Valerion - a Busca por Yggdrasil
37 As Correntes de Wyvern
O sol mal atravessava a copa fechada da floresta quando Tiberan saiu da caverna, trazendo Nymira nos braços. Seu rosto, normalmente sereno, estava carregado de sombras. A cada passo, ele olhava para o braço da garota, onde a mancha escura havia se expandido.
— Não precisa me carregar — murmurou ela, com um sorriso frágil. — Já sei o que está acontecendo comigo.
Tiberan não respondeu. Seus olhos verdes tremiam, incapazes de aceitar a resignação dela.
Diante deles, Ignara os aguardava. A raposa de fogo olhava fixamente para além da mata, inquieta. Quando Tiberan a montou com Nymira, ela disparou floresta adentro, veloz como uma flecha. Era claro que tinha um destino em mente.
— Para onde está nos levando? — perguntou Nymira, apertando o pelo ardente da raposa.
Ignara não respondeu. Mas quando o cheiro de ferro e enxofre tomou o ar, eles entenderam. A raposa parou diante de um acampamento oculto, no coração da floresta. Lá, dezenas de outras raposas estavam presas por correntes negras encantadas, presas ao solo, uivando em dor. Havia filhotes, adultos, anciãs. Era uma prisão viva.
— É a família dela… — murmurou Nymira, a voz embargada.
As correntes brilhavam com runas rubras. E diante delas, erguia-se um homem imenso, coberto por uma armadura escarlate com ganchos e espinhos. Seu elmo tinha o formato de um dragão alado, e nas costas arrastava uma longa corrente que faiscava a cada movimento.
Ele ergueu a cabeça e os olhos cinzentos fitaram os intrusos.
— Enfim chegaram. — A voz dele era profunda, metálica, quase um trovão abafado. — Sou Wyvern, Cavaleiro Negro de Phytonia. E vocês, hereges, pisaram exatamente na armadilha que preparei.
Ignara rugiu, as chamas ao redor do corpo explodindo em brasas vivas. Tiberan se preparou para atacar, mas a raposa se colocou à frente, rosnando baixo. Ela não queria ajuda. Este era o seu combate.
Wyvern ergueu a corrente e a girou, criando círculos que cortavam o ar como lâminas. A corrente estalava e brilhava em fogo negro, ecoando como gritos.
Ignara investiu. O chão ardeu em rastros de fogo conforme ela saltava contra o cavaleiro. Suas garras faiscavam, mas Wyvern contra-atacou, enrolando a corrente em seu corpo e a lançando ao chão com um impacto que rachou a terra.
A raposa se ergueu, o pelo em chamas. Saltou outra vez, mas Wyvern girou a corrente como um chicote, atingindo-a no ar e a derrubando. Cada vez que ela se aproximava, a corrente mudava de forma — ora espessa como uma muralha, ora fina como agulha, sempre encontrando seu alvo.
Tiberan apertava o punho. — Ela não vai conseguir sozinha…
— Espere… — Nymira sussurrou, com dificuldade. — Ela precisa mostrar sua força.
Ignara rugiu mais alto, e de seu corpo explodiu uma labareda branca, muito mais quente que antes. Era como se o fogo dela tivesse se purificado. Avançou novamente, desta vez desviando dos laços da corrente, surgindo por trás de Wyvern e cravando suas presas flamejantes no ombro da armadura.
Wyvern gritou de dor, tombando um joelho no chão. Mas antes que ela pudesse finalizar, ele estalou os dedos. A corrente se enrolou ao redor do corpo da raposa, esmagando-a como uma serpente. Ignara rugiu, a chama vacilando.
— Você é forte, fera… mas ainda é só uma fera. — Wyvern apertou mais as correntes. — Vai morrer junto à sua matilha.
Tiberan não aguentou mais. Cravou o Broto da Yggdrasil no chão, e imediatamente vinhas verdes se espalharam, tentando prender os pés de Wyvern.
— Você não vai matá-la!
O cavaleiro rosnou e quebrou as vinhas com a corrente, mas isso abriu uma brecha. Nymira ergueu a mão frágil, e a água das correntes encantadas começou a pingar, reunindo-se em homúnculos que marcharam contra o cavaleiro.
— Mesmo que eu morra, ainda vou lutar… — disse ela, tossindo sangue.
Wyvern rugiu, estalando a corrente em círculos. Os homúnculos eram despedaçados, as vinhas queimadas. Mas a cada segundo ele se tornava mais lento. A raposa, mesmo presa, reacendeu suas chamas e começou a forçar a corrente, resistindo.
— Agora! — gritou Tiberan.
Ele fez brotar espinhos venenosos nas vinhas, cravando-os no chão. Nymira canalizou suas lágrimas em um único homúnculo, que cresceu gigantesco, feito de água e luz. O ser golpeou Wyvern pelas costas, derrubando-o no chão.
Ignara explodiu em chamas, partindo a corrente que a prendia. Livre, lançou-se contra o cavaleiro negro com um rugido final, cravando suas presas flamejantes em seu peito.
Wyvern urrou, tentando resistir, mas Tiberan fez as vinhas o amarrarem e Nymira fez a água engolir a corrente. Ignara rugiu mais uma vez e, com um estalo, o fogo consumiu o cavaleiro.
Quando as chamas baixaram, restavam apenas cinzas e fragmentos de armadura. As correntes que prendiam as raposas se partiram, e todas correram livres, uivando em triunfo.
Ignara caiu ao chão, exausta, mas ergueu o olhar para Nymira e Tiberan. Pela primeira vez, não havia arrogância em seus olhos. Apenas gratidão.
Tiberan colocou a mão em sua cabeça. — Você não está sozinha.
Nymira sorriu fraco, segurando o peito. — Nós somos uma família agora.
O vento soprou entre as árvores, carregando o cheiro de ferro queimado. E assim, mais um Cavaleiro Negro de Phytonia havia tombado.
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