Valerion - a Busca por Yggdrasil
46 O destino de Baarto
As ruas de Hyperia estavam irreconhecíveis. Onde antes havia casas simples, crianças correndo e o som constante das forjas, agora só restavam pedras partidas, fumaça e cinzas que caíam do céu como uma neve escura. Kaelvor caminhava ao lado de Ephiron, o coração apertado buscando por seu mestre. Alguns passos da casa de Baarto, encontraram algo: Apenas Ignara, em sua forma pequena, circulava inquieta pelo lugar, farejando como se buscasse um cheiro familiar que não encontrava.
— A vila inteira… — murmurou Ephiron, os olhos arregalados. — Não sobrou ninguém.
Kaelvor sentiu o estômago afundar. Uma chama se acendeu ao seu redor, tremulando em sintonia com sua raiva. Então, do centro da praça, um estrondo sacudiu o chão. A fonte de pedra explodiu em fragmentos, e de dentro do clarão ergueu-se uma figura colossal. Correntes incandescentes tilintavam em suas mãos, e cada passo abria crateras no solo. Era Lorvek, o Valete da Explosão, sua armadura reluzindo como magma solidificado e os olhos brilhando como vulcões em erupção.
— Então vocês sobreviveram… — sua voz trovejante ecoou por toda a vila devastada. — A cidade foi apenas a primeira. Os deuses decretaram a purificação. Todos os hereges devem queimar.
Kaelvor cerrou os dentes e avançou. — Você ousou tocar na cidade do meu mestre. Vai pagar por isso.
Ephiron ergueu as chamas vermelhas e se colocou ao lado dele. — Não sozinho. Esse é meu inimigo também.
Lorvek girou as correntes e cada impacto contra o ar gerava explosões ensurdecedoras. As ondas de calor rachavam as paredes ainda de pé, e o chão tremia como se estivesse prestes a desabar. Kaelvor correu pela lateral, liberando as chamas negras de Benu, que colidiram com as correntes em estrondos que iluminaram o céu. Ephiron atacou pela frente, moldando a chama em espadas e golpeando sem parar. O Valete parecia intocável. Cada ataque era repelido por detonações que abriam crateras, e a força bruta de Lorvek superava os dois jovens.
— Vocês não entendem — rugiu Lorvek, girando as correntes em círculos flamejantes. — O mundo só existe porque os deuses o sustentam. Rebeldes como vocês são rachaduras que devem ser fechadas com fogo.
Uma corrente atingiu Kaelvor em cheio, lançando-o contra uma parede que desabou sobre ele. Ephiron ergueu um escudo de chamas, mas foi arremessado metros para trás, seus braços ardendo de dor. Lorvek avançava, cada passo acompanhado de novas explosões.
Sob os escombros, Kaelvor ouviu em sua mente a voz de Baarto, severa como sempre: “Você só tem duas escolhas diante da derrota: se render… ou se levantar ainda mais forte.” Com um grito, ele se ergueu, e chamas negras explodiram ao seu redor, densa como fumaça sólida. Era como se seu corpo fosse um vulcão prestes a implodir.
— Você destruiu tudo que me restava — disse, a voz soando mais profunda. — Então eu vou destruir você.
Lorvek recuou por um instante, surpreso pela mudança. Ephiron se levantou ofegante, mas com um sorriso determinado. — Finalmente vejo você como eu sempre quis: um verdadeiro guerreiro.
Ele ergueu suas próprias chamas e se colocou ao lado de Kaelvor. — Vamos acabar com ele juntos.
Os dois avançaram em sincronia. As chamas vermelhas de Ephiron e as negras de Kaelvor se fundiram, moldando a figura colossal de um dragão flamejante que rugiu contra o céu noturno. O calor era tão intenso que rachava o pavimento em linhas incandescentes. Lorvek girou as correntes numa espiral de explosões, tentando conter a criatura, mas o dragão atravessou sua defesa como uma maré imparável. O impacto foi devastador, e o som lembrava o colapso de uma montanha.
Lorvek foi arremessado contra os destroços da fonte, sua armadura rachada e o corpo coberto de chamas. Ainda tentou se erguer, cuspindo sangue e cinzas, mas seus joelhos cederam. — Não… impossível…
Kaelvor se aproximou com o punho envolto em fogo. — Isso é pelo Baarto.
Com o último golpe, uma explosão colossal iluminou o céu. O corpo de Lorvek se fragmentou em brasas e se dissolveu no vento. O silêncio tomou conta da vila devastada. Ignara se aproximou e deitou a cabeça no ombro de Kaelvor, suas próprias chamas baixas, como se chorasse. Ephiron caiu de joelhos, respirando com dificuldade, olhando em volta sem acreditar. — Nenhum sobrevivente… nenhum.
Kaelvor caminhou até a entrada da casa destruída de Baarto e passou a mão sobre as marcas queimadas das paredes. — Mestre… onde você está? — murmurou, a voz trêmula.
Mas o silêncio foi sua única resposta. Pela primeira vez, ele percebeu que suas chamas não eram fortes o bastante para iluminar o vazio da ausência.
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