Valerion - a Busca por Yggdrasil
30 A Prova das Correntes
O ar da clareira em Hyperia queimava sob o calor da raposa colossal. Ignara, em sua forma verdadeira, avançava com caudas de fogo que cortavam o ar como lâminas. Baarto, transformado em gigante musculoso, as correntes presas a seus braços ecoavam como trovões, rachando o solo a cada golpe.
— Venham! — rugiu Baarto. — Quero ver se conseguem sequer me arranhar!
O grupo hesitou apenas um instante, mas logo Kaelvor avançou, punhos em chamas. Sua fênix de fogo rugiu, mas Baarto interceptou o golpe com uma única corrente, o lançando contra uma árvore. O tronco partiu ao meio, e Kaelvor caiu cuspindo sangue.
Soraja gritou e abriu uma porta para tentar surpreender Baarto pelas costas, mas o velho Valete girou o corpo e arremessou outra corrente dentro da abertura. A porta se partiu em estilhaços, e Soraja foi arremessada ao chão, gemendo.
— Eu… não consigo…!
Tiberan tentou reagir, jogando sementes que germinaram em espinhos venenosos. Ignara esmagou tudo com uma das caudas flamejantes. O calor foi tão intenso que até o broto em sua mão queimou.
— Não… não está funcionando!
Nymira invocou dois homúnculos de água para proteger Soraja e Tiberan, mas Baarto girou as correntes e os dilacerou em segundos. A garota caiu de joelhos, tossindo sangue.
— Somos… fracos demais.
A batalha seguia um massacre. Cada golpe de Baarto e Ignara parecia pesar toneladas. Os heróis eram jogados ao chão, levantavam-se, apenas para cair de novo. A cada impacto, sentiam que não eram nada diante do poder de um Valete.
Kaelvor, com o rosto ensanguentado, gritou, levantando-se mais uma vez.
— Maldito…! Se é treino, por que nos matar?!
Baarto rugiu em resposta, as correntes se chocando contra o solo.
— Porque só quem luta na beira da morte merece viver contra os deuses!
O impacto arremessou todos contra as rochas. Por instantes, o silêncio reinou. O corpo de cada um tremia, exausto. Era como se todo esforço até ali tivesse sido inútil.
Então, algo mudou.
Soraja, deitada de lado, viu a marca vazia em suas costas, onde antes carregava a chave. Baarto a esmagara no início do combate, como se quisesse provar que ela era frágil sem aquele peso. Mas agora, ela ergueu o braço trêmulo e invocou outra porta pesada.
— Não… não vou falhar. Nem sem a chave…
A porta tremeu, a madeira vibrando. Pela primeira vez, a fechadura invisível se abriu com um estalo. Uma rajada de vento cortante atravessou a clareira, atingindo Baarto no peito e empurrando-o alguns passos atrás. Soraja sorriu, lágrimas nos olhos.
— Eu consegui abrir…
Tiberan, sangrando, percebeu o brilho do broto em sua mão. As lembranças do treinamento de lógica surgiram.
— Cálculo… ele queria que eu calculasse…
Colocou rapidamente sementes ao redor de Baarto, calculando distância, tempo e efeito. As flores germinaram em padrões precisos, explodindo em espinhos venenosos que finalmente atravessaram a pele do gigante. Baarto grunhiu, surpreso.
Nymira, ainda fraca, ergueu os braços.
— Eu… não sou só cura…
Seus homúnculos de água renasceram, maiores e mais densos. Eles absorveram parte das chamas de Ignara e devolveram em jatos d’água fervente, queimando a raposa pelas próprias brasas.
Kaelvor fechou os olhos. A mente, antes tomada pela raiva, agora se limpava. As palavras do mestre ecoaram: “Disciplina. Limpe o coração e o fogo será puro.”
Ele respirou fundo. O fogo em seu peito se acendeu em dourado, mais brilhante do que nunca.
— Fênix Flamejante… desperte!
Desta vez, não surgiu apenas um pássaro. As asas da fênix abriram-se, cobrindo a clareira inteira, flamejando com fogo divino. Baarto ergueu as correntes para bloquear, mas os ataques vinham de todos os lados: raízes douradas de Tiberan, a porta aberta de Soraja sugando o ar, os homúnculos de Nymira explodindo em jatos d’água flamejante.
A fênix final desceu, atingindo Baarto em cheio. O impacto sacudiu o solo, e a clareira foi coberta por luz e fogo.
Quando a poeira baixou, Baarto estava de joelhos, as correntes partidas. Seu corpo voltava à forma de velho, barba desgrenhada, olhos marejados.
— Vocês… conseguiram. Pela primeira vez… me fizeram ceder.
O grupo, no entanto, não ouviu. Cada um caiu desmaiado, exausto. Soraja ainda sorria, Nymira respirava com dificuldade, Tiberan segurava o broto, e Kaelvor, antes de apagar, murmurou:
— Mestre… eu ainda quero lutar contra Ephiron…
Baarto suspirou fundo, caminhando lentamente até eles. Um a um, recolheu os garotos, ajeitando-os juntos sob um manto improvisado. Ignara, deitada em sua forma de raposinha, aproximou-se e lambeu suas mãos queimadas.
— Dormam, moleques. — murmurou o velho. — Vocês já provaram que podem desafiar até os deuses.
E, sob o luar de Hyperia, Baarto ficou de vigília, enquanto seus aprendizes dormiam o sono pesado da vitória.
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