Eu estava meio que deitada naquela cama macia, olhando para a mulher que me atacara, mas me sentia feliz, e sabia que não podia atacá-la, pois era isso que ela tinha que fazer. Era este o trato, afinal? Nada? Bem, me sentia estranha, mais forte, e muita, muita fome... não parecia fome, e sim sede, minhas veias queimavam, e estavam secas como um deserto, era quase insuportável. Levantei-me, ainda os olhos fixos na mulher... Tanya. Quando ela falou comigo, percebi que estava irônica, mas conseguia ver dor nos olhos dela, mas ela parecia faminta também, não como eu, mas ela estava, e não conseguia guardar estes sentimentos, e eu mordi a língua para não perguntar.

Não era apenas a força que eu sentia diferente, meus sentidos estavam afiados como uma faca, e meu celebro processava com velocidade e com muita agilidade. Pisquei uma vez, e meus olhos arderam, meus dentes também doíam, principalmente minha garganta, que queimava em brasas.

— Você deve caçar, antes de eu explicar o que você é, venha. – ela disse, então ela se moveu rápido e graciosamente, mas conseguia ver cada movimento, então ela saiu porta afora, e eu a segui, correndo. Paramos em uma floresta, e conseguia sentir todos os cheiros, da água num carvalho muito longe de onde eu estava até de um formigueiro à um passo meu. Movi meus olhos ágeis pelo lugar, e não encontrei nenhuma comida.

— Cheire mais longe. – Tanya disse – Fechar os olhos ajuda.

Foi o que eu fiz, eu fechei os olhos e consegui ouvir todos os barulhos da floresta, e senti algum movimento lento e atrapalhado, senti cheiro de madeira queimada, de comida, mas não me dava nenhuma vontade de comer, mas o que me interessava e fazia minha boca borbulhar de prazer. O cheiro era doce e apetitoso, fazia minha garganta tremer, era o cheiro mais doce que já tinha sentido, me dava impulso de ir, uma parte de mim não sabia o que fazer, mas eu sabia... Minhas veias, secas, ardiam cada vez que eu inspirava aquele cheiro, implorando para que eu tivesse aquilo descendo pela minha garganta. E era quente, eu sentia uma batida rítmica que fazia minha garganta queimar, meus dentes pinicarem, minhas veias arderem, meus olhos queimarem também e minha boca borbulhar, tudo ao mesmo tempo. Não queria mais esperar, tinha que ter, tinha que sentir isto, eu sabia que se não bebesse poderia morrer, eu não quero morrer, quero viver, essa é a lei da vida, matar...Para sobreviver.

Eu abri meus olhos e disparei para me alvo. Passei correndo por samambaias, musgos, trocos, que eu desviava ou pulava de tudo, rápido de mais para um humano, eu estava pensando rápido, diferente, e conseguia planejar tudo em minha mente, mas não conseguia ver realmente o que estava prestes a fazer, estava rápida, e não importava com nada, uma parte de mim pedia para parar, gritava descontrolada, mas ela era mais fraca, e eu iria vencer. Quando cheguei perto o suficiente do alvo para atacar, me escondi atrás de uma árvore bem no tempo antes de ele me ver. Quando ele se virou novamente para a fogueira, olhei para ele, escondendo. Era um humano, estava com pijama e estava se aquecendo na fogueira, a pele dele era bronzeada, ele era novo e forte, que as veias se destacavam em sua pele, o que me faziam tremer. Olhei para o rosto dele mas fui impedida pelo pescoço, que estava totalmente a mostra, com as veias verdes destacadas e pulsava tão suavemente, tão regular, sua pele era macia e suas veias salientes que me deixavam totalmente faminta. Agachei atrás da árvore, passando a língua entre os lábios, pronta para atacar. Sem nenhum aviso eu pulei na direção dele como uma tigresa, não deu tempo de ele nem olhar para mim, e eu já estava em cima dele, prendendo-o em uma jaula, vi seus olhos castanhos ficarem desesperados e confusos mas não me importei, finquei minhas presas ,que já me incomodaram bastante, na carne macia dele perfurando grande parte, e o sangue... Ah, o sangue! Era perfeito, aliviou metade das minhas dores, minha garganta recebeu de braços abertos o sangue, que derramou quente pela minha garganta. A pulsação dele estava acelerando rapidamente, me fazendo tremer e continuar bebendo o liquido maravilhoso, não queria perder nada do sangue dele. Ele gritou algumas poucas vezes, e eu não ouvi, bem fingi que não ouvi. Teve a parte que tive que sugar o sangue, e suguei até sentir que o corpo estava vazio, e fiquei um pouco triste por isso, mas não por muito tempo. Afastei dele, erguendo meu corpo, ficando apenas com as pernas segurando o corpo, que agora estava sem vida. Passei a língua entre os lábios, que ainda estava o sangue, mas um pouco quente. De repente ouvi um barulho na cabana que estava atrás do homem, e as luzes se acenderam. Comida. Pensei, iria aliviar minhas dores, por enquanto. O homem saiu da barraca, ainda um pouco desorientado, com um lampião na mão, quando ele abriu a cabana, me deixou ver de relance a mulher que se agarrava nos lençóis e quando me viu soltou um grito de desespero. O homem me olhou com medo nos olhos, mas ele era um tanto corajoso e veio para cima de mim, com um grito de guerra. Que dramático, eu pensei, e um segundo depois estava atrás dele puxando ele pela gola da camisa, por trás, e jogando no chão, que ele parou de correr de imediato e caiu em um tombo surdo no chão, afastando as folhas, ele piscou várias vezes e olhou para mim, quieto. Eu fiquei ao lado dele, num movimento rápido, e estreitei os olhos, sem nenhuma emoção mordi seu pescoço e suguei todo o sangue, e levantei, deixando o corpo inerte para trás. Olhei para a cabana, e não tive um pingo de dó, nenhum sentimento, matei a mulher, que eu conseguia ouvir dois batimentos, e quando acabei com ela, percebi que estava grávida mas não senti dó, eram humanos.

Depois de ter queimado os corpos e jogado no rio, Tanya veio onde eu estava, olhou meu trabalho, e percebi, finalmente, que minhas presas haviam se recolhido e meus olhos pararam de arder, como minha garganta e minhas veias. Eu ainda conseguia sentir um pouco de dor, mas era mínimo. Então Tanya sorriu para mim, ela estava com o olhar frio, e mais forte, sua pele continuava pálida, mas havia um disfarce nele, que a deixava com aparência de viva. Ela continuou sorrindo quando ela disse:

— Bom trabalho. – e eu retribui o sorriso, de uma garota satisfeita.

Tanya:

Ela era um mini monstro, mas era ágil, a Laura, ela era impiedosa. Ela retribui o sorriso e percebi, pela primeira vez, que ela havia se transformado, ela não era aquela garota, ela era mais, todas as personalidades antigas tinham aumentado, e ela era bem diferente, e muito inteligente, mas do mesmo jeito: impiedosa. Olhei para o céu, e vi que tínhamos feito bastantes coisas juntas, e disse em um tom sem emoção:

— Logo vai amanhecer, e você precisa estar preparada. Bem, você é uma vampira afinal. – ela olhou para mim confusa, e seu sorriso ficou sério – Vamos voltar, vou explicar como é nossa... e, bem, sua nova vida.

Eu disparei para a casa grande, e senti-a nos meus calcanhares, ela era rápida, tanto quanto ágil. Quando chegamos, nem esperei para ir para meu quarto, que em um segundo ela já estava lá, parada de pé como um animal selvagem. Fechei as cortinas e fui para porta, quando ela começou a se mexer eu disse:

— Não siga, estarei aqui em menos de um minuto. – eu fui para o meu escritório que havia muitas coisas, e em um armário eu peguei um colar que era vermelho sangue e brilhava como se fosse uma estrela, ele era longo mas a pedra era pequena e em pequenas letras elegantes havia frases em latim. Fui para meu quarto e Laura continuava lá, plantada como uma bananeira e mostrei para ela o colar, e a expressão não mudou muito e então expliquei: — Este colar você terá que usar sempre – eu dei para ela o colar longo – ele serve de proteção. Se você perceber a pedra brilha mais do que qualquer jóia preciosa e mais brilhante do mundo, pois ela tem magia, as bruxas que viviam aqui à muito tempo fizeram esta jóia para nós, que nos protege do sol e pode fazem-nos disfarçar e ficar como os humanos, tem uma semelhança com a temperatura deles, mas não é igual. Afinal, somos mortos. – depois de ouvir Laura colocou o cordão delicadamente, deu um suspiro e disse:

— Continuo sem acreditar... Ou não quero acreditar, não entra na minha cabeça que existem esses tipos de coisas, são...

— Impossíveis? – eu disse e ela olhou para mim sem dizer nada, mas seus olhos estavam perdidos na confusão, mas sem medo – É, no começo é assim. Pensei que iria ficar com medo...

— Medo? – ela disse irônica e depois soltou uma risada histérica – Não sinto nada. Acabei de matar três pessoas...Não, quatro, e não fiquei com nenhum remorso ou dó, eu apenas... matei... – ela arregalou os olhos, falando consigo mesma e perguntou ainda sem olhar para mim – Não tem lei?

— Lei? Você diz de matar? – ela assentiu – Sim, tem. Como você é nova, não vou culpá-la mas, não podemos matar crianças nem transformá-las. Agora você sabe esta...

— Não existem mais? – ela perguntou, sentando-se na beirada da cama, olhando com os olhos fixos para mim.

— Existem, mas você irá aprender com o tempo...

— O que... nós, fazemos? Digo, não tem nada para fazer, matar, caçar, caçar, apenas isto? – ela perguntou incrédula.

— Claro que não. Podemos explorar o mundo antes que não se acabe.

O que eu via em Laura era que: ela não tinha sentimentos, mas ela mudava aqueles “sentimentos” dela, rapidamente, parecia até irônica.

— Sabe... – seus lábios sem expressão se curvaram para um sorriso infantil e carinhoso, mas não podíamos confiar neste sorriso – sempre quis visitar Itália, não sei por que...

Eu sorri, e arrumamos nossas malas. Quando era mais ou menos 1 hora da manhã, apresentei algumas pessoas da nossa antiga corte ou Clã. E cada minuto que passava ela ficava mais ansiosa, dizia à ela que ao amanhecer iríamos partir, e sua impaciência aumentava, girando o colar dourando entre os dedos procurando por satisfação. Até que no amanhecer partimos, e seguimos nossa vida, de caçada.