Vampires Will Always Hurt You
1 And Someone Save My Soul Tonight
Notas iniciais
Ficou parado em cima do muro durante algum tempo. Seu corpo pedia pela refeição, mas teria deixar isso para mais tarde. Ficou de pé camuflando suas roupas escuras na noite. O corpo magro confundia-se entre as folhagens de uma árvore próxima. Tentava esconder a palidez de seu rosto sobrenatural. A missa parecia estar acabando, e aos poucos as pessoas dirigiam-se para suas casas. Senhoras acompanhadas de seus maridos em trajes elegantes. Uma bela jovem parou um instante para arrumar o cabelo. Pareceu notar que algo se movia na escuridão. Ignorou o que seria e partiu para dentro da carruagem que a aguardava.
Esperou calmamente que a multidão se distanciasse e então, a sombra – movendo-se tão rápido e imperceptivelmente –, entrou naquele templo sagrado. Não se sentia mal por estar ali. Já fazia muitos anos – mais anos do que se pode imaginar – que lugares assim não significavam nada.
Então pôde vê-lo. Arrumava o altar. Estava sozinho. Percebeu que seus olhos não estavam tão calmos como o mover de suas mãos. Ele sabia que a hora havia chegado e isto o deixava com uma expectativa estranha dentro do estômago. A “sombra” sabia disso. Sabia de muitas coisas, principalmente relacionadas a ele.
O rosto daquele jovem padre se contorceu em algo misturado em ansiedade e pavor quando um barulho de deslizar lhe anunciava que não estava sozinho.
- No confessionário. – a voz assombrosa penetrou nos ouvido do pároco em seu tom habitual: cortante e gelado.
O jovem encaminhou-se até a portinhola e entrou, a respiração ofegante demonstrava todo o seu nervosismo.
- Boa noite, Sr. Padre. – falou educadamente.
- Boa n-noite – gaguejou. – o que deseja?
- Quero me confessar.
- Pois diga. — pigarreou.
Era o mesmo teatro de toda noite.
- Eu matei noite passada, padre. – mexeu, distraidamente, em seus cabelos que batiam em seus ombros.
Este apenas concordou com a cabeça, a expressão escondida por de trás da madeira vazada.
- E matei esta noite também, vindo para cá. – seu tom não era constrangido, e sim divertido. – Foi um jovem rapaz, sabe? Alto, cabelos na testa. Magro e esguio. Ainda posso sentir o cheiro de sua pele – soltou um suspiro – a textura de seus lábios!
O padre pareceu mexer-se.
- Não resistiu quando fui tirando todo seu fluído, pouco a pouco. Os óculos ainda estão caídos lá, coitado – o tom divertido estava ainda mais evidente – ainda posso ouvi-lo dizer: “ me ajude, irmãozinho...”
- Pare com isso! – o ouvinte disse de repente muito enraivecido.
- Por quê? – e soltou uma gargalhada aguda.
- Você não conseguirá me assustar, Bert.
E antes que pudesse registrar o que acontecia, Bert já estava no mesmo compartimento que ele. A cabina apertada fazia seus corpos ficarem muito próximos.
- Não é o que parece, Vossa Santidade. – e sem cerimônias sentou-se em seu colo, deixando-o sem reação.
- O que pensa...?
- Temos um trato, não é? – interrompeu sem se importar. – Não farei nada a seu amado irmãozinho, mesmo que ele procure que eu o faça... Maldito garoto. – esta ultima parte pareceu falar para si mesmo, resmungando. – Mas você tem que me dar o que quero...
O jovem empalideceu-se, mais ainda do que o ser que sentava em seu colo.
- Se alguém me vê aqui...
- ...E eu quero você. – continuou falando, sem prestar atenção no que o outro dizia. – Só isso, não é? – Vagarosamente passou os lábios entreabertos na face do rapaz, roçando as bochechas agora rosadas, sobre as pálpebras que cobriam belos olhos verdes e, enfim, encostando levemente em seus lábios.
O vigário o afastou. E então abriu o colarinho, deixando amostra a carne tenra de seu pescoço pálido.
- Tudo bem, Gerard – Bert sorriu – se quer ir direto ao ponto...
E enfiou seus dentes ali, próximos de outras marcas das mordidas de noites atrás.
Sugou-lhe o sangue muito lentamente, sentindo o corpo daquele que estava embaixo dele se enrijecer, de medo ou prazer — talvez os dois.
Parou muito antes do que se acostumava a beber de suas vítimas. Não que Gerard fosse sua vítima. Era algo como...
- Boa noite, meu amor. –E desapareceu tão rapidamente como havia aparecido,deixando o outro sonolento e fraco, quase inconsciente.
...como uma obsessão.
O vento gelado de New Orleans cortava-lhe a pele, nem a gola alta ou as luvas de couro o protegiam totalmente do frio. Talvez não fosse exatamente do frio que tentava se proteger enquanto enfiava-se quase que inconscientemente por becos escuros e fedidos. Não que sua mente conseguisse registrar os odores, ou algum dos gemidos que vinham dos cantos escuros, implorando por dinheiro pra comprarem bebida e tentarem aquecer-se um pouco. Teria dado tudo que tinha nos bolsos, se não estivesse preocupado com outra coisa. Abraçou o próprio corpo sentindo um arrepio, não do vento frio. Conhecia bem aquela sensação, mas não estava confortável com ela. Virou-se rapidamente, uma estaca de madeira em mãos, apontando certeira para o peito do jovem que encontrava-se parado a menos de 60 centímetros dele. Pousou a mão direita sobre a que segurava a estaca.
Frio., a mente do outro registrou.
-Você não se alimentou hoje. – constatou ele guardando a estaca. O outro esboçou o começo de um sorriso, ainda encarando os olhos por trás dos óculos de aro grosso.
-Você está nervoso, Mikey. –disse agora abrindo um sorriso completo, mostrando os caninos maiores que o normal abertamente. Mikey não sorriu, continuou andando.
-Eu deveria estar na missa. Meu irmão me pediu que fosse hoje, queria manter os olhos em mim, não me disse o motivo. – respondeu, ajeitando o casaco comprido e a mochila transversal que carregava. Usava óculos, e passaria por um estudante normal não fosse pelas altas botas de couro equipadas com estacas amarradas do lado de fora, um cinto com um rosário de pérolas, um grande crucifixo, de prata no pescoço, desenhado e detalhado com pedras vermelhas. Disso tudo, a única coisa que indicava a profissão que clamou para si, eram as estacas. Ser um caça-vampiros era pra ele motivo de orgulho, trabalhar pelas causas divinas. Sabia que quando matava um vampiro, não estava matando um ser humano, estava apenas livrando um corpo vazio da possessão de um demônio. Se não o fizesse, mais seres humanos justos teriam suas vidas tiradas.
-Por que não estava na missa, então? –perguntou o vampiro que o acompanhava. Sim, um vampiro.
-Tive um trabalho para fazer. – resmungou Mikey parando à porta da grande catedral.
Mikey passou os olhos pelas paredes de pedras que começavam a ser engolidas pela folhagem que havia sido verde vivo durante o verão, e que, agora no inverno não passavam de galhos secos esgueirando-se por todo e qualquer espaço encontrado. No alto da torre havia uma luz fraca acesa. Frank o observava enquanto ele se encolhia de frio. Humanos... Como queria sentir como eles, poder sentir os efeitos do vento gelado em sua pele. Queria poder tomar alguma coisa para se aquecer, ou poder passar o braço por cima dos ombros do garoto à sua frente sem ter certeza que se o fizesse o garoto sentiria ainda mais frio. Observou a própria mão, pálida. E voltou o olhar para Mikey, parado tão sossegadamente e tão próximo dele. Estava com a guarda baixa, se quisesse poderia abraçá-lo ali mesmo, cravar os dentes em sua carne macia, e sentir o sangue quente correndo para dentro de sua boca. Há quanto tempo não tomava para si um ser humano? Cinqüenta anos? Um século? Dois? Se quisesse, poderia matá-lo. Por que não o fazia? Por que não fazia o jovem caça vampiros gritar de dor enquanto arrancava-lhe as últimas gotas de sangue?! Podia fazer isso e ver a dor da consciência da traição em seus olhos enquanto sua vida transformava-se em nada. A fome era quase insuportável, e a visão do pescoço dele à mostra o deixava à beira da irracionalidade.
Tão vivo...
-Frank, está tudo bem? –perguntou Mikey o olhando fixamente por trás dos óculos. Perdido em seus devaneios, Frank não havia nem notado que Mikey o observava.
-Claro, claro. –respondeu. Mikey assentiu, andando devagar pelo caminho de pedras até a porta da catedral. –Você espera aqui enquanto eu vou ver meu irmão. –disse jogando uma estaca nas mãos de Frank.
Ali, deitado no divã daquela ampla sala, os cabelos curtos e loiros bagunçados depois de uma noite exaustiva, apurou seus ouvidos para compreender: Ele estava chegando. Reconhecia o inconfundível som de seus passos. Chegava e estava alegre. Podia sentir. Tentou limpar de sua mente a imagem do que talvez o tivesse deixado assim. E então ele entrou.
-Boa noite, — levantou-se solícito do divã – Mestre.
Mas este pareceu não notar sua presença. Desprendeu a capa de seu pescoço e a jogou em seus braços. Ainda com a capa nas mãos, o jovem loiro se dirigiu até a frente do outro, que caminhava em direção à poltrona.
- A noite lhe foi agradável?
- Ah, sim – disse para ele enquanto este se atirava na macia poltrona, acomodando-se – agradabilíssima, Quinn!
Quinn teve certeza: o havia encontrado.
Bert fitava o teto enquanto deslizava os dedos pelos seus próprios lábios como se procurasse por algo que já estivera ali.
- Já se alimentou?
- Naturalmente. – respondia, mas sem notar de fato na presença daquele alto vampiro de que agora pendurava sua capa em um mancebo – Uma jovem garota de entrada, o mensageiro de Deus como prato principal, claro...
- ah... Foi vê-lo... – reagiu como se já não soubesse.
- Como sempre – Bert não notou o olhar completamente dominado pelo gelo que Quinn lhe dirigiu.
- Por que não o mata ou lhe vampiriza de uma vez? – Quinn mediu as palavras para que ele não notasse sua entonação venenosa.
Bert levantou-se em um pulo da poltrona e encarou Quinn, sorrindo. Preparou-se para explicar algo de fato excitante, por que ele tremeu estimulado com a narração que daria a seguir.
- Parece que não aprendeu nada comigo! – sorriu maliciosamente – Deve aprender a saborear a comida bem devagarzinho... – e foi fechando os olhos devagar, como se imaginasse algo — Degustar cada momento de fragilidade dela, aproveitar tudo que ela pode lhe oferecer... Sentir seu aroma envolvente. Para depois...
Não completou o que disse, apenas passou a língua obscenamente em seus lábios, umedecendo-os, e fazendo com que os cabelos da nuca de Quinn se arrepiassem com aquela cena demoniacamente linda.
Quinn parou por um instante, um tanto petrificado com as emoções que tomaram conta de seu corpo. Só de imaginar um filete de sangue escorrendo da boca do Mestre...
- Ele será seu escravo? – Achou difícil pronunciar aquela frase, mas era ainda mais difícil guarda-la para si.
- Claro que não, Quinn – e antes que este pudesse soltar um suspiro aliviado, completou – ele já é. – e dizendo isso caminhou, cantarolando alegremente, até seu quarto naquela imponente mansão, falsamente destruída como camuflagem.
Quinn, chocado, sentou-se na poltrona vazia que Bert havia deixado para trás. Com uma estranha expressão de dor, agarrou-se em seu encosto como se fosse o corpo de seu próprio Mestre. Ah! Houve uma época em que isso não era mera imaginação. Uma época onde Quinn era apenas o filho de um rancheiro de família humilde. Uma época aonde uma misteriosa figura sombria vinha lhe visitar de madrugada, no estábulo. Ainda pode lembrar daquele olhar envolvente que fazia com que se sentisse pequeno e inferior, precisando ser cuidado, e ao mesmo tempo desejado como a última gota de água no deserto. Demorou quase sete anos para que ele lhe concedesse a vida eterna. Sete anos de encontros secretos e proibidos, e depois: um do outro, Mestre e servo, uma união perfeita. E já se passara mais de 60 anos e parecia ver tudo se repetir, mas com outra pessoa.
Nunca fora alguém possessivo. Sabia que acima de qualquer coisa, Bert prezava seu ser vampiro. Muitas vezes embebedava-se de paixão por algum jovem rapaz, a quem perseguia e cercava. Como ele mesmo disse, brincava com a comida antes de devorá-la. Mas casos assim não duravam mais que algumas noites. Onde depois de se entregarem à luxúria e sede que Bert tinha por suas carnes, morriam de forma brutal.
E como brutal era! Possuía uma estranha mania de estraçalhar suas faces perfeitas com a ponta dos dentes. Por puro prazer desfigurava aqueles belos garotos. Por prazer insano.
Ainda pensando no assunto, Quinn levantou-se e observou o escuro daquela noite gélida pela janela francesa do casarão. Noite igual a primeira vez que encontrou seu Mestre. Noite igual a que Bert retornou desmanchando-se em elogios e amor por um padre da Ação Familiar Contra os Seguidores do Demônio – mais clichê que este nome, não existe — da região, e este fato completara um ano a algum tempo.
Com ódio, socou, sem perceber, o vidro da janela fazendo-o partir em milhares de pedaços, ferindo sua mão. O sangue escorreu devagar e caiu sobre o assoalho de madeira escura. E então jurou que um dia o sangue que escorreria de suas mãos não seria o seu próprio, e sim daquele tal “Mensageiro de Deus”.
- Quinn! – a voz exigente de Bert o chamou.
Andou até a porta do quarto. O quarto de Bert era grande e belo, decorado ricamente, como o resto da casa – com exceção, talvez, de sua fachada. No centro encontrava-se um imponente caixão negro onde o Mestre estava sentado, parte do corpo ainda pra fora, um olhar um tanto inquieto.
- Sim?
- Você sabe onde está Ray?
- Hum... Da ultima vez que o vi, levava alguém para o quarto... Algum problema? – perguntou, assustando-se levemente com o olhar profundo que não sabia que o mestre podia fazer – com exceção de quando estava prestes a abocanhar alguém.
- Na verdade... ainda não. – Bert passou as mãos pelos cabelos – Mas ando sentindo algo solto no ar da cidade...
- E o que seria? – Assustou-se ainda mais, o olhar de Bert ganhara uma força incrível, como se maquinasse algo em sua cabeça.
- Ar de... conspiração.
Mikey tinha a chave para a casa paroquial, afinal, o pároco era seu irmão. Subiu as escadas com cuidado para não fazer barulho, caso Gerard já estivesse na cama. Só estava indo lá porque devia explicações sobre sua ausência na missa daquela noite. Não gostava de estar ausente à missa, mas essa noite foi preciso. A porta do quarto rangeu fraca sob suas mãos quando a empurrou de leve. Aceso, no criado-mudo, um lampião indicava que a figura encolhida de conchinha na cama ainda não havia pegado no sono.
-Mikey, é você? –a voz veio fraca quando Gerard sentou-se na cama esfregando os olhos. Era a impressão de Mikey ou ele estava mais pálido do que o costume?
-E quem mais seria? – perguntou aproximando-se, fitando o chão. Gerard estava usando uma blusa de mangas longas, e gola alta, talvez seja o frio, pensou Mikey. –Eu não estive aqui hoje como você pediu Gee, mas, eu tive que sair e...
-Eu entendo. –cortou Gerard. –Mas está tudo bem com você?
-Está... –respondeu Mikey.
-Então, isso é que importa. –disse deitando-se novamente e encolhendo-se de baixo das cobertas, dando as costas para o irmão.Mikey achava estranho aquele tipo de reação de Gerard. Ultimamente ele estava constantemente preocupado com sua saúde, com o que fazia de noite. Sabia que sendo o mais velho e com o falecimento da mãe ele tomaria tal atitude, mas às vezes parecia nervoso quando Mikey se atrasava. Compreendia somente por saber que estes eram tempos difíceis... –Tenho celebração logo cedo, Mikey. Tente vir amanhã à noite, ok?
-Tentarei. Quer que apague a luz? –perguntou começando a sair do quarto.
-Por favor. –pediu Gerard. Mikey adiantou-se, apagando o lampião e saindo do quarto.
Gerard continuou encolhido na cama. Nem todas as cobertas conseguiam impedir que ele sentisse frio. Por um momento, quando ouviu Mikey chegar, desejou que fosse outra pessoa, e, enquanto pensava nisso, inconscientemente tocava a ferida mais recente em seu pescoço.
-O que está acontecendo comigo? –se perguntou baixinho enquanto virava-se de bruços com um grunhido e agarrava o travesseiro.
Quando Mikey saiu Frank estava sentado em uma pedra, desenhando no chão com a estaca que Mikey lhe entregou.
-Frank? –estranhou Mikey. Frank ergueu a cabeça o olhando intrigado.
-Pra que foi que você me deu isso mesmo? –perguntou erguendo a estaca. Mikey soltou um longo suspiro, tomando com grosseria a estaca da mão do vampiro e seguindo pelo caminho de pedras.
-Vamos logo. –Frank levantou-se e em instantes caminhava ao lado de Mikey.
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