O silêncio após a queda de Nymira ecoou como um funeral. Seu corpo jazia imóvel no chão líquido da raiz azul, o braço tomado pela mancha negra agora parecia um tronco petrificado, e o peito já não se movia. Inês permaneceu diante dela, observando com olhos translúcidos que refletiam não triunfo, mas desapontamento.

— Uma guerreira frágil demais para desafiar os Ás. — murmurou, aproximando-se com passos leves. Sua voz ecoava como correntezas em uma caverna profunda. — Ao menos lutou com coragem.

Inês ergueu o braço e, com um gesto, fez surgir uma esfera cintilante de água pura, destinada a envolver o corpo da garota. Era sua forma de demonstrar piedade e velar o corpo de sua adversária — devolvendo-a à Yggdrasil.

Mas antes que pudesse completar o movimento, algo aconteceu.

Uma gota. Pequena, discreta, mas diferente. Escorreu do peito de Nymira, verdeada como se carregasse vida e cristal misturados. A raiz azul inteira tremeu, como se reconhecesse aquela essência. A água ao redor começou a vibrar.

Os olhos de Inês se estreitaram. — O que é isso?

Do corpo inerte, rios de água começaram a se erguer, mas não eram rios comuns. Brilhavam como vidro líquido, adquirindo forma sólida conforme subiam. O braço escuro de Nymira rachou como uma casca morta, se despedaçando em estilhaços que caíam ao chão, revelando por baixo uma pele translúcida, quase cristalina, que pulsava com núcleos de luz.

Os olhos da jovem se abriram de súbito. Não eram mais apenas escuros. Dentro deles, cristais líquidos dançavam em espirais prateadas. Sua respiração voltou com força, como uma onda rompendo após longa calmaria.

Inês recuou um passo, surpresa. — Você… renasceu?

Nymira se levantou lentamente, o corpo ainda cambaleante, mas diferente. Do peito e dos braços emanava uma aura que misturava fluidez e rigidez, como se fosse água solidificada em cristal. Homúnculos começaram a brotar ao redor dela, mas não mais de água comum. Eram feitos de cristal líquido, translúcidos como esculturas vivas, cada um com um núcleo brilhante pulsando no centro.

Ela respirou fundo, sua voz mais firme que nunca: — A água é vida. E a vida não pode ser contida. Nem por doença, nem por morte.

Os homúnculos avançaram contra Inês em uníssono, seus corpos refletindo a luz azul da raiz. Inês reagiu criando muralhas e ondas gigantescas, mas os cristais não se despedaçavam como antes. Onde a água da Ás os tentava consumir, os homúnculos cristalizavam as correntes, transformando-as em estátuas quebradiças que se partiam em mil fragmentos.

— Não pode ser… — Inês murmurava, vendo sua própria água se tornar sólida, morta. — Você… está cristalizando a criação?

Nymira avançou, cada passo firme, a doença que antes a consumia agora transformada em força. Seus braços emanavam rios que se endureciam em lâminas afiadas, e ela girava, atacando com precisão. Inês bloqueava, mas cada bloqueio se tornava mais pesado, mais lento, até que uma lâmina cristalina rasgou seu ombro, deixando marcas que não se regeneravam como antes.

— Isso é impossível! — a Ás rugiu, invocando uma torrente colossal que preencheu todo o espaço, tentando esmagar Nymira e seus homúnculos de uma vez.

Nymira fechou os olhos. Por um instante, lembrou-se de todos: Soraja, Tiberan, Kaelvor, Ephiron. De sua vila aprisionada, de sua doença, de cada lágrima que havia derramado. O corpo inteiro doía, mas dentro dela algo dizia que era chegada a hora.

Abriu os olhos e, com um grito, ergueu os braços. A torrente que desabava se cristalizou no ar, transformando-se em uma escultura líquida congelada, cintilando com milhares de reflexos. Homúnculos de cristal emergiram dessa massa solidificada, escalando as paredes da raiz e se lançando contra Inês.

— Não… não pode derrotar um Ás! — a mulher gritava, a incredulidade rompendo sua serenidade. — Você é só uma mortal doente! O que os deuses… o que eles irão…

A frase morreu em sua garganta. O cristal líquido começou a subir por suas pernas, endurecendo cada movimento. Ela tentou dispersar a água em seu corpo, mas a cristalização avançava sem piedade. Primeiro os pés, depois os joelhos, depois o torso.

Nymira deu o passo final, estendendo o braço. — Os deuses não decidem mais nada. Somos nós quem escolhemos.

O cristal subiu pelo corpo de Inês, membro a membro, até alcançar o pescoço. Seus olhos, antes profundos e claros, se arregalaram em horror e admiração ao mesmo tempo. Então, a rigidez tomou conta.

Em segundos, restava apenas uma estátua magnífica: Inês, a Ás da Criação, cristalizada em sua própria essência. Uma escultura perfeita, mas com olhos quebrados, como se refletissem o choque de alguém que vira a morte e o renascimento com seus próprios olhos — e entendeu que nada poderia controlar aquilo.

Nymira caiu de joelhos diante da estátua. O corpo ainda pulsava com o novo poder, mas o coração batia frágil, exausto. Seus homúnculos de cristal se recolheram, desaparecendo em brilhos no ar. Ela respirou fundo, fechando os olhos.

Por um instante, pensou em sua doença: a mancha escura havia sumido. Mas até quando? O que era ela agora? Ela ainda era a Nymira de sempre? O que mudou?

Ela se levantou, apoiando-se na parede da raiz. — O caminho continua. Não posso parar aqui.

À sua frente, a raiz azul se abria em um túnel de luz, como se a própria Yggdrasil reconhecesse sua vitória.

Mas ao dar o primeiro passo, um calafrio percorreu sua espinha. Algo maior os aguardava. Ela sabia que os outros também enfrentavam batalhas impossíveis em seus próprios caminhos. E no fundo, pressentia: o que estava por vir seria ainda mais cruel do que qualquer Ás.

E enquanto avançava, a voz de Inês ecoava em sua mente, um sussurro que não se apagava: “O que vem à frente da Yggdrasil irá fazê-la querer morrer…”

Notas finais
Nymira, antes a mais fraca do grupo, renasceu como uma forte guerreira e foi a primeira a derrotar um Ás. Mas, qual será o destino do restante do grupo?