Tiberan e Nymira avançavam pelas terras próximas ao vazio onde antes existira Valerah. O silêncio do lugar era quase insuportável, um vazio que parecia zombar de qualquer esperança. O Broto Sagrado em mãos de Tiberan pulsava, guiando-os — como se buscasse algo escondido abaixo da terra. Nymira mantinha o olhar fixo no horizonte, decidida.

— Nossos destinos estão cruzados — disse ela, em voz baixa. — De todos nós.

Logo, o solo brilhou sob seus pés. Fragmentos de cristal começaram a emergir, formando torres espelhadas que refletiam seus rostos em mil ângulos distorcidos. Do centro, surgiu Arkanis dos Cristais, o Valete que eles já haviam enfrentado e perdido. Sua figura, translúcida e reluzente, parecia ainda mais ameaçadora.

Ele abriu os braços, orgulhoso, e mostrou um espetáculo terrível: dezenas de esferas cristalinas flutuavam ao seu redor, cada uma contendo cidades inteiras aprisionadas. Povos congelados no tempo, como estátuas. Crianças, soldados, animais — todos imóveis em jaulas perfeitas.

— Vejam o poder dos deuses! — bradou Arkanis. — Cidades rebeldes, vilas esquecidas, todos que ousaram desafiar a ordem foram selados em minha coleção eterna.

Nymira levou a mão à boca, horrorizada.

— Isso... isso não é só Velarah. São dezenas de cidades!

Tiberan fechou os punhos, tentando conter a fúria.

— Monstro...

Arkanis sorriu com crueldade. Para provar sua superioridade, ergueu a mão e esmagou uma das esferas diante deles. O cristal se despedaçou, liberando destroços. O que estava dentro — uma cidade inteira — foi reduzido a pó.

— Assim termino a existência de um povo — disse, frio. — Um destino que aguarda todos vocês.

O choque foi imediato. Nymira sentiu o coração disparar ao ver outra esfera tremendo, quase se quebrando. Dentro dela, ela reconheceu rostos familiares. Valerah estava ali.

— Não... não! — gritou, desesperada.

A batalha começou. Arkanis lançou lanças cristalinas que cortavam o ar como relâmpagos. Tiberan respondeu com raízes que se erguiam do solo para interceptar os ataques, mas o impacto estilhaçava suas defesas. O Valete, em um movimento cruel, fez a esfera de Valerah rachar, como se fosse esmagá-la a qualquer instante.

— Parem-me, se puderem.

Nymira, tomada por raiva, invocou homúnculos de água em massa, moldando-os como guerreiros com lanças líquidas. Eles avançaram contra Arkanis, mas eram destruídos com simples ondas de cristais cortantes. Ainda assim, cada vez que um caía, outro surgia. A água parecia inesgotável, guiada por sua fúria.

Tiberan espalhou pólen pelo ar. As partículas grudaram nas ilusões criadas pelos reflexos de Arkanis, revelando o verdadeiro corpo dele.

— Agora, Nymira! — gritou.

Ela concentrou tudo: suor, sangue e até a pouca umidade ao redor, formando um colosso líquido, um gigante feito de água pura. O titã avançou, agarrou Arkanis e o prendeu com força descomunal. Ele tentou criar muralhas cristalinas, mas a pressão da água infiltrou-se em cada fenda de sua armadura, quebrando-a pouco a pouco.

Em desespero, Arkanis tentou esmagar Valerah de uma vez. Mas Tiberan fincou o Broto no solo, e raízes gigantes emergiram, envolvendo a esfera para protegê-la. O cristal rachou, mas não quebrou.

— Enquanto eu respirar, não tocareá neles! — bradou o botânico.

Nymira gritou, canalizando todo o seu poder. O gigante de água se contraiu e, com um impacto brutal, fez Arkanis se despedaçar em mil estilhaços. O campo de batalha brilhou com fragmentos flutuando no ar, até que tudo caiu em silêncio.

Ofegante, Nymira caiu de joelhos. O cristal que prendia Valerah se desfez atrás deles, liberando o vilarejo. As pessoas começaram a surgir, chorando e agradecendo. Mas Nymira não comemorou. Ao olhar para o próprio braço, viu que a mancha negra agora cobria quase todo o lado direito de seu corpo. Escondeu-o rapidamente, sem que ninguém percebesse.

— Eles estão livres — disse Tiberan, tocando seu ombro. — Mas a que preço?

Ela ergueu o rosto, lágrimas e suor misturados.

— Ainda não terminamos. Arkanis era só um. Quantos mais restam, tentando esmagar nossas vidas como se fôssemos nada?

E, mesmo exausta, ergueu-se diante de sua cidade liberta. Sabia que não poderia ficar. Reconheceu rostos: Soijiro, Fushiba.. seus irmãos. Mas virou a cara antes de ser reconhecida. O caminho deles era adiante, contra deuses que não existiam — e contra homens que se achavam deuses.