Valerion - a Busca por Yggdrasil

57 Presa entre Mundos! Soraja vs Sammael


O salão reverberava com o som das raízes se retorcendo. Tiberan jazia no chão, o corpo marcado por cortes e o broto sagrado caído a alguns passos de distância. O sangue escorria por sua boca, misturando-se ao pólen dourado que pairava no ar. Ele tentava se levantar, mas as pernas já não respondiam.

Soraja, ofegante, mantinha uma de suas maçanetas douradas erguida como se fosse um punho de aço. Mas a mão tremia, denunciando o peso da situação. Sammael, o Ás da Verdade, caminhava até ela com passos lentos, carregados de uma calma que parecia mais assustadora que a fúria.

— Você não é minha inimiga, menina — disse ele, a voz suave, como se oferecesse consolo. — Mas nasceu marcada. Descende de Demáscules, o portador da mentira e da separação. Os porteiros e chaveiros carregam o fardo de um homem que quebrou o mundo em fragmentos.

Soraja arregalou os olhos. — Isso não é verdade… nós apenas abrimos portas! — gritou, tentando convencer a si mesma mais do que a ele.

— Portas que não deveriam existir. — Sammael ergueu o braço, e atrás dele abriu-se uma visão: uma figura antiga, de pele humana, segurando uma chave incandescente. Cada giro da chave partia o solo, erguia muralhas invisíveis e separava terras. — Foi Demáscules quem dividiu Gaia, quem quebrou o elo dos homens com a árvore. A linhagem dele sempre foi uma cicatriz.

As palavras a atingiram como lanças invisíveis. Soraja sentiu o peito apertar. Desde pequena ouvira que era “só uma porteira”, que não tinha serventia real, que seu poder não era de guerra ou glória. E agora descobria que sua linhagem inteira carregava a culpa por um pecado ancestral.

Ela mordeu o lábio com força, o gosto de sangue despertando-a da paralisia.

— Eu não sou ele. Eu não sou uma maldição. — Apertou a maçaneta com mais firmeza. — Eu sou Soraja!

E avançou.

Invocou uma porta pesada diante de Sammael, tentando esmagá-lo, mas o Ás apenas ergueu a mão e a raiz atravessou o portal antes mesmo de fechar. Soraja desviou, girou o corpo e, com a outra mão, arrancou a maçaneta de uma porta recém-invocada, usando-a como soco-inglês. O golpe atingiu o ombro de Sammael, produzindo um som seco. Mas ele não recuou.

— Você tenta negar seu destino, mas só se afunda mais nele. — Sua mão deslizou pelo ar, e raízes se ergueram como correntes, prendendo os tornozelos de Soraja.

Ela forçou a abertura de uma porta curta, uma das técnicas que Anorith lhe ensinara. Uma rachadura no espaço se abriu alguns metros adiante, e ela se lançou por dentro dela, reaparecendo atrás do Ás. O punho com a maçaneta brilhou, carregado de fúria, e acertou Sammael na mandíbula.

Por um instante, o salão inteiro pareceu tremer.

Sammael tocou o canto da boca, de onde um filete de seiva escorria como sangue. Ele sorriu, e o gesto fez Soraja gelar.

— Interessante. Até mesmo a linhagem da ruína pode surpreender.

Ela não respondeu. Apenas girou outra maçaneta e abriu uma porta suspensa, que se fechou logo atrás do braço do adversário, cortando a trajetória de um golpe. A técnica não o feriu, mas interrompeu seu movimento. Era o suficiente: Soraja recuou, criando distância.

O Ás, porém, não parecia apressado. Ao contrário, parecia saborear cada reação dela.

— Você não percebe? — continuou ele. — Quanto mais luta, mais se aproxima do verdadeiro papel que lhe foi dado. Você não pode escapar de quem é.

— Eu não sou uma prisioneira do passado! — gritou Soraja, a voz ecoando no salão. — Anorith me disse que eu podia escolher para onde minhas portas levam. Se eu posso escolher, eu posso mudar meu destino!

Ao ouvir o nome, Sammael ergueu as sobrancelhas.

— Anorith… o último chaveiro. Um traidor. — Sua voz carregava um tom de desdém. — Nem mesmo ele conseguiu escapar do peso da herança.

Soraja respirou fundo. Seu corpo doía, mas seus olhos queimavam em determinação.

— Então me mate. Mas se eu cair, caio como Soraja, não como filha de Demáscules.

Ela abriu uma porta-corpo no peito. Da fenda surgiu o golem que guardara em seu interior. O colosso de pedra investiu contra Sammael, golpeando-o com uma força brutal. O Ás recuou pela primeira vez, os pés afundando no solo vivo da Yggdrasil.

Mas Sammael não caiu.

Ele estendeu a mão e o golem se desfez em pólen, dissipando-se no ar.

— Destino. — murmurou, como se a palavra fosse suficiente para justificar tudo.

Soraja arfava, os joelhos tremendo. Tiberan ainda estava imóvel no canto, inconsciente. Ela sabia que estava sozinha.

Sammael ergueu novamente a raiz-lança, apontando para o coração dela.

— Hora de corrigir o erro da sua linhagem.

Soraja fechou os olhos, mas não de medo. Com as duas mãos, segurou firmemente o artefato dourado que herdara de Anorith. A grande chave. O metal pulsava como se respondesse à sua vontade.

— Não importa o que você diga. — Sua voz era firme. — Eu vou abrir o caminho que eu quiser.

Girou a chave no ar. Uma porta colossal se ergueu atrás dela, moldura dourada brilhando como sol. Não era uma porta pesada como as outras. Era algo diferente, vivo, vibrando com energia.

Sammael a observou, pela primeira vez com verdadeiro interesse.

— Então é assim… você herdou mesmo o poder dele.

Soraja abriu os olhos, que agora refletiam o dourado da porta.

— Se é para ser meu destino, que seja o meu, não o seu.

A porta explodiu em luz, sugando Sammael e Soraja para dentro. O salão se dissolveu em fragmentos.

E então, o silêncio.