O corredor verde da raiz se expandia diante de Tiberan e Soraja. Diferente do caminho azul que Nymira percorrera, ali o ar parecia pesado, carregado de pólen e ecos de vozes. Era como caminhar por dentro de uma memória. As paredes pulsavam em tons verdes e dourados, como se guardassem histórias gravadas no tempo.

Tiberan avançava cauteloso, o Broto Sagrado em sua palma iluminando o caminho. Cada passo fazia o broto estremecer, como se pressentisse algo maior, algo que nem mesmo ele conseguia decifrar. Soraja caminhava ao seu lado, segurando uma de suas maçanetas douradas, pronta para invocar uma porta a qualquer instante.

— Esse lugar… — ela murmurou, a voz reverberando no corredor — parece que está vivo.

Tiberan assentiu, mas seu olhar estava sério, quase sombrio. — Não só vivo. Está nos observando.

De repente, a raiz se abriu em um salão colossal. As paredes eram troncos que se entrelaçavam até o infinito, formando uma cúpula onde incontáveis flores brilhavam, cada uma emitindo um sussurro. No centro do salão, sentado em um trono feito de madeira e seiva petrificada, estava um homem.

Sua presença não era avassaladora como a de um guerreiro comum. Era serena, esmagadoramente serena. A pele pálida refletia a luz esverdeada, e os cabelos longos, brancos, caíam sobre os ombros. Ele vestia uma armadura que não parecia metal, mas sim feita de cascas e raízes endurecidas. Os olhos, porém, eram o que mais impressionava: dois orbes dourados que pareciam atravessar qualquer máscara.

— Sammael. — Tiberan sussurrou, e o broto em sua mão tremeu como se confirmasse o nome.

O homem abriu os lábios com suavidade. Sua voz não era alta, mas enchia o salão inteiro.

— Finalmente, os herdeiros da mentira chegaram.

Soraja apertou a maçaneta em sua mão, mas Tiberan ergueu o braço, impedindo-a de agir.

— Quem é você, afinal?

— Eu sou a Verdade. — Sammael ergueu a cabeça, e os sussurros das flores se intensificaram, como se confirmassem suas palavras. — Ás de Velaska, guardião da memória da Yggdrasil. Eu existo para preservar aquilo que o mundo esqueceu.

Soraja franziu o cenho. — Guardião da memória? Que tipo de memória pode existir em uma árvore?

Sammael se levantou do trono. Seus movimentos eram calmos, mas carregavam um peso que fazia o chão vibrar. Ele caminhou até o centro do salão, as flores no teto desabrochando ao ritmo de seus passos.

— Não uma árvore qualquer. Esta é a origem de toda a vida, a ânfora onde foram despejadas as cinzas de um mundo esquecido. Vocês, Valerion, são fruto disso. Não foram escolhidos por deuses. Foram moldados por homens.

As palavras cortaram o ar como uma lâmina. Tiberan e Soraja trocaram um olhar confuso.

— Homens? — Tiberan perguntou. — Você está dizendo que os deuses não existem?

— Não mais. — Sammael ergueu a mão, e imagens começaram a se formar no ar. Eram memórias cristalizadas: figuras humanas, sem armaduras ou poderes divinos, explorando um planeta, cultivando uma árvore gigantesca. — Havia um mundo antes deste, chamado Gaia. Ali, quatro humanos descobriram a árvore primordial. Foi dela que tiraram poder, esperança e, mais tarde, desespero. Esses humanos se tornaram lendas. E as lendas viraram deuses.

Soraja recuou um passo, sentindo o peso da revelação. — Quer dizer que…

— Os deuses não existem. — Sammael a encarou diretamente, como se atravessasse sua alma. — Eram humanos, assim como você. Pessoas que acreditavam no equilíbrio, mas que sucumbiram à guerra entre seus companheiros. Você, descendente de sua linhagem, carrega a herança de sua ruína.

As pernas de Soraja vacilaram, e ela quase deixou a maçaneta cair. — Então… tudo o que nos ensinaram foi uma mentira?

— Não uma mentira. — Sammael corrigiu, com voz tranquila. — Uma história moldada para que vocês nunca questionassem.

Tiberan deu um passo à frente, os olhos ardiam de raiva. — E Kaelvor… ele quer queimar a Yggdrasil porque sente que os deuses são falsos. Se isso é verdade, então ele está certo!

Sammael suspirou. — Queimar a Yggdrasil é condenar toda a vida que dela nasceu. É questionar tudo que fizemos por vocês. Vocês são fragmentos dessa árvore. Se ela arder, vocês também arderão.

Tiberan fechou a mão em torno do broto, sua respiração pesada.

— Não… — murmurou, lembrando-se dos olhos de Kaelvor em chamas, da promessa de destruir tudo. — Ao ver nos olhos dele que queria queimar a árvore, eu soube. Meu destino é impedir esse homem, mesmo que seja meu aliado.

Sammael o observou com um sorriso leve, quase piedoso.

— Belo discurso. Mas saber a verdade tem um preço. Nenhum de vocês deveria ter chegado até aqui.

De repente, raízes emergiram do chão, formando lanças que cercaram Tiberan e Soraja. Sammael ergueu a mão e sua voz ecoou como sentença:

— Vocês viram o que não deveriam. Agora, precisam morrer.

Soraja invocou portas em volta deles, usando sua técnica recém-aprimorada. Algumas portas abriram escudos, outras mostravam saídas curtas, mas Sammael desviava sem esforço. Seus golpes eram simples: raízes e seiva, mas cada movimento parecia inevitável, como se o destino estivesse escrito antes mesmo de acontecer.

Tiberan contra-atacou com vinhas e flores, tentando usar o pólen para rastrear cada golpe, mas era inútil. Sammael avançava como um rio que conhecia cada pedra do leito. Uma raiz perfurou a defesa de Tiberan, lançando-o contra a parede. Ele gritou de dor, o broto caindo de sua mão e rolando pelo chão.

— Tiberan! — Soraja correu até ele, mas uma raiz a bloqueou.

Sammael caminhava, erguendo a mão em direção ao broto. — Esse poder não pertence a você.

Tiberan tossiu sangue, mas ainda conseguiu gritar: — Soraja… não deixe… ele tocar… no broto!

Soraja, em desespero, abriu uma porta debaixo de Sammael, tentando encurralá-lo. Mas o Ás, com um gesto, dissolveu o constructo em pólen antes que chegasse perto.

Ele se ergueu, a sombra cobrindo os dois. — Vocês não entenderam. O destino dos Valerion já estava traçado. Vocês são apenas fagulhas de uma chama que nunca deveria existir.

E a raiz final ergueu-se como uma lança para atravessá-los.