Valerion - a Busca por Yggdrasil
52 Os Ás se movimentam
O túnel de raízes engolira o grupo inteiro em meio ao estrondo da batalha. Eles mal tiveram tempo de olhar para trás, apenas o clarão laranja de chamas que consumia tudo no alto da ravina, onde Ignara havia ficado para conter o avanço do exército. O rugido abafado da raposa ecoou uma última vez, seguido por uma explosão que fez o chão estremecer e as paredes vivas do túnel tremerem. Ninguém disse nada. O silêncio era o único respeito que podiam oferecer à companheira que se sacrificara.
Soraja foi a primeira a quebrar o peso do momento, respirando fundo. — Ela sabia o que fazia. Se não fosse por ela, o exército teria nos seguido aqui.
Kaelvor caminhava em silêncio, punhos cerrados. Ele não precisava falar: a chama de Benu em seus olhos já dizia tudo. Nymira limpou discretamente o rosto úmido, tentando esconder as lágrimas. Tiberan, por sua vez, apertava contra o peito o broto sagrado, que parecia pulsar em dor, como se a natureza também lamentasse a perda da raposa.
— Então é isso… — murmurou Ephiron, arrastando os pés com dificuldade. — Ficamos sozinhos agora.
— Não sozinhos — respondeu Kaelvor, em voz firme. — Carregamos o fogo dela conosco.
O túnel seguiu adiante, descendo em espirais cada vez mais estreitas. O ar mudava à medida que avançavam: pesado, úmido, carregado de uma energia antiga. Aos poucos, a luz natural que vinha das raízes brilhantes deu lugar a um clarão verde-dourado. Era como se a própria terra respirasse.
Quando emergiram, caíram de joelhos sobre uma superfície macia e pulsante. Não estavam mais em um túnel: diante deles se erguia uma vastidão impossível de descrever. O interior da Yggdrasil não era como Tiberan lembrava.
O botânico se levantou lentamente, tocando a raiz viva sob os pés. — Eu já estive dentro de uma raiz da Yggdrasil antes… — disse, quase sem voz. — Mas este lugar… é completamente diferente. É como se aquilo fosse apenas uma sombra, uma fração. Agora estamos dentro da própria essência da árvore.
O espaço se abria em todas as direções, como se estivessem no coração de uma montanha viva. Três raízes colossais se destacavam à frente, cada uma formando um caminho que desaparecia no horizonte. Cada raiz brilhava de uma forma distinta: uma emanava luz azulada, fluida como rios; outra, um verde profundo que lembrava florestas infinitas; e a terceira, um vermelho incandescente, como brasas vivas.
— Três caminhos — comentou Soraja, franzindo o cenho. — E só podemos seguir por eles separados.
Nymira se aproximou da raiz azulada, instintivamente atraída. As gotas d’água que flutuavam em torno dela vibravam em ressonância com sua própria energia. — Este é o meu. — Sua voz estava fraca, mas determinada.
Tiberan caminhou até a raiz verde, sentindo as veias de energia que corriam como se fossem prolongamentos de si mesmo. — Não há dúvida. Este é o meu caminho. — Ele olhou para os outros, sério. — O broto me guia. Mas também me avisa que o que está à frente pode me pôr contra vocês.
Kaelvor não hesitou. Ele se colocou diante da raiz vermelha, sentindo as chamas de Benu reagirem. — Então este é o meu destino. — Cruzou os braços. — Se a Yggdrasil está aqui para ser queimada, é por este caminho que eu vou.
Ephiron aproximou-se do mesmo caminho, mas hesitou. Seus olhos se voltaram para Kaelvor, carregados de lembranças e rancor. — Então… você e eu vamos andar juntos, herege?
Kaelvor o encarou de volta, firme. — Não como inimigos.
Soraja respirou fundo, olhando os três caminhos, mas nenhum parecia responder à sua energia. Ela então tocou o colar da fechadura que carregava, presente de Anorith. O metal vibrou. "Vou com você, Tiberan.", acenando para o botânico.
O grupo se olhou em silêncio. Não havia garantias de reencontro, apenas a certeza de que estavam em território proibido, no coração daquilo que sustentava todo o mundo.
— Os Ás também vão vir — alertou Ephiron. — Eles sentiram quando entramos. Não pensem que vamos atravessar isso sozinhos.
Kaelvor assentiu. — Então que venham. Que todos venham. Aqui dentro, vamos mostrar quem somos.
Nymira deu um último olhar para os companheiros. — Nossos destinos estão cruzados, de todos nós. Não importa se os caminhos são diferentes… vamos nos encontrar no final.
Cada um se dirigiu ao seu caminho. O silêncio do lugar só era quebrado pelo som da seiva que corria como rios distantes. A cada passo, tinham a sensação de estarem caminhando não apenas sobre raízes, mas sobre os próprios fios do destino.
No alto, bem acima da copa invisível, três presenças os observavam. Os Ás, finalmente movendo-se, prontos para descer até a Yggdrasil e esmagar os rebeldes que ousaram entrar no coração do mundo.
O sacrifício de Ignara lhes dera a chance de avançar. Agora, a verdadeira batalha começaria.
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