O chão rachado de Hyperia ainda fumegava das batalhas anteriores. As paredes da cidade, antes vivas de vozes, estavam em silêncio, cobertas de cinzas e estilhaços. Kaelvor caminhava com passos pesados entre as ruínas, o braço ferido pressionado contra o corpo, quando uma sombra surgiu diante dele. Não era Tyr, nem Lorvek. A presença que emergia tinha algo de inevitável, como se o próprio destino tivesse tomado forma.

Um homem alto, de cabelos prateados caindo em mechas sobre o rosto, apareceu. Sua armadura não lembrava as forjadas pelos deuses: ela parecia talhada em pedras antigas, como se tivesse sido arrancada do próprio tempo. Seus olhos eram duplos e contraditórios — um brilhava em dourado, outro em negro profundo.

— Eu sou Centurion... o Destino — disse, sua voz reverberando como eco de eras esquecidas. — E você, Kaelvor, é o último dos tolos a se erguer contra nós.

Kaelvor ergueu o punho em chamas, cerrando os dentes. — Mais um valete... mais uma marionete dos deuses que não existem.

Centurion sorriu, mas sem alegria. — Não se engane. Você não luta apenas contra mim. Você luta contra a herança de todos que caíram. Permita-me lembrar o peso da sua insubordinação.

Ele ergueu o braço, e imagens cristalinas surgiram ao redor, como memórias presas em espelhos.

— Anorith, o último chaveiro de Velaska... sugado pela porta que vocês mesmos abriram.

— Lorvek, da Explosão... tombou em Hyperia diante da fúria de você e do cavaleiro negro traidor.

— Arkanis, o cristal eterno... que ousou aprisionar cidades inteiras. Foi quebrado pela união de raízes e águas, despedaçado diante de vocês, Nymira e Tiberan.

— Welcharla, da Seiva Impregnada... que acreditava nutrir a árvore com seu veneno, derrotada pelo mesmo garoto das plantas que agora você chama de aliado.

— Gallia, a Tempestade... presa em um ciclo sem fim pela herdeira das portas. Soraja, que carrega em si a chave do futuro.

— E, por fim, Baarto... não apenas um mestre, mas um valete aposentado que ousou acreditar em vocês. Seu corpo foi vencido por Alenor, mas seu espírito, ao que parece, continua queimando em vocês.

As imagens se desfizeram como poeira ao vento. O silêncio que seguiu foi sufocante.

— Todos caíram. Eu sou o último dos Valetes. — Centurion abriu os braços, como quem aceitava o fardo. — O Destino guardou para si a batalha final.

Kaelvor cuspiu sangue no chão e firmou o olhar. — Então vou queimar o destino também.

A batalha começou com violência. Centurion movia-se sem pressa, mas cada passo deslocava Kaelvor como se uma maré invisível o arrastasse. Não eram golpes comuns: era como se o próprio caminho do herói fosse manipulado, desviando suas chamas, fazendo seus punhos errarem por meros centímetros. Kaelvor rugia, liberando a Fênix Flamejante, mas o fogo se dissipava antes de tocar o inimigo.

— Você não entende — disse Centurion. — Nada do que faz importa. Já estava escrito. Você só está percorrendo a trilha que eu mesmo preparei.

Kaelvor caiu de joelhos, arfando, quando uma lâmina d’água surgiu cortando o ar. Nymira apareceu ao seu lado, apoiada em um cajado improvisado de cristal líquido. Seu corpo tremia, a mancha negra pulsava até o ombro, mas seus olhos tinham a firmeza de quem já não tem mais nada a perder.

— Então escreva isso de novo no seu destino — ela disse, e lançou seus homúnculos aquáticos contra o valete.

Logo em seguida, raízes brotaram pelo chão, tentando prender as pernas de Centurion. Tiberan surgiu com o broto em mãos, o olhar firme.

— Não vai nos separar mais. Onde um de nós for, todos iremos.

Soraja apareceu por último, girando suas maçanetas douradas como punhos, abrindo pequenas portas à frente para desviar os golpes inevitáveis do inimigo. Pela primeira vez, Centurion ergueu as sobrancelhas.

— Todos vocês... reunidos pelo acaso? Não. — Ele sorriu, sombrio. — Pela minha vontade. Eu sou o destino que os mantém unidos e também o que os destruirá juntos.

O choque foi brutal. Homúnculos de água quebrando contra paredes invisíveis, raízes sendo arrancadas antes de crescer, portas se abrindo para lugar nenhum. A cada movimento, Centurion parecia saber o que eles fariam antes mesmo que pensassem.

Foi nesse momento que uma voz conhecida ecoou, arfante. — Então eu vou mudar o destino também.

Ephiron surgiu mancando entre os escombros, o corpo coberto por cinzas, a armadura em frangalhos. As chamas ainda ardiam em seus punhos, mas fracas. Ele havia demorado porque ainda carregava as feridas da luta contra Lorvek. Mesmo assim, ergueu a espada em chamas diante do grupo.

— O destino nunca me deu nada. Tudo que conquistei foi lutando contra ele.

A chegada dele reacendeu os ânimos. Pela primeira vez, Centurion recuou um passo.

Juntos, os cinco avançaram. Nymira canalizou a água em espadas cristalinas; Tiberan fez raízes erguerem colunas ao redor, prendendo o inimigo; Soraja abriu uma porta atrás de Centurion, fazendo-o tropeçar por um instante. Kaelvor concentrou as chamas negras de Benu. E Ephiron, com seu último fôlego, canalizou o fogo herdado do pai.

O golpe final foi coletivo. As águas envolveram o corpo do inimigo, as raízes o prenderam, as portas se fecharam ao redor dele. Então, as chamas de Kaelvor e Ephiron caíram juntas, como dois sóis colidindo.

Centurion rugiu, mas não em dor. Seu grito era de aceitação. — Então é assim... o destino... sempre foi vocês...

A explosão iluminou os céus. Quando a fumaça baixou, nada restava do valete do destino, apenas um círculo queimado no chão.

O grupo caiu exausto, mas juntos. Tiberan, ainda deitado, ergueu o broto que agora brilhava como nunca. — Eu posso sentir... consigo criar uma raiz que nos levará direto até a Yggdrasil.

Kaelvor sorriu, ensanguentado. — Então vamos acabar logo com essa farsa dos deuses.

O grupo, mesmo ferido, se olhou com determinação. Pela primeira vez, não havia mais valetes à frente. Apenas os Ás.