Valerion - a Busca por Yggdrasil

47 A primeira pista da Yggdrasil


O ar era seco, áspero como lixa. Onde antes existia a cidade de Valerah, agora restava apenas um campo morto, coberto por lascas de cristal espalhadas como cacos de um espelho gigante. O silêncio era tão profundo que até os passos de Tiberan e Nymira ecoavam, como se a terra rejeitasse qualquer som humano. O Broto que Tiberan carregava na palma da mão brilhava em intervalos regulares, pulsando como um coração. Ele o mantinha erguido, tentando seguir a direção do fio de luz invisível que o guiava.

— Está reagindo de novo — disse ele, sem tirar os olhos do rebento. — Se continuarmos nessa linha, logo vamos encontrar um dos Valetes.

Nymira andava ao lado, envolta em um manto azul que tentava protegê-la da aridez do lugar. Seu rosto pálido denunciava o cansaço, mas seus olhos estavam firmes. — Então é isso que você procura? Quer enfrentar um Valete sozinho?

— Não sozinho — respondeu Tiberan, com seriedade. — Com você.

Ela parou, encarando-o. O vento ergueu mechas escuras do seu cabelo. — Por quê? Por que eu?

Ele suspirou, guardando o Broto por um instante. — Porque todos nós estamos ligados. Você, eu, Kaelvor, Soraja, até mesmo Ephiron. Nossos destinos estão cruzados, de todos nós. A árvore nos escolheu, quer a gente queira ou não.

Um silêncio breve se instalou. Nymira apertou o braço manchado de negro, a mancha já avançando até o ombro. Mesmo assim, ela sorriu com suavidade. — Então vamos. Antes que eu comece a duvidar da minha coragem.

Eles caminharam mais alguns minutos até que uma figura se materializou no horizonte. À medida que se aproximava, tornou-se clara: uma mulher alta, envolta em uma armadura que parecia feita de resina e casca de árvore, de onde escorriam fios de seiva dourada. Seus cabelos eram tão escuros que refletiam azul, e seus olhos âmbar pareciam atravessar os dois.

— Vocês carregam o Broto — disse a mulher, sua voz densa como mel quente. — Eu sou Welcharla da Seiva Impregnada, valete de Phýton. Vocês são aqueles hereges derrotados por Arkanis e os outros. Estarem vivos é um milagre! Vieram atrás da seiva petrificada, não vieram?

Tiberan se adiantou, fechando os punhos. — Preciso dela. Com ela, posso salvar meu irmão.

Welcharla ergueu a mão, e da terra começaram a brotar colunas de âmbar que se retorciam até formar soldados. Eram guerreiros antigos, cristalizados em resina endurecida, que agora marchavam com estalos assustadores, como ossos se quebrando.

Nymira ergueu os braços, criando homúnculos de água a partir da umidade rarefeita do ar. Eles avançaram contra os soldados, mas eram logo engolidos pela resina pegajosa. Tiberan cravou o Broto no solo, e dele explodiram vinhas verdes, esmagando parte dos inimigos.

Welcharla avançou lentamente, o corpo exalando cheiro de madeira queimada. — A seiva é a vida da árvore, garoto. Mas ela também é veneno. Se insistir em usá-la, o Broto vai enraizar dentro de você e sugar sua própria essência.

Com um gesto, ela lançou jatos de resina líquida que se solidificavam em pleno ar, como lanças. Tiberan ergueu um escudo de espinhos, mas uma das lanças atravessou, rasgando-lhe o ombro. Ele caiu de joelhos, mordendo os lábios para não gritar.

— Tiberan! — Nymira correu até ele, mas raízes douradas brotaram e a prenderam pelos pés.

Welcharla sorriu de canto, aproximando-se. — Vocês não têm ideia do que estão tentando enfrentar. Vou terminar o que Arkanis e os outros não conseguiram.

Nymira fechou os olhos, e lágrimas escorreram por seu rosto. Quando caíram no chão seco, transformaram-se em pequenas figuras aquáticas que saltaram, mordendo as raízes que a prendiam até despedaçá-las. Ela se ergueu, tossindo sangue, mas manteve a postura. — Não subestime quem já nasceu condenado. Eu não tenho nada a perder.

Com raiva, Tiberan levantou-se. O Broto brilhou em sua mão como nunca antes. Do chão, brotou uma flor imensa, de pétalas douradas que liberavam pólen reluzente. Os soldados de âmbar hesitaram, rachando sob a luz. Welcharla arregalou os olhos. — Não... essa técnica...

A flor explodiu em uma onda de raízes luminosas que percorreram o solo, apontando para uma direção específica, como se revelassem o caminho para a própria Yggdrasil. Welcharla recuou, coberta de rachaduras em sua armadura de seiva.

— Você abriu o rastro... — ela sussurrou, em choque. — Então é verdade, o Broto reconhece você. Mas cuidado, garoto. A árvore cobra caro de quem a usa.

Com esforço, Tiberan ergueu o punho e lançou vinhas que imobilizaram a Valete contra uma coluna de cristal. Welcharla gritou, antes de ser finalmente subjugada pela pressão das raízes.

Exausto, Tiberan caiu de joelhos. O Broto parou de brilhar, mas no horizonte, um fio de luz dourada marcava claramente o caminho. Ele olhou para Nymira, que cambaleava, o braço manchado quase tomado pelo negro.

— Eu sei onde a Yggdrasil está — disse, ofegante. — Mas sei também... que o que eu desejo pode nos colocar contra Kaelvor.

Nymira tocou o braço dele com a mão trêmula, sorrindo apesar da dor. — Então vamos. E, se for preciso, eu mesma ficarei entre vocês dois.

Welcharla, caída e quase vencida, riu baixinho, como quem guarda um segredo. — A árvore nunca escolhe sem cobrar um preço...

O silêncio voltou ao campo arruinado de Valerah, mas agora havia uma direção. A Yggdrasil estava próxima, e os dois sabiam que a partir dali, não haveria volta.

Notas finais
'"Welcharla" se pronuncia "Velcarla". Ela é extremamente forte, mas sua derrota representa o quanto os valerians cresceram após a derrota.