Valerion - a Busca por Yggdrasil
38 As Chamas de Benu
O salão escuro ainda cheirava a ferro e sangue quando Kaelvor abriu os olhos. Seus braços estavam soltos, as correntes quebradas pela intervenção de Ephiron. Mas agora, sozinho, estava diante de três figuras colossais: Deymos, o Olho Fendido, Mornath, o Gélido e Eryne, a Serpente.
Os Cavaleiros Negros avançavam em semicírculo, suas sombras devorando o espaço ao redor.
— Então este é o garoto que ousa dizer que queimará a Yggdrasil? — zombou Deymos, a cicatriz em seu elmo brilhando sob a tocha. — Mal consegue ficar de pé, e ainda fala em destruir a Árvore dos Deuses.
Kaelvor cuspiu sangue no chão, mas ergueu os olhos flamejantes. — Já derrotei cavaleiros mais fortes que você.
— Arrogância de criança. — Mornath ergueu a espada longa, de gelo, que congelava o ar ao seu redor. — Vamos mostrar-lhe o vazio da escuridão.
Eryne apenas sorriu, girando suas lâminas curvas como serpentes prontas para o bote.
O primeiro a avançar foi Mornath. Sua lâmina de gelo se chocou contra as chamas de Kaelvor, espalhando vapor pelo salão. Kaelvor recuou, lançando o Falcão Flamejante, mas o cavaleiro congelou o fogo em pleno ar, transformando-o em uma escultura quebradiça.
— Fogo pode queimar carne… mas não gelo eterno. —
De repente, Eryne surgiu atrás dele, cortando em arco. Kaelvor girou no último instante, mas a lâmina mordeu sua pele, deixando um risco profundo em seu ombro.
— Está lento… — sussurrou ela, o olhar vermelho faiscando. — Será fácil matá-lo.
Kaelvor recuou, sentindo o sangue escorrer. Seu corpo inteiro clamava para desistir. Mas a imagem de Nymira tossindo sangue, de Tiberan segurando seu irmão adormecido, de Soraja criando portas para protegê-los… todas essas memórias incendiaram sua mente.
Ele ergueu as chamas em torno do corpo, o fogo dançando em labaredas mais densas do que nunca.
— Eu não vou cair aqui. —
Mornath e Eryne investiram ao mesmo tempo. Kaelvor saltou para frente, os punhos em chamas. O fogo não era apenas calor — parecia uma extensão de sua alma. Ele girou, liberando o Falcão Flamejante em espiral. A ave de fogo rasgou o gelo, atravessou a serpente, e atingiu os dois cavaleiros, derrubando-os contra as colunas.
O salão inteiro estremeceu.
Mas quando a fumaça se dissipou, eles ainda estavam vivos. Feridos, sim, mas vivos.
— Nada mal… — disse Eryne, lambendo o sangue no canto dos lábios. — Ele é mais perigoso do que parece.
— Mais perigoso… e mais condenado. — completou Deymos, que até então observava.
Ele avançou. Sua presença sozinha fez o chão rachar. Seu elmo fendido parecia abrir os céus. Com um golpe, ele quebrou a defesa de Kaelvor, lançando-o contra a parede. O impacto fez seu corpo gritar em dor.
— Você não entende, garoto. — A voz de Deymos era grave, cortante. — O fogo que você carrega não pertence a você. É uma fagulha de Hyperion, presa em um corpo humano.
Kaelvor ergueu os olhos, zonzo. — Não… esse fogo é meu…
Deymos o ergueu pelo pescoço, esmagando sua garganta. — Então prove.
O mundo começou a escurecer. Kaelvor sentiu o ar escapar. As memórias de sua infância, das brasas onde foi encontrado, ardiam em sua mente. O fogo queimava por dentro, pedindo para sair.
De repente, um grito escapou de sua garganta.
— FÊNIX…!
Chamas explodiram ao seu redor. Não eram vermelhas como antes, mas negras e douradas, consumindo o próprio ar. O fogo tomou forma, criando asas colossais.
— FLAMEJANTE!!
A Fênix Flamejante surgiu, mas não era mais a mesma. Agora, suas asas eram feitas de brasas negras, e sua cauda reluzia como ouro derretido. Ela voou contra Deymos, atravessando-o em cheio.
O cavaleiro rugiu, lançado para trás, sua armadura negra se retorcendo sob o calor impossível. O impacto abriu crateras no chão, rachou colunas, e o salão inteiro pareceu tremer sob o poder da nova técnica.
— As… Chamas de Benu… — Kaelvor murmurou, caindo de joelhos.
Mornath e Eryne se levantaram, chocados com o que tinham visto.
Deymos emergiu da fumaça, o corpo em pedaços, mas ainda vivo. Sua risada ecoou, grave e distorcida.
— Impressionante. Muito impressionante. Mas você ainda não domina esse poder. Ele não é seu.
Kaelvor tentou se erguer, mas não conseguia. As chamas de Benu haviam consumido tudo o que restava de sua força.
Deymos ergueu a espada, pronto para decapitá-lo.
— Um fogo emprestado não é suficiente para matar um Cavaleiro Negro.
No instante em que a lâmina desceu, uma voz ecoou pelo salão.
— Pare.
Todos congelaram. Das sombras do fundo, surgiu um homem encapuzado, andando com passos lentos.
— Não mate esse garoto. Você não sabe quem ele é.
Deymos parou o golpe a centímetros da garganta de Kaelvor, o olho fendido faiscando de raiva. — Quem ousa interferir?
O homem avançou, a capa se abrindo levemente. Uma aura dourada e rubra se espalhou pelo ar, sufocante.
— Este rapaz não é apenas um herege. — Sua voz era firme, quase reverente. — Ele é a centelha viva de Hyperion.
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