trancado à chave todo o tempo. Era ali o único local da casa onde pudera esconder o caixão de carvalho aonde repousava durante o dia.
Tornou-se mais impaciente com os pais e a vizinhança em geral. Saía todas as noites pelas ruas escuras. As beatas e os vizinhos alertaram Sr. e Sra. Iero para o comportamento estranhos de Frank. Perambulava altas horas, sempre em companhia de um rapaz forasteiro, diziam.
Sra. Iero preocupou-se com o fato de que talvez seu filho estivesse andando com criminosos, e Sr. Iero começava a se perguntar constantemente o porquê de Frank não preferir a companhia feminina.
Frank não se importava. Mas então, apavorados, seus pais mandaram chamar em segredo a única pessoa que talvez pudesse entender e ampara-los: Benjamin.
Em um dia, quando Frank chegou em casa, reparou que havia algo de errado: a porta do porão estava aberta. Correu para ver o que era. Ben estava ali, uma vela segura nas mãos, os olhos arregalados para o enorme caixão.
- O que está fazendo aqui? – o mais novo perguntou áspero.
- Frank... – Ben o olhou, a boca entreaberta – Nossos pais estão preocupados, mandaram me chamar. Pensei ser só um comportamento passageiro, mas... O que isto significa?
- Significa que sou melhor que você – soou infantil, mas só percebeu depois de dito.
- É melhor por ser rude com seus pais? Por assustar a vizinhança? Por ter hábitos assim – e fitou novamente o caixão – tão... estranhos?
Frank sentiu um ódio percorrer todo o seu corpo. Aproximou-se da luz da vela para que o irmão pudesse ver sua nova forma. Apesar de já ter se alimentado o suficiente, ainda possuía aqueles traços e ar vampíricos e sobrenaturais, o que fez Ben recuar alguns passos.
- O que está acontecendo com você? – perguntou veemente.
- Eu cresci e mudei, Ben! Eu posso não ser o filho preferido, nem o mais inteligente, ou o mais bonito, mas agora sou o mais forte! – percebeu que lágrimas escorriam em seu rosto a cada palavra que dizia. Finalmente estava desabafando. Dizendo aquelas coisas que tanto o torturaram em anos. – Eu sou mais forte... – e desabou em pranto.
Não era forte. Chorava assim, como uma criança fraca e indefesa.
Sentiu um calor gostoso envolver seu corpo, que o fez fechar os olhos, aconchegado. Benjamin o abraçava forte, levando a cabeça do irmão a se apoiar em seu peito.
- Eu te amo, meu irmão – disse enquanto afagava os cabelos de Frank – Você é aquilo que mais amo no mundo.
Como Frank quis ficar ali para sempre, experimentando aquele calor junto ao seu corpo frio. Como quis poder dizer o que aquele ato significava para ele. Como desejou tocar os lábios rosados de seu irmão... E quando ele o beijou a vida pareceu ganhar um novo sentido — ou simplesmente o perder.
- Frank... – Ben gemeu enquanto acolhia a cabeça do irmão com carinho. – Frank... – sua respiração falhou – o que... está... fazendo? – os dentes de Frank perfuraram fundo e violentamente – Pare... por favor... – mas o vampiro continuou sugando todo aquele sangue para uma fome que não tinha. – Por quê...? Por... – o corpo robusto e forte de Benjamin perdeu as forças e foi escorregando para o chão, abraçado pelo irmão.
Frank sentia jorrar aquele liquido quente para sua garganta. O coração do irmão, batendo de encontro ao seu, parecia querer continuar palpitando, mas ficava cada vez mais lento. Até que finalmente parou.
Frank olhou para o corpo morto do irmão. Seu grande amor. Sentiu nojo de si mesmo e quis cuspir todo o sangue absorvido para fora.
Ben o amava... Curvou sua cabeça e beijou os lábios do irmão, que já começavam a esfriar.
Olhou tranquilamente para a porta. Sua mãe estava ali. Os olhos fixos no corpo do filho, em estado de choque. Já estava ali há algum tempo, Frank a notara imediatamente, antes que o beijo tivesse sido dado. Levantou-se e parou diante da mãe. Sua boca ainda escorria sangue.
- Hoje eu matei minha melhor parte. – e saiu de lá devagar. Nunca mais a viu.
O relógio anunciava 4h da manhã. Tinha que voltar para casa, antes que amanhecesse. Odiava pensar naquilo. Mas odiava ainda mais o fato de pensar no gosto do sangue do irmão com saudade. Sua natureza vampira era sua pior maldição. O ato de matar lhe dava um prazer tão intenso que fazia com que ele perdesse o controle de sua razão e assim abdicou para sempre desse gozo. Mas o tempo passou e via-se seduzido novamente... Como há um século e meio atrás.
Precisava afastar estes pensamentos da cabeça antes que não conseguisse mais se conter...
- Ah, Michael... – falou para o silencio da noite – Tão vivo...
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