A luz da porta se fechou atrás deles com um estalo metálico. Soraja piscou os olhos algumas vezes, ajustando-se ao clarão repentino do dia. Estavam no coração de Velaskia, a cidade militar dedicada à deusa Velaska. Ruas largas se cruzavam em ângulos retos, repletas de soldados marchando em formação e martelos batendo nos fornos das oficinas. Cada esquina exalava o cheiro de ferro e pólvora.

Soraja caiu de joelhos, ainda zonza com o salto da porta. Ephiron, por sua vez, já estava de pé, a mão na espada, os olhos bicolores varrendo a multidão. Ele parecia uma fera acuada.

— Kaelvor… — murmurou ele, olhando em volta. — Ele deveria ter vindo também.

Soraja sentiu o peso da ausência. Pela primeira vez desde que se encontraram, estavam separados dele. Mas não havia tempo para pensar. As pessoas começavam a notar a armadura negra de Ephiron, as marcas em sua capa, e logo surgiram gritos:

— Um Cavaleiro Negro! Um traidor!

Tropas começaram a avançar na direção deles. Ephiron puxou Soraja pelo braço.

— Temos que sair daqui!

Eles correram por vielas estreitas, desviando de mercadores e armas empilhadas. Por fim, entraram apressados em uma casa antiga de pedra. Lá dentro, para a surpresa de ambos, uma velha os aguardava. Sentada diante de uma mesa de madeira, calmamente servia chá como se já os esperasse.

— Entrem, crianças. Estão fazendo barulho demais.

Ephiron estreitou os olhos. — Quem é você?

A velha apenas sorriu, estendendo duas xícaras fumegantes. Soraja hesitou, mas aceitou. Ephiron recusou com um resmungo, sempre desconfiado.

— Precisamos de um plano — disse ele, andando de um lado para o outro. — Eu tenho que voltar para Hyperia. Não posso perder de vista Kaelvor.

Soraja cruzou os braços, firme. — Não adianta. Minhas portas não seguem minha vontade. Nem mesmo sei para onde vão dar.

— Então faça outra! — rosnou ele.

A tensão cresceu. Os olhos de Soraja se estreitaram. — Você acha que pode me dar ordens, Cavaleiro Negro?

O silêncio ficou denso, até que Ephiron avançou, a espada em punho. Soraja reagiu no mesmo instante. Uma porta surgiu no ar, pesada e maciça, e ela a puxou para frente como um escudo, bloqueando a lâmina.

O choque ecoou pela casa. O chá da velha derramou, mas ela não se moveu. Apenas observava, sorrindo.

— Quer lutar comigo? — Soraja gritou, raivosa. — Então vamos!

Ela arrancou a maçaneta de uma das portas, fechando os dedos ao redor dela como um soco inglês improvisado. Avançou contra Ephiron com surpreendente velocidade. Cada soco era acompanhado por portais súbitos: uma porta se abria atrás dele para tentar puxá-lo; outra se abria ao lado, forçando-o a desviar no último segundo.

Ephiron era rápido, mas estava em desvantagem. — Você está brincando com algo que não entende!

— E você está subestimando alguém que nunca precisou de uma espada para ser forte!

Soraja girava, criava portas sob seus pés, se movia de forma errática, quase teleportando de um ponto a outro. Ephiron tentava acompanhar, bloqueando com sua lâmina sombria, mas cada golpe de Soraja o deixava mais encurralado.

Por fim, ela invocou uma porta gigante sob ele. Ao abri-la, revelou um abismo de céu — um vazio sem chão, apenas nuvens distantes, centenas de metros abaixo. O chão desapareceu sob os pés de Ephiron.

Ele caiu, mas conseguiu agarrar a borda da porta. Seus dedos se agarravam com dificuldade à borda de ferro.

Soraja ofegava, olhando para baixo. Bastava um empurrão para se livrar dele. Mas seu coração vacilou. Lembrou-se de Kaelvor, lembrando de como ele via em Ephiron algo além de um inimigo.

Com um rugido, estendeu a mão. — Segura firme!

Ephiron a olhou, desconfiado. Depois de um segundo que pareceu eterno, agarrou sua mão. Soraja puxou com toda a força, trazendo-o de volta ao chão. Ambos caíram ofegantes, lado a lado.

O silêncio tomou conta da sala. A porta atrás deles se fechou, ocultando o abismo.

A velha, sentada tranquilamente, deu um gole em seu chá frio e sorriu. — Muito bem… muito bem. Estava ansiosa por esse momento.

Seus olhos brilhavam com algo que Soraja não soube identificar.