Valerion - a Busca por Yggdrasil
29 O Treinamento do Velho Louco
O nascer do sol pintava o céu de Hyperia em tons avermelhados. O grupo se reuniu na clareira indicada por Baarto, nos limites da vila. O velho estava lá, já sentado em um tronco caído, afiando calmamente um pedaço de madeira com uma faca enferrujada. Quando eles chegaram, ergueu os olhos e soltou um resmungo.
— Já era hora. Achei que iam dormir até o sol virar lua.
O treino começou sem aviso. Não havia espadas, não havia explosões de cosmos. Apenas instruções simples. Soraja recebeu um tronco para erguer e carregar colina acima. Tiberan foi posto diante de uma mesa com enigmas de lógica e cálculos rabiscados em pedras. Nymira foi arrastada para a cozinha improvisada de Baarto, onde deveria preparar refeições nutritivas para todos com ingredientes que mal conhecia. Ignara teve de correr em círculos até desmaiar. E Kaelvor, o mais impaciente de todos, foi mandado sentar-se e ficar em silêncio absoluto por horas.
— Isso é ridículo! — Kaelvor resmungava. — Já enfrentamos Cavaleiros Sagrados! Isso não vai nos deixar mais fortes!
Baarto, com seu ar impassível, não se deu ao trabalho de olhar.
— Vai deixá-los preparados para enfrentar Valetes. E é isso que importa.
Kaelvor rosnou baixo, mas obedeceu, cruzando as pernas. Seus olhos, fechados à força, vagavam em pensamentos. O rosto de Ephiron surgia em sua mente, sua voz fria ecoando: “Agora entendo sua chama…” Kaelvor não conseguia tirar aquilo da cabeça. Havia algo naquele cavaleiro sombrio que o atraía para uma luta inevitável.
Enquanto os demais treinavam, Soraja fez uma pausa, suando e ofegante após erguer troncos repetidamente. Caminhou até onde Baarto afiava calmamente a faca, e, entre respirações pesadas, perguntou:
— Mestre… como conheceu Kaelvor?
O velho suspirou fundo. Seus olhos perderam o foco por um instante, como se voltassem a outra época.
— Eu o encontrei ainda bebê. Envolto em brasas e carvão incandescente, quase morto. Estava às portas do templo de Hyperion, quando eu ainda servia como soldado. Não havia ninguém por perto… nenhum berço, nenhum pai, nenhuma mãe. Apenas o choro fraco de um recém-nascido envolto em fogo.
Soraja arregalou os olhos.
— Então… ele não tem origem?
Baarto assentiu, o olhar pesado.
— É um filho do fogo. Ou da perdição. Nunca tive certeza.
Soraja ficou em silêncio, sentindo um peso maior recair sobre a figura de Kaelvor.
Enquanto isso, Tiberan resolvia os enigmas de lógica com aparente calma, mas seu olhar fugia para o relógio de bolso que mantinha sempre preso ao cinto. Ele o abria e fechava, verificando as horas em intervalos cada vez menores. Seus dedos tremiam.
Nymira, que observava discretamente, percebeu.
— Esse relógio… o que é tão importante sobre o horário?
Tiberan congelou por um instante, depois sorriu de maneira calculada.
— Apenas um velho hábito.
Mas Nymira não acreditou. Seus olhos penetraram no dele.
— Não é só isso. Você tem um segredo.
Ele desviou o olhar, voltando aos enigmas, mas a tensão permaneceu.
Do outro lado da clareira, Baarto se aproximou de Ignara. A raposinha arregalou os olhos flamejantes, desconfiada, o pelo eriçado. Baarto, sem pressa, estendeu a mão calejada.
— Está maior do que quando a vi pela última vez…
Ignara rosnou, mas, ao encarar os olhos do velho, congelou. Algo ali era familiar, antigo. Lentamente, abaixou a cabeça e aceitou o carinho, esfregando o focinho na mão dele.
— Você… conhece ela? — Nymira perguntou, surpresa.
Baarto apenas sorriu.
— Mais do que imaginam.
O dia se estendeu entre tarefas banais, suor e frustração. Quando o sol começou a cair novamente, Kaelvor explodiu.
— Chega desse jogo! Se o senhor quer nos treinar de verdade, faça isso! Estamos perdendo tempo com bobagens!
Baarto levantou-se lentamente. Seu cajado tocou o chão e rachou a terra. As veias de seus braços se iluminaram, e correntes douradas começaram a se formar, enroscando-se em seus punhos e peito. Sua figura arqueada se ergueu, crescendo, músculos expandindo como montanhas. Sua barba branca se incendiou em reflexos dourados.
A voz que saiu de sua boca ecoou como trovão.
— Vocês querem treinamento? Então terão.
O grupo inteiro recuou, os olhos arregalados.
— Eu sou Baarto… Valete de Hyperion.
O chão tremeu quando suas correntes colidiram com as rochas.
Nesse momento, Ignara uivou. Seu corpo brilhou em fogo intenso, crescendo, tomando a forma de uma enorme raposa flamejante, majestosa, com várias caudas de brasas. Ela se ajoelhou diante de Baarto, como se reconhecesse um mestre antigo.
— Então é verdade… — murmurou Tiberan, em choque.
Nymira levou a mão à boca, incapaz de acreditar.
Soraja ergueu a chave imaginária que já não tinha e apertou os punhos.
Kaelvor, ofegante, cerrou os dentes, chamas surgindo em volta dele.
— Então é assim, mestre? Vai nos esmagar só para provar que não somos nada?
Baarto sorriu, seus olhos brilhando como o sol de Hyperion.
— Não, garoto. Vou esmagar vocês para que renasçam. Só assim poderão encarar os deuses.
E então, com um rugido, lançou as correntes contra eles, iniciando a verdadeira prova.
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